Por Diogo Sampaio
Terceira agremiação a cruzar o Sambódromo no primeiro dia de desfiles do Grupo Especial, a Mocidade Independente de Padre Miguel realizou uma apresentação irregular. Enquanto o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Bruna Santos, e o intérprete Nino do Milênio sobressaíram positivamente; a evolução problemática e a falta de acabamento nas alegorias prejudicaram o desempenho da verde e branco de Padre Miguel, que encerrou sua passagem com 68 minutos. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILE
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Comissão de frente
Com o nome de “Senhor que fez da Arte um Mundaréu”, a comissão de frente da Mocidade Independente de Padre Miguel retratou o nascimento de um dos mais importantes discípulos do “Deus do Barro”: Severino Vitalino, filho de Vitalino Pereira do Santos. O início da apresentação acontecia com os quinze integrantes fazendo uma coreografia no chão, todos eles com um figurino dourado repleto de folhas, raízes e flores.

LEIA MATÉRIAS ESPECIAIS NO DESFILE
* Ala de passistas da Mocidade foi inspirada na obra de Manoel Galdino, com fantasias ricas em detalhes
* Melhora em organização e qualidade é notada pelos integrantes da Mocidade
* Representando as quitandeiras do Alto Moura, ala das baianas da Mocidade vem com fantasias leves e coloridas
* Velha-guarda da Mocidade desfilou no carro exaltando a religiosidade na arte do barro
* Primeira ala da Mocidade faz referência à ‘Rota da Roça’
* Mocidade inicia o desfile com alegorias compostas por materiais reciclados ou inusitados
Em seguida, eles passavam a interagir com um elemento cenográfico, intitulado de “O Ciclo da Vida”, que simbolizava o marmeleiro, considerada a árvore símbolo do agreste. Os componentes jogavam “barro” nele e depois sumiam para depois a parte superior abrir.
No alto do elemento ocorria a parte principal da apresentação, que era o nascimento do filho “Vitalino”. O ato acontecia de forma lúdica, em uma espécie de “Presépio Nordestino”, com direito a um boi e cangaceiros fazendo às vezes de reis magos.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
No terceiro carnaval defendendo o quesito juntos, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da estrela-guia de Padre Miguel, Diogo Jesus e Bruna Santos, foi um dos grandes destaques do desfile. Com uma dança que misturava passos coreografados com o bailado clássico, os dois demonstraram sincronia e agilidade ao efetuarem movimentos rápidos, mas precisos.

Um dos pontos altos da apresentação do casal ocorria justamente em um trecho coreografado, quando os dois faziam passos de forró durante uma bossa da bateria. O momento arrancou aplausos e gritos das arquibancadas.
Com a fantasia chamada “Marmeleiro – Árvore Sagrada”, a dupla veio com um figurino todo em dourado, seguindo a mesma paleta de cores de toda a abertura da agremiação. Apesar da beleza, a indumentária trouxe certa dificuldade para Bruna no começo do desfile, devido à altura da saia. No entanto, a porta-bandeira soube contornar a situação.
Samba-Enredo
O samba-enredo composto por Diego Nicolau, Richard Valença, Orlando Ambrósio, JJ Santos, Nattan Lopes, Gigi da Estiva, W. Corrêa e Cabeça do Ajax teve um alto rendimento alto na Avenida e foi um dos destaques da apresentação da Mocidade Independente. Estreando no comando do carro de som, o intérprete Nino do Milênio conseguiu conduzir com segurança a obra, que apesar de melodiosa, não arrastou em nenhum momento. A bateria “Não Existe Mais Quente” também foi fundamental para o elevado desempenho, ao explorar a musicalidade nordestina em algumas bossas e desenhos, dando um “molho” a mais ao samba.

Harmonia
As boas performances de Nino do Milênio no microfone oficial e dos ritmistas comandados por mestre Dudu foram correspondidas com o canto forte da comunidade, principalmente da metade para o fim do desfile. Alas como “Casamento Matuto”, “Procissão de Novena” e “Tentação do Deserto” foram algumas das que se sobressaíram, com componentes soltos e cantado de maneira empolgada o samba-enredo.

Evolução
O quesito foi um dos principais problemas do desfile da estrela-guia de Padre Miguel. A dificuldade para tirar o abre-alas da Avenida travou a agremiação e fez com que fosse necessário a escola apertasse o passo, da metade para o fim, para não estourar o tempo limite. Isto trouxe consequências, como alas que se embolaram em meio a correria contra o relógio.

Alegorias e Adereços
A criatividade no uso de materiais alternativos foi uma das marcas do conjunto alegórico da Mocidade Independente de Padre Miguel. Logo no abre-alas, chamado “Um jardim no Agreste floresceu. E se fez um mundo de barro…”, o equivalente a cinco caminhões de galhos de árvores foram utilizados na decoração, assim como centenas de pedaços e ripas de madeira para fazer as esculturas da alegoria.

