Problemas em evolução comprometem belo desfile plástico da Grande Rio
Pela primeira vez na história a Grande Rio entrou na Sapucaí para defender um título. Mais uma vez a plástica da dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad impressionou com acabamentos primorosos e soluções fora do lugar comum, além da fácil leitura. Porém, a escola teve muitas falhas em evolução, abriu buracos, além de problemas com a iluminação do segundo carro e do segundo tripé. O samba, em noite inspirada do intérprete Evandro Malandro, foi um ponto alto da noite com bom canto da comunidade e do público. Com o enredo “ Ô Zeca, o pagode onde é que é? Andei descalço, carroça e trem, procurando por Xerém, para te ver, para te abraçar, para beber e batucar!”, a Grande Rio foi a segunda agremiação a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, encerrando seu desfile com 1h09. * VEJA FOTOS DO DESFILE

- LEIA AQUI: ANÁLISE DA BATERIA NO DESFILE
Comissão de frente
A comissão de frente “Poetas da vida, Poetas do samba”, coreografada por Hélio e Beth Bejani, trouxe malandros e cabrochas da antiga, ocupando a pista e revelando, com o dançar que risca o asfalto, diferentes facetas do universo musical de um artista tão múltiplo como Zeca Pagodinho. Em seguida, a partir da apresentação de uma componente vestida como criança e com um ursinho de pelúcia, a comissão adquiriu um tom infantil, simbolizando o espírito irrequieto dos erês, protetores de Zeca, e da própria obra musical do artista, na qual a infância é personagem principal.

LEIA MATÉRIAS ESPECIAIS DO DESFILE
* Grande Rio leva a essência do subúrbio para a avenida
* Baianas da Grande Rio fizeram uma homenagem as benzedeiras
* Cacique de Ramos e Bafo da Onça: rivalidade entre os blocos é representada na bateria da Grande Rio
* Confiantes, componentes da Grande Rio acreditam no bicampeonato
* Comunidade da Grande Rio abraça Zeca Pagodinho e enaltece a importância de sua homenagem
* Grande Rio representa a infância de Zeca em seu segundo carro
O desenrolar da apresentação seguiu em uma espécie de resumo do enredo, passeando por diferentes lugares de afeto do homenageado, traçando uma relação intrínseca do homenageado com a Bohemia e a religiosidade, que se fundem na vida e obra de Zeca. A comissão tem seu ápice culminando na Alvorada de São Jorge, o Santo Guerreiro que, na discografia de Zeca, sempre é associado a Ogum. O elemento cênico, que acendia o chão onde se desenrolava a apresentação principal da comissão, era uma grande pracinha com mesas de bar e uma igrejinha no final. No ápice da apresentação, um componente representando Ogum, em cima de um cavalo, saía do teto da pequena igreja. Em geral, é de se elogiar uma comissão por uma coreografia que apresentou muita dança, samba e a beleza do bailar mais voltado para a gafieira. A comissão também explicou o enredo, mas o clímax não chegou a ser algo que trouxesse grande surpresa de que assistia.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Daniel Werneck e Taciana Couto, posicionados logo após a comissão de frente, apresentaram o figurino denominado “Vestidos e armados com as armas de São Jorge”. A dupla, usando as cores da escola, representou um misto de oferta e agradecimento, com a fantasia evocando armaduras e um imaginário guerreiro de Jorge e Ogum, santos que não fogem das batalhas, enfrentando os dragões do dia a dia. Daniel segurava uma pequena espada que ajudava a dar o tom da fantasia e era usada na coreografia.

Em termos de dança, a dupla mais uma vez mostrou bastante intensidade de movimentos, com Taciana realizando muitos rodopios e Daniel apresentando passos com grande apuro e velocidade. A sincronia dos dois foi um ponto alto e a delicadeza e até sensualidade, principalmente no final quando Daniel beijava a mão de Taciana. A dupla ainda apresentou alguns passos relacionados as raízes de matriz africana, apresentando o sincretismo do enredo, São Jorge e Ogum, principalmente nos trechos do samba que relatavam essa relação. Nestes momentos, os guardiões mais uma vez também fizeram passos discretos que não atrapalharam a dupla e provocaram um bonito efeito. Nada a relatar sobre falhas ou desencontros.
