Por Will Ferreira e Fábio Martins

Um aniversário sempre é uma data especial, e a comemoração dos 49 anos da Barroca Zona Sul não poderia ser mais marcante. Neste domingo (20), a escola assoprou velas em um bolo verde-e-rosa juntamente com a comunidade – e com muito mais convidados. Na Arena Neguinha, localizada no Jabaquara, a festa também teve shows da Independente Tricolor e da Unidos de Vila Maria. O grande presente, entretanto, foi da agremiação para a torcida e para o mundo do carnaval: o lançamento do samba que embalará o desfile de 2024, com o enredo “Nós nascemos e crescemos no meio de gente bamba. Por isso, que somos a Faculdade do Samba – 50 anos de Barroca Zona Sul”, desenvolvido por Pedro Alexandre, o Magoo. O CARNAVALESCO participou da festividade e entrevistou integrantes de destaque da instituição. São, ao todo, doze compositores: Pixulé, Thiago Meiners, Sukata, Claudio Mattos, Cacá Camargo, Rafa do Cavaco, Fernando Negão, Turko, Dilson Marimba, Wilson Mineiro, Rodrigo Alves e Julio Alves.

Com a palavra, quem compôs

Muito à vontade na quadra da agremiação, Pixulé fez questão de exaltar a obra que ajudou a compor. “Sou suspeito para falar porque sou um dos compositores do samba, e a Barroca vem com um brilhante samba para o carnaval 2024, para falar dos 50 anos. É um samba primoroso, maravilhoso e para emocionar”, comentou o intérprete da instituição desde 2018.

Fotos: Fábio Martins/CARNAVALESCO

Há mais de duas décadas na agremiação, quem também elogiou a obra composta por ele próprio foi Fernando Souza, o Fernando Negão, mestre de bateria da verde e rosa. “Gostei bastante! É um samba bem cadenciado e bonito, gostoso de se tocar. Graças a deus, vambora. Na minha opinião, tudo que eu pensei e vejo na escola, que eu acompanhei, está no samba. É um samba maravilhoso e é uma sensação maravilhosa escrever esse samba, principalmente por ser um dos mais velhos na escola. É o que eu sempre sonhei: participar dos 50 anos da Barroca, ainda mais como mestre da bateria”, comentou o ritmista-mor, que desde 2018 está no comando do segmento – de maneira solo desde 2022.

Diretor musical da agremiação, Cacá Camargo focou mais na emoção e menos na responsabilidade ao citar a obra. Cacá Camargo: “Gera uma apreensão pela expectativa, claro. Sempre que a gente fala de uma data importante, de um enredo tão importante como esse, o pessoal espera um grande samba. Mas, depois, quando a gente começou a se falar, a mandar as ideias sobre o samba, pensamos que, na realidade, não era tão difícil. Era só a gente falar do que a gente sente de verdade. Falar do nosso amor, do povo que jamais te abandonou, bambeia, mas é ruim de derrubar”, comentou.

Famoso compositor de sambas-enredo em São Paulo e no Rio de Janeiro, Thiago Meiners não faz parte de segmentos da Barroca – ao contrário de outros tantos compositores. Ele, entretanto, entrou no tom dos demais para se inspirar – e fez uma revelação. “Acho que o mais importante é o que o Cacá falou. Para você que vai homenagear uma escola, ainda mais uma escola que a gente faz parte há tanto tempo (eu, Cacá e Fernando Negão, por exemplo, temos mais de dez anos de escola), a gente já disputou samba aqui em 2013, quando a escola tava na UESP. A gente tem um sentimento pela escola que é muito grande. E eu falo para todo mundo em São Paulo que a minha escola aqui é o Barroca Zona Sul. Então, quando a gente começou a composição, acho que o principal foi o sentimento. Achar o que a gente sentia pela escola, tirar do peito que a gente sentia para falar de amor, falar de tudo que a gente sentia pela escola. Obviamente isso reflete o sentimento do componente”, afirmou.

