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Série Barracões: De volta à Imperatriz, Leandro Vieira traz Lampião para incendiar a comunidade leopoldinense

O carnavalesco Leandro Vieira e a Rainha de Ramos se reencontram depois de três anos agora em uma situação completamente diferente. Primeiro, a Imperatriz está no Grupo Especial e tem trabalhado com afinco para disputar o título da elite do carnaval. E desta vez, diferente do carnaval de 2020 no Grupo de Acesso, o carnavalesco está produzindo um enredo autoral. “O aperreio do cabra que o excomungado tratou com má-querença e o santíssimo não deu guarida” foi desenvolvido pelo artista e apresentado à diretoria da Imperatriz Leopoldinense. O desfile vai narrar de forma lúdica as aventuras de Lampião após sua morte tentando entrar no céu e no inferno, baseadas em algumas obras da literatura de cordel de José Pacheco e Guaipuan Vieira. Leandro conta como desenvolveu essa ideia de enredo.

Fotos de Fernando Grilli/Divulgação

“Todos os meus carnavais até aqui pelo menos, eles se debruçam sobre signos de brasilidade, em histórias de brasilidade, e é natural que um artista, que gosta da pesquisa, que gosta da leitura, vá acumulando algumas histórias que ele tem vontade de contar. Como eu sou um apaixonado pela cultura popular e pela brasilidade, é natural que a literatura de cordel desperte a minha atenção. Eu conhecia os cordéis que hoje servem como base para a construção do enredo que eu estou apresentando. Mas na verdade isso acontece de uma maneira muito natural. No mesmo balaio em que eu tirei o besouro do Império Serrano, é desse mesmo balaio que eu tiro o Lampião e os cordéis em torno do destino pós morte dele. Era uma coisa que em alguma instância estava no meu radar. Quando eu encontrei um corpo para apresentar isso, eu fui buscar qual é o contorno melhor para adaptar essa história que já estava no meu radar para ser apresentada para a escola que eu estou que é a Imperatriz”, explica o carnavalesco.

Dentro da pesquisa em cima da literatura de cordel, Leandro Vieira revela que havia uma quantidade muito expressiva de material para ser apresentado, mas escolheu justamente a história de Lampião para mexer um pouco com a Verde e Branca de Ramos.

“Eu descobri várias coisas interessantes. É um material muito rico, muito vasto. Mas eu achei que para esse momento de chegada na Imperatriz, o ideal seria usar essa energia um pouco caótica do Lampião. Por uma questão artística e por uma questão conceitual mesmo, para dar uma fervida no sangue da escola, para dar uma pitada de delírio, para trazer uma pegada mais quente. Nesse momento eu quis chegar ao enredo que tivesse a capacidade de esquentar a escola”, define o carnavalesco.

Novas possibilidades, mas sem perder a essência como artista

Antes desse retorno à Imperatriz, Leandro realizou seis carnavais na Mangueira no Grupo Especial com dois títulos. No Acesso estreou na Caprichoso de Pilares em 2015, fez o desfile campeão do Império Serrano no carnaval passado e o da própria Nação Leopoldinense vitorioso em 2020. É um carnavalesco que já possui um estilo consolidado. Para este carnaval de 2023, a proposta de enredo, inspirada em literatura de cordel e contando de forma lúdica a história de Lampião, Leandro foge um pouco da temática mais concreta e crítica que teve em boa parte dos seus desfiles na Estação Primeira de Mangueira. Mas o artista garante que seguirá neste desfile apresentando aquilo que faz parte da sua essência, seus gostos artísticos ainda que trazendo um novo componente nesta equação que é a relação com a nova agremiação.