Harmonia
A comunidade caxiense manteve o rendimento alto do canto durante todo o desfile e em todos os setores. Não se percebeu alas com integrantes sem cantar. O samba parecia estar bem agradável aos componentes que cantavam com felicidade, nem precisava aquele famoso incentivo que os diretores de harmonia fazem aos componentes.

Destaque para as alas ” quem vai pela boa estrada”, do primeiro setor, “nas mandingas que a gente não vê “, segundo setor, ala das baianas, passistas, e mais para o final da escola “preservação das raízes”. Desde 2019 no comando do carro de som da Tricolor de Caxias, Evandro Malandro vem evoluindo a cada ano e já é um dos grandes intérpretes do Grupo Especial. Uma ótima aposta da Grande Rio lá atrás que já vem dando frutos nos últimos anos. Fez um desfile irretocável com precisão musical, intensidade e conseguindo chegar ao componente. Destaque para as vozes de apoio que também primavam pela criatividade e correção musical.
Enredo
O enredo “Ô Zeca, o pagode onde é que é? Andei descalço, carroça e trem, procurando por Xerém, para te ver, para te abraçar, para beber e batucar!” em formato de crônica, tomou como premissa o espaço de tempo lúdico de um dia mágico, realizando uma busca pelo Zeca. Nesta procura pelo homenageado, o desfile percorreu territórios e círculos simbólicos, espaços de afeto que possuem conexão com a obra, a biografia e o modo de vida do artista. Baseado na música “Zeca, cadê você?”, a escola apresentou alguns signos importantes da vida do cantor como sua relação com a religiosidade procurando o artista na Alvorada de Jorge, em terreiros, capelas e igrejinhas.

Em seguida, partindo das lembranças infantis do homenageado, fazendo referência a relação com São Cosme Damião e os doces. A relação com a música, o Cacique de Ramos e o Bloco Bohêmios foi apresentada em seguida. Depois retratou o subúrbio e a Baixada, com o final do desfile realizando uma grande celebração do homenageado, sua relação com o carnaval e mais especialmente a centenária Portela. No geral, um enredo de fácil assimilação, identificado com o carnaval e exposto de forma criativa e bem desenvolvida.
Evolução
O grande problema da Grande Rio esteve neste quesito. A escola apresentou buracos tanto no primeiro módulo quanto no segundo. Na primeira cabine de julgamento que é dupla, a bateria iniciou sua apresentação mas a ala de passistas andou e deixou um clarão na pista em um momento crucial. Já na segunda cabine de julgamento, o tripé ” Minha Fé” travou na pista e gerou um buraco em relação a ala da frente “Hoje é dia de todos os Santos”, que já tinha andado.

Além disso, a comissão e o casal apostaram em uma apresentação mais demorada, além de uma passada do samba e a escola em alguns momentos ficou muito tempo sem andar. Outro problema percebido aconteceu mais para o final da pista com os componentes apresentando cansaço, dando a impressão de que as fantasia estavam mais pesadas. Ainda que cantassem muito já não pulavam ou dançavam, evoluíam apenas andando. A bateria entrou no recuo aos 47 minutos se saiu com 1h01 sem apresentar problemas.
Samba-enredo
O samba da Grande Rio para o carnaval de 2023, uma composição de Arlindinho, Diogo Nogueira e companhia, talvez seja a obra que teve o refrão do pré-carnaval e concorre para ser o dos desfiles oficiais. “Ê que bela quitanda, quitandinha de Erê” realmente é um trecho que fica na mente de quem canta e tem uma musicalidade que faz jus a própria musicalidade do Zeca que tem a facilidade de usar muitas vezes letras simples, mas altamente interativas com quem ouve e com um swing, um ritmo muito agradável não só para cantar como para dançar.

