A Unidos do Porto da Pedra voltou às ruas, na noite do último sábado, para realizar o seu segundo ensaio a céu aberto da temporada para 2024. O treino, que teve início às 21h e durou pouco mais de uma hora, foi novamente realizado na Doutor Feliciano Sodré e Doutor Nilo Peçanha, ambas vias do Centro de São Gonçalo, no trecho compreendido entre a Salvatori e a General Antônio Rodrigues. Apesar da concorrência com o clássico entre Flamengo e Fluminense, que terminou um pouco antes de ser dada a largada, houve forte adesão por parte da comunidade, sejam eles componentes ou torcedores que só foram assistir de perto sua escola do coração. No decorrer da passagem da agremiação, o samba-enredo acabou sendo o grande destaque e influenciado positivamente outros quesitos, como a evolução e a harmonia. Além disso, a bateria e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira também chamaram atenção, despontando como outros grandes trunfos do Tigre no retorno ao Grupo Especial. No ano que vem, por estar voltando à elite da folia carioca, a vermelha e branca terá a missão de abrir os desfiles no domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro. Na ocasião, a Porto da Pedra levará para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí o enredo “O Lunário Perpétuo: A Profética do Saber Popular”, de autoria do enredista Diego Araújo e do carnavalesco Mauro Quintaes. O tema tem como proposta celebrar o saber popular, além de narrar a história do almanaque escrito na Espanha e que veio parar no Brasil depois de 200 anos, se tornando o livro mais lido pelo povo nordestino.

Fotos: Diogo Sampaio/CARNAVALESCO

“Ensaio técnico na rua é para procurar os erros. Só assim vamos poder corrigir as falhas, até porque a gente tem tempo para isso. Mas assim, de um modo geral, o ensaio foi muito bom. A escola cantou bastante, tem uns pontinhos para corrigir, mas o saldo é positivo. Evoluímos bem, viemos bem compactados, organizados, e isso é o que importa para gente. No entanto, como eu sempre falo, temos que estar procurando detectar os deslizes, encontrar os erros, para consertar eles o quanto antes. Toda terça-feira temos uma reunião com o departamento, na qual fazemos um relatório do ensaio. A ideia é que a galera venha e conte: ‘aconteceu isso’ e ‘aconteceu aquilo’. Tudo para que a gente possa, já na quinta-feira, mandar um recado para comunidade. Nosso objetivo sempre é chegar no dia do desfile sem problema, sem erro nenhum, afinal é isso que importa”, pontuou Amauri de Oliveira, diretor geral de Harmonia da Porto da Pedra, em entrevista concedida para a reportagem do site CARNAVALESCO.

Mestre-sala e Porta-bandeira

Um dos pontos altos deste segundo ensaio de rua da Unidos do Porto da Pedra foi o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola, formado por Rodrigo França e Denadir Garcia. A dupla, que está em seu primeiro ano dançando juntos, mostrou entrosamento, além de bastante sincronia. Com um ritmo intenso, eles fizeram na apresentação uma mescla do bailado tradicional com alguns passos marcados, tendo direito ainda a vários momentos de cortejo, seja em forma de gestos ou da troca de olhares. Já em relação ao figurino, os dois apostaram na simplicidade. Ele usou uma calça branca acompanhada de uma camisa da escola; enquanto ela foi com um conjunto vermelho, com uma saia longa que dava um belo efeito ao girar.

“Costumo dizer que o ensaio de rua é uma prévia do ensaio técnico na Sapucaí. Eu gosto muito e para mim é algo bastante produtivo. A gente está em busca do melhor, então sempre vai ter alguma coisa para tirar, para colocar, uma mão, um braço, um pé. E é bom ensaiar com essa comunidade cantando o samba, pois isso empolga muito mais, dá mais vigor para gente dançar. A minha parceria com o Rodrigo está fluindo muito bem, graças a Deus, e tenho certeza que o resultado vai ser maravilhoso no desfile oficial. Eu sou uma pessoa muito sistemática e até que ele está tendo bastante paciência comigo (risos). Mas só tenho elogios para o Rodrigo, que é um fofo, um amigo já de muito tempo. Sou uma pessoa grata, muito feliz, que eu sempre danço com mestre-sala que é meu amigo. Isso ajuda as coisas fluírem da melhor maneira possível e torna tudo bem mais tranquilo”, ponderou Denadir.

