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Série Barracões São Paulo: Gaviões da Fiel convoca público para iniciar uma ‘revolução’ na avenida

Objetivo da escola é chocar com referência a crimes desumanos cometidos diariamente

Os Gaviões da Fiel receberam a equipe do site CARNAVALESCO em seu barracão para falar dos preparativos para o Carnaval 2022. Segunda escola a desfilar no sábado, dia 23, a Torcida que Samba escolheu externar a indignação com todas as formas de preconceito e a hipocrisia da sociedade na forma do enredo intitulado “Basta!”, que teve como gatilho para seu desenvolvimento o assassinato do afroamericano George Floyd em maio de 2020.

O tema começou a ser desenvolvido por Paulo Barros, que se desligou da escola em setembro do mesmo ano. Assumiram em seguida a equipe comandada pelo carnavalesco Zilkson Reis, que assinou diversos carnavais recentes dos Gaviões. Os preparativos finais estão sendo conduzidos pelo enredista Júlio Poloni, outro profissional já conhecido da folia paulistana, que explicou como o enredo será abordado no Sambódromo do Anhembi.

“O ‘Basta!’ da Gaviões da Fiel é um grito contra diversas injustiças que nos aflige hoje em dia. É um desfile que vai apontar diversos desses problemas que o brasileiro enfrenta hoje, e vamos dar um grande ‘basta’ contra todos eles. A gente começa abordando a questão do racismo. Evidencia como a questão do racismo é um problema estrutural no Brasil de hoje. A gente fala também de pobreza, de miserabilidade, de desvalorização do trabalhador, e acabamos chegando na questão da desigualdade, que é um problema que a gente não suporta mais viver com ele. Precisamos da superação das nossas desigualdades sociais, que no Brasil são extremamente profundas, evidentes e machucam a todos nós”, disse.

A partir do segundo setor a escola apresentará, de forma explícita, alguns dos grandes crimes contra a humanidade que estão sendo cometidos diariamente e que precisam ser vistos como inaceitáveis por todos. Da bonança dos ricos contrastada com a miséria dos pobres à questão ambiental, que ganhou muita evidência nos últimos anos.

“Também vamos fazer um grito contra a devastação ambiental, a desvalorização das vidas indígenas, que também é um problema que tem se acentuado ultimamente, e vamos colocar um ‘basta’ contra a ascensão de governos fascistas que temos observado. Aí também entra a questão da intolerância religiosa, da censura de imprensa. Esses são os principais gritos que vamos trazer, os principais ‘bastas’ que vamos trazer para a avenida”.

A comunidade alvinegra pretende iniciar uma revolução na avenida com um desfile muito diferente do que costumamos ver em São Paulo, mas que tem eclodido em outros carnavais já a algum tempo. Seu setor final é dedicado exatamente para a promoção desse movimento, onde através de nomes marcados na história projeta ser a voz na luta por um futuro de paz.

“Por fim, faremos uma revolução em plena pista, um ‘levante’ à moda brasileira, utilizando do carnaval para fazer uma revolução. E no nosso desfile nos inspiramos em figuras históricas internacionais como Ghandi, Mandela, Frida Kahlo, e em personalidades brasileiras como Raoni, Irmã Dulce, Paulo Freire, Sócrates, Marielle, para fazer a nossa revolução. Por uma sociedade em que a natureza é preservada, tenhamos saúde e educação para todos, democracia e igualdade a gente atinja. Esse é o nosso objetivo no nosso carnaval”.

Um enredo que se atualiza como o jornal do dia

Foi usando essa definição que Júlio detalhou as mudanças que a temática abordada sofreu desde quando Zilkson e sua equipe assumiram o projeto. À época a pandemia da covid-19 estava apenas começando, e ela foi responsável por dar holofotes a inúmeros acontecimentos que causaram indignação no Brasil e no mundo. Para que o desfile não fosse marcado por pautas frias, que já não são mais debatidas pelas pessoas, elementos do enredo idealizado para 2021 precisaram ser revisados.