É uma musicalidade, aliás, que cativa e leva a dançar. Já o refrão principal “Deixa a vida me levar” fez uma referência a um grande sucesso do Zeca, e ainda que tenha perdido um pouco do protagonismo pelo balanço do refrão do meio, é voltado um pouco mais para a explosividade se encerrando no “Sou Grande Rio, carregada de Axé, minha gira girou na fé”, e fazendo essa reverência a agremiação e dando ao componente a oportunidade de ressaltar sua relação com a Verde, Vermelha e Branca de Caxias. Grande rendimento da obra no desfile, pela apresentação do carro de som comandado por Evandro Malandro, sendo cantado inclusive pelo público.
Fantasias
Mais um ótimo trabalho de grande apuro visual da dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Além disso, eram de fácil leitura, com materiais de qualidade, mas não tão perceptíveis e usuais em outras escolas. Foram soluções que fugiam do lugar comum, com o colorido que o enredo pede. Destaque para os figurinos da ala “Quem vai pela boa estrada” que dialogava bastante com o abre alas na cabeça da escola, para a ala “era dia de carnaval” com o bom uso de tons pastéis de rosa e azul. A paleta de cores passeou pelos diferentes lugares de procura do Zeca e fez bom uso de tons pastéis, dourado, não se limitando as cores da escola. Os modelitos estavam volumosos com grandes costeiros, muito bonitos e bem acabados, mas importante citar também que pareciam pesados em alguns momentos para a evolução dos componentes.

Alegorias
Em seu conjunto alegórico, a Grande Rio trouxe cinco alegorias e dois tripés. O quesito também deve gerar despontuação na escola mesmo com excelente apuro estético, visual, ótima leitura e perfeito acabamento. Isso porque a iluminação da segunda alegoria passou apagado em todos os módulos de julgamento, ainda que acendesse em alguns momentos. A alegoria muito colorida, recheada de crianças jogando doces e bolas para o público, mergulhou nas memórias infantis do artista em sua infância nas bandas de Irajá, trazendo de novo a religiosidade ao relembrar o pegar doce de São Cosme e Damião.

O tripé “Sapopemba e Maxambomba”, representando uma carroça com a memória de moradores da Baixada, também passou apagado em todos os setores, em alguns momentos oscilando a iluminação. De destaque positivo, o carro Abre-Alas ” A Ele eu quero agradecer: armas de Jorge, amuletos de Ogum” , dividido em dois chassis, expressando a pública e intensa devoção de Zeca Pagodinho por São Jorge e Ogum, e a última alegoria, “Mas eu fico em Xerém, porque é terra boa”, que trazia o homenageado na parte central abaixo de uma grande Águia, prestando uma justa homenagem ao centenário da Portela.
Outros destaques
A bateria de mestre Fafá “O grande duelo- Bafo da onça e Cacique de Ramos” fez uma homenagem a disputa das ruas pelos foliões dos blocos Bafo da Onça e Cacique de Ramos, apresentando duplas cores no figurino. A rainha Paola de Oliveira veio de ” Peito de Aço, coração de Sabiá” evocando o universo metálico de Ogum. A atriz era erguida em uma pequena estrutura com rodinhas acima da bateria quando havia a apresentação nos módulos.

Os compositores do samba da Grande Rio, Arlindinho e Diogo Nogueira, esposo de Paolla Oliveira, vieram próximos ao carro de som e cantava a obra junto com o prefeito Eduardo Paes. O ator David Brazil veio como destaque a frente da segunda alegoria. Zeca Pagodinho, foi muito aclamado em todos os módulos, vindo no último carro, mas no último módulo, na saída da bateria, a rainha Paolla de Oliveira brincava ao cantor.
Velha-guarda da Mocidade desfilou no carro exaltando a religiosidade na arte do barro
O quarto carro alegórico da Mocidade representou a fé e arte sacra feita de barro com o nome “O nosso barro sacro de cada dia”. A frente da composição tinha a representação do espírito santo e todo carro se assemelhava a uma igreja com esculturas de anjos e santos simulando barro. Além dos tons terrosos, a alegoria fez uso do dourado nos detalhes barrocos e do prateado das estrelas do alto do carro. Quem deu o tom verde foi a vestimenta da velha-guarda da verde e branca da Vila-Vintém que desfilou nas laterais simbolizando os “Devotos de São Sebastião”.
