Bate-Bolas ampliam espaço na cultura fluminense e são contemplados pelo Governo do Estado em edital de carnaval
A fantasia é multicolorida. Alguns carregam uma bola de borracha, outros uma sombrinha com a mesma estampa da roupa. Os bate-bolas, também chamados por Clóvis, são personagens tradicionais do Carnaval e marcam presença todos os anos pelas ruas dos bairros do subúrbio carioca e de cidades da Baixada Fluminense e do interior. A representatividade é tamanha, que há dez anos foram considerados patrimônio cultural do Rio. Este ano, pela primeira vez, as turmas de bate-boleiros do Estado do Rio de Janeiro foram contempladas pelo edital “Folia RJ 2023”, realizado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa.

“O Carnaval é uma importante manifestação de nossa identidade cultural. Nada mais justo do que os bate-bolas, que são personagens típicos da festa, fossem incluídos no edital. Eles são um verdadeiro fenômeno cultural, que se manifestam de forma alegre e irreverente para toda a população”, afirma o governador Cláudio Castro.
Ao todo, 117 turmas de bate-bolas se inscreveram para as 100 vagas abertas no edital. Entre os grupos, 77 cumpriram com as exigências estabelecidas e 40 foram desabilitados. O investimento total nos famosos foliões fantasiados é de R$ 1,925 milhões, garantindo o valor de R$ 25 mil para cada projeto aprovado.
“Pela primeira vez o Estado vai contemplar representantes de bate-bolas em todo território fluminense. Este processo é fruto do trabalho que temos realizado, de escuta e identificação das demandas da população. Além disso, a iniciativa celebra a cultura rica e plural do Rio de Janeiro”, destaca a Secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros.
O número de componentes de cada turma varia. Há grupos com 10 e outros com mais de 300 integrantes. São homens, mulheres e crianças mascarados com belas fantasias, que despertam a curiosidade de quem os encontra pelas ruas, provocando um misto de adoração e terror. São palhaços com rostos encapuzados, mas vestidos delicadamente com volumosos macacões de cetim, luvas, meias e penas coloridas, além de casacas com desenhos infantis feitos à mão e cheios de purpurina. Eles passam o ano inteiro costurando as próprias roupas, longe do Sambódromo e fora do sinal das transmissões oficiais de televisão.
Tanta dedicação exige tempo e muito investimento. De acordo com o bombeiro hidráulico Leandro Machado, de 36 anos, que há 23 é bate-boleiro da ‘Turma Encanto de Mesquita’, cada fantasia pode custar mais de R$ 2 mil para ser confeccionada. São gastos, em média, 20 kg de tinta, sem falar nas purpurinas e outros adereços. Para Leandro, ter sido contemplado pelo edital do Governo do Estado foi uma grande alegria.
“Esse edital do Governo do Estado do Rio de Janeiro, pra nós, bate-boleiros, é de muita importância. Nós nunca tivemos a ajuda de nenhum órgão público. Não temos só o gasto com a fantasia, também gastamos com o aluguel de ônibus, fogos, som, pula-pula para as crianças, e até para música. Só que a maioria da galera é assalariada, então, essa ajuda está caindo do céu. É muito bom ter esse apoio do Estado porque é uma cultura que a gente ama muito. Eu amo desde criança e, pela primeira vez, em 23 anos usando essa fantasia, fazendo, produzindo, me empenhando, a gente vai ter um incentivo”, diz Leandro, que ainda construiu uma família no mundo dos bate-bolas.
“Eu poderia caçar aqui mil palavras pra tentar explicar esse amor, mas é um amor que muitas pessoas não têm nem noção do que é o bate-bola pra gente, que ama esse personagem de verdade. O mundo dos bate-bolas me deu uma família. Conheci a minha esposa no Carnaval e estamos há 15 anos juntos, com nossos três lindos filhos. Então foi nesse mundo, do Carnaval, no mundo da fantasia, que eu a conheci. O bate-bola é um sonho”, completou.