“A Imperatriz me apresenta outras possibilidades de fazer. E eu estou usufruindo, estou desfrutando das possibilidades de fazer que a Imperatriz me apresenta. Mas isso não quer dizer que eu vou me tornar outro artista. Porque eu sou o artista que sou porque gosto de ser. As minhas predileções artísticas, as minhas predileções estéticas continuam. Eu não mudei de escola para me tornar outro. Eu sigo tendo os mesmos interesses, só que com outras possibilidades de fazer. São essas possibilidades que vão me apresentar de uma forma um pouco diferente. Mas, as minhas predileções artísticas continuam as mesmas. Eu não me tornei outro artista. Eu não me tornei o Leandro que vai levar luxo, pluma, quilometragem para a Avenida. Não é isso. Sou o mesmo artista, que levanta os mesmos debates porque sou o artista que sou. E acho que a Imperatriz só contratou o artista que ela conhecia. Eu não fui contratado pela Imperatriz para ser outro. Mas é claro que a escola me dá outra condição de realização, é nessa condição de realização que talvez eu seja outro”, entende o carnavalesco.

Com longa data em uma agremiação, seis anos na Verde e Rosa, Leandro deixou uma marca em sua antiga escola e há uma expectativa que possa trilhar caminho parecido e de longa duração nesta nova parceria com a Imperatriz. Assim como outros artistas que estabeleceram relações de longa data com agremiações tradicionais do carnaval carioca. Sobre a projeção de futuro, Leandro não pensa neste assunto no momento e garante que está focado apenas no próximo desfile.

“Eu estou com a cabeça voltada para o próximo carnaval. É preciso que haja o desfile que estou projetando para a gente saber das coisas, até porque existe o lado e a avaliação da escola também”, conclui o artista.

Desfile apresenta um Nordeste mais voltado para o sertão

Algo que foi pedido pelo próprio carnavalesco aos compositores no dia da apresentação da sinopse é que eles não se deixassem cair em clichês na hora de apresentar a região Nordeste. Ou seja, não generalizar e achar que tudo que se faz e apresenta em um estado, cidade é válido para ilustrar a região inteira ou o povo nordestino. Em seu desfile, por conta da caracterização de Lampião, Leandro esclarece que o Nordeste que será apresentado é a parte mais próxima do sertão, do semiárido, registrando os signos mais próximos ao cangaço.

“A minha projeção visual é ligada a ideia do sertão e do cangaço, é onde o meu carnaval está inserido. O meu carnaval está inserido no Nordeste do semiárido, no nordeste do sertão. Por exemplo, não é o nordeste praieiro. O nordeste também é praia. Mas o meu carnaval é talvez mais ligado ao universo sertanejo. A cultura do cangaço, a estética do cangaço, e a pluralidade que o sertão apresenta. E da sofisticação que o sertão apresenta”, esclarece Leandro.

Para o desenvolvimento do enredo, o artista da Rainha de Ramos se utilizou, como referência, de alguns cordéis que o carnavalesco já havia lido antes até do retorno à Imperatriz e que tratavam dessa temática lúdica e delirante sobre o pós-morte de Lampião.

“Me baseio em ‘A chegada de Lampião ao inferno de José Pacheco’, ‘A chegada de Lampião ao céu’ do Guaipuan Vieira, ‘O grande debate de Lampião com São Pedro’ de José Pacheco e ‘Lampião e Padre Cícero em um debate inteligente’. Cheguei a conversar com o Guaipuan, mas o José Pacheco, que inaugura o que a literatura de cordel chama de Ciclo Lampiônico do Cordel, que é justamente esses artistas que se debruçaram sobre a figura de Lampião, já é um autor falecido”, revelar o artista.

Carnaval competitivo mas sem pressão por resultado

Em Ramos há uma grande expectativa para este carnaval. A comunidade tem demonstrado em ensaios de rua, ensaios de canto, no ensaio técnico da Sapucaí, em eventos da escola, que pode sonhar com a conquista do campeonato que não vem desde 2001 com a professora Rosa Magalhães. Além de Leandro Vieira, a escola investiu em outras posições e trouxe o coreógrafo Marcelo Misailidis para cuidar da comissão de frente, trouxe o mestre-sala Phelipe Lemos para voltar a fazer dupla com Rafaela Theodoro, contratou o intérprete Pitty de Menezes, além de manter grandes quadros da agremiação que vem fazendo bons trabalhos como mestre Lolo. Mas apesar das boas perspectivas para este carnaval, Leandro não se deixa influenciar por nenhum tipo de euforia e nem permite que este tipo de sentimento externo possa gerar uma pressão extra em seu barracão.