Um dos diretores do segmento, Jorge da Mocidade, de 70 anos, contou que o carro deixou seus companheiros satisfeitos.
“O carro é satisfatório! O pessoal gostou e está bonito. O principal é que conta a história do nosso enredo. Sobre fé, eu creio que o melhor amuleto e a melhor fé está no nosso coração e na nossa cabeça”, disse o diretor.
Há oito anos na velha-guarda, Regina Célia acha que o carro da velha-guarda é o mais bonito que vai passar na Sapucaí. Para ela, religiosidade e velha-guarda têm tudo a ver.
“Os velhos sempre são os que ensinam as orações para os filhos, para os netos. Estão com as cantigas e canções de ninar com o amor maior. Eu sou espiritualista, então eu tenho superstição. Para não chover a gente joga ovo para Santa Clara no telhado e ainda canta música para o sol resplandecer”, contou dona Regina.
Outro componente da velha-guarda de 67 anos ficou grato ao saber que desfilaria em um carro alegórico. Católico, ele disse que tem que fazer a oração para entrar na Avenida.
“O meu ritual é fazer a minha oração em casa, no altar que eu tenho. E só”, disse ele que tem a fé inabalável e compra o enredo da Mocidade, mesmo que reverencie outras religiões.
Além da velha-guarda, os destaques Marcelo Moreno e Victória Castelhano desfilaram na quarta composição. Eles representavam respectivamente, “Salve, o Divino!” e “Odoyá, Yemanjá”.
Primeira ala da Mocidade faz referência à ‘Rota da Roça’
Com o enredo “Terras de meu céu, estrelas de meu chão”, a Mocidade Independente de Padre Miguel trouxe para a Marquês de Sapucaí o legado dos discípulos de Mestre Vitalino, da região de Alto do Moura, em Caruaru/PE. O bairro possui o maior Centro de Artes Figurativas das Américas, abrigando a Casa-Museu Mestre Vitalino, o Memorial Mestre Galdino, além de ateliês, bares e restaurantes de culinária regional pernambucana.
A ala inicial da Verde e Branco da Zona Oeste era coreografada e foi batizada de “Rota da Roça”, representando o primeiro tema das “Artes Figurativas” ensinado por Mestre Vitalino aos seus descendentes discípulos. Eles desfilaram entre o primeiro casal de mestre-sala e porta bandeira e o carro abre alas. A roupa possuía tons nas cores amarelo, dourado e laranja; proporcionando um belo contraste com todo o primeiro setor da escola.
Ana Paula, de 41 anos, desfila há mais de 15 anos na Mocidade e aprovou tanto a indumentária, quanto a coreografia da ala. “Está bem bonita. Tem uma parte que a gente vai contracenar a procissão, o choro, a tristeza, a alegria…”. Ela contou que os ensaios da ala de passo marcado foram realizados na Cidade do Samba e na quadra da escola.
Outra integrante da primeira ala da Mocidade Independente, Adriana Coutinho, de 37 anos, contou ao site CARNAVALESCO que existem diferentes tipos de adereços. “O meu tema é cabaça. Tem vários (temas), porque a ala tem 5 tipos de fantasias”. Foram mais de dois meses de ensaio para chegarem cheios de confiança no sambódromo.
Há décadas desfilando pela escola da Zona Oeste, José Carlos, de 61 anos, estava bem satisfeito com a sua fantasia. “Achei tudo muito bonito. Sem contar que está bastante confortável a roupa. Vai dar pra evoluir e brincar na avenida”. Além dos diversos adereços de mão, os integrantes da ala “Rota da Roça” estavam de luvas e óculos escuros.
