Freddy Ferreira analisa a bateria do Império da Tijuca no desfile
A bateria do Império da Tijuca de mestre Jordan fez um desfile regular. Embora o ritmo produzido tenha sido de evidente qualidade, as apresentações para julgadores poderiam ter sido melhores, principalmente na finalização das bossas executadas. A conjunção sonora da bateria esteve boa, mas a conclusão de arranjos envolvendo o toque de “Machado de Xangô” oscilou pela pista.

Na parte de trás do ritmo, uma afinação de surdos acima da média foi notada. Marcadores de primeira e segunda ditaram o andamento de forma precisa e segura. Os surdos de terceira deram balanço considerável ao ritmo da “Sinfonia Imperial”, que ainda contou com caixas de guerra de qualidade musical, aliada a repiques consistentes. Na cozinha da bateria também haviam ritmistas com timbal, que auxiliou no preenchimento sonoro, tanto do ritmo, quanto principalmente nos arranjos musicais.
A cabeça da bateria contou com um naipe de cuícas tecnicamente privilegiado, que desenha até em bossas esbanjando qualidade musical. A ala de chocalhos adicionou valor sonoro à parte da frente do ritmo. Assim como os tamborins exibiram bom volume, complementando a sonoridade.
Uma bossa na cabeça do samba deu impacto sonoro à “Sinfonia Imperial”, utilizando a pressão dos surdos e de tapas em conjunto de outros naipes, além do swing das terceiras. Vale menção musical ao toque extremamente envolvente dos ritmistas com timbal, numa construção musical complexa, mas bem realizada.
Um casamento musical dos timbales com o ritmo da escola do morro da Formiga também foi evidenciado na paradinha do final da segunda, que é finalizada durante o refrão principal. Um arranjo musical bem feito e melhor ainda executado.
Como forma de dar dinamismo ao ritmo, foi possível notar uma subida de três um pouco mais elaborada, permitindo fluência entre os naipes após ser executada. Uma nuance rítmica envolvendo os surdos também foi percebida na segunda do samba.
Um solo de timbales atrelou a sonoridade da “Sinfonia Imperial” ao que solicitava tanto o enredo, quanto principalmente a obra da escola. No trecho que se repete após o refrão do meio “Tambor, Ogã” houve um solo dos ritmistas com timbal, após tapas dos tamborins. Sua execução infelizmente se mostrou inconstante pela pista por causa da retomada, pois sem os surdos o ritmo não tinha referência alguma para manter o andamento. Na hora da finalização, fazendo um “Machado de Xangô”, foi possível perceber algumas imprecisões rítmicas. A mesma conclusão era realizada na paradinha do refrão do meio já na segunda do samba. A convenção é iniciada com tapas em conjunto que eram efetuados na primeira passada. Na segunda passada, tamborins e chocalhos ajudam a consolidar o ritmo.
A melhor apresentação da bateria do Império da Tijuca foi no último módulo. É importante ressaltar que, pouco antes de chegar no primeiro módulo de jurados, caixas de som inconstantes e irregulares prejudicaram nitidamente a bateria do Império da Tijuca em uma bossa com solo dos timbales. Os ritmistas se mantiveram concentrados e cantando o samba-enredo, para contornar a sonoridade cambaleante tão próxima de uma cabine. No segundo módulo, uma imprecisão rítmica foi notada na finalização de uma bossa executando um toque conhecido como “Machado de Xangô”. O problema é que isso ocorria após um solo dos timbales, quando a bateria ficava sem a referência do andamento ditado pelos marcadores. Um desfile da “Sinfonia Imperial que poderia ter sido melhor tecnicamente, em frente às cabines de jurados.
Terceiro carro da Império da Tijuca representa o axé da feijoada
O último carro do Império da Tijuca, “No altar da feijoada emoldurados na fé” , representa o axé das feijoadas de Ogum pela obra de Caribé e pela fé da Império da Tijuca. Estão presentes na alegoria: a velha guarda e componentes fantasiados com as cores da escola. Além disso, o carro alegórico é bem colorido e tem um São Jorge imponente na frente.
O representante de São Jorge na alegoria foi Nedilson Safo, comerciário de 60 anos. Nedilson sempre frequenta feijoadas de escolas de samba, principalmente da Império da Tijuca.
“Os escravizados trouxeram a feijoada da África e está até hoje aqui (…) Ogum é um dos patronos da escola, o santo protetor e também está voltado para a feijoada. Eu me sinto honrado”, disse Nedilson.
José Alberto Matias, aposentado de 72 anos, ocupa o cargo de presidente da velha guarda da Império da Tijuca. Para ele, a ancestralidade da feijoada é o grande valor da feijoada.
“Na minha opinião, a feijoada para sociedade brasileira repercute muito por conta da ancestralidade. Nesse momento que estamos vivendo no nosso país, a ancestralidade é tudo (…) A velha guarda é o início de tudo. Se hoje a escola está aqui, é porque nós demos o primeiro passo”, falou Matias.
Lara Lima, educadora física de 53 anos, sempre desfila no carnaval. Esse ano, representando o axé da feijoada, Lara enfatizou o quanto o prato é versátil.
“Todo mundo pode comer feijoada. É uma coisa básica de fazer, dependendo dos ingredientes. Se você tem tudo, você faz uma boa feijoada. Mas, se tem um pouco, você também faz uma boa feijoada (…) É uma satisfação, um respeito pela escola”, expressou Lara.
Mocidade Alegre leva ‘Yasuke’ ao Anhembi com desfile marcado pela fantástica narrativa teatralizada
A Mocidade Alegre foi a quinta escola a se apresentar na noite deste sábado, dia 18 de fevereiro, pelo segundo dia de desfiles do Carnaval de São Paulo de 2023. O principal destaque do desfile foi a narrativa da saga do lendário “guerreiro com a força de dez homens”, o escravo levado da África ao Japão que se tornou o primeiro samurai negro da história. Um espetáculo teatralizado no melhor estilo oriental, finalizado com uma hora e três minutos. A escola do Limão levou para a Avenida este ano o enredo “Yasuke”. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILE

Comissão de Frente
Batizada de “A miscigenação de duas culturas milenares, África e Japão”, a comissão de frente da Mocidade Alegre teve como objetivo mostrar, através de episódios da saga de Yasuke, como a união dos saberes de ambas as culturas moldou aquele que ficou conhecido como um dos maiores samurais de sua época. Apresentou personagens que compuseram o exército do Daimiô, do qual o guerreiro se tornou líder, um ator atuando como a Sabedoria Ancestral e o próprio Yasuke, que uma vez integrado à cultura japonesa, se une a outros componentes formando assim o “Guerreiro com a força de um dragão”.

O figurino foi um espetáculo à parte. As roupas dos samurais, em preto com detalhes prateados, tinham uma espécie de verniz na pintura que dava ainda mais brilho, e somado às katanas que empunhavam, formavam um belo conjunto. O que se viu na Avenida foi a representação de um teatro tradicional japonês para retratar a saga de Yasuke, com um elemento alegórico representando uma floresta de bambu servindo para alternância entre os atos. Uma comissão de frente bem diferente do habitual, mas sem exageros para poluir o visual. Excelente quesito da Morada do Samba.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Jefferson Gomes e Natália Lago se apresentaram com fantasias que representaram “Nzazi e Nzuzu, o encontro das forças sagradas”. De acordo com a mitologia banto, originária dos povos que viveram em Moçambique, que é onde Yasuke teria nascido, Nzazi é o Deus Pai da Justiça e Nzuzu, a Deusa das Águas e Senhora da Sabedoria. Simbolizaram a justiça feita a Yasuke ao ser reconhecido pelos seus valores e as águas do mar que conduziram o guerreiro ao Japão.

O casal cumpriu com as obrigatoriedades do quesito através de uma dança ritmada de acordo com o andamento dos versos do samba. O cortejo do Mestre-Sala foi feito com excelente encaixe de finalização, somado a giros bem executados e um minueto realizado um de lado para o outro. Nos pontos em que foram observados, não houve falhas de sincronia e nem problemas com o pavilhão, com o casal conseguindo superar o desafio da chuva que retornou para molhar a Avenida ao longo do desfile.
Harmonia
A harmonia da Mocidade Alegre deveria ser estudada pela NASA. Como é possível tantas pessoas cantarem forte do início ao fim de um desfile e ao mesmo tempo de maneira tão empolgada? Parece algo de outro mundo, e somado aos apagões da bateria “Ritmo Puro”, realizados em pontos diferentes do samba, são provas de como a comunidade da Morada é unida e apaixonada por sua escola. Impecável. Os 40 pontos só dependem dos jurados.

Enredo
O enredo da Mocidade Alegre visou contar a saga de Yasuke do momento em que partiu da África em direção do oriente, passando pelo reconhecimento das virtudes do guerreiro pelo daimiô Oda Nobunaga, governante da região de Kyoto no século XVI, sua ascensão ao posto de maior samurai de sua geração até os últimos registros consolidados a respeito da sua vida no Japão. O desfile se encerrou ilustrando como os jovens negros da atualidade contam com virtudes do lendário guerreiro para superar os desafios que a realidade impõe diariamente.