“Meu trabalho não sofre pressão de absolutamente nada. Nunca sofreu em condição nenhuma. Em lugar nenhum onde eu trabalhei, eu permiti que pressão externa alguma pudesse macular o meu processo de criação. Eu nunca fui um carnavalesco envolvido com expectativas e nunca, mesmo tendo ganhado algumas vezes, eu nunca fui um carnavalesco que realizei nada com a pretensão de ganhar ou competir. Eu sempre realizei as coisas com a pretensão de fazer o melhor que posso. Se o melhor que eu posso resultar em algo que pode ser o campeonato, eu não vou ficar chateado. Mas eu não permito que essas pressões, que essa construção de favoritismo interfira no meu trabalho. Acredito que deva ser bem ruim isso. Toda expectativa só gera frustração. Eu desconheço a expectativa que não tenha gerado frustração. Não sofro pressão, não tenho expectativa”, afirma o carnavalesco.

Uma outra novidade para este carnaval da Imperatriz, não se trata de nenhuma contratação, mas sim a mudança de barracão da agremiação na Cidade do Samba. A diretoria da Rainha de Ramos requisitou fazer uso da antiga estrutura da União da Ilha que por conta das regras da Liesa e da Série Ouro, em seu segundo ano na divisão de acesso do carnaval carioca, teve que deixar a Cidade do Samba. Com isso, a Imperatriz agora ocupa o local de trabalho e esta mudança gerou uma ligeira melhora de logística para o desenvolvimento do seu carnaval.

“Quando eu fui contratado, a presidente falou para mim que queria fazer um carnaval campeão. Um carnaval campeão, é um carnaval competitivo para os moldes contemporâneos que a disputa impõe. O carnaval que eu estou fazendo hoje, que eu acho que é um carnaval competitivo, não sairia de dentro do antigo barracão da Imperatriz. Então, quando a União da Ilha vagou esse espaço, eu pedi que a presidente fosse a direção da Liga demonstrar o seu interesse de vir para cá. Porque o carnaval que ela me convidou para fazer, não caberia no antigo barracão e cabe aqui. É um barracão melhor de saída, é um barracão melhor geograficamente e a própria construção dele possibilita o desenvolvimento de um projeto que possa vir a competir de uma maneira diferente”, explica o artista.

Apesar de admitir que possui um carnaval que não caberia no antigo barracão da Imperatriz onde trabalhou para o carnaval do Acesso em 2020, Leandro procura não rotular seu projeto em termos de gigantismo ponderando que não tem o interesse de saber se este será em temos de comprimento ou largura o seu maior desfile.

“Não tenho essa ideia e não fiz nada pensando nisso. Carnaval de quilômetros não é minha praia. Estamos fazendo o maior carnaval possível “, limitou-se a dizer o artista.

Enredo autoral para 2023 satisfaz anseios do artista

O carnaval desenvolvido por Leandro Vieira em 2020 na Rainha de Ramos “Só dá Lala” rendeu um campeonato no Grupo de Acesso e o retorno para a Imperatriz ao Grupo Especial. Os objetivos primordiais da escola foram cumpridos, mas deixou em Leandro um sentimento de que faltava alguma coisa nessa sua relação de sucesso com a Imperatriz. O retorno do artista a Verde e Branca trouxe para Leandro a oportunidade de realizar e participar de algumas coisas na escola, que em 2020 no Grupo de Acesso e fazendo uma reedição de samba-enredo, o carnavalesco acabou não usufruindo.

“Uma das coisas que me frustrou bastante quando eu passei aqui em 2020, foi não ter tido a possibilidade de apresentar um enredo autoral. Quem gosta de carnaval, quem festeja samba de qualidade, inevitavelmente vai festejar a ala de compositores da Imperatriz e o que a ala de compositores da Imperatriz apresenta em termos de qualidade. Quando eu fiz o carnaval de 2020, em função de problemas políticos, o carnaval da Imperatriz de 2020 começou tardiamente. Não havia tempo para se realizar uma disputa para a escolha do samba-enredo com a qualidade que se esperava. Não havia mais tempo de apresentar enredo autoral com sinopse, dar tempo de qualidade para os compositores fazerem alguma coisa, e depois ter uma disputa. Não seria algo com qualidade. E aí eu optei pela reedição. Mas é claro que quando você opta pela reedição você perde a possibilidade de desfrutar do que os compositores da escola podem te oferecer. Que no caso da Imperatriz é sempre algo maravilhoso”, opina o profissional.