Laís Andrade, de 33 anos, revelou um pouco da coreografia da ala. “Basicamente a gente representa a vida no campo, então tem uma parte que a gente encena como se estivesse capinando, cortando… Tem um pouco dessa representatividade. A ala tem pá, tem enxada, tem guarda-chuva… São várias coisas!”.
Mocidade inicia o desfile com alegorias compostas por materiais reciclados ou inusitados
A Mocidade Independente de Padre Miguel trouxe para as suas primeiras alegorias o emprego de materiais reciclados ou alternativos. O abre-alas, por exemplo, usou o equivalente a cinco caminhões de galhos, enquanto o segundo carro recorreu a latas de tinta, cola e resina para construir o efeito no corpo do boi. Os componentes ficaram encantados com as soluções artísticas encontradas pelo carnavalesco Marcus Ferreira.
“Além da questão financeira, porque o custo dos materiais aumentaram muito, tem a lado de mostrar a criatividade do carnavalesco, de saber exemplificar o que ele quer o carro com materiais mais baratos e até que estariam no lixo. Eu fiquei surpreso com o que ele quis demonstrar na alegoria. Esse impacto do diferente também traz uma empatia do público”, opinou Hamilton Brietzke, de 41 anos, que veio na lateral do abre-alas.
Esta primeira alegoria é chamada “Um jardim no agreste floresceu e se fez um mundo de barro…”. Ela criou o cenário imaginado pelo homenageado Mestre Vitalino dentro do Agreste Pernambucano. O carro é um conjunto de três composições acopladas em tons de laranja e marrom, acentuando a conexão com o barro e o sertão. Ripas de madeira pintadas e cruzadas constituem deram o tom de originalidade ao visual. Além disso, cabeças de “barro” foram esculpidas na base. Uma gangorra de bonecos do Alto do Moura se destacava em cima do carro dando um efeito de movimento. Cactos em laranja e amarelo de espuma geram uma maior aproximação com o ambiente sertanejo.
Integrante da verde e branca há mais de 20 anos, Vânia Aparecida, de 59 anos, também desfilou no abre-alas e ficou emocionada quando viu onde ia desfilar.
“O carro está lindo! Todos os carros estão lindos. A escola está linda, estamos muito animados. Fiquei muito emocionada. Foi feito com muito carinho e dedicação”, exaltou a desfilante.
No segundo carro, foi trazida a vida rural que inspira os artistas de barro. Com o nome de “Segue o carro de boi a lida viver”, a composição trazia desfilantes fantasiados de trabalhadores rurais em um cenário com engrenagens, milhos no topo e estátua de profissionais da fazenda. Na frente do carro, um boi com chifres simulava uma escultura do artesanato. As latas recicladas criaram um efeito de profundidade interessante na alegoria.
Marta Janete, de 56 anos, participou ativamente como voluntária nesses últimos dias na confecção de fantasias no barracão. O amor pela Mocidade a fez amar ainda mais o carro em que ela desfilou.
“Meu carro está lindo, está maravilhoso. Ele representa o carro do boi. Eu amo essa escola, ela é a minha razão. Eu estou no barracão desde quinta-feira, sem vir em casa. Eu saí de lá direto para Marquês de Sapucaí com muito orgulho”, contou a desfilante.
Para Amália Fabiana, de 44 anos, em seu 5º desfile pela Mocidade, se sentiu imersa no enredo ao ver o seu carro, o segundo. Ela acredita que outras escolas deveriam investir mais em usar esses materiais alternativo na construção de seus carnavais, pela economia e pela beleza provocada.
Grande Rio leva a essência do subúrbio para a avenida
Segunda agremiação do Grupo Especial a desfilar na Sapucaí neste domingo, 19 de fevereiro, a Acadêmicos do Grande Rio apresentou o enredo “Zeca, O Pagode Onde É Que É? Andei Descalço, Carroça E Trem, Procurando Por Xerém, Pra Te Ver, Pra Te Abraçar, Pra Beber E Batucar”.
Homenageando Zeca Pagodinho, a escola contou sua trajetória retratando diversos aspectos que definem a essência do artista. Zeca deu início à sua carreira cantando em rodas de samba de bairros suburbanos, e segue residindo em Duque de Caxias, cidade da escola de samba, até a atualidade.