Quando o enredo foi anunciado, o carnavalesco Jorge Silveira garantiu que se trataria de uma mistura de Japão e África. Dados os ingredientes da receita, o que se viu na Avenida foi o contar da saga de um africano como se fosse um gigantesco teatro japonês, com atos que seriam facilmente entendidos em um desfile no famoso Carnaval de Asakusa. Yasuke teve sua história celebrada da forma mais didática possível, com seus valores humanos e de samurai honrados do início ao fim do desfile. O desfecho do desfile contou com um comovente último carro que foi adereçado com diversos bilhetes típicos das árvores dos desejo japonesas, com um portal tradicional japonês e um jovem negro brincando com um origami de pássaro, mas vestindo roupas comuns da juventude atual da periferia.
Evolução
O que a Mocidade Alegre faz quando o assunto é evolução só vendo para crer. A escola desfilou com uma grande volumetria, o desfile passou sem deixar brechas e com andar constante e límpido, e quando o último carro já passava pela Monumental ainda restavam 25 minutos para o fechar dos portões. A direção de harmonia comandada por Magno Oliveira está de parabéns, porque foi certamente a melhor escola neste quesito, com o desfile finalizando em uma hora e três minutos sem causar nenhuma preocupação com o tempo.

Samba-Enredo
Fruto da junção de duas obras finalistas do concurso realizado pela escola, o samba da Mocidade Alegre narra de maneira poética as diferentes passagens do enredo, com irreverência e exaltando os elementos mais marcantes da saga de Yasuke, como no refrão do meio que resume o momento em que o daimiô, após desconfiar da possibilidade de existir um homem de pele preta, manda seus subordinados lavá-lo e, ao se dar conta de que era real, o admira pela sua beleza e o reconhece pela suas virtudes, mostrando como podem ser diferentes as maneiras como povos podem encarar o diferente de si. O desfecho da última parte do samba retratando a simbologia de Yasuke para os jovens negros dos dias de hoje.

Junções de samba costumam ser muito contestadas quando ocorrem, e na Mocidade Alegre é uma decisão rara, com a última ocorrendo para o desfile de 2008. Mas o desfile provou que a aposta foi certeira, e o samba não apenas narrou de maneira linear o que se viu na Avenida como foi completamente abraçado pela comunidade e o público que compareceu ao Sambódromo do Anhembi. A bateria “Ritmo Puro” apostou em várias bossas e apagões ao longo de toda letra da obra, elevando ainda mais o nível do espetáculo.
Fantasias
As fantasias da Mocidade Alegre buscaram representar em sua maioria os personagens e símbolos que marcaram a saga de Yasuke. Uma exótica mistura de elementos africanos com roupagens típicas de enredos que ilustram as culturas orientais se fez presente.

A aposta se mostrou uma receita de sucesso. Fantasias que uniram luxo, facilidade de leitura e leveza para os componentes brincarem o Carnaval de maneira despreocupada. Da parte do enredo que focou na herança ancestral africana de Yasuke, a roupagem foi a esperada para um típico desfile afro. Quando o personagem desembarca no Japão, porém, o padrão das vestimentas muda completamente e passa a apresentar diversos elementos da cultura oriental de forma carnavalizada. Era muito fácil entender o que cada segmento queria contar, fazendo do desfile da Morada do Samba um excelente espetáculo visual e cultural. Destaque especial para a ala das baianas, com as mães do samba representando a Sakura, flor de cerejeira, que estavam incrivelmente belas segurando sombrinhas japonesas.
Alegorias
Os carros alegóricos da Mocidade Alegre serviram de palco para, pontualmente, narrar as passagens mais relevante do enredo proposto. Partindo do Abre-alas, “A saga de Yasuke pelos mares sagrados de Nzuzu”, que ilustrou a viagem do guerreiro para o Japão, passando para o segundo carro, “Na morada de daimiô, a pele retinta de Yasuke reluz a beleza e a verdade”, que fala do momento em que os japoneses perceberam a verdade sobre o herói e se admiraram por isso. O terceiro carro, “Yasuke, o primeiro samurai negro na Terra do Sol Nascente”, é a consagração do samurai africano que ascendeu a um dos maiores guerreiros de sua época, e finalizando com “Na memória de Yasuke, o poder da pele preta”, que simbolizou a presença de Yasuke na essência de superação de cada jovem negro.

