A Colorado do Brás definiu na noite de domingo o samba-enredo que irá embalar o seu Carnaval 2024. É sabido que em todas as finais, sempre há aquela tensão e ansiedade, mas nesta, especificamente, notou-se um clima leve e de amizade entre compositores e torcidas. As quatro obras finalistas fizeram questão de fazer jus à importância de uma disputa com público. Após as quatro apresentações, houve uma certa demora na reunião entre a comissão julgadora e diretoria. Depois disso, houve discurso do presidente até o anúncio do samba-enredo na voz do intérprete do Léo do Cavaco. O samba 1 foi o grande campeão e o primeiro a se apresentar na noite. A obra, que foi defendida pelo intérprete Celsinho Mody, é fruto de uma ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro. Os compositores são: Lico Monteiro, Richard Valença, Leandro Thomaz, João Perigo, Lucas Macedo, Jefferson Oliveira, Telmo Augusto, Felipe Zizou e Mingauzinho. * OUÇA AQUI O SAMBA CAMPEÃO

Parceria campeã na Colorado. Fotos de Fábio Martins/CARNAVALESCO

Escolha difícil e confiança para 2024

Foi uma final bastante acirrada. Cada samba tinha a sua característica, mas todos levaram torcidas que empolgaram. Isso se confirma pelo fato do diretor de carnaval, Jairo Roizen, que faz parte da escola desde 2015, revelar que tal disputa foi a mais complicada de se resolver e entrar em um consenso durante esses anos. Além disso, o diretor também falou sobre os critérios adotados junto da comissão julgadora.

“Essa foi a decisão mais difícil desde 2015. Foi uma disputa muito acirrada. A gente tinha seis sambas que em um primeiro momento a gente achou que poderia ir para a avenida. Nas nossas finais nós sempre levamos três sambas, mas neste ano tivemos que levar quatro. Vários amigos me perguntavam qual iria ganhar e realmente eu não sabia. Tenho que falar que quando eu cheguei ali na sala, me surpreendi com o resultado. A final aqui foi decisiva com a reação da bateria, componentes e desempenho no palco. Colorado é assim. É uma escola que vai na paixão. O critério foi esse. Todos os sambas teriam que mexer em alguma coisa, o que é normal. Mas a gente identificou que para esse projeto o samba 1 é perfeito. É assim que a gente vai para a avenida querendo subir para o Grupo Especial”, declarou.

A hora da consagração da parceria campeã

O Colorado do Brás teve todo um processo de escolha com audições de faixas internas até chegar aos finalistas. Porém, Jairo ressaltou a importância de ter o calor do público para tomar uma decisão com mais afinco.

“Eu sou um entusiasta de disputa de samba-enredo. Eu acho que ela é o começo de tudo. O samba que foi escolhido hoje vai fazer com que a gente mude o nosso projeto também. A gente vai adaptar. Para mim a disputa de samba-enredo é fundamental. Têm escolas que preferem fazer por encomenda, outras no CD ou na quadra. Nós, por estarmos no Grupo de Acesso, preferimos fazer só a final. Nós fizemos uma semifinal também, mas só com o nosso cantor, mas a gente faz questão de fazer a final. Não dá para fazer mais semanas porque no Acesso o investimento e a verba são menores, apesar de que vamos dar 3 mil reais ao samba vencedor deste ano. Talvez em uma disputa no CD a gente poderia errar ou não. Mas na disputa de samba-enredo a gente consegue formar sambistas, compositores e pessoas que comecem a se interessar pelo carnaval”, disse.

Jairo Rozen, diretor de carnaval da Colorado

Para os próximos passos, o diretor revelou que em breve os ensaios com a comunidade já vão começar visando o Carnaval de 2024. Os componentes devem se preparar entre agosto e setembro. “Agora a gente vai se reunir com os compositores para ver se o samba precisa de ajustes, depois de 10 a 15 dias nós vamos para o estúdio gravar e, a partir disso, nós vamos definir as datas, mas provavelmente nós vamos começar os ensaios no final de agosto e começo de setembro, sendo aqui na Rua Itaquí ou na Portuguesa Canindé”, contou.