“Como a Denadir falou, o ensaio de rua é sempre um preparo para o nosso ensaio técnico. Então, a gente sempre vai estar tirando algo, colocando algo. Porém, sempre que viermos para o ensaio de rua pretendemos colocar tudo para fora, até para conseguir ter uma noção melhor de como vamos nos sair na Marquês de Sapucaí. Essa é a nossa energia, é um pouco além da nossa coreografia e tenho certeza absoluta que vai ser sucesso. E quanto a ter a Denadir como parceira, é algo maravilhoso, é uma amiga de muitos anos. Sempre tive certeza que, se um dia eu estivesse dançando com ela, nossa dupla daria certo. Graças a Deus está se confirmado, a Denadir tem uma energia incrível, é uma porta-bandeira muito experiente, então estou aprendendo bastante coisa, e o resultado na Avenida vai ser excelente”, completou Rodrigo.

Samba-enredo

O grande destaque deste segundo ensaio de rua do Tigre de São Gonçalo. O samba-enredo de autoria de Guga Martins, Passos Júnior, Gustavo Clarão, Lucas Macedo, Leandro Gaúcho, Clairton Fonseca, Richard Valença, Gigi da Estiva, Abílio Jr., Marquinho Paloma, Cristiano Teles e Ailson Picanço teve um ótimo rendimento, sendo crucial para as boas performances de outros quesitos como a harmonia e a evolução. Desde a escolha como hino oficial da escola no mês de agosto, a obra apresentou evolução e este treino evidenciou como ela casou perfeitamente na voz do intérprete Wantuir. Aliás, o cantor demonstrou já estar totalmente entrosado com os demais integrantes do carro de som e conduziu com excelência o microfone principal, sem deixar que o desempenho do samba caísse ao decorrer de pouco mais de uma hora de percurso. Além dele, a bateria “Ritmo Feroz” foi responsável por dar um toque especial à composição, ajudando com que ela contagiasse os presentes no local. Os ritmistas comandados por mestre Pablo souberam explorar bem a melodia da canção, através de seus desenhos e convenções, fazendo ainda algumas pequenas referências aos ritmos nordestinos, em alusão ao enredo, o que deu um tempero a mais.

Evolução

A vermelha e branca de São Gonçalo teve uma evolução marcada pela leveza e pelo alto astral neste segundo ensaio de rua. Embalado pelo samba “para cima”, os componentes desfilaram em sua maioria soltos, brincando, pulando e cantando. O ritmo adotado foi cadenciado de uma maneira geral, com paradas em momentos pontuais, como por exemplo na entrada e saída da bateria do recuo. Ao longo de mais de uma hora de treino, a escola não apresentou falhas graves, não ocorrendo a abertura de buracos, espaçamentos significativos ou embolamento entre alas. Vale citar ainda a utilização de acessórios e outros tipos de ornamentações por algumas alas, que deram um charme a mais para passagem da Porto da Pedra. Entre os adereços usados pelos desfilantes estavam pom poms, balões e até chapéus de cangaceiros. Porém, o maior destaque nesse sentido ficou para o uso de lanternas que eram acesas, por quase todas as alas, no momento em que o verso “Quem acendeu as lamparinas desse céu?” era cantado, dando um bonito efeito no conjunto.

