A Acadêmicos de Niterói apresentará no Carnaval 2024 pela Série Ouro um enredo autoral intitulado “Catopês – Um céu de fitas”, desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins. Este enredo tem como propósito explorar a rica cultura popular da Festa de Catopês, originária de Montes Claros, Minas Gerais, destacando tradição e resistência. A escola de samba levará estandartes em nome da fé, exaltando a cultura popular.

Fotos: Maria Clara Marcelo/CARNAVALESCO

A Festa de Catopês, que completa mais de 184 anos, teve seu início nas mãos dos negros das antigas fazendas na região do antigo Arraial das Formigas. Esses grupos negros estabeleceram toda a estrutura dos Catopês como uma festa de cunho religioso dedicada às liturgias católicas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e o Divino Espírito Santo.

A origem das congadas foi crucial para os negros, proporcionando uma forma de potencializar sua força e reivindicar espaço com seus grupos em confrarias dedicadas à Nossa Senhora do Rosário. Ao longo dos anos, essa celebração tornou-se um elemento preponderante dentro dos domínios de seu opressor. Por meio do sincretismo, as festividades dos Catopês, ocorridas em agosto ao longo de quatro dias pelas ruas de Montes Claros, incluem não apenas os grupos de catopês, mas também a participação de marujadas e caboclinhos, destacando a beleza social e cultural da região do norte de Minas Gerais.

Personagens emblemáticos da resistência cultural, como Mestre Zanza, comandante do primeiro terno de Nossa Senhora do Rosário e o mais antigo da cidade, contribuíram significativamente para o fortalecimento das manifestações culturais e folclóricas das tradicionais Festas de Catopês de Montes Claros.

Tiago Martins compartilhou, durante uma entrevista exclusiva para o site CARNAVALESCO, como ele pensou nesse enredo que irá colorir toda a Avenida com um “céu de fitas”, destacando a beleza e a tradição da Festa de Catopês: “Eu gosto muito dessa coisa regional e aí eu comecei a procurar essas festas folclóricas, e apareceu o nome Catopê. Aí um amigo que me apresentou: ‘olha, dá uma olhada nesse nome aqui’, e aí quando eu pesquisei, o pouco que eu vi, eu comecei a me apaixonar cada vez mais e me debrucei e fui embora estudando o que seria Catopê. E aí veio o convite da Acadêmicos de Niterói para fazer o carnaval, eles tinham uns enredos em mente, e aí os enredos não deram muito certo, e o presidente falou: ‘vamos fazer Catopê’”.

Durante a pesquisa do enredo, Tiago percebeu que o aspecto mais interessante era a festa em si. Ele destacou que o Catopê é uma congada, uma manifestação cultural de matriz africana. Considerando o contexto histórico em que os participantes eram ex-escravizados, a celebração ganha um significado especial. O carnavalesco trouxe essa atmosfera festiva e alegre para o pavilhão, destacando a importância de transmitir a vibração positiva e a alegria presentes.

“Catopê é uma congada, então vem das matrizes africanas. E quando eles começam a contar um pouco para gente, eles falam a forma da congada, que é diferente do que a gente está acostumado a ver. Então eles falam que é uma congada festiva, para cima, alegre. A forma de dançar é diferente, não é com o corpo para baixo, é sim para cima, sempre alegre. Porque eles eram ex-escravizados, eles não eram mais escravizados. E aí a gente trouxe isso para dentro do carnaval, que é uma festa”.

O ponto alto do desfile será a comissão de frente, cujos detalhes estão sendo cuidadosamente elaborados por Fábio e Alessandra, o coreógrafo e a cenógrafa, respectivamente. Destaca-se que o último carro será especialmente emocionante, pois homenageará o mestre Zanza, uma figura fundamental na continuidade da festa do Catopê que desempenhou um papel crucial ao manter viva essa tradição, mesmo quando tentaram acabar com ela. O desfile também contará com a participação de Mestre Zanza Júnior, filho do mestre Zanza, que continua o legado de seu pai, representando a transmissão dessa tradição de geração em geração. O enredo destaca a resistência e a resiliência dessas figuras importantes na preservação da cultura e das festividades do Catopê.

“Eu tenho a comissão de frente, que o Fábio está cuidando muito bem, a Alessandra, a cenógrafa, está cuidando de cada detalhe da comissão de frente. O último carro vai ser muito emocionante, porque a gente traz o mestre Zanza, que foi um cara que deu continuidade a essa festa. E hoje, vem no carro, ele não é mais vivo, e hoje vem no carro, o filho dele, mestre Zanza Júnior, que dá continuidade. Então isso vai passando de geração a geração. Quando tentaram acabar com a festa, o mestre Zanza, ele foi junto com os outros, junto com o João Faria, Joaquim Koló, ele foi para a rua com os estandartes para manter viva essa festa. E através disso, ele traz outros grupos como o Marujos e os Caboclinhos e outros grupos que existem folclóricos dentro da cidade para dentro do festejo que acontece em agosto”, comentou Tiago.

