O Morro da Casa Verde foi a quinta escola a se apresentar na noite deste domingo, 17 de fevereiro, em desfile válido pelo Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo 2023. Com destaque para o belo e bem desenvolvido conjunto alegórico, a comunidade da Casa Verde brincou o Carnaval celebrando as governanças hereditárias através do enredo “Dynasteia. História, Poder e Nobreza”.
Comissão de Frente
A comissão de frente da Morro veio com todos os seus componentes vestidos de soldados medievais com lanças, representando de forma lúdica aqueles que seriam os guardiões da palavra dinastia. Uma coreografia com movimentos de sincronia arriscados, mas que funcionaram bem ao longo da apresentação. A escola foi apresentada pelo grupo cênico principalmente no desfecho do samba, que faz referência a dinastia presente dentro da própria escola, que sempre foi presidida por membros da mesma família. A única observação que pode ser feita seria a ausência de algum elemento que ajudasse o público a entender verbalmente a proposta da comissão, na forma de texto ou simbologia.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal do Morro da Casa Verde, formado por Leonardo Silva e Júlia, veio vestido como imperadores romanos. A dupla teve bom desempenho nos dois primeiros módulos, com movimentos bem sincronizados, cortejo correto da parte de Leonardo e giros com elegância da parte de Júlia. O casal apresentou bem o pavilhão aos jurados e ganhou aplausos do público com sua atuação.
Harmonia
A sensação que ficou é a de que a comunidade da Verde e Rosa não entrou no clima do desfile. O canto da escola foi muito frio, com cantar discreto até mesmo em alas com passos marcados. Um componente da ala que fez referência a dinastia chinesa foi exemplo claro disso, ao simplesmente ignorar movimentos que todos os demais desfilantes do segmento faziam, além de sequer mover a boca. Os poucos momentos de redenção do coral da Casa Verde foram na parte final do samba, que é forte e com grande valor para a própria Morro.
Enredo
“Dynasteia. História, Poder e Nobreza”. Um enredo sobre grandes governanças que marcaram a história vinculados a um elo sanguíneo, de sucessão hereditária, dentro de uma só família. Mesmo que houvesse uma especificação dentro da proposta, é praticamente impossível desassociar dinastias de reinados e impérios, o que torna os dois tipos de enredo muito parecidos.
Dito isso, o tema escolhido pela Morro da Casa Verde acabou por proporcionar uma interessante oportunidade para homenagear as chamadas “dinastias do samba de São Paulo”, na figura de três escolas de samba que sempre foram presididas por membros da mesma família, sendo uma delas a própria Morro da Casa Verde, que foi fundada pelo pai de Dona Guga e também foi liderada por muitos anos pela própria. Além da Verde e Rosa, Mocidade Alegre e Rosas de Ouro foram homenageadas no último carro da escola.
Um enredo no geral de fácil leitura, apesar da ausência no começo do desfile de elementos que esclarecessem a proposta com exatidão. Impérios da antiguidade, reinados de séculos mais recentes e até a homenagem proposta foram compreensíveis através das fantasias e alegorias, tendo um desempenho agradável do ponto de vista cultural. Só ficou um pouco confuso entender o porquê a Morada do Samba foi representada por uma ala convencional e a Roseira pela ala de passistas, porque no caso da segunda a percepção da homenagem necessitou de um olhar mais apurado do que o esperado para o público em geral.
Evolução
Nesse quesito, a Morro não tem com o que se preocupar. Todo o desfile transcorreu com muita tranquilidade, com a direção controlando bem o andamento do início até o fim. Recuo de bateria bem executado, alas bem compactadas e desfile encerrado sem maiores preocupações. Componentes tiveram liberdade para brincar o Carnaval e não houve interrupções de movimento desnecessárias.
Samba-Enredo
Juninho Branco defendeu o samba da Morro da Casa Verde como um soldado digno da dinastia de Dona Guga. Grande desempenho da ala musical da Verde e Rosa, com um samba de fácil interpretação, que começa pedindo a Deus inspiração para falar daqueles que utilizaram do divino para autodeclaração como enviados dos Céus. Os versos do samba se encaixaram bem ao longo de todo o desfile, com destaque especial para o refrão do meio, que todo ele foi claramente observável na fantasia da ala das baianas, principalmente pelos versos “Gira, baiana, brilha feito ouro. Reflete no olhar o seu tesouro”.
Fantasias
As fantasias da Morro retrataram ao longo de todo o desfile os diferentes impérios encaixados dentro da proposta. Infelizmente, ao longo do desfile, várias sofreram com quedas de adereços, o que comprometeu o conjunto e a evolução de componentes. Mas as roupas da Verde e Rosa cumpriram seu papel de transmitir a proposta do enredo com clareza e didática, a exceção da já citada ala em referência à Rosas de Ouro, representada através dos passistas com elementos muito sutis de serem percebidos.
Alegorias
Uma divisão bem clara do desfile através das três alegorias. O Abre-alas representou os impérios, com destaque especial ao Império Romano. O segundo carro representou os reinados, com a Família Real Britânica tendo destaque. O último carro foi a grande homenagem às dinastias do Carnaval, com a presença das lideranças destas escolas, caso de Dona Guga da própria Morro da Casa Verde, Angelina Basílio da Rosas de Ouro e Solange Cruz da Mocidade Alegre. Alegorias simples, mas muito fáceis de serem entendidas. Destaque positivo para o belo conceito do carro Abre-alas, com piso baixo, e que permite ao carnavalesco soltar sua criatividade ainda mais. Falhas de acabamento foram percebidas ao longo de toda Avenida, o que pode comprometer a avaliação do quesito pelos jurados.
Outros destaques
A Rainha da “Bateria do Morro”, Paula Santos, foi mais uma realeza a brilhar no desfile da Casa Verde. Sob a batuta do Mestre Marcel, os ritmistas encaixaram boas bossas ao longo do desfile e contribuíram positivamente para o bom desempenho da ala musical da escola.

Terceira escola a desfilar na Marquês de Sapucaí nesta noite de domingo, a Mocidade Independente de Padre Miguel apostou na brasilidade para homenagear a obra dos discípulos de Mestre Vitalino. A escola apresentou o enredo “Terras de meu céu, estrelas de meu chão”, falando da arte figurativa enraizada no bairro de Alto do Moura, em Caruaru, Pernambuco.
Em seu vigésimo quinto desfile pela Mocidade, a baiana Vilma da Silva, de 58 anos, se mostrou bastante empolgada com o figurino da ala. “Há muito tempo que a gente não vem com uma fantasia assim… Linda, totalmente dentro do enredo, bem leve, boa pra gente dançar. A gente vai ter uma bela desenvoltura e vamos arrebentar. A nossa expectativa está lá em cima!”.










O quarto carro alegórico da Mocidade representou a fé e arte sacra feita de barro com o nome “O nosso barro sacro de cada dia”. A frente da composição tinha a representação do espírito santo e todo carro se assemelhava a uma igreja com esculturas de anjos e santos simulando barro. Além dos tons terrosos, a alegoria fez uso do dourado nos detalhes barrocos e do prateado das estrelas do alto do carro. Quem deu o tom verde foi a vestimenta da velha-guarda da verde e branca da Vila-Vintém que desfilou nas laterais simbolizando os “Devotos de São Sebastião”.
Há oito anos na velha-guarda, Regina Célia acha que o carro da velha-guarda é o mais bonito que vai passar na Sapucaí. Para ela, religiosidade e velha-guarda têm tudo a ver.
“O meu ritual é fazer a minha oração em casa, no altar que eu tenho. E só”, disse ele que tem a fé inabalável e compra o enredo da Mocidade, mesmo que reverencie outras religiões.
Com o enredo “Terras de meu céu, estrelas de meu chão”, a Mocidade Independente de Padre Miguel trouxe para a Marquês de Sapucaí o legado dos discípulos de Mestre Vitalino, da região de Alto do Moura, em Caruaru/PE. O bairro possui o maior Centro de Artes Figurativas das Américas, abrigando a Casa-Museu Mestre Vitalino, o Memorial Mestre Galdino, além de ateliês, bares e restaurantes de culinária regional pernambucana.
Ana Paula, de 41 anos, desfila há mais de 15 anos na Mocidade e aprovou tanto a indumentária, quanto a coreografia da ala. “Está bem bonita. Tem uma parte que a gente vai contracenar a procissão, o choro, a tristeza, a alegria…”. Ela contou que os ensaios da ala de passo marcado foram realizados na Cidade do Samba e na quadra da escola.
Laís Andrade, de 33 anos, revelou um pouco da coreografia da ala. “Basicamente a gente representa a vida no campo, então tem uma parte que a gente encena como se estivesse capinando, cortando… Tem um pouco dessa representatividade. A ala tem pá, tem enxada, tem guarda-chuva… São várias coisas!”.
A Mocidade Independente de Padre Miguel trouxe para as suas primeiras alegorias o emprego de materiais reciclados ou alternativos. O abre-alas, por exemplo, usou o equivalente a cinco caminhões de galhos, enquanto o segundo carro recorreu a latas de tinta, cola e resina para construir o efeito no corpo do boi. Os componentes ficaram encantados com as soluções artísticas encontradas pelo carnavalesco Marcus Ferreira.
Esta primeira alegoria é chamada “Um jardim no agreste floresceu e se fez um mundo de barro…”. Ela criou o cenário imaginado pelo homenageado Mestre Vitalino dentro do Agreste Pernambucano. O carro é um conjunto de três composições acopladas em tons de laranja e marrom, acentuando a conexão com o barro e o sertão. Ripas de madeira pintadas e cruzadas constituem deram o tom de originalidade ao visual. Além disso, cabeças de “barro” foram esculpidas na base. Uma gangorra de bonecos do Alto do Moura se destacava em cima do carro dando um efeito de movimento. Cactos em laranja e amarelo de espuma geram uma maior aproximação com o ambiente sertanejo.
“O carro está lindo! Todos os carros estão lindos. A escola está linda, estamos muito animados. Fiquei muito emocionada. Foi feito com muito carinho e dedicação”, exaltou a desfilante.
Marta Janete, de 56 anos, participou ativamente como voluntária nesses últimos dias na confecção de fantasias no barracão. O amor pela Mocidade a fez amar ainda mais o carro em que ela desfilou.