Bicampeão do Estrela do Carnaval no quesito no qual trabalha, Régis Santos tornou-se garantir de espetáculo nas comissões de frente da Estrela do Terceiro Milênio. Com longa história na folia paulistano e completando cinquenta anos na festividade na cidade de São Paulo, o profissional mostrou muita animação com o trabalho feito e mostrou orgulho por conta das exibições que já realizou no Anhembi. Em uma longa entrevista, o CARNAVALESCO conversou com Régis Santos na final de samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio para o carnaval 2026 e ouviu uma série de reflexões do coreógrafo.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Artista premiado

Logo no primeiro ano da Estrela do Terceiro Milênio no Grupo Especial, a escola veio impactante. Com “Me dê sua tristeza que eu transformo em alegria! Um tributo à arte de fazer rir”, a agremiação conquistou o Estrela do Carnaval 2023 na categoria Melhor Comissão de Frente. Rebaixada, a agremiação retornou em 2025 e bisou na premiação do ano corrente – com o enredo “Muito além do Arco-Íris – Tire o Preconceito do caminho que nós vamos passar com o Amor” – ambos assinados pelo carnavalesco Murilo Lobo.

Na visão de Régis, entretanto, tais projetos têm pouco em comum: “O que tem em comum nos dois trabalhos é o desejo que a gente tem de agradar ao público e levar um trabalho com perfeição para o jurado. Essas são as duas características que a gente vai sempre buscar. Nós queremos levar entretenimento, trazer a nota, ser espetáculo. A gente não pode passar batido no palco fazendo arte, a gente tem que mexer em alguma ferida. Pensando nas temáticas dos dois trabalhos, foi muito diferente porque, no trabalho de 2023, a gente estava nascendo da dor, literalmente. Com a alegria do grupo LGBTQIAPN+, a gente estava nascendo da dor, e o trabalho de 2023 trazia o humor para falar da dor. A gente inverteu os caminhos para poder fazer críticas”, comentou.

Detalhando

Pouco depois, Régis Santos fez questão de comentar mais especificamente cada um dos projetos: “São trabalhos bem distintos, são temáticas bem opostas: um trabalho de uma leveza, de uma ludicidade do universo do humor, em que a gente tenta inserir um contexto social para uma visão que a gente possa, mesmo rindo da vida e através do humor, dizer que não está tudo certo. A gente está aqui no fundão da Zona Sul, onde tem muita família cinza. A gente tem muita família que é muito colorida por dentro e cinza por fora. A gente precisa tirar de dentro delas a alegria, o colorido que o mundo tem que dar. O mundo social tem que inseri-las. Aquele projeto tinha esse caráter pela veia do humor, com profissionais que eram do humor propriamente dito. Eu tinha gente ali do Cirque du Soleil, eu tinha gente ali dos Doutores da Alegria, eu tinha gente da SP Escola de Teatro na área de Humor, também tinha colegas meus de teatro e pessoas que fizeram testes. Era um trabalho peculiarmente teatral e que tinha um viés pela veia do humor. Poderia ser uma palhaçada imensa se a gente quisesse, mas a gente não queria. A gente tem que aproveitar o palco e o espaço para falar e sempre exigir que se olhe para as pessoas num sentido plural. Aquele trabalho teve essa dignidade – e com leveza. E o que era bom naquele trabalho é que tinha uma alma infantil não só na essência, mas também na presença. Também tivemos um pouco de ludicidade naquilo que o ilusionismo pôde proporcionar”, comentou, relativo ao trabalho de 2023.

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Já no retorno da Coruja ao Grupo Especial, nova premiação – e na mesma categoria: a Estrela do Terceiro Milênio ganhou novamente o Estrela do Carnaval na categoria Melhor Comissão de Frente em 2025: “O trabalho de 2025 é um trabalho de uma importância tão grande quanto, porque a gente não consegue, na verdade, não inserir o social no olhar. Quando você cresce numa escola de teatro, em grupos de teatro, não tem como ser um artista que a gente para a cena, sendo uma pessoa do grupo LGBTQIAPN+, não trazer para a cena a reflexão sobre o maior absurdo que acontece nesse país: ser o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no planeta. Quando a gente pensa que a cada 28 horas uma pessoa dessa minoria é morta, é muito escroto e cruel. Aquele trabalho nasceu com muita essência nesse sentido. Eu estou especialmente emocionado te contando tudo isso”, abriu-se.