Seguindo a mesma linha das fantasias, o Abre-alas, que de acordo com a presidente Solange Cruz foi a primeira vez que veio apenas com as cores da própria escola, era na essência uma alegoria em estilo afro. A parte japonesa do desfile nessa alegoria se limitou às tradicionais máscaras oni japonesas, em elementos rotatórios que do outro lado exibiam máscaras tribais africanas. As alegorias dois e três foram responsáveis por contar o primeiro contato dos japoneses com Yasuke e a sua consagração como grande samurai que foi. O desfile foi encerrado com uma alegoria simbolizando a inspiração da herança de Yasuke para os jovens negros da atualidade, com os bilhetes das árvores de desejo e o origami como simbologia japonesas mais marcantes. Os carros foram todos de leitura muito fácil e de acordo com a proposta apresentada pela escola. Causaram grande impacto no público pela sua beleza, principalmente da terceira alegoria que no topo continha uma maravilhosa escultura de um dragão circundando uma katana. Mais um quesito forte dentro do excelente espetáculo apresentado pela Morada do Samba.
Outros destaques
Um belo momento marcou a arrancada do desfile da Mocidade Alegre. Igor Sorriso deixou o momento aos cuidados de Didi Gomes, voz feminina da ala de canto da escola, que comoveu a todos os presentes com sua voz marcante, que já tinha se destacado nos ensaios técnicos e novamente foi um espetáculo à parte no desfile da Morada do Samba.

A bateria “Ritmo Puro”, com seu sempre impecável desempenho, contou com um capricho adicional nas fantasias. Eram duas roupas diferentes, sendo uma delas específica para os chocalhos. A Rainha da Bateria, Aline Oliveira, também ganhou um presente na forma da sua fantasia, contando com um capacete remetendo ao dos samurais mas com um mecanismo que abria e fechava a parte dos olhos.