“A compactação tem que existir. Não podemos ter clarões, nem qualquer coisa do tipo. O espaço entre alas tem que ser bem mínimo. Mas deixar a ala leve é o que a gente sempre pede. Fazemos a marcação da parte da frente e da parte de trás, porém no miolo deixamos bem a vontade para vir evoluindo bem descontraído mesmo. Não tem esse negócio de fileira, nem de marcação que deixa componente engessado. Agora, a compactação não abrimos mão, a gente está com o rádio o tempo todo, sempre se comunicando, justamente para poder saber se a escola está com uma velocidade maior, se está no ponto certinho, porque eu venho puxando então eu acabo perdendo essa referência. Essa galera que vem durante o desenrolar do desfile, como volante, eles vem me dando esse feedback para poder saber se eu estou no andamento bom ou se eu tenho que acelerar ou tem que diminuir um pouco”, ressaltou Amauri de Oliveira durante conversa com a reportagem do site CARNAVALESCO.

Harmonia

Junto com a evolução, a harmonia foi o quesito mais beneficiado pelo bom samba da Unidos do Porto da Pedra. A obra alegre, com uma letra relativamente simples, propiciou um cantar leve por parte dos componentes da agremiação. O refrão principal, com os versos “Quarto minguante, a moringa quase seca/Maré virou, virou luar!/Tem alambique pra beber na quarta-feira/Okê, caboclo! Tempo bom vem pra ficar!/Quarto minguante, a moringa quase seca/Maré virou, virou luar!/Tem alambique pra beber na quarta-feira/Faltava o tigre pro Lunário completar!”, foi berrado pelos desfilantes, sendo o trecho de maior rendimento. Além dele, outras duas partes, “Quem acendeu as lamparinas desse céu?/Quem acendeu as lamparinas desse céu?/No Brasil, os retirantes são os astros de cordel” e “Só porque eu escolhi, navegar por esse mar!/A viola perguntou para o santo do lugar/Responda, meu sinhô! Será que é amor?/Meu povo vai passar!”, também foram bastante entoadas no treino da noite desse sábado. No entanto, apesar dessa performance geral bastante positiva, a sensação é de que ainda pode mais. Trechos como “O sertão profetizou, cada flor do Cariri/A ciência desse povo, eu não guardo só pra mim” e “Tanta gente esperou por esse dia/O pincel, a cantoria, nunca foi ponto final!/E lá do auto como a vida é um repente/O estandarte vai na frente/Muito mais que carnaval!” tiveram um desempenho abaixo em comparação a outros, tendo uma queda mais acentuada no canto quando chegava eles. Outro ponto que merece atenção são os componentes que não acompanharam esse entoar mais aguerrido da maioria da escola, presentes em alas como a que vinha atrás das baianas e a que antecedia os passistas.

Bateria

A “Ritmo Feroz” foi um dos grandes destaques deste segundo ensaio de rua da Unidos do Porto da Pedra. Ao todo, 190 ritmistas, dos 250 que irão para o desfile oficial, participaram do treino. Com um andamento agradável, que permitiu um bom rendimento do samba e uma evolução leve, os liderados por mestre Pablo deram um verdadeiro show e agitaram não só os componentes, mas também o público que se aglomerou nas calçadas das ruas Dr. Feliciano Sodré e Dr. Nilo Peçanha para assistir a passagem da escola. Após a conclusão, o comandante da bateria conversou com a reportagem do site CARNAVALESCO e fez um balanço do trabalho realizado na noite desse sábado, além de assegurar que pretende levar para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí exatamente o que está sendo executado nos ensaios.

“É aquele negócio, um passo de cada vez. Em cada ensaio, a gente precisa dar um passinho a mais. O importante é não dar ré. E a galera compareceu, a comunidade veio prestigiar a escola, estou muito feliz com o resultado, com o desempenho da bateria, com o canto da escola, e vai dar bom, se Deus quiser. E garanto que tudo que estamos fazendo nos ensaios de rua vamos levar para a Avenida. É sempre bom ensaiar para valer, seja na quadra, na rua, no ensaio técnico de janeiro ou nos treinos no setor 11. Toda apresentação é importante para a gente, que é um ensaio a mais até chegar a perfeição. Hoje fizemos duas bossas e uma caída de segunda, que é um arranjo da primeira para a segunda parte do samba. E vamos levar essa quantidade mesmo para o desfile oficial, mais uma virada diferente na cabeça do samba, que é a famosa virada atrasada, que só eu faço. Não podemos ter surpresas em matéria de ritmo, então quem quiser saber o que a gente vai fazer um pouco na Marquês de Sapucaí é só vir prestigiar a gente nos ensaios. Posso assegurar que todos vão ser bem-vindos, vão ser recebidos de braços abertos”, afirmou mestre Pablo.

