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Retrospectiva 2021: o ano sem carnaval e da vacina – Parte 1

Em quatro matérias vamos contar mês a mês como atravessamos o desafiador 2021

Para quem ama carnaval e as escolas de samba não há como negar a ambiguidade de sentimentos vividos nesse ano de 2021. Se por um lado foi reconfortante ver sambistas aos poucos sendo imunizados contra a Covid-19, por outro lado foi doloroso receber a confirmação de que não haveria carnaval nesse ano. Foi a primeira vez, desde a criação do desfile das escolas de samba em 1932, que não houve carnaval. Nem durante a segunda guerra mundial a maior celebração da cultura popular brasileira deixou de acontecer.

RIO DE JANEIRO (RJ), 11.02.2021 – CARNAVAL – CORONAVIRUS: Sem desfiles no ano de 2021, Avenida Marques de Sapucai, o Sambódromo do Rio, ganha iluminação especial para homenagear vítimas da Covid-19.

Seguindo a tradição dos finais de ano, o site CARNAVALESCO inicia a série de reportagens com a retrospectiva do ano de 2021. Em quatro matérias vamos contar mês a mês como atravessamos o desafiador 2021. Um ano que se iniciou com a desesperança e a dor sem carnaval e que termina com a certeza de que em 2022 os desfiles acontecerão. Na primeira reportagem vamos contar a história dos meses de janeiro, fevereiro e março.

Janeiro: Em meio a início da vacinação, Eduardo Paes cancela carnaval em julho

O ano começou ainda sem a vacinação iniciada no território brasileiro. Se por um lado havia um grande pessimismo com relação à realização dos desfiles no meio do ano, logo no primeiro dia os sambistas se viram finalmente livres de Marcelo Crivella, que passou quatro anos perseguindo o carnaval. Eduardo Paes, de volta à Prefeitura, entoou sambas para marcar o seu retorno. Entretanto o novo prefeito tratou de trazer prudência ao debate sobre a eventual realização dos desfiles em julho.

Por outro lado, ainda sem a confirmação oficial da não realização do desfile em julho, cinco agremiações do Grupo Especial iniciaram suas disputas de samba, sem público presencial nas quadras, e em um primeiro momento apenas recebendo as inscrições das obras: Mangueira, Vila Isabel, Viradouro, Imperatriz e Mocidade.

O ano de 2021 foi marcado por ataques de fundamentalistas e conservadores ao carnaval. Desinformados, acusavam a realização do evento em 2020 como responsável pela proliferação da pandemia no Brasil. O ex-jogador Pedrinho usou as suas redes sociais para disseminar desinformação, usando uma imagem do desfile da Gaviões da Fiel em 2019 para acusar os desfiles das escolas de samba.

A vacina finalmente chegaria aos braços dos brasileiros no dia 17 de janeiro de 2021. A enfermeira Mônica Calazans foi a primeira brasileira a ser imunizada contra o flagelo da Covid-19 no território nacional. Mas a esperança veio acompanhada daquilo que todos já esperavam, mas ainda não tinham a confirmação. O carnaval de julho foi cancelado pelo prefeito Eduardo Paes e mais de 100 anos depois o Rio de Janeiro não teria a manifestação cultural.

Obviamente a decisão causou reações no mundo do carnaval. O então presidente da Liesa, Jorge Castanheira, demonstrou preocupação com os trabalhadores do carnaval. Gabriel David, já de olho no processo político da Liesa, fez duras críticas ao então presidente. A Portela, tão logo a decisão de cancelamento do carnaval foi anunciada, interrompeu imediatamente as suas atividades. O prefeito do Rio declarou que o cancelamento do carnaval era uma ‘dolorosa, porém necessária decisão’.

O primeiro mês de 2021 também nos levou personalidades importantes da festa. Partiram para outro plano o eterno cidadão samba carioca, Anatólio Izidoro, o inesquecível intérprete Jorge Tropical, com uma marcante passagem na Vila Isabel e o julgador Pérsio Gomyde Brasil, um dos mais antigos do quadro da Liesa, que julgou enredo por várias décadas.