Vale um apontamento adicional para o sensacional time da direção de harmonia da Mocidade Alegre. A confiança que eles possuem um no outro é tamanha que a comunicação flui com grande facilidade, com comandos visivelmente fáceis de entender até mesmo na preparação para os apagões. Ao mesmo tempo, os diretores de ala confiam tanto na comunidade que alguns se viram para o público, chamando os expectadores para entrar no canto. É algo de bastidores, mas que impressiona quem acaba observando.
Os componentes da Mocidade Alegre já estão mais do que acostumados a desfilarem duas vezes no mesmo ano, e com base no que a escola apresentou na Avenida em 2023 a recomendação é de que guardem bem as fantasias porque as chances de acontecer de novo são grandes. Um conjunto pleno da mais pura essência da Festa de Momo. Assistir a Mocidade Alegre faz um bem enorme para qualquer apaixonado por Carnaval.
Ilha enaltece carnavais antigos enquanto honra a atualidade
Com um enredo em homenagem à sua escola madrinha, Portela, a União da Ilha do Governador celebrou não apenas o encontro das águias. O desfile se desenvolveu como um grande ato de enaltecimento ao carnaval brasileiro.
O segundo carro alegórico da agremiação, intitulado “O Carnaval de nossas vidas”, encerrou o terceiro setor com um retorno aos carnavais antigos, abraçando a alegria que sempre esteve presente nos cantos da cidade carioca.
Jean Mendes, de 44 anos, se emocionou ao comentar a importância de fazer parte do maior espetáculo da terra. “Estou revivendo tudo que meu pai, minha avó e minha bisavó viveram. Tenho a oportunidade de ter esse momento no presente, e essa é a coisa mais linda do mundo. O carnaval é algo extraordinário. Não há nada como a magia de quando se entra na Avenida”, afirmou.
A alegoria apresentava diversos elementos nostálgicos, mas Thaís Louzada, de 29 anos, comenta que não há motivos para desmerecer a realidade. “Sentimos saudades, mas dentro das quadras o espírito do carnaval é o mesmo. Geralmente desfilamos há anos, com a família ou amigos, então temos esse encontro de pessoas que amamos”, comentou.
Ao serem questionados sobre a importância dos bailes e decorações de rua, ambos saíram em defesa. “É total! Sem isso, esse estado não é o Rio de Janeiro. Depois do carnaval, vou para um monobloco no domingo. Hoje também teve bloco. Estou muito feliz”, informou Jean.
Thaís fez questão de elogiar a pluralidade do carnaval como uma festa cultural. “Tem espaço para a vovó, para o vovô, para o titio… Cada um se sente melhor num tipo de carnaval e aqui temos todos”, concluiu.
Insulanos comentam importância de homenagem à Portela no seu centenário
A união das escolas de samba e a inexistência de rivalidade entre as agremiações cariocas mais uma vez foram destaque na Passarela do Samba. Uma homenagem importante não só por ser madrinha da União da Ilha do Governador, mas pelo seu centenário e imponência na história do carnaval carioca. Assim o enredo “O encontro das águias no templo de Momo” foi definido e justificado pelos componentes da agremiação insulana.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, os componentes da escola da Ilha do Governador comentaram sobre a importância de homenagear a madrinha Portela no ano em que a escola de samba completa cem anos.
Beatriz Oliveira, de 57 anos, faz parte de uma das alas da escola e desfila na União da Ilha do Governador desde 1992. Para ela, mesmo se a Portela não fosse madrinha da escola insulana, a homenagem deveria ser feita pelo pioneirismo e imponência da escola de Madureira e Oswaldo Cruz.
Acho uma ótima homenagem porque, além de ser madrinha da União da Ilha, é 100 anos da Portela. Mesmo se não fosse madrinha, é uma escola com 100 anos, que tem mais títulos, que criou a comissão de frente. É uma escola centenária que merece muito respeito de todos nós”, destacou a componente da escola de samba.
Ela lembrou que diferente de outros meios, no carnaval não existe rivalidade entre as escolas e uma visita a quadra da outra. Segundo a componente da agremiação, a homenagem à madrinha ajuda sim na briga pelo acesso ao Grupo Especial, mas, no fim, tudo depende da União da Ilha do Governador.
“Não tem rivalidade. Teve uma vez que a gente foi, vamos de novo, não tem rivalidade nenhuma entre a Ilha e a Portela. Depende de nós e dos jurados. Mas, se depender da importância da Portela e da imagem dela, isso ajudará bastante nessa briga”, contou Beatriz Oliveira.
Para Luciano, de 52 anos, componente da ala de compositores e que no dia a dia trabalha com setor administrativo, a homenagem é muito válida porque a agremiação insulana, segundo ele, teve origem graças ao apoio da madrinha Portela.
“A homenagem da Ilha à Portela é muito significativa, porque a madrinha da União da Ilha do Governador é a Portela. Ela teve origem por conta da Portela. Por isso, é uma homenagem muito importante, ainda mais pela Portela estar fazendo cem anos”, contou Luciano.
Uma relação de carinho, simpatia e respeito. Para Elisabete Lopes, que tem 67 anos e é baiana da União da Ilha do Governador há vinte anos, a homenagem é muito importante neste centenário da Portela – escola que ela diz ter muito carinho.
“Para mim, é tudo de bom. Eu gosto muito da Portela – que é madrinha da Ilha – e também gosto muito do povo de Madureira. Para mim é uma maravilha essa homenagem, ainda mais neste ano que é o centenário da Portela. No mundo do samba a homenagem é muito bem vinda, porque no carnaval não existe rivalidade”, falou a baiana da agremiação.
Destaque do segundo carro da escola de samba, “O carnaval de nossas vidas”, Eula Rochard disse que é importante homenagear e lembrar de quem ajudou a agremiação.
“Eu acho que você tem que homenagear a pessoa que te colocou no mundo. Como a Portela é madrinha da Ilha, acho que a Portela deu um grande incentivo para que houvesse uma escola na Ilha do Governador. A Portela deu essa vantagem da Ilha se tornar uma grande escola”, pontuou Eula, um dos destaques do carro da União da Ilha do Governador.
Eula lembrou que a escola de Madureira e Oswaldo Cruz foi fundamental para no processo de revolução do carnaval, que antes era marginalizado e considerado algo pertencente ao gueto. Além de lembrar este processo, ela também fez um desabafo sobre o cenário atual da Série Ouro do carnaval carioca.
“É claro que o centenário da Portela torna essa homenagem ainda mais importante. A Portela é a única escola no Brasil que tem cem anos. Não é pouca coisa, é muita coisa. São cem anos lutando. Tem que lembrar sempre que carnaval era coisa de marginalizado, considerado coisa de bandido. A polícia pegava, batia e matava. Era considerado coisa de gueto. Hoje em dia é tudo um luxo, camarote custando 60 mil reais, enquanto hoje a arquibancada está vazia. Por que não deram convites de graça para que essas escolas distribuam nas suas comunidades? Agora a gente entra com a arquibancada vazia, isso é uma vergonha para o carnaval. A gente gasta dinheiro fazendo roupa para chegar e a arquibancada vazia. Dá convite para o povo”, desabafou Eula Rochard.
Ilha promove encontro de águias ao pisar na Sapucaí
A União da Ilha do Governador, sexta escola da Série Ouro a desfilar na Sapucaí neste sábado, 18 de fevereiro, fez uma homenagem para a sua escola madrinha, Portela, que está comemorando o centenário de sua existência.
No abre-alas, foi representado o encontro entre as duas águias num grande salão. Um momento de celebração não apenas das agremiações, como também do carnaval num todo. O amor e as cores de seus pavilhões as uniram.
“Viemos pedir a permissão e benção da ‘dindinha’ para alcançarmos a tão sonhada vitória”, comentou Angelica Vilas-Boas, de 48 anos. Ela desfila pela escola há anos, e já está acostumada com a posição de destaque, mas não falha em agradecer pela oportunidade. “Costumo chamar a Ilha de ‘Ilha do Amor’. É uma agremiação infinitamente acolhedora. Tenho um carinho especial pelo carnavalesco, Cahê Rodrigues, que está sempre dando o seu melhor pelo título. Ele é muito competente e capaz”, completou.
Em seu primeiro desfile na União da Ilha, Débora Figueiredo, de 62 anos, transbordava alegria na concentração. “Sei que vai ser um desfile emocionante. As duas escolas estão comemorando grandes aniversários e estaremos celebrando isso”, afirmou.
Uma das maiores apostas durante o pré-carnaval, a agremiação empolgou o público ao pisar na Avenida. Gisele Ferrara, de 46 anos, foi direta ao citar a meta dos desfilantes: “Estamos torcendo para conseguirmos voltar para o Grupo Especial, porque é o nosso lugar”.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Porto da Pedra no desfile
A bateria da Unidos do Porto da Pedra fez um grande desfile, sob o comando de mestre Pablo. Foi apresentado, de forma literal, um “Ritmo Feroz”, numa musicalidade marcada pelo aspecto selvagem de convenções complexas e com profundo impacto sonoro.