Samba na ponte aérea

Residente do Rio de Janeiro, Meiners fez questão de acompanhar o processo criativo de todos os componentes, afirma Cacá. “A gente finalizou o samba numa vez que o Thiago veio. Mas a gente estava sempre conversando à distância, ele lá do Rio e a gente aqui. Ele mandando ideias, a gente juntando as coisas e mudando, mudando, mudando. Desde a primeira concepção até o final. Daí, uma vez que a gente se encontrou aqui, a gente finalizou tudo. Foi muito legal, gravamos também, fizemos uma grande gravação, um grande trabalho. Eu acho que foi um momento muito emocionante, desde o começo do projeto até cada coisinha que a gente foi colocando e foi mexendo, foi mudando. Hoje foi difícil segurar a onda, no lançamento aqui foi difícil, não foi mole não”, emocionou-se.

Mais sucinto, Fernando Negão aproveitou para elogiar o texto que deu origem ao samba, escrito pelo carnavalesco Pedro Alexandre. “Foi bem bacana o processo criativo. Eu estou na escola há mais tempo, desde 2002. Para mim, ficou mais fácil que para os outros rapazes, por eu ser daqui e ter raízes na escola. Foi um belíssimo trabalho, o Magoo disse tudo que a gente pensou. Os compositores se juntaram, veio o Thiago com mais ideias e saiu esse samba maravilhoso”, comentou,

Com a cara da escola – e com muito trabalho

O chamado “samba encomendado” causa muita controvérsia no mundo carnavalesco, e foi dessa maneira que a escola optou por escolher a canção para 2024. Para Meiners, entretanto, tudo valeu a pena. “É o que gente sempre fala, que o samba encomendado exige muito mais da gente que uma disputa. Samba encomendado acaba tendo a participação de todos os segmentos. Desde o Pixulé, bateria, direção de harmonia, direção de carnaval. Todo mundo participa do processo. Então, a gente tem sempre que se adequar a todos os segmentos. Ás vezes as pessoas acham que o samba encomendado é muito fácil e, na verdade, é muito mais difícil. A nossa tarefa de fazer um samba para homenagear os cinquenta anos da escola e agradar todo mundo não é fácil, mas é um processo que vale muito a pena. Hoje, muita gente da escola se emocionou e eu acho que isso é o que vale para gente. Ainda mais nós que somos Barroca da Zona Sul. E foi de emocionar, de verdade”, destacou.

Já Pixulé preferiu contemporizar sobre a encomenda do samba – e, sobretudo, a eterna comparação com as eliminatórias. “Essa modalidade de você compor um samba encomendado te dá mais liberdade a contento dentro do que a escola propõe e o carnavalesco quer. Mas também sou muito adepto de disputas de samba-enredo”, destacou.

Cacá preferiu apontar o sentimento de gratidão dos integrantes barroquenses em relação à obra confessando uma surpresa que virá em breve nas redes sociais da agremiação. “O Thiago passou mais por isso, eu passei por isso já algumas vezes. também. De você estar andando pela escola e o componente fala agradecer inúmeras vezes pela canção. Passei por isso várias vezes na terça-feira aqui mesmo, quando a gente gravou um coral com o povo, eu passei muito por isso. Eu e o Pixulé éramos os únicos compositores que estavam aqui no dia. Então, o pessoal vem, aperta a nossa mão, agradece. Hoje eu vi muita gente fazendo isso com o Meiners, também. É um sentimento único”, comentou.

Coral?

Na terça-feira anterior ao lançamento do samba-enredo para a comunidade, alguns integrantes da Barroca Zona Sul foram chamados para participar de uma gravação especial. Dentre eles, estavam Marquinhos Costa e Lenita Magrini, casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação. Para ela, chamou atenção o completo sigilo solicitado. “Nós viemos gravar um coro para um vídeo que vai ser divulgado oficialmente para o Barroca. Não pudemos sair com letra, áudio, nada. Nem sequer podíamos entrar com o celular”, comentou. Marquinhos complementou. “Nós ouvimos na terça-feira e, depois, ouvimos aqui, junto com a comunidade”, relembrou.