Estratégia de desfile e o encaixe com a obra

O presidente Antônio Ka, seguiu a mesma linha do diretor de carnaval e disse que foi a escolha mais difícil dos últimos anos. Em meio às discussões de critérios de julgamento, o mandatário tocou em um ponto muito importante, dizendo que irá desfilar com o regulamento a seu favor. Entrando em uma análise rápida, isso pode pesar para um lado favorável ou não, pois nada se sabe do que pode acontecer nessas mudanças em um primeiro ano. Entretanto, deu para notar que a escola quer estar pronta de qualquer forma.

Presidente Antônio Ka

“Na verdade, foi muito difícil, falei no microfone, não sei se gravaram, mas assim, eu como presidente, todos esses anos, foi o mais difícil. Mas dividido a diretoria, bateria, foi o mais difícil de todos, então foi muito louco. Fomos no critério mesmo do regulamento, para tentar vir com o regulamento debaixo do braço. E hoje assim, vamos trabalhar muito para não errar, fazer um carnaval diferente, mudamos o conceito de mudança de samba. Fomos para um lado diferente que vínhamos. Tinha um samba nosso já meio característico da escola, e optamos por um lado diferente, não ficar na mesmice, a gente vem renovando algumas coisas, alguns setores, e agora é pedir para Deus. Estamos trabalhando muito, e vamos pedir para que dê tudo certo, que a gente consiga alcançar nosso objetivo maior que é voltar para o Especial”, contou.

Direção da Colorado do Brás

Ka também revelou que, apesar da disputa acirrada, tiveram dois que a comissão julgadora ficou mais dividida. “A gente sabe que o samba 5 e o samba 1, foram os mais funcionais dentro da comunidade. Os dois que mais ficamos divididos realmente. Mas os quatro sambas escolhemos a dedo mesmo, tinham treze sambas, e falamos qualquer um dos quatro sambas tem condições totais de ir para a avenida. Então assim, fomos por detalhes, realmente, qual samba que tinha que mexer menos, qual samba que ia estar em uma crescente, o samba mais funcional e chegou no consenso no final, depois de muito tempo, você acompanhou, que era o samba 1 neste momento, o melhor para a escola”, completou.

A obra e a chegada na escola

O intérprete Léo do Cavaco, que está indo para o seu segundo Carnaval pela escola, também falou da dificuldade de escolher, mas enalteceu a obra, dizendo que é a essência da Colorado, com uma característica alegre.

“Foi um processo tranquilo e complicado ao mesmo tempo. Tranquilo pelo fato que tivemos grandes sambas, acredito que isso influenciou na qualidade da disputa. Conversando entre nós mesmos chegamos em um consenso que foi a escolha mais difícil que tivemos na escola, até em ano que eu não estava ainda. Mas o samba 1 tem muito a cara da escola, a cara da Colorado alegre, para frente, um samba valente. Os outros sambas também eram muito bons, então foi muito difícil escolher. Mas acredito que escolhemos o melhor, e se Deus quiser vai dar tudo certo”, disse.

Intérprete Léo do Cavaco

O cantor disse que a agremiação o recebeu muito e contou sobre as questões técnicas, visto que o carro de som será julgado a partir do próximo ano. “Muito boa, feliz, fui muito bem recebido no ano passado, depois de uma saída complicada da X-9. Em um momento que estava até pensando em parar de cantar, não esperava vir para o Colorado naquele momento e apareceu. Parecia que eu já cantava aqui há uns vinte anos. A escola me abraçou muito e eu também. E agora é isso, esse ano carro de som vai ser julgado em samba-enredo, então o trabalho aumenta, temos muita responsabilidade em garantir a nota do samba, fazer uma boa execução, interpretação. Então é isso, começar ensaiar com time de canto, ensaios no estúdio, quadra, de bateria, agora até o carnaval ninguém dorme mais”, declarou.

Acerola de Angola, mestre de bateria estreante na agremiação, está empolgado com o que está por vir. O profissional, que estava no Peruche, opinou sobre o samba e disse que venceu o seu favorito.

“Na minha opinião é o samba mais completo. Os quatro da final dava para chegar na avenida, mas na votação lá em cima a gente escolheu o melhor para a escola. Eu até tinha um diretor de bateria que gostava de outro samba. Mas assim, o samba não é para ele, para mim, presidente, diretor de harmonia e sim para a escola”, disse.