Leandro festeja poder ter participado de todo processo que um carnavalesco tem direito no trabalho de produção de um enredo inédito e desenvolvido pelo próprio artista.

“Eu gosto de sambas-enredo. Eu gosto dessa coisa da disputa, acho maravilhoso você desfrutar da interpretação de outro artista que vai transformar em música aquilo que você apresenta em quanto texto, enquanto visual. Então fiquei um pouco com essa frustração. E agora estou com a alegria de poder propor um enredo autoral para a Imperatriz, ter desfrutado de dezenas de artistas compositores que materializaram em canto e música aquilo que eu propus. E hoje posso desfrutar de um samba, e de um enredo autoral feito pela ala de compositores da Imperatriz. Isso é motivo de alegria. Eu fiquei um pouco com essa frustração de em 2020 não ter podido propor algo para a Imperatriz de maneira mais autoral. Estou podendo agora propor isso”, admite o carnavalesco.

Sobre o samba da Imperatriz 2023, Leandro elogiou a obra desenvolvida pela parceria de Me Leva. A música, segundo o artista, traz tudo aquilo que ele pensa ser necessário para o desfile da Rainha de Ramos.

“Esse samba me deu tudo que eu precisava, tudo que eu imaginava. É um samba de enredo mesmo. Os compositores foram muito felizes e mais do que felizes, eles foram muito inteligentes, eu achei o samba um máximo”.

Comunidade leopoldinense incendiada pela história de Lampião

Uma das grandes realizações da diretoria presidida por Cátia Drumond foi o resgate da comunidade da Imperatriz. É notável perceber a participação dos componentes em ensaios de quadra, rua e diversos eventos.

“O grande trunfo da Imperatriz neste desfile é o fato da comunidade estar extremamente envolvida e alegre com o desfile. Uma comunidade envolvida e alegre, é um grande trunfo de qualquer escola que vislumbra algo bom para acontecer na pista. Porque o carnaval é na pista, é no dia. E quem faz as coisas acontecerem no dia é a comunidade. Então, a comunidade feliz, a comunidade alegre, é uma comunidade que pulsa, que vibra positivamente para o desfile”, entende o carnavalesco Leandro Vieira.

Muitas vezes estereotipada como uma escola fria, até mesmo em seus grandes campeonatos, a Imperatriz Leopoldinense quer seguir com a sua eficiência, mas colocando um algo a mais, uma pitada de picardia, uma alegria irreverente que possa conquistar os jurados e principalmente todo o público do carnaval.

“Foi para isso que eu escolhi esse enredo, foi por causa disso que eu escolhi esse enredo. Foi por causa disso que eu desenvolvi a maioria das coisas que produzi. A Imperatriz que você vê agora, foi uma Imperatriz premeditada pela escolha do enredo que eu apresentei. Não é à toa. Depois da minha experiência feliz da Imperatriz e o Lamartine, eu segui acreditando que essa Imperatriz mais alegre ligada a essa temática é uma Imperatriz que na minha cabeça pode funcionar melhor. É premeditada. Essa alegria é uma alegria que o enredo permite. As fantasias foram pensadas para que essa alegria não se perca. As fantasias foram pensadas para que o componente possa brincar, no dia a gente só quer que dê tudo certo, e aquilo que foi premeditado funcione da maneira que nós premeditamos. A ideia é que Lampião ‘taque’ fogo com graça nos brios da comunidade”, espera Leandro.

Décima colocada em 2022, neste carnaval a Imperatriz Leopoldinense será a quarta escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial com o enredo “O aperreio do cabra que o excomungado tratou com má-querença e o santíssimo não deu guarida”.

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