Para muito imperiano ainda dói bastante. Depois de ver um gigantesco, bonito e nostálgico desfile, ainda mais emocionante por homenagear o baluarte Arlindo Cruz, o rebaixamento da escola, para muitos de forma injusta, acabou sendo um balde de água fria. Mas se engana quem espera encontrar o Império Serrano abatido. A agremiação que esteve no Grupo Especial em quatro oportunidades nos últimos 15 anos, pouco para uma escola tão tradicional e que leva em entre suas glórias, nove títulos na elite do carnaval carioca. Por isso, a Serrinha teve que subir mais uma vez e desta vez ficar, amparada por dois excelentes carnavais nos últimos dois desfiles. De presidente novo, Flávio França, colhendo ainda os frutos da última gestão que deu uma nova repaginada para a instituição, o Império tem grande confiança em uma aposta da direção anterior que segue com muita moral entre diretoria e comunidade: mestre Vitinho. Em seu “batismo” no Grupo Especial, o comandante da “Sinfônica do Samba” gabaritou o 30, tendo apenas um 9,9, que foi descartado, garantido nota completa para a escola no quesito. Já um veterano no Império, mestre Vitinho falou sobre o sentimento que tem observado da escola neste momento em que precisa se superar mais uma vez.

Fotos: Lucas Santos/CARNAVALESCO

“A Serrinha é gigante, tivemos o descenso no carnaval passado, no início ficamos bem tristes porque trabalhamos para caramba e infelizmente o resultado não veio. A gente acredita muito no nosso chão, na nossa comunidade, no meu caso, eu acredito muito no potencial dos meus ritmistas, trabalhamos bastante já há uns sete meses. Temos um belíssimo samba, traz mais confiança e dá mais gana de a gente vencer, de querer fazer acontecer no próximo carnaval, com toda a humildade. Estamos trabalhando com muita vontade e muita fome. No último carnaval não conseguimos o resultado, tivemos um descenso, porém temos confiança de que fizemos um carnaval bom, um bom desfile. E para o próximo temos um samba muito bom, nova energia, com uma galera nova na escola. E a obra está sendo muito bem elaborada para a galera que vai consumir, que possam ficar bem satisfeitos com o que vão estar escutando”, promete o diretor da Sinfônica do Samba.

Para chegar a esse momento de respeito que adquiriu na escola, mestre Vitinho lembra que em 2020 muita gente o via com grande desconfiança, até pela idade e pelas exigências que uma escola tão raiz como o Império apresenta.

“O Império Serrano é uma família, uma escola de samba que abraça. No início muita gente ficou com receio, com o novo, tinham dúvidas se iria dar certo. Graças a Deus conseguimos fazer um bom trabalho, hoje a galera confia. E, eu sempre tive carta branca para trabalhar, o ex -presidente Sandro Avelar desde o início sempre me dava carta branca, o que é bem bacana. A gente consegue sentir o clima da comunidade, a gente pulsa por eles, então, é a junção de energias que vem dando certo, e para o próximo carnaval vai dar mais certo ainda”, assegura o mestre.

Quem pretende seguir os passos de Vitinho na Serrinha, é o intérprete Tem-Tem Júnior. Após três desfiles defendendo as cores do Acadêmicos de Vigário Geral, e fazendo parte do carro de som do Império Serrano no último desfile como apoio do Ito Melodia, o cantor foi anunciado em março deste ano. Como intérprete oficial, Tem-Tem defendeu escolas tradicionais, como Caprichosos de Pilares, Em Cima da Hora, Unidos de Bangu, dentre outras. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, durante as gravações da faixa da Verde e Branca de Madureira em Marechal Hermes, o cantor revelou que já possuiu uma história com a agremiação que veio de família.

“Cantar no Império é diferente de tudo que eu já passei na vida. Eu cresci escutando a história do Império por ter minha família envolvida, são grandes apaixonados, grandes imperianos, meu avô é um dos poetas que mais marcou no Império, dono de ‘Lenda das sereias’, dono de ‘Cai, cai, quem mandou escorregar’, ele fazia com muito amor e junto com os parceiros dele. Eu sigo o legado e esse legado está sendo mais do que marcante, emocionante. Cantar no Império representa muito, pela minha idade, me considero jovem. Me honra muito estar representando o microfone 01 desta escola”, afirma Tem-Tem Jr.

E pensando no futuro, o jovem intérprete que também vem fazendo fama no ramo das composições de samba-enredo, espera ficar por muitos anos na Serrinha e seguir os passos de quem venceu a desconfiança e hoje é referência para a comunidade do lado verde de Madureira.

“A Serrinha me abraçou, a diretoria tem me tratado muito bem e vem honrando com nossos compromissos. Eu pretendo ficar aqui por muitos anos. Minha vontade é fazer a história que o Vitinho vem fazendo. Ele entrou muito criticado por ser novo, e o Império tem aquela tradição raiz, mas ele mostrou que o novo pode sim se adequar ao perfil da escola e é isso que eu quero. Mudei um pouco o meu jeito de cantar, menos cacos, menos gritaria, o Império é mais raiz. Isso vem fazendo bem para o meu crescimento, não posso negar. Vivo um dos melhores momentos no meu lado profissional”, complementa o artista.