Fevereiro: Sem carnaval, sambistas espalham alegria e esperança com atos simbólicos

Com a confirmação de que não haveria carnaval em razão do avassalador avanço da pandemia no Brasil, o mês de fevereiro poderia ter ares de melancolia. Mas os sambistas demonstraram toda sua resiliência. Tristes por não poderem aglomerar pelas ruas no carnaval, mas cientes da seriedade do momento vivido, criaram os mais variados tipos de eventos simbólicos. A Viradouro criou a live ‘Zé Paulo não canta Viradouro’, o site CARNAVALESCO preparou o ‘Ocupa Carnaval‘ com lives e debates que ocuparam todos os dias de festa e o Museu do Carnaval também elaborou um ato simbólico para marcar os dias de folia. A polêmica ficou por conta do programa especial preparado pela TV Globo para as noites que aconteceriam os desfiles. A emissora, ao invés de reexibir as transmissões de cada escola, apenas colocou os sambas antigos no ar cobertos com imagens de arquivo. A atitude revoltou os sambistas, que inundaram as redes sociais de críticas.

Em meio aos eventos simbólicos que marcavam o carnaval, o poder público e as escolas tentavam encontrar soluções para que os trabalhadores do carnaval conseguissem a sobrevivência. Em um primeiro momento o prefeito Eduardo Paes revogou os pontos facultativos do feriado carnavalesco e fechou as entradas do município para ônibus e carros oriundos de outras cidades.

A prefeitura do Rio, em paralelo às medidas de contenção de aglomerações e o aumento de casos e mortes, anunciou que poderia antecipar a verba para os desfiles de 2022. O Governo do Estado decidiu apoiar as escolas de samba com recursos também. Sem o carnaval, o Brasil sofreu um impacto de R$ 81 bilhões em sua economia. Em meio a tamanha crise, os bastidores políticos da Liesa ferviam. E pela primeira vez, Jorge Perlingeiro admitia a possibilidade de assumir a entidade no lugar de Jorge Castanheira.

O mundo do samba perdeu em fevereiro dois importantes nomes do gênero em São Paulo. A Covid-19 levou o músico Izael do lendário grupo Demônios da Garoa. Além dele perdemos o presidente de honra da Mocidade Unida da Mooca, Roberto Falanga, também vitimado pelo novo coronavírus.

Março: Liesa tem novo presidente e era Castanheira chega ao fim

A crise instalada na Liesa em virtude da não realização do carnaval e a postura do presidente Jorge Castanheira culminou com a eleição de uma nova diretoria em março. No dia 18, Jorge Perlingeiro foi eleito o novo presidente e agradeceu a parceria com o antecessor. Castanheira por outro lado evitou o confronto e agradeceu os anos à frente da entidade. Gabriel David passou a ocupar a função de diretor de marketing.

Depois de cancelar o carnaval ainda em janeiro, a prefeitura do Rio também cancelou a realização do Rock in Rio, que aconteceria em setembro deste ano, confirmando a coerência de Eduardo Paes em priorizar o combate à pandemia. Paralelo à isso o prefeito realizou um encontro com os dirigentes para tentar desinterditar a Cidade do Samba. O Governo do Estado anunciou editais para ajudar os profissionais do carnaval e também apoio à realização dos desfiles de 2022.

As escolas de samba já começavam a planejar o próximo carnaval. O Paraíso do Tuiuti decidiu trocar o casal. Marlon e Daniele deixaram a escola depois de três desfiles e quatro anos e foram substituídos por Raphael e Dandara, em um troca-troca com a União da Ilha. O Império Serrano anunciou a criação de um time de futebol que disputaria a Série C do estadual do Rio de Janeiro. E a Imperatriz, dando sequência ao seu projeto de modernização de gestão, tomou uma série de medidas nesta área para modernizar a escola, despertando elogios no mundo do samba.

Enquanto isso, a Covid-19 devastava o país com mortes e casos diários aumentando em progressão geométrica. O mundo do carnaval levou um susto com a internação de André Diniz, compositor consagrado na folia. Ele chegou a ir para a UTI mas se recuperou da doença. O mês de março levou mais sambistas pela Covid-19. Osni, filho de Natal da Portela e fundador da Filhos da Águia, Paulo Stein, jornalista e âncora de carnaval nas transmissões da Manchete e dois integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel. Além disso a musa e destaque Tuane Rocha também faleceu de maneira precoce no terceiro mês de 2021.

Aguarde a próxima parte da retrospectiva de 2021

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