Se para o representante da ‘Turma Encanto de Mesquita’ o Carnaval rendeu uma família, para o cabeça da turma de bate-bolas ‘Luxúria de Rocha Miranda’, o produtor cultural e também bate-boleiro Rafael Crispim, o Carnaval trouxe muito mais. No barracão onde produz e confecciona as fantasias e adereços, Rafael emprega 12 pessoas, como costureiras, aderecistas, auxiliares de produção e estamparias, formando uma grande família. A maioria, jovens do bairro, que além de aprender uma profissão, ainda contribuem para o orçamento de casa. Rafael e sua turma chegam a trabalhar 16h por dia, para que no Carnaval possam levar alegria aos foliões.
“Eu comecei no bate-bola em 2013. Então, lá naquela época, comecei a fazer um bate-bola diferente, e o pessoal começou a me procurar para fazer igual. Como foi crescendo, fui precisando de mão-de-obra e fui chamando pessoas para me ajudarem. Fui ensinando, eles estão aprendendo, vou capacitando e tirando também os jovens da rua para me ajudarem, terem dignidade”, diz Crispim, que vende a roupa do ano para quem tiver interesse ou doa às crianças do bairro. Ele faz questão de frisar que fazer parte do Edital “Folia RJ 2023”salvou o Carnaval dele e de outras pessoas.
“Eu perdi muita coisa por causa da chuva. Agradeço demais ao Governo do Estado por essa ajuda que eles estão dando. Antigamente o material era barato, depois da pandemia duplicou. O metro do acetato era R$ 7, está R$ 18. A gente comprava o material por um preço e virou outro. Então, todo bate-boleiro que pegou esse edital vai conseguir colocar uma fantasia de qualidade na rua. Esse dinheiro do Governo do Estado vai me ajudar e ainda poderei contribuir com os meus componentes. Esse edital aí é uma maravilha, vocês não sabem a alegria que estou sentindo”, comemora.
Para conquistar novos adeptos ao universo dos bate-bolas, Hugo Soares Pereira, de 37 anos, criou até um podcast para propagar a cultura dos grupos. Ele conheceu esse meio ainda bem pequeno, vendo a mãe costureira fazer várias fantasias para as turmas de foliões mascarados de Realengo, na Zona Oeste da capital.
“Todo mundo conhece a minha história. Eu cresci vendo a galera saindo de bate-bola, costurando, confeccionando e, por isso, ficou essa paixão até hoje. Logo após a pandemia, comecei a perceber que os bate-bolas são muito carentes de audiovisual. Criei um podcast e convidei todas as turmas de bate-bolas pra contarem as suas histórias. A importância do podcast é divulgar ainda mais a cultura. Eu não tenho bandeira, sou bate-bola. E não só propagar a cultura, hoje quem está por trás das máscaras são trabalhadores. A ideia é mostrar isso para o mundo, para outras partes que não conhecem a cultura bate-bola. Esse edital ajuda esses trabalhadores. Para montar um bate-bola é muito caro e o edital está trazendo para eles essa ajuda a mais, esse plus, para continuar essa tradição”, declarou Hugo.
Aline Midlej e Rodrigo Bocardi comentam suas estreias na transmissão dos desfiles de São Paulo
O carnaval Globeleza, a festa de todo mundo, a partir desta sexta-feira, 17 de fevereiro, volta a exibir novamente para todo o Brasil os desfiles das escolas de samba do grupo especial de São Paulo e a transmissão ganha uma nova dupla de apresentadores: Aline Midlej e Rodrigo Bocardi. Os dois estreantes fizeram um reconhecimento da área, sagrada para muitos sambistas, no Anhembi, e falaram sobre a expectativa para a festa. “Espero honrar a trajetória do carnaval de São Paulo, minha terra, com o mesmo amor que tenho sentido a cada visita nos barracões”, comentou Aline, ao lado do colega pronto para revelar uma faceta menos conhecida do público. “O que me motivou a aceitar esse convite, primeiramente, foi a questão de ter a possibilidade de extravasar esse meu lado descontraído de trabalho, que existe um pouco no ‘Bom Dia São Paulo’, no ‘Bom Dia Brasil’, mas sempre com alguma limitação que o próprio jornalismo requer. O carnaval nos abre uma possibilidade maior de interação e proximidade com o público”, acredita ele.