Gênero escolhido

Para sintetizar a luta pelos direitos do grupo LGBTQIAPN+, Régis Santos baseou-se em uma estilo de bailado bastante especial: “Em 2025, também trouxemos a cena Ballroom, que é um universo extremamente potente e extremamente fundamental na cultura brasileira. A cena nasceu nos Estados Unidos, mas tem uma potência e um lugar de fala que traz as pessoas abandonadas para um lugar de gueto, lugar de porões, de lugares escondidos, que foi como o movimento nasceu, lá na década de 1960, quando as pessoas que apanhavam em casa e eram postas para fora do próprio lar a criaram. Trouxemos isso porque ninguém olha para isso. Se você vê-la, você vai ver que tem gênios, eles fazem coisas com o corpo algo que você deveria ver na TV – mas ninguém dá espaço. No Grupo Especial, tendo a visibilidade da maior emissora do país, eu tinha que dar visibilidade para essa cena”, orgulha-se.

Para tentar o tri

Em 2026, com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, a Estrela do Terceiro Milênio homenageará o compositor citado no título. E, para exaltá-lo, Régis Santos destacou a genialidade do artista: “A gente vai falar de um gênio, e isso tem uma significância, uma relevância imensa. A gente sempre fala de quem vai para a cena, mas a gente não fala de quem ajuda as pessoas a irem para a cena. Geralmente, você não faz um espetáculo (uma peça ou um filme, por exemplo) falando do roteirista. É sempre muito focado no ator, digamos assim. É muito difícil você falar de quem fica no bastidor. Quando vem o interesse de você falar de um dos maiores gênios da poesia sambística (e não só sambística, porque o cara é plural), o inconsciente coletivo nem sempre sabe quem o Paulo César Pinheiro é. Mas quando você fala do ‘Portela na Avenida’ ou de várias músicas da Elis Regina, por exemplo, todo mundo sabe quem é”, comentou.

Outro ponto que foi destacado pelo coreógrafo é a capacidade de traduzir a espiritualidade: “Eu sou um homem do candomblé, mas ele é o maior artista que retratou a afro-religiosidade. É impressionante o quanto ele fala com propriedade – mesmo não defendendo nenhuma religião. Ele jogou holofote numa crença por meio da poesia e do samba com recorte para a africanidade na cultura religiosa do Brasil, que é muito mágica”, destacou.

Por fim, Régis Santos pontuou o que os fãs de carnaval podem esperar do segmento comandado por ele: “Aguardem uma comissão impactante, aguardem uma comissão que eu estou tendo muita dificuldade. Eu estou em um momento no qual eu estou me desafiando. Quando eu venci o Estrela do Carnaval pela primeira vez, em 2023, me perguntaram como que eu iria me reinventar. Em 2025, ouvi a mesma pergunta. A gente sempre quer fazer o melhor, e não é fácil impressionar e querer sempre impactar. Eu sou um só, não sou o Casal Segredo – e eles são maravilhosos, é uma união linda. A comissão de frente da Estrela do Terceiro Milênio ára 2026 vai trazer muita teatralidade e trabalhar com a essência do poeta na magia de um encantamento que eu espero que atinja o coração das pessoas, com muitas surpresas, emoções, poesias, músicas e teatro”, afirmou, citando Priscilla Mota e Rodrigo Negri, atuais coreógrafos da coirmã Unidos do Viradouro, do carnaval carioca.

Reflexões

Régis Santos também falou um pouco sobre a própria carreira e jornada profissional: “Eu sou um homem de teatro, nasci no teatro. E não sou do teatro superprodução: passeei por grandes produções, fiz grandes musicais, trabalhei com Toquinho, fiz canção para crianças. Mas a minha essência é do teatro de grupo, da guerrilha. E eu sou da quebrada, sou da Brasilândia”, finalizou.