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Série Barracões: Salgueiro apresenta versão do paraíso em desfile que vai valorizar a liberdade de expressão

Em 1989, Joãosinho Trinta, revolucionou o carnaval apresentando um enredo que ia na contramão do luxo apresentado pelas escolas, mostrando o contraste entre fantasia e a vida real com o magnífico “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”. O carnavalesco, falecido em 2011, é um ícone da festa e inspiração para diversos artistas da folia, entre eles Edson Pereira, que vai fazer em 2023 sua estreia na Academia do Samba. Incomodado com um rumo que o carnaval vem tomando em relação ao julgamento e um certo aprisionamento do fazer criativo da festa, Edson buscou inspiração em João Trinta para formular um enredo que passa muito por essa crítica aos pré-julgamentos, a intolerância, ao apontamento dos erros das outras pessoas, e dessa forma, olhando para alternativas, tentar criar uma paraíso salgueirense, não algo perfeito, mas que valoriza o respeito para com o próximo.

Fotos: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

Campeã pela última vez em 2009, o Salgueiro, nove vezes vencedor do Grupo e Especial, apostou em Edson Pereira para repaginar um pouco a sua produção criativa e narrativa, mas valorizando a essência de uma escola que não é nem melhor e nem pior, apenas diferente. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, o artista explicou como surgiu a ideia de apresentar uma nova versão de paraíso baseada muito nas potencialidades que a folia traz e valorizando a liberdade de expressão tão cultuada por João Trinta, inspiração e mentor de Edson.

“Essa ideia parte do princípio da dificuldade que eu vejo, e algum tempo já, desse novo momento do carnaval, de um julgamento que existe e você perde a liberdade de se expressar. O João tinha muito isso. Por isso eu falo muito do João e uso o fio condutor o João Trinta. Porque ele tinha com grande propriedade essa pegada de criar um enredo completamente onírico, com embasamento , mas sem esse compromisso filosófico. Ele fazia carnaval, muito para o povo, muito direto, descritivo, sem ter esse comprometimento filosófico. Eu sinto hoje esse ‘engaiolamento’ do artista. Isso acaba aprisionando ele dentro de um critério de julgamento que é justamente sobre isso que a gente quer falar. Sobre o apontamento, sobre o julgamento. A gente cai nesse universo muito atual que é o apontamento que as pessoas fazem para as outras, e colocam as verdades delas para virar verdades absolutas, e a gente vive a todo momento sendo julgado. O que a gente quer pregar é a liberdade de expressão. Esse é o foco do enredo só Salgueiro”, explica Edson.

Com enfoque maior na luta pela liberdade de expressão e com uma mensagem de respeito, Edson também pretende ressaltar neste carnaval uma valorização da produção criativa do carnaval com modos e padrões sustentáveis em relação ao futuro da folia.

“É um processo criativo. Quando você tem liberdade de expressão, como o João tinha, você começa a entender muito mais aquele momento. E você começa a pensar, não igual, mas similar e se identificar com tudo isso. O João transformava o lixo em luxo. Isso a gente já sabe, é uma frase já clichê, mas a gente entra nesse universo também e vê que lá atrás ele já pensava desse jeito quando o pensamento sustentável para o carnaval é tudo que a gente mais precisa hoje. Entender que o carnaval precisa crescer, se modificar sim, mas pensar nesse crescimento de forma sustentável. Transformar o material alternativo em material rico. Quando as pessoas falam que o carnaval do Edson é muito rico e grandioso, é tudo ilusão, é tudo uma mágica. Isso tem muito do João, tem a influência do João ali”, define o carnavalesco.

Ainda que não esteja diretamente no desfile do Salgueiro, João Trinta é inspiração para Edson na busca por desenvolver a sua própria visão do que seria um paraíso, amparado claro na tradição e na essência do salgueirense, também colocado como protagonista neste carnaval.

“Eu uso o João como fio condutor do meu pensamento. O João já expôs o paraíso de diversas formas e em outros enredos. Esse paraíso específico é do Salgueiro, criado pelo Edson, que se inspira no João. A gente está falando de um paraíso desconstruído, não aquele paraíso que a gente vê na filosofia, que ensinaram para gente. É um paraíso muito particular. O Salgueiro convida as pessoas a viver o seu próprio paraíso. Esse é o paraíso do Salgueiro. Embarque nessa filosofia, nesse paraíso que a gente vai te levar a um grande desfile que não propriamente existe essa regra de um paraíso perfeito. Nós não vivemos em um paraíso perfeito. Nós não vivemos em um mundo perfeito. Não vivemos para ser julgados”.