Gravação terá marcas nostálgicas da Serrinha e elementos referentes ao enredo

Trazendo para o carnaval 2024 o enredo “Ilú-ọba Ọ̀yọ́: a gira dos ancestrais”, desenvolvido pelo carnavalesco Alex de Souza, cuja a proposta é realizar uma grande louvação aos orixás em forma de xirê, o Império Serrano escolheu já no início de novembro a obra dos compositores Aluisio Machado, Carlos Senna, Andinho Samara, Jefferson Oliveira Nunes, Carlitos Ambrósio e Marcos R. Valença. Como o enredo pede, mestre Vitinho explicou que já na gravação da obra, no M&C Studios, procurou trazer toda a africanidade e espiritualidade do enredo, transformando a composição em um grande xirê.

“Estamos levando um arranjo bacana, o samba é um xirê, nada mais justo do que fazer jus ao enredo, e na cabeça do samba a gente está fazendo um xirê, um toque para alguns orixás que são citados. Então, a todo momento que cita Ogum, Xangô, estamos fazendo alguns toques. Pode esperar grandes arranjos, vai ser um grande desfile na Marquês de Sapucaí”, revela o comandante da Sinfônica do Samba.

Um ponto que deve mexer com todo o imperiano raiz é a presença de duas vozes muito conhecidas da Serrinha. No alusivo da escola na faixa oficial da Liga RJ, Jorginho do Império e Quinzinho, ex-intérpretes do Reizinho de Madureira, gravaram suas vozes marcantes, meio que abençoando o intérprete oficial Tem Tem Jr neste novo momento da agremiação. Sobre o samba, Tem Tem, que assinou algumas obras da Série Ouro este ano em parceria, elogiou a obra que o Império vai levar para a Sapucaí projetando o crescimento durante este processo até fevereiro do próximo ano.

“Nesse grupo deve ter uns cinco sambas meus no meu lado de ser compositor. Eu não vou diminuir minhas obras que foram feitas junto com o meu parceiro que é o Júnior Fionda. Essa obra é dele também. O Império sem dúvida tem pelo menos o Top 3 do Grupo de Acesso, sem diminuir qualquer bandeira, a safra é genial. O Império sempre vem com grandes sambas e essa obra é marcante, para ficar na história, até pelo desfile que será feito. Tenho certeza que será um grande desfile e a comunidade abraçou”, espera o cantor.

Processo de disputa facilitou o trabalho de gravação e de ensaios

Uma das últimas escolas a gravar a faixa da série Ouro, por ter sido uma das últimas a escolher o samba, o Reizinho de Madureira não dormiu no ponto e começou a preparar a comunidade antes mesmo da final realizada no início de novembro.

“A gente sabe que hoje o processo de samba-enredo está muito complicado, e quando a gente recebeu as obras fizemos uma eliminatória curta, mas trabalhamos internamente com os segmentos para as pessoas aprenderem os sambas, qual fosse o campeão a galera já estaria com o samba na ponta de língua. Internamente trabalhamos bastante os sambas da disputa para facilitar esse processo de gravação e depois de aprendizado da comunidade”, explica o diretor de carnaval do Império Serrano, Jeferson Carlos.

Já Tem Tem foi pelo mesmo lado, ressaltando que a escola esteve unida, em uma disputa sadia que facilitou o trabalho e que vai ajudar a obra crescer cada vez mais.

“No próprio anúncio o samba foi aclamado. Estou muito feliz. É um dos sambas que lá no início me tocou, tinham grandes sambas na disputa, foi uma disputa saudável, foi correta. Vamos seguir fazendo um trabalho forte para que o samba cada vez mais se torne mais forte. Espero emocionar a cada coração imperiano e vamos fazer história”, finaliza o intérprete aproveitando um dos seus bordões.

Para Jeferson Carlos o momento agora passada a gravação e com o samba indo para a rua é a escola dar prosseguimento ao trabalho de treinos com a comunidade que a Serrinha já vem fazendo, aproveitando cada momento para que a obra esteja cada vez mais na ponta da língua dos componentes.

“O processo de escolha fluiu como a gente planejou, do jeito que a gente tinha organizado. Já estamos a todo vapor com nossos ensaios e a tendência é seguir toda semana a nossa preparação, sendo diversificado, na quadra, na rua, Parque Madureira, a gente vai andar conforme a necessidade, porque também contamos com a meteorologia. Se isso ajudar, a gente vai fazer na rua e no Parque. Caso algo aconteça, a gente volta para a quadra para não perdermos nosso tempo de ensaio”, conclui o diretor.

Em 2024, o Império será a oitava agremiação a cruzar o Sambódromo da Marquês de Sapucaí no sábado de Carnaval, dia 10 de fevereiro, encerrando a maratona de apresentações da Série Ouro, em busca do retorno imediato ao Grupo Especial.