Ainda seguindo a mesma tendência, o primeiro tripé, nomeado de “Vendendo Loiçarias”, utilizou 1500 utilitários domésticos doados pela comunidade de Padre Miguel, que adquiriram caráter artístico de barro para compor a cenografia. Já o segundo carro, intitulado “Segue o Carro de Boi na Lida pra Viver”, usou mais de três mil latas de tinta, de cola, de resina para confeccionar o corpo da escultura do boi, além de canas colhidas nos antigos engenhos na parte superior central.
Todavia, mesmo com os materiais alternativos tendo surtido efeito na Avenida, o quesito deve perder pontos por conta das falhas de acabamento. Entre os problemas, ferro aparente na parte traseira da segunda alegoria e um leque da asa do dragão quebrado, também na parte traseira, dessa vez do terceiro carro, intitulado de “É a Vida um Xadrez pra Honrar o Legado do Alto”.
Fantasias
Também com o uso de uma gama diversa de materiais alternativos, o conjunto de fantasias da Mocidade seguiu a linha criativa das alegorias, porém com melhor esmero nos acabamentos. Entre aquelas que mais chamaram a atenção estiveram o figurino das baianas, intitulado “Quintadeiras de Aves/Ervas e Frutas”, e o da bateria, chamado “Mané-Pãozeiro”.

Enredo
Com o título de ‘’Terra de meu Céu, Estrelas de meu Chão’’, o enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel abordou o legado dos artistas do Alto do Moura, discípulos de Mestre Vitalino, pertencentes ao maior Centro de Artes figurativas das Américas. A aposta nos materiais alternativos nas alegorias e fantasias fez com que a mensagem do enredo fosse transmitida de maneira direta, não sendo necessário a consulta ao Roteiro de Desfiles para compreender o significado delas.

Outros Destaques
Inspirados nos seres híbridos das obras de Manoel Galdino, os passistas da Mocidade Independente vieram representando os reis e rainhas do jogo de xadrez. Com um figurino leve, eles não economizaram no samba da pé e chamaram a atenção pelo forte canto do samba, principalmente nos refrões.


A Mocidade Independente de Padre Miguel mostrou em seu desfile um pouco do legado deixado por Mestre Vitalino e seus discípulos do bairro Alto do Moura, na cidade de Caruaru, em Pernambuco. “Terras de meu céu, estrelas de meu chão” foi o título do enredo da Verde e Branco neste carnaval, que trouxe a arte figurativa para a passarela do samba. O primeiro setor da escola foi batizado de “O ciclo da Vida”, enquanto o segundo setor se chamava “O Suor de Cada Dia”.
Há quatro anos desfilando na Estrela Guia de Padre Miguel, Renata Floriano é analista de sistemas e tem 39 anos. Ela foi mais uma passista que aprovou a indumentária deste ano. “Achei muito bonita. Muito rica em detalhes. Acho que a fantasia vai fazer muito sucesso na avenida”. Renata revelou que a ala preparou uma coreografia especial para o desfile, mas que a execução iria depender do calor do momento e do decorrer do desfile da escola.
Thomaz Vieira, 27 anos, fez sua estreia como passista da Padre Miguel e confessou estar vivendo um momento muito feliz. “É prazeroso entrar na avenida representando o Nordeste. Eu, por ser maranhense, me sinto representando o lugar de onde eu nasci. Sair de passista pela Mocidade é o sonho de muita gente”.
No último ano, a Mocidade Independente de Padre Miguel passou por mudanças em alguns cargos para fazer bonito neste Carnaval. No lugar de Wander Pires, entrou Nino do Milênio como cantor. Na comissão de frente, assumiu o coreógrafo Paulo Pinna, que também comandou a Unidos do Porto da Pedra. E, para a concepção, foi escolhido um novo carnavalesco: Marcus Ferreira. Este último foi campeão pela Viradouro em 2020.
A responsabilidade de Nino do Milênio e a plástica de Marcus chamaram atenção do desfilante Aroldo Pimentel, de 57 anos. Ele desfila há mais de 30 anos na verde e branca da Vila-Vintém e elogiou o trabalho da escola neste último ano.
Terceira escola a desfilar na Marquês de Sapucaí nesta noite de domingo, a Mocidade Independente de Padre Miguel apostou na brasilidade para homenagear a obra dos discípulos de Mestre Vitalino. A escola apresentou o enredo “Terras de meu céu, estrelas de meu chão”, falando da arte figurativa enraizada no bairro de Alto do Moura, em Caruaru, Pernambuco.
Em seu vigésimo quinto desfile pela Mocidade, a baiana Vilma da Silva, de 58 anos, se mostrou bastante empolgada com o figurino da ala. “Há muito tempo que a gente não vem com uma fantasia assim… Linda, totalmente dentro do enredo, bem leve, boa pra gente dançar. A gente vai ter uma bela desenvoltura e vamos arrebentar. A nossa expectativa está lá em cima!”.