Paraíso salgueirense será diferente do Éden usual

Na busca por apresentar uma alternativa ao paraíso que a filosofia, a religião historicamente representou, o Salgueiro quer fazer uma crítica aos julgamentos, às condenações, aquilo que é proibido por não se encaixar em uma moral imposta pela sociedade. Esta mensagem, acredita Edson, é um das grandes armas da Academia para fazer um desfile inesquecível.

“Acho que o grande trunfo do Salgueiro está em cada momento. Porque tudo foi muito pensado. Quando a gente entra com o paraíso vermelho, a gente está falando de um paraíso julgado profano. O vermelho é profano. Quando você pensa no paraíso que te ensinaram, que a sociedade coloca como paraíso, é um paraíso verde, cheio de arbustos, de flores. Não, esse é um paraíso construído pelo Salgueiro, tem as propriedades muito particulares do nosso enredo e não tem proibição. Por mais que a gente faça um embasamento no pecado original, que foi o que nos ensinaram, que Adão e Eva foi lá e comeu a maçã, e virou o fruto proibido, tudo isso existe, mas a gente desconstrói essa narrativa para mostrar que neste momento não existe pecado em ser feliz, não existe pecado em estar neste paraíso vermelho. É só a gente respeitar o próximo. Se você respeitar o próximo, o resto está tudo certo”, esclarece o carnavalesco.

Em paralelo a um carnaval que teve muita autonomia para escolher o tema do enredo e desenvolvê-lo, Edson Pereira lembra da infância pobre, do menino que via carnaval na televisão dos outros e que hoje chega a outra agremiação de grande renome no carnaval carioca.

“Ser carnavalesco do Salgueiro, primeiro é um sonho. É um sonho de qualquer menino que chegou ao Salgueiro. Eu fiz carnavais na Estrada Intendente Magalhães, carnavais grandiosos na Viradouro, fui campeão por outras escolas, trabalhei na Vila, mas o Salgueiro é uma escola que já diz, não é melhor e nem pior, é diferente. Fazer parte do Salgueiro muito me orgulha, porque chegar até aqui é a realização de um sonho. Eu estou muito feliz, e mais feliz ainda porque o enredo é autoral, no qual eu fui permitido a fazer aqui no Salgueiro. E o enredo tem uma relação muito grande com tudo que a gente pensa hoje para o Salgueiro, dessa virada, dessa desconstrução, dessa nova realidade. Não que as outras fossem ruins, mas um novo momento também para o Salgueiro”, aposta.

Artista traz para Academia carnaval grande e bastante vermelho

Esteticamente, o Salgueiro deve buscar uma linha que fuja um pouco dos últimos anos. Edson ficou conhecido na Vila e na Unidos de Padre Miguel pela grandiosidade de suas alegorias e de seus desfiles. A ideia é manter estas características no Salgueiro, até porque seu nome se valorizou nos últimos anos por essa forma de trabalhar.

“O maior tamanho de carro é 100 metros de alegoria. O abre-alas são três chassis, um deles é acoplado, é a permissão da regra. Não optamos por tripé porque todas as alegorias são grandes, não caberia um tripé no desfile do Salgueiro, porque senão você começa a mexer com logística do carnaval, harmonia do carnaval, é um ano de preparação para entender as proporções do meu carnaval. Mas,a gente pode imaginar um Salgueiro grandioso, porque não seria o Edson, essa marca já foi impressa nos carnavais que eu fiz nos últimos anos. Acho que se eu não fizesse dessa forma também seria cobrado e acredito até o fato de eu estar aqui hoje no Salgueiro, esse foi um dos motivos. O Salgueiro queria isso. Eu venho para somar a uma grande escola fazendo um grande carnaval. É um pouco de visão minha pessoal para o carnaval do Salgueiro e aí a gente vai aos poucos fazendo adaptação e de repente ano que vem vai ser muito maior”, acredita Edson.