O carnavalesco também expressou as dificuldades que são enfrentadas nos barracões da Série Ouro e como essas adversidades acabam impactando o andamento do Carnaval. Tiago mencionou a sorte que teve em comparação com outras situações, onde ouviu relatos de barracões com “uma cascata em cima dos carros”.

“É um pouco complicado. Eu falo que até isso eu tive sorte, porque eu escuto a história deles aqui, que era uma cascata em cima dos carros e eles conseguiram tampar esses buracos maiores, mas existem os menores. Como você mesmo está vendo a gente passa por essa situação na chuva de ter que estar cobrindo o carro correndo para gente não perder o que a gente está construindo. Mas eu falo que é bastante complicado. Carnaval sem sufoco não existe. Sem estresse, sem correria, não é carnaval”, desabafou Tiago.

Para Tiago o Carnaval só é possível graças ao trabalho dedicado de uma equipe excelente, composta por ferreiros, carpinteiros, aderecistas e outros profissionais, que mesmo diante do estresse e das pressões, a atmosfera é de brincadeira, com momentos de descontração: “A gente tem a equipe muito boa. Eu acho que está centralizado com ferreiro, com carpinteiro, com os aderecistas. E é uma brincadeira o tempo todo. Por mais que rola o estresse, a gente está sempre brincando. É uma água, é um biscoito, é um chocolate. Então, tipo, a gente vai se divertindo a cada momento que a gente vai construindo e sentindo o prazer de ver aquilo tudo tomando vida. Mas isso só existe por causa deles, que são os trabalhadores. Porque sem eles a gente não teria carnaval.”

CONHEÇA O DESFILE DA ESCOLA

No primeiro dia de desfiles da Série Ouro, sexta 09 de fevereiro, o pavilhão da Acadêmicos de Niterói, será a sétima escola a desfilar com três carros alegóricos, um carro na comissão de frente e um tripé.

Setor 1: “A gente abre a escola trazendo a Congada, o povo preto, a coroação do Rei Preto, que vem essa história das matrizes africanas, da Congada, do povo preto, ele sendo coroado e de onde sai o nome Catopê. A gente faz a junção das três raças que a gente traz os indígenas, que monta o grupo dos caboclinhos, os marujos, que são a batalha de cristãos e mouros, que a gente traz a marujada e a gente traz os africanos, a Congada, que é do povo preto”.

Setor 2: “Logo depois em seguida a gente tem o segundo setor, que lá acontece o festejo em quatro dias, o primeiro dia de Nossa Senhora do Rosário, o segundo dia de São Benedito, terceiro do Divino e no quarto são todos eles juntos. E aí o que eu fiz? Eu peguei o quarto dia e trago para Sapucaí, onde vocês vão ver Catopê, Marujo, Caboclinhos, Rei, Rainha, Príncipe, Princesa, Imperador e Imperatriz. Então, tem umas novidades bem bacanas, inclusive nas minhas baianas. Ficam de olho que é bem bacana. E logo depois em seguida a gente traz o carro com essa questão da religiosidade. A gente traz Nossa Sra. do Rosário, São Benedito, Divino Espírito Santo. E é legal porque lá tem a simbologia das cores. Nossa Sra. do Rosário que é na cor azul, São Benedito que é na cor rosa, e Divino Espírito Santo que é na cor vermelha. Então, além de vocês verem no carro muito dourado, vermelho, vocês vão ver muitas fitas coloridas dentro dessas cores, porque existe essa simbologia do dia. Inclusive, o cortejo, cada um no seu dia, é nas cores. E no quarto dia é aquele colorido, aquele tapete colorido que eu trago no segundo setor”.

Setor 3: “A gente já abre Catopês para sempre, que é uma roupa já mais em preto e branco, uma coisa meio que fúnebre. Quando tentaram acabar com a festa e a gente traz essa simbologia, essa homenagem ao mestre Zanza, porque ele foi para rua nesses dias para poder manter vivo, então é por causa dele, por ele ter pegado o estandarte e ter ido para rua, que hoje em dia essa festa mantém viva. E aí a gente traz outros grupos folclóricos de Montes Claros, porque através dessa manifestação ele consegue juntar um dia só de festa e agregar, trazer para junto com dos Catopês, esses outros grupos folclóricos. Hoje existe uma associação onde dá esse suporte para esses grupos folclóricos também, que a festa acontece em agosto, mas durante o ano inteiro vai existindo festa através da associação que organiza isso para acontecer”.

Setor 4: “E o último carro a gente traz uma escultura do mestre Zanza bem grande, que eu acho que melhor do que ninguém para encerrar esse desfile. E a gente traz todo esse povo do cortejo, caboclos, marujos, catopês, que vão estar em cima desse carro com as suas vestimentas que eles usam no cortejo lá, e as outras coisas em volta. A gente fala da musicalidade, não só do mestre Zanza, como a gente fala de outros líderes, de outros mestres que também, junto com o Zanza, manteve vivo, que vai estar seus netos, seus filhos, suas bisnetas que mantêm viva essa festa”.