Conhecido por sua humildade e espírito boêmio, Zeca construiu uma relação de proximidade com a comunidade, que evidencia o fato de se identificar com os ideais do cantor.
Na quarta alegoria da escola, intitulada “Diz que fui por aí: retratos da vida da gente”, o sentimento citado anteriormente pôde ser sentido pelo público do Sambódromo. Enaltecendo o “Zeca way of life”, a obra expressava o dia a dia do subúrbio.
Barracas de salgados, botequins e bailes funk eram alguns dos cenários visualizados no carro. Além disso, todos os componentes representavam personagens comuns para quem visita a Baixada Fluminense, como vendedores ambulantes.
“Estou aqui vendendo brigadeiros”, contou Clara Corrêa, de 67 anos, sobre sua função na alegoria. “Esse carro ficou um verdadeiro espetáculo. É simplesmente a cara do Zeca”, complementou.
Luís Azevedo, de 50 anos, definiu a alegoria de forma sucinta: “Nada menos que genial”. Animado para ser um dos destaques do carro, Luís também deu detalhes sobre o seu personagem. “A minha fantasia é de funk, uma das manifestações culturais mais presentes no Rio de Janeiro”, comentou.
X-9 Paulistana faz declaração de amor à Dona Ivone Lara em desfile marcado pela técnica afinada
A X-9 Paulistana foi a segunda escola a se apresentar na noite deste domingo, dia 19 de fevereiro, em desfile válido pelo Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo 2023. Com destaque para a harmonia envolvente em um canto de amor à homenageada, a comunidade da Zona Norte precisou superar a pista molhada com uma garoa contínua para concluir o desfile em tranquilos 56 minutos. A agremiação da Parada Inglesa desfilou este ano com o enredo “Dona Ivone Lara, mas quem disse que eu te esqueço?”.
Comissão de Frente
A comissão de frente da X-9 se apresentou com um contingente de 14 pessoas, todas em duplas, que se apresentaram com uma dança lembrando o estilo samba de gafieira. Os movimentos da coreografia foram intensos e animados, com sincronia bem afiada. As apresentações ao público e da escola ocorreram com clareza e o desempenho geral do grupo cênico foi de muito bom gosto, contribuindo para elevar os ânimos do público para os segmentos que vieram em seguida.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Gabriel Vullen e Joice Prado fizeram uma apresentação de alto nível, levando em consideração o fato de a pista continuar molhada por causa da garoa que caiu até o final do desfile. O casal demonstrou passos bem sincronizados, com olhares trocados transparecendo confiança. Giros belos e elegantes por parte de Joice e cortejo irreverente da parte de Gabriel formaram um conjunto admirável de uma dupla em total sintonia.
Alheio ao desempenho da dupla, a chuva pode ter afetado de forma negativa o vestuário de Joice, com penas se desprendendo de sua saia enquanto estavam para sair do primeiro módulo de desfile. A se observar a nota deste jurado.
Harmonia
O carnavalesco Leno Vidal comentou em nossa reportagem no barracão da X-9 que tinha muitas expectativas quanto ao desempenho do canto da comunidade, exaltando o refrão do meio como uma grande declaração de amor à Dona Ivone Lara. A aposta foi acertada, e de fato o samba pegou com facilidade por todos os componentes que entoaram um canto alto e muito animado, contagiando o público com todo aquele sentimento afetivo.
Enredo
“Dona Ivone Lara, mas quem disse que eu te esqueço?”. Quem por acaso teve a ousadia de esquecer a lendária sambista assistiu um desfile para nunca mais esquecer. Ivone Lara foi dignamente homenageada desde suas origens na Bahia e passando por todo seu legado de amor junto a escola Império Serrano, da qual é considerada uma verdadeira Rainha. As músicas de Ivone Lara serviram de fio condutor da narrativa junto com o pássaro tiê, uma espécie que a artista teve na infância e que inspirou o famoso verso “olha lá, oxá”. Dos “Cinco Bailes” à consagração da artista no último carro, a história de Ivone Lara foi facilmente identificada ao longo das alas e alegorias, e as expectativas pelas notas 10 podem ser consideradas altas pela.