“Fizemos diversas modificações por diferentes motivos. O primeiro deles é porque foi um enredo pensado em 2020, e como é um enredo muito atual tivemos que atualizar algumas coisas em relação a assuntos que deveríamos abordar ou não. Como por exemplo, naquela época tinham menções ao Trump, que resolvemos nesse momento retirar porque seria uma coisa fria para o desfile. Alterações desse tipo tiveram que ser feitas. Além disso, adicionamos novos ‘temperos’ em relação ao que estava previsto inicialmente, justamente porque hoje temos pontos que estão mais em alta do que na época, como por exemplo a questão indígena, e demos uma readequada em toda a linguagem para ficar mais com a cara da Gaviões da Fiel, com o nosso momento vivido hoje”.

Questionado se o público verá alguma herança dos tempos de Paulo Barros, que foi um dos responsáveis pelo desfile anterior, o enredista foi bem claro a respeito, mas garantiu que não é por isso que a escola deixará de apresentar novidades.

“Já preparando o público, nós não teremos um desfile ‘paulobarriano’. Teremos um desfile esteticamente mais tradicional. No entanto nós viremos com outros elementos, principalmente de impacto, de leitura visual, que acreditamos que dará um impacto no público tão grande ou muito maior do que essas inovações que são conhecidas dele”.

Um desfile que quer gerar indignação

Desde quando o enredo foi anunciado, já era possível deduzir que o desfile planejado pelos Gaviões da Fiel não seria comum. A intenção de fazer um carnaval carregado de absurdos que sabemos que existem não é escondida por ninguém, e promete ser um marco na história do carnaval se for bem executado. Júlio quer que esses sentimentos sejam externados por todos, e todo o projeto está sendo voltado para de fato fazer o público soltar esse grito entalado na garganta ao reproduzir artisticamente cenas chocantes.

“Todas aquelas pessoas que vão assistir ao desfile, e que estão com esse grito de ‘basta’ preso na garganta, irão se emocionar. Vão sentir raiva, mas é uma raiva que não gera violência, e sim uma raiva que gera cultura, assim como faremos na avenida. Mas precisamos ter raiva contra essas coisas que mostraremos na pista. Será um desfile muito emocional. O público vai entender claramente a mensagem, e certamente as pessoas que estiverem com esse grito engasgado vão se emocionar certamente. Esse é o ponto que eu destaco. Todas as nossas alegorias são muito fortes, com mensagens muito fortes”.

Indagado se em algum momento da apresentação o público pode se manifestar de alguma forma diferente do que se costuma ver em desfiles de escolas de samba, o artista acredita que sim.

“Muito difícil prever a manifestação do público, mas acho que é um desfile que engaja, que chama o público para gritar junto. Então acredito que sim, é uma possibilidade”.

Um trabalho dividido com todos

Em meio aos preparativos finais da concepção do carnaval, a escola precisou lidar com um incidente interno lamentável. O carnavalesco Zilkson Reis foi brutalmente agredido dentro da quadra após um dos ensaios promovidos, e até o momento permanece internado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Júlio Poloni precisou assumir as funções de Zilkson e tem trabalhado com bravura para colocar os Gaviões da Fiel na avenida. Falou sobre esse desafio inesperado e aproveitou para mandar seus votos ao líder da equipe de barracão.

“A ausência do Zilkson tem nos demandado muito. Não só de mim, mas de toda a equipe. Todos nós tomamos a frente de alguma parte que seria dele. Estamos com unhas e dentes para fazer o nosso melhor, e estamos todos nós na torcida para que Zilkson tenha sua saúde totalmente restabelecida o quanto antes”.

Um resumo do que passará na avenida

“O nosso desfile não é setorizado, mas tem uma sequência lógica. Começamos colocando a questão do racismo, então vamos resgatar desde o início, lá antigamente, desde quando as populações africanas eram reis e rainhas em suas terras até serem escravizados e chegarem ao Brasil nessa condição. A partir daí abordamos o consequente racismo estrutural. Falamos da pobreza, da miséria, da desvalorização do trabalhador. Colocamos a questão da vida nas comunidades, da falta da infraestrutura, da falta de condições e oportunidades de vida. Desembocamos na desigualdade social. Na sequência falamos de governos fascistas, depois apresentamos a luta indígena e encerramos com a gente adentrando a nossa revolução”.

Ficha Técnica
Enredo: “Basta!”
Alegorias: 4 + 1 tripé
Alas: 10
Componentes: 2000

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