Arrepios e emoção

A sensação de todos os integrantes barroquenses ouvidos pelo CARNAVALESCO a respeito do samba vai além da qualidade da canção. Os componentes deixaram claro o quanto a canção é, acima de tudo, inspiradora a ponto de mexer com os sentimentos de cada um deles.

Ewerton Rodrigo Ramos Sampaio, o Ewerton Cebolinha, presidente da agremiação desde 2014, foi um deles. “O samba é uma obra de arte! Já estávamos trabalhando junto há um longo tempo, acertamos mais uma vez em mais um ano. É um belo samba, forte. Se Deus quiser, vai ser um dos melhores sambas do carnaval de São Paulo”, prometeu.

O casal que carrega o pavilhão verde e rosa concordou. “É um samba de arrepiar, principalmente para quem é da escola. É um samba muito lindo, muito marcante, que conta, realmente, a história do Barroca, e remete ao orgulho barroquense”, destacou Lenita. Focando na história de Sebastião Eduardo do Amaral, o Pé Rachado, um dos fundadores da agremiação e dos grandes baluartes do carnaval paulistano. “Eu acho muito legal porque é um samba que foge do padrão São Paulo. Ele está em uma pegada diferente, mas que também é bonita e traz uma energia na dança. Traz a sensação do orgulho do Pé Rachado, personagem principal do enredo, de contar aquela história. É muito legal ver o personagem contando o enredo, é ele voltando e contando a história do que foi construído na ótica dele. É legal e bem marcante”, comentou.

Trecho destacado

Ao contrário da maioria dos sambas-enredo contemporâneos, a obra começa a ser executada após o chamado “refrão de cabeça”, diretamente na primeira estrofe. E foi justamente o primeiro verso que foi citado como um dos mais marcantes por dois componentes de fundamental importância na verde e rosa.

Ao ser perguntado diretamente sobre o trecho favorito na obra que ele ajudou a compor, Pixulé tentou contemporizar, mas fez uma citação. “Acho que não tem uma parte especial porque todos os trechos são legais. É bacana a cabeça, que diz ‘Prazer, eu nasci Sebastião’, porque nisso já dizemos quem sou eu. É um trecho maravilhoso. Todo o samba é maravilhoso, não tem como desenhar o melhor trecho, não dá” (risos), afirmou.

Marquinhos, enquanto falava da responsabilidade de defender o pavilhão da instituição no desfile de 50 anos da escola, citou o mesmo verso – em um momento marcante para ele. “O peso é muito mais no sentido de corresponder o que as pessoas fizeram pelo Barroca até agora. É muito louco nós estarmos fazendo a parte do samba que diz ‘Prazer, eu nasci Sebastião’, com a família do Pé Rachado nitidamente emocionada quando paramos para dançar na frente deles. Essa é a responsabilidade, de representar, através da nossa paixão pela dança e pela Barroca, o sentimento deles e toda a batalha. O pavilhão carrega a história de toda a escola, ainda mais em um jubileu de ouro. O Ednei Mariano, que me conta as histórias de tudo que ele viveu aqui, o mestre Gabi, que passou por aqui… imagina, eu estou dançando, com o pavilhão que também dançaram Gabi, Pé Rachado, Ednei… Jocimar Martins, Marcelo Silva… é muita gente que tem história no carnaval e, agora, estamos representando todos eles. É o desfile para chegar e desfilar com esse orgulho”, comentou, destacando outros históricos mestre-sala que já passaram pela Faculdade do Samba.

Responsabilidade

Torcedora declarada da Barroca, Lenita também falou sobre a responsabilidade de ostentar o pavilhão barroquense citando o baluarte – que, no enredo, é uma espécie de fio condutor passando por toda a história da instituição. “Eu acredito que, para nós dois, é a mesma sensação. É um peso redobrado porque sempre carregamos o peso de ostentar o símbolo máximo, mas ostentar o símbolo máximo no Jubileu de Ouro da escola, a escola trazendo a sua história, o nosso grito de guerra, a força, Pé Rachado… dobra o peso. É aquela responsabilidade de que o Pé Rachado fundou a escola e nós temos que mostrar que nós somos a escola, o pavilhão é a escola. É um peso redobrado, vai ser um trabalho redobrado, mas com muita gratidão por nós sermos os escolhidos para carregar o pavilhão nesse momento da escola”, pontuou.