Acerola de Angola, mestre de bateria estreante na agremiação

O mestre falou sobre as disputas junto à comunidade. Foi na contramão das outras personalidades e revelou que é muito mais difícil fazer isso no dia do evento. “Eu costumo dizer que é mais difícil. Eu sou compositor e passo por isso também, porque nem sempre o que o samba ganha é o que o povo quer. Às vezes vence a vontade do povo, mas nem sempre é o melhor no decorrer do projeto, a escola sofre com dificuldades. Não é fácil”, opinou.

Após a escolha, sempre há a empolgação e o desejo de saber como a bateria irá se adaptar ao samba, ainda mais recente, que as bossas, apagões e paradinhas são tão corriqueiros no Carnaval paulistano, até pelas notas a serem atingidas.

Apresentação da parceria vencedora na Colorado

“O procedimento agora é estudar ele. É um enredo muito característico, tem um forró. Para quem não percebeu, tem uma parte que é do candomblé. Dá para fazer duas coisas no mesmo samba e isso nos dá liberdade de criar. Mas o processo é longo e normalmente a gente faz uma parte para o CD e depois vamos trabalhando com mais cuidado, dentro de um regulamento e avenida. A gente tem uma escola para carregar. Lá para outubro e novembro, as bossas estão prontas e vamos ensaiando até o dia do desfile”, contou Acerola.

O diretor de bateria aproveitou para agradecer a agremiação e mostrou ambição. Sente que o Colorado pode buscar o campeonato do Grupo de Acesso. “Eu gostaria de agradecer todo mundo. O presidente fala e eu concordo, pois realmente é uma escola de família. Tive apenas alguns contatos, apesar de estar ensaiando com a bateria. É muito bom estar aqui, a escola está com garra, quer subir e eu falei para o presidente que quero ser campeão e não apenas conquistar o acesso”, declarou.

Sentimento da vitória

É sempre importante ouvir o que os donos da obra têm a dizer. Afinal, eles são os responsáveis por toda a cantoria que as escolas promovem na avenida. É o hino que também irá inspirar fantasias e alegorias. Um dos compositores, Leandro Thomaz, falou sobre o sentimento de vencer a disputa no Colorado do Brás.

Dois compositores que fazem parte da parceria campeã na Colorado

“O que a gente viu aqui foi uma grande festa. A gente ficou muito honrado de alguma forma a ser coroado com nosso samba. Estamos encantados e parece que não caiu a nossa ficha. Depois que acabou a disputa dos quatro sambas, fiquei ali no meu canto preparado para tudo. Até porque a gente não sabe o que se passa na cabeça da diretoria. O samba é 70 ou 80% do desfile. São muitos fatores que passam pela cabeça de um júri que representa a comunidade. Quando essa comunidade acredita no nosso trabalho, não tem maior emoção. A gente pensou em um samba para envolver a comunidade e a arquibancada”, contou.

Leandro explicou detalhes técnicos do samba. Há de se observar, principalmente, a parte em que se cita o Nordeste. “A gente tentou juntar os elementos do enredo, do nordeste. Tentamos fazer uma melodia mais balanceada, que eu acredito que a gente tenta fazer em nossos sambas. Eu acho que a expressão é o ‘Arraiá do Brás’. A gente também usa o carinho, quando se fala da parte ‘Minha escola, Meu xodó’. Talvez tenha sido isso que tenha gerado essa identificação e alegria. Agradeço a todos os nossos parceiros e desejo parabéns aos nossos concorrentes pela grande disputa. Vai ter arraiá em fevereiro e eu estou muito feliz por isso”, explanou.

Leandro explicou detalhes técnicos do samba na Colorado

O compositor explicou a importância de ter uma final apresentada com samba ao vivo, pois para ele é onde tudo acontece, sendo uma simulação de ensaio. “Aqui foi a primeira vez em que o samba foi apresentado ao vivo. Do estúdio até a quadra aconteceu muita coisa. A gente já viu grandes sambas aclamados na internet que foram derrubados na quadra. É aqui que a magia acontece. A simulação do dia da avenida. Temos a bateria e cantores. A ansiedade nos acompanhou, mas que bom que fomos escolhidos. Acima de tudo vamos brincar, não tem coisa mais gostosa do que um arraiá, influência de ritmos e isso já deu samba”, completou.

A Colorado do Brás será a quinta agremiação a desfilar no domingo de Carnaval pelo Grupo de Acesso I. O enredo da escola para 2024 é intitulado como “Os encantos da raiz do Mancadaru”.