O próprio samba fala de um paraíso vermelho, um paraíso diferente daquele presente nas narrativas que nos chegaram pela religião, por exemplo. O vermelho, aliás, sempre foi associado ao contrário. Ao sofrimento, ao pecado, à maçã, o fruto proibido, o fruto vermelho. Mas para Edson Pereira, justamente o rubro, cor principal do Salgueiro, é a que vai ser predominante no desfile da Academia.

“Vermelho é paixão salgueirense. O próprio samba já diz. Vale a construção do artista não se prender especificamente a uma só cor. Mas o meu enredo fala de um paraíso vermelho. É o paraíso do Salgueiro. É um paraíso vermelho que dá orgulho ao povo salgueirense. Você vai ver muito vermelho, mas você vai ver o vermelho colocado de várias formas, o vermelho em vários momentos diferentes. Foi muito pensado estrategicamente as colocações de vermelho. E quando você fala em vermelho, não existe só um tom de vermelho, são 50 tons de vermelho”, brinca o carnavalesco ao falar sobre a paleta de cores.

Inovações vão estar presentes, mas não resumidas em artifícios tecnológicos

Ao ser questionado se vai optar por um carnaval mais tradicional e de mais inovações, Edson apontou que seu trabalho é ao mesmo tempo pautado por um resgate da essência do Salgueiro, buscando trazer muitas surpresas, inovações, mas não necessariamente artifícios tecnológicos, ou pirotecnia. O uso de materiais alternativos é um dos segredos deste desfile.

“Teremos várias inovações, a gente fez uma análise dos últimos carnavais do Salgueiro, e a gente quer fazer completamente diferente para que a gente mostre o quanto a gente evoluiu nesses últimos tempos. Vai ter muita coisa nova, muita coisa diferente. Mas, não coisas mirabolantes, caras, trazidas de fora, não. É a nossa essência, é a essência do carnaval, tem muita coisa que foi feita no Salgueiro de forma artesanal, como o tradicional carnaval faz. Mas são coisas diferentes, que a gente já podia ter utilizado e não utilizamos, ou por falta de tempo, ou de repente por falta de conhecimento. É um carnaval que foi muito pensado”, entende Edson Pereira.

Edson faz questão de ressaltar a equipe que o acompanha e hoje está ajudando a produzir o desfile do Salgueiro 2023. Na parte mais burocrática, cuidando dos documentos, tem o estudante de cenografia Artur Paschoa. Atalo, também estudante de cenografia, cuida da parte de protótipo e criação, além de auxiliar o arquiteto. Denise Mattos é a assistente pessoal do Edson, cuida também da coordenação da equipe e cronograma. Ruan Rocha é antropólogo e auxilia Edson nas pesquisas, roteiro e desenvolvimento de sinopse, enredo. Já Monclair Filho é o arquiteto responsável.

Conheça o desfile do Salgueiro

“Delírios de um paraíso vermelho” terá cinco alegorias, 28 alas e cerca de 3200 componentes. O carnavalesco Edson Pereira contou mais sobre o que vai contar em cada setor deste carnaval 2023 do Salgueiro.

Primeiro Setor
“No primeiro setor nós reconstruímos o paraíso, com um clima bem tropical e exuberante”.

Segundo Setor
“Falamos dos pecados nessa filosofia que a gente aprendeu. Mas o que é pecado? Quando você aponta o dedo para alguém, está apontando para você mais quatro dedos. A gente fala, então, dos sete pecados capitais e desse apontamento. De como o ser humano vem se destruindo à medida que ele condena o próximo”.

Terceiro Setor
É o setor do apocalipse, quando tudo se transforma em uma autodestruição para o próprio ser humano. Nossa relação com as guerras e com o caos nos conduzindo ao fim dos tempos.

Quarto Setor
“Neste temos uma redenção de tudo isso. A gente fala dos remidos, aqueles que foram condenados e hoje a gente traz eles de volta em um momento em que a gente vai mostrar que não é pecado o que eles fizeram. O que supostamente seria pecado quando dizem que eles foram condenados por aquele pecado. A gente mostra que não é pecado ser feliz”.

Quinto Setor
“A gente fala do carnaval enquanto festa profana, apontada pela população como festa pagã e é justamente o contrário, é onde você tem a maior liberdade de expressão, você pode ser rico, pode ser pobre, pode se fantasiar, você pode ser o que quiser. A gente fecha o desfile mostrando que não é pecado ser feliz e que o carnaval representa esse paraíso que só traz felicidade para a gente”.

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