A responsabilidade também foi um dos pontos citados pelo presidente, que abriu o coração sobre o Jubileu de Ouro da escola. “É uma responsabilidade grande, com certeza. Na realidade, falo para todo mundo, há tempos, que era o carnaval que eu sempre sonhei. Há quinze anos eu já pensava nisso, tinha ideias, nem era presidente na época. Eu pensava em como falar da escola nos 50 anos. Calhou de dar certo, a energia positiva sempre acontece. É sempre acreditar, uma hora chega… e aconteceu. Hoje eu sou presidente, a escola vai completar 50 anos, o jubileu de ouro, e estamos bastante contentes com esse enredo e com esse samba. Agora, vamos trabalhar”, comentou Cebolinha.

Trabalho apenas no início

Diversos segmentos ouvidos pelo CARNAVALESCO destacaram que, embora o aniversário e a apresentação do samba sejam um evento festivo, ainda há muito a ser feito. Um deles é Fernando Negão, que já vislumbra como será a apresentação dos ritmistas no desfile. “As ideias para a bateria já vêm na cabeça, já que eu fui privilegiado por ser um dos compositores do samba e, também, o mestre de bateria. Aí eu penso o que pode ser encaixado, fui passando algumas outras ideias para os compositores e saiu esse samba maravilhoso, belíssimo. A bateria, aliás, já está mais ou menos encaixada no samba”, destacou.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira foi mais enfático ao destacar que os próximos meses serão árduos. “Agora começa a correria mesmo! Agora temos a letra, o enredo, é agora que vamos realmente buscar o que fazer na avenida e aperfeiçoar os passos. Vou até denunciar aqui: na primeira vez que escutamos o samba, o Marquinhos já olhou para mim e pensou em coisas para fazermos, já que fica na cabeça”, revelando um bastidor sobre o parceiro de dança. Ele próprio complementou. “Agora fica mais objetivo, já que sabemos a cadência em que dançaremos. Uma coisa é dançar sambas de outros anos, com andamentos mais lentos e rápidos. Agora, sabemos a pegada em que viremos na avenida, que melodia teremos para dançar. Agora, tudo que fazíamos abertamente vai afunilando, vai ficando mais objetivo, já pensando na linha que faremos para o desfile, tanto na pista quanto para o jurado”, comentou.

Revelando os próximos passos da agremiação, Cebolinha comentou que a parte estética do desfile já está sendo pronta para 2024. “Já temos ensaio na próxima semana, já vamos começar a trabalhar e dar início aos ensaios. Já vamos tocar, a escola está trabalhando, fazendo fantasias e alegorias. Devagarzinho vamos andando”, disse.

Papo reto

Irmão de Rodrigo Meiners, carnavalesco da Barroca entre 2020 e 2023 e atualmente nos Gaviões da Fiel, Thiago pontuou que a obra que leva o sobrenome da família traz uma sensação ainda mais especial. “Tenho um carinho muito grande pelo carnaval de São Paulo porque o meu irmão é carnavalesco daqui. Tenho uma relação muito boa com ele, e ele era carnavalesco da escola. Então eu sempre venho para São Paulo no carnaval. É um trabalho que é gratificante principalmente como eu falei no início eu sou Barroca da Zona Sul. Desde 2014 e 2015. Então, vou fazer o samba em homenagem aos cinquenta anos da escola é um orgulho muito grande”, revelou.

Já Cebolinha deixou claro que, caso a obra para desfile especial não estivesse a contento, não hesitaria em tomar medidas drásticas. “Não teve pedido algum porque a parceria já compõe esse samba há muito tempo. Caso eu não tivesse gostado, já pediria para mudar. Sou um pouco chato e sistemático, até a hora em que eu percebi que estava legal para todos, vambora”, finalizou.

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