A cozinha da bateria contou com uma afinação relativamente grave, contando com marcadores de primeira e segunda que tocaram com firmeza e precisão. Os surdos de terceira deram inegável balanço à “Ritmo Feroz”, inclusive nos arranjos musicais. Caixas de guerra de qualidade ajudaram no preenchimento da musicalidade, junto de repiques coesos. Foi possível notar na parte de trás da bateria da Porto da Pedra ritmistas com timbal, que possui participação primordial nas convenções.
A cabeça da bateria exibiu naipes de técnica incontestável, que adicionou qualidade musical às peças leves. Uma ala de chocalhos ressonante e de notória técnica tocou de forma integrada com um naipe de tamborins de nítida virtude sonora, que passou pela pista de modo uníssono. Cuícas e agogôs também deram sua contribuição musical louvável, evidenciando o bom trabalho da parte de frente do ritmo.
No final do refrão do meio, um breque foi destaque pela funcionalidade, eficácia e pressão. Durante o verso “Onde o curumim vira animal” a bateria fez um corte seco, embalado posteriormente por um toque diferenciado de ritmistas do timbal, repetido em seguida pelos demais naipes. A retomada uniu pressão e balanço, auxiliando inclusive na plena fluência rítmica após sua execução.
A complexa paradinha do refrão principal era iniciada no último verso da segunda do samba. Um arranjo musical que deu um impacto sonoro notável à bateria da Porto da Pedra. Uma constituição baseada no balanço dos surdos, complementada por demais naipes, num movimento rítmico pra lá de ousado.
Todas as apresentações em jurados foram realizadas de modo potente, sem quaisquer problemas evidenciados da pista. Um excelente desfile da bateria “Ritmo Feroz” da Unidos da Porto da Pedra. A musicalidade do excêntrico mestre Pablo, baseada sobretudo em sua personalidade foi um ponto alto, numa bateria que apresentou bossas ousadas, mas sempre bem executadas. Vale ressaltar o andamento escolhido para o desfile oficial, que permitiu a fluência do belíssimo samba da vermelha e branca de São Gonçalo. Essa análise de bateria é gentilmente dedicada ao sofrido povo Yanomami, assim como toda etnia indígena que não recebe a devida atenção e dignidade que tanto merecem das autoridades brasileiras.
Porto da Pedra encanta o público, mostra força de seus quesitos em desfile impecável e se aproxima do Grupo Especial
Emocionante, impecável e histórico, assim pode ser definido o desfile da Unidos do Porto da Pedra na noite deste sábado pela Série Ouro do carnaval carioca. A escola de São Gonçalo mostrou a força de seus quesitos, não cometeu falhas graves e pode sonhar com o acesso ao Grupo Especial. A potência do enredo, que exaltou o povo da floresta Amazônia, fez com que a escola entrasse na avenida com muita garra. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILE

A abertura do desfile foi extremamente forte, a começar pela comissão de frente assinada pelo coreógrafo Paulo Pinna, com uma dança vigorosa e mensagem forte no final, eles arrancaram aplausos por toda a avenida, assim como o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Rodrigo França e Laryssa Victória, a dupla se destacou pela beleza da fantasia e também pela linda dança, a sensação foi de que sempre dançaram juntos. O que se viu no decorrer do desfile foi um show de bom gosto, o conjunto visual deslumbrante, aliado ao canto da comunidade levaram a vermelha e branca a sair da avenida ovacionada pelo público e com gritos de ‘é campeã’.
- LEIA AQUI: ANÁLISE DA BATERIA NO DESFILE

Apresentando o enredo “A invenção da Amazônia” assinado pelo carnavalesco Mauro Quintaes, a vermelha e branca de São Gonçalo fez uma viagem pelas histórias amazônicas através do imaginário de Júlio Verne. A agremiação foi a quinta escola a cruzar a passarela do samba na segunda noite de desfiles da Série Ouro. A escola terminou sua apresentação com 54 minutos.
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Comissão de Frente
Coreografada por Paulo Pinna, a comissão de frente foi intitulada “Amazônia, Mãe-Terra-Vida”, a proposta da comissão foi realizar um grande ritual sagrado de proteção a floresta, o grupo utilizou um belíssimo elemento cenográfico para compor a apresentação, a sensação foi de imersão total ao ambiente da floresta. Os bailarinos se revezavam, enquanto o primeiro grupo representava os Indígenas Kanamari do Espírito-Arara, o segundo representou os olhos da mata, o momento que esses seres saíam do tripé teve uma ótima resposta do público. O tripé contou com uma grande escultura representando a Mãe Terra, ela se manteve adormecida durante boa parte da coreografia, no final, após a realização de um ritual feito pelo Pajé Kanamari , ela se levantava e mostrava toda sua beleza. No final da apresentação, os componentes formavam a palavra ‘resistência’, o público acompanhou atento e vibrou bastante.

Mestre-sala e Porta-bandeira
Uma grande exibição do casal Rodrigo França e Layssa Victória, ela, que teve a missão de substituir Cyntia Santos, porta-bandeira que marcou época no tigre, estreou com o pé direito e mostrou todo seu talento. Apesar de ser o primeiro ano juntos, a dupla transmitiu muita sintonia e cumplicidade, a sensação foi de que já dançavam juntos há muito tempo. A aposta em uma coreografia mais delicada poderia ser um risco, mas eles dominaram com maestria e mesclaram os gestos delicados com momentos de maior intensidade, foi uma apresentação de encher os olhos. A fantasia, denominada “Delírio Ultramarino” contribuiu para que a dupla brilhasse ainda mais na avenida, ele estava vestido de Capitão Nemo, com um figurino predominante preto, com detalhes em dourado e um grande costeiro, já a roupa de Laryssa representou de Senhora dos Mares, muito luxuosa, a roupa foi um dos momentos mais bonitos do desfile.

Harmonia
A abertura da escola foi muito forte, as primeiras alas cantavam o samba com muita empolgação e vibração, a Sapucaí inteira acompanhou e vibrou junto, foi uma ótima sintonia entre escola e público. No geral, nenhuma ala passou sem cantar e a escola apresentou um canto extremamente uniforme. Vale destacar a ala de passistas, extremamente bem vestidos e com muito samba no pé, as moças e rapazes deram um show e levantaram o público durante a passagem da escola. As alas 5, “ Runakuna – Tradições Andinas”, 10, “A Demonização de Jurupari” e 13, “Bois de Parintins”, também passaram com muita empolgação.

Enredo
O carnavalesco Mauro Quintaes, de volta a Porto da Pedra, foi o responsável por desenvolver o enredo “A invenção da Amazônia”, inspirado no livro de Júlio Verne chamado “A jangada”, de 1881. A história é ambientada na Amazônia brasileira e a jornada feita pelos protagonistas apresenta com riqueza de detalhes a cultura amazônica. Mauro Quintaes elaborou um enredo que passou do ficcional ao político, do misticismo à conscientização e emocionou. Ele dividiu a escola em quatro setores, o primeiro, denominado “Delírio Aventureiro”, o início da escola misturou a mecânica do Julio Verne com a rústica do ribeirinho, a construção da jangada, que mistura o passado e o presente. O segundo setor, chamado de “Mistério das Águas”, esse setor representou a viagem de Verne pela Amazônia e seu encontro com os povos Incas. No terceiro setor, “Guardiões da Grande Floresta”, o folclore entrou em cena através de personagens do imaginário amazonense. Para finalizar, o último setor, “Amazônia Viva – Festas, Lutas e Resistência”, encerrou o desfile com uma celebração política, cultural e regional.