Outros destaques

O prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, esteve presente neste segundo ensaio de rua e fez questão de fazer um breve discurso, antes de ser dada a largada. Na fala, o mandatário enalteceu a importância da Porto da Pedra, ressaltando que a agremiação não representa apenas um bairro, mas sim toda uma cidade. Por conta disso, ele aproveitou para anunciar que, por uma iniciativa da Prefeitura em parceria com a escola, serão realizados treinos em diversas localidades do município. A primeira delas será a Praça dos Bandeirantes, no bairro de Amendoeira, no próximo dia 25. Em entrevista concedida para a reportagem do site CARNAVALESCO, o chefe do Executivo falou sobre este projeto de levar a vermelha e branca para diferentes regiões, além de comentar a aprovação da Câmara de Vereadores da subvenção no valor de R$ 1,5 milhão para o Carnaval de 2024.

“O nosso município é muito grande e se faz necessário levar a agremiação para a área de cima do Alcântara para que todos tomem conhecimento que a escola pertence à cidade. Infelizmente, no passado, botaram o nome de Porto da Pedra, mas ela não representa só esse bairro. Estamos estudando os lugares que vão receber esses ensaios, primeiro vai ser na Praça dos Bandeirantes, mas a ideia é percorrer diversas regiões. E quanto à subvenção, a Porto da Pedra é uma das maiores, se não for a maior manifestação cultural de São Gonçalo. Nós temos que tentar ajudar de todas as formas, afinal ela também emprega muita gente. Queremos que a Porto da Pedra represente a cidade de São Gonçalo da melhor forma possível lá no Rio de Janeiro e logicamente, como é passado através da televisão, para o mundo inteiro. É isso que a gente quer”, declarou Capitão Nelson.

O vice-presidente da agremiação, Fabrício Montibelo, também comentou essa iniciativa de percorrer diferentes lugares de São Gonçalo com os ensaios de rua. O dirigente da escola relatou, em conversa com o site CARNAVALESCO, que os primeiros detalhes desse projeto foram definidos na última semana em um encontro com representantes da Prefeitura. Além disso, ele fez uma avaliação dos primeiros treinos da temporada visando o desfile do ano que vem.

“A ideia dessa parceria com a Prefeitura é justamente essa, de levar a escola para os mais diversos bairros dentro de São Gonçalo. Estamos estudando ainda, fizeram uma reunião essa última semana e a Praça dos Bandeirantes foi o primeiro lugar que a gente conseguiu. Em breve, se Deus quiser, terá outros lugares. Até porque a Porto da Pedra é São Gonçalo e vice-versa. Nossos ensaios de rua até aqui estão sendo bons, acima do que a gente esperava, e a cada sábado que vem agora a tendência é melhorar. A comunidade pegou o samba de forma fácil e o que nos resta é treinar bastante até o grande dia do desfile”, relatou Fabrício Montibelo.

Outro ponto válido de menção positiva neste segundo ensaio de rua da Porto da Pedra foi a abertura mais tradicional. Por conta da ausência dos integrantes da comissão de frente, a agremiação optou por colocar membros da velha-guarda no lugar. Os senhores e as senhoras do Tigre de São Gonçalo vieram dando as boas-vindas para o público, todos com muita elegância e simpatia. Essa entrada tinha sequência com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, que por sua vez eram seguidos pela ala das baianas. Um começo digno de elogio, exaltando segmentos que são alguns dos principais alicerces de qualquer escola de samba.