Evolução
Tecnicamente irretocável, a evolução da X-9 Paulistana fluiu de maneira límpida e despreocupada. O ritmo de desfile empenhado pela escola permitiu aos componentes brincarem o Carnaval de maneira solta e animada por todo o desfile. O fechar dos portões com 56 minutos apenas reforça o quão a comunidade da Zona Norte fez bom proveito do desfile.
Samba-Enredo
Darlan Alves retornou à X-9 para 2023 em alto nível. Dotado de um talento que o permitiria cantar em qualquer escola do Brasil com maestria, o intérprete demonstrou na Avenida o porquê foi uma das mentes por trás da escolha do próprio enredo da agremiação, levando o samba de uma forma cadenciada cheia de irreverência. A letra da obra era facilmente identificada ao longo das fantasias e alegorias da X-9, tendo um elemento de conjunto que fez muita diferença.
Fantasias
As fantasias da X-9 ao longo das alas eram facilmente identificáveis e permitiram uma leitura de enredo sem exigir muito dos olhares menos atentos. Destaque para as alas da parte final do desfile, especialmente belas e que casaram muito bem com os versos do samba.
A preocupação pode acabar ficando na questão do acabamento. Ao longo do desfile, alguns componentes apresentaram danos em suas roupas, com destaque para a ala coreografada que fez referência aos “Cinco Bailes da História do Rio”, onde adereços de pescoço de alguns componentes se soltaram bem diante da cabine de jurados do primeiro módulo.
Alegorias
As alegorias da X-9 vieram belas e de fácil identificação. O Abre-alas simbolizou as origens baianas de Dona Ivone Lara, com uma bela escultura de Oxum ao centro, e a ligação da sambista com a escola carioca Império Serrano. O segundo carro foi uma referência ao desfile imperiano, ainda da época que se chamava Prazer da Serrinha, intitulado “Os Cinco Bailes da História do Rio”, cujo samba tem assinatura de Ivone Lara. Já o terceiro carro foi uma celebração à vida e obra da artista, com elementos alusivos às suas músicas, tambores estampados com o símbolo da X-9 e a presença da família da homenageada.
Alguns defeitos identificados ao longo do desfile, porém, podem comprometer a avaliação da escola. Falhas de acabamento perceptíveis, principalmente no segundo carro, podem ser malvistas pelos jurados, como foi o caso de uma estrutura de ferro aparecendo sob tecido danificado em uma das colunas de suporte de componentes.
Outros destaques
Presidente, diretor, rei, Mestre Adamastor. Piadas de pré-Carnaval à parte, ele provou o porquê é uma pessoa tão importante dentro da X-9 Paulistana, garantindo um belo desempenho geral da bateria “Pulsação Nota 1000”. Bossas bem encaixadas em um desfile muito agradável de se acompanhar, somados à beleza da corte da bateria liderada pela Rainha Ingrid Mantovani, vestidas em belas fantasias.
Os harmonias da X-9 eram clara demonstração de como a escola estava satisfeita com sua apresentação. Deixaram o canto com os componentes e trouxeram o público para dentro como autênticos animadores de torcida. É muito gostoso ver pessoas que se dedicam tanto a um desfile tão felizes com o trabalho feito. Agora é ver se na terça-feira o resultado virá dentro das expectativas da comunidade da Zona Norte.
Baianas da Grande Rio fizeram uma homenagem as benzedeiras
As baianas da Grande Rio trouxeram, no primeiro dia de desfile do Grupo Especial, o universo do “Candeeiro da Vovó”, música de Dona Ivone Lara gravada por Zeca. As mães do samba da verde e vermelha, neste domingo, exibiram em sua fantasia a “preta velha” nos tempos coloniais. “Representamos as benzedeiras […], mulheres que cuidavam de crianças doentes. Estamos aqui para rezar e pedir a deus para abençoar as crianças”, explica Marilene, presidente da ala de baianas.
A fantasia é branca, com a imagem de Nossa Senhora em moldura dourada e repleta de flores. As baianas carregam em suas mãos luminárias douradas. Na parte de cima, cordões prateados grandes envolvem os seus pescoços. Na cabeça, um turbante branco com pimentas.
“A fantasia faz referência aos tempos coloniais com as lamparinas, você percebe também que cada baiana tem um santo. Era uma época em que a igreja era muito forte”, explicou Regina, vice-presidente das baianas.
Lucia é baiana na Grande Rio e professora, ela estava ansiosa para entrar na avenida e representar a escola mais uma vez. Ela desfila na escola há 19 anos como baiana. “É muita paixão e amor, é muito tempo representando minha escola. A fantasia é linda e só de ter minha santa aqui na frente. É pesada, mas o amor faz ela se tornar leve.
As baianas não ligam se a fantasia é pesada, elas seguem firme pois o amor pela escola é mais forte. “A fantasia é maravilhosa, é pesada, mas no momento que entra na avenida a gente esquece tudo e nada mais importa” disse a baiana Sonia Siqueira, baiana há 4 anos na verde e vermelha.
A Grande Rio foi a segunda escola a desfilar neste primeiro dia de desfiles do Grupo Especial. A escola homenageou o cantor e compositor Zeca Pagodinho.
Cacique de Ramos e Bafo da Onça: rivalidade entre os blocos é representada na bateria da Grande Rio
Segunda escola a desfilar no Domingo de carnaval, a atual campeã do Grupo Especial, Acadêmicos do Grande Rio, homenageou o cantor e ícone do samba Zeca Pagodinho, em enredo desenvolvido pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Berço de grandes sambistas e do homenageado da Tricolor, o Cacique de Ramos foi retratado na Bateria da escola, em uma fantasia que explorava sua rivalidade com outro tradicional bloco da cidade, o Bafo da Onça.
Intitulada “O Grande Duelo- Bafo da Onça e Cacique de Ramos”, a fantasia da bateria da Grande Rio dividia os ritmistas da escola em dois lados: Uns vestidos de Cacique de Ramos, em vermelho e branco, e outros vestido de Bafo da Onça, em amarelo e preto. Nas décadas de 1970 e 1980, a rivalidade entre os dois blocos dominava o cenário carnavalesco carioca, quando ambos desfilavam na Avenida Rio Branco, no centro da cidade.
Responsável pelos ritmistas da Acadêmicos do Grande Rio há 4 carnavais, Mestre Fafá aprovou a ideia dos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad de homenagear o Bafo da Onça e o Cacique de Ramos. Segundo Fafá, a fantasia elaborada pelos dois artistas facilitou o desempenho da bateria no desfile.
“Eu achei uma ideia incrível a gente homenagear dois dos blocos mais tradicionais do Rio de Janeiro e que tem uma ligação incrível com o Zeca, de respeito e carinho. A gente espera estar à altura, é uma fantasia leve, agradável e boa para a gente fazer uma grande exibição”, ressaltou o mestre.
Na expectativa pela conquista do bicampeonato, a Acadêmicos do Grande Rio tem na bateria um de seus principais triunfos na apuração. Para Mestre Fafá, a escola de Duque de Caxias tinha o desejo de realizar uma homenagem à altura do ícone Zeca Pagodinho.
“A expectativa pela disputa do bicampeão é grande, a escola tá bem, uma homenagem à altura do Zeca Pagodinho, como ele merece e tenho certeza que vai se emocionar muito, assim como aconteceu quando ele foi ao Barracão. A gente espera que dê tudo certo não só para a gente, mas para todas as co-irmãs, que seja um carnaval de tranquilidade, com grandes desfiles e que vença a melhor”, comentou Fafá.
A opinião do mestre sobre as fantasias é compartilhada por seus ritmistas, que aprovaram o figurino e a homenagem idealizada pela dupla de carnavalescos da Grande Rio. Carioca de Olaria, Diego Vilareal, fantasiado de