Evolução
A comunidade de São Gonçalo abraçou a escola e esteve em peso no desfile deste ano, ao todo, a Porto da Pedra levou para a avenida cerca de 2 mil componentes, a sensação foi de que a escola deslizou pela avenida, em um ano marcado por alguns problemas de evolução, a Porto da Pedra passou pela avenida sem apresentar nenhum erro, as alas e alegorias passaram pela pista com extrema facilidade, os componentes evoluíram com muita alegria e desenvoltura, apesar de organizada, a escola em nenhum momento perdeu a espontaneidade.

Samba-Enredo
Considerado neste pré-carnaval como um dos melhores do grupo, o samba composto por Vadinho, Claudinha Sing, Pedro Dentinho, Robinho Porto, Zé Alex, Karina Porto, Rejane França, Fábio LS, Baiano, Bigode, Marcão e Celinho, provou na pista que realmente é uma grande obra. Extremamente bem conduzido pelo intérprete Nego, em sua estreia pela escola, o samba, que tem uma linha melódica bastante interessante e com algumas resoluções métricas criativas, foi cantado a plenos pulmões pela comunidade e também pelas arquibancadas, nem mesmo o temor por conta da letra um pouco complicada no refrão principal, como o “Warrãna-rarae”, foi capaz de impedir que o samba se destacasse dentro ótimo desfile apresentado pelo tigre de São Gonçalo. Já nos primeiros acordes, o samba já era entoado com muita força na avenida.

Alegorias e Adereços
A Porto da Pedra apresentou um conjunto alegórico de encher os olhos, a riqueza de detalhes presente em cada alegoria impressionou pelo cuidado, assim como as esculturas, o tigre, que é sempre muito esperado, veio imponente no abre-alas. A escola levou para a avenida três carros e um tripé. O abre-alas, chamado de “A Jangada”, foi dividido em duas partes, na primeira foi representada a sala de criação de Júlio Verne, na parte da frente foi inserido o nome da agremiação. A segunda parte representou a Jangada, maquinário criado pela mente de Júlio Verne para embarcar nessa viagem pela Amazônia, o Tigre, simbólo da agremiação veio no alto do carro, com movimentos e ótimo acabamento.

O segundo carro, “Amazonas, um rio de histórias e mistérios”, ele representou a história e a mística que envolvem o Rio Amazonas, o acabamento primoroso da escultura principal, que tinha movimento, chamou atenção, assim como o fato do carro soltar agúa pela avenida, o único senão foi o fato de um dos queijos ter quebrado. O tripé “Quando a mata se levanta para a luta” tinha a predominância da cor verde para representar a natureza e também primou pelo acabamento. Finalizando o desfile, a escola apresentou o carro “Amazônia viva – arte, luta e resistência”, foi um grande manifesto em defesa dos povos da floresta, a escultura de um índio lendo o livro que deu origem ao enredo foi uma ótima sacada, imagens de Bruno Pereira, Dom Philips, Chico Mendes e Dorothy Stang fechou o desfile da escola e emocionou.
Fantasias
Assim como o belíssimo conjunto de alegorias, a Porto da Pedra apresentou um ótimo conjunto de fantasias, no total foram xx alas, além das composições em alegorias. Por conta do enredo, Mauro Quintaes optou por não utilizar penas naturais em nenhuma fantasia da escola, somente o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira usaram, no restante apenas penas artificiais. O uso das formas foi muito explorada nas alas, assim como as cores bem marcadas em cada setor, o início do desfile foi majoritariamente vermelho, cor da escola, as baianas representaram as donas da floresta, o figurino chamou atenção pelo ótimo acabamento e volumetria. No decorrer do desfile, a escola utilizou bastante o verde, principalmente ao retratar a natureza. Os figurinos apresentados primaram pelo bom gosto, vale destacar as seguintes alas: “Aymará”, “Gavião de olhos brilhantes”, “A bravura amazona” e “Bicho folharal”.

Outros Destaques
A bateria “Ritmo feroz” levantou o público presente na avenida, os ritmistas representaram os navegantes andinos e o mestre Pablo, que tem por costume se apresentar com fantasias marcantes, dessa vez escolheu se fantasiar de Matinta Perera, figura do folclore amazônico.

A rainha de bateria Tati Minerato desfilou com uma fantasia belíssima, representando a flor dos andes, ela mostrou total sintonia com a bateria.