Na sexta-feira, dia 17, e no sábado, dia 18, a transmissão começa após o ‘BBB23’, e Aline e Bocardi ainda terão a companhia de Ailton Graça, Alemão do Cavaco e Celso Viáfora, que fazem os comentários sobre o desempenho de cada escola. Confira abaixo as entrevistas exclusivas da nova dupla de apresentadores do carnaval de São Paulo.
Como é sua relação com carnaval?
Aline Midlej: O carnaval compõe minhas melhores lembranças de infância, uma paixão desde quando meu pai me levava aos bailes com ele, na Bahia, e lá estava eu cheia de purpurina, vestidos com uma saia de tule bem espevitada. Tenho provas! (risos). Já adulta, além de curtir a festa, me conecto muito com a identidade cultural do carnaval, que fala sobre nós, sobre gente, nossa história é desafios. E essa grande festa está cada vez mais olhando para as realidades do país e isso é muito potente. Amplificar essa magia para o Brasil com a minha voz e coração é um presente.
Rodrigo Bocardi: Minha relação com o carnaval até então tinha sido nas transmissões como repórter, na maioria das vezes na concentração, na bateria, envolvimento de algumas reportagens no calor do desfile. Com esse compromisso de fazer a narração do carnaval de São Paulo, fui me aprofundar, ouvir as histórias das escolas, do samba, do enredo de cada uma delas. E é um aprendizado, preciso fazer um agradecimento por tanta riqueza compartilhada. Fico até emocionado e agradecido por tudo isso. Deveria ter me aprofundado mais no carnaval desde sempre. Estou fascinado com o que eu tenho ouvido agora, tanta pesquisa, tanto conhecimento, tanto estudo numa arte tão rica que é o carnaval. Estou feliz e com o compromisso de aprender cada vez mais e compartilhar isso com o público. Botei na cabeça, que meu objetivo é tentar fazer com que pessoas, que como eu que não dedicaram tanto tempo ao conhecimento do carnaval, possam fazer isso, porque é fascinante.
Já desfilou?
Aline Midlej: Nunca! Já recebi convites, mas sempre havia alguma incompatibilidade. Esse ano mesmo a Viradouro me convidou para desfilar num carro que irá homenagear personalidades pretas, mas a agenda em São Paulo inviabilizou. Uma experiência a ser concretizada!
Rodrigo Bocardi: Não desfilei, apenas assisti, mas agora estou começando a ficar com vontade. Nessas visitas que eu fiz aos barracões, comecei provar algumas fantasias, fazer umas brincadeiras ali, e fora que você vai entrando nesse clima todo e dá vontade. Eu acho que depois de fazer uma narração de uma noite inteira de várias escolas, acho que isso esse desejo só vai aumentar.
Como foram as visitas aos barracões?
Aline Midlej: Eu imaginava que seria importante para a nossa preparação, mas foi muito mais que isso. É uma imersão nos enredos, nas trajetórias das escolas, mas, também, nesse universo carregado de paixão e criatividade. É lindo ouvir os carnavalescos, o caminho das suas criações e imaginar isso se construindo na Avenida. Fui a um ensaio técnico também, o que completou a missão. Carnaval é amor e tudo tem uma razão de ser, para entender é preciso vivenciar de verdade.
Rodrigo Bocardi: As visitas foram riquíssimas. Exatamente por esse conhecimento que você vai adquirindo pelo compartilhamento de tudo aquilo que essas escolas estudaram durante o ano todo e desenvolveram. O que me chama atenção é o tanto de dedicação e de busca pelo conhecimento para poder desenvolver o enredo escolhido pela escola e a transformação em um enredo, em um grande desfile. Isso requer muita criatividade, muito conhecimento e essas pessoas vão muito a fundo. Isso vai desde ala a ala. Cada uma guarda uma história, cada detalhe, cada ponto de costura tem a ver com a história ali, a ser contada, a ser desenvolvida.
Chegou a conversar com outros apresentadores?
Aline Midlej: Eu e Maju Coutinho trocamos algumas ideias antes da minha ida para São Paulo. Foi ótimo, sempre abre horizontes. Mas acho que acaba sendo uma entrega muito pessoal e particular de cada apresentador, o que garante personalidade e frescor pra transmissão. O público só ganha. Espero honrar a trajetória do carnaval de São Paulo, minha terra, com o mesmo amor que tenho sentido a cada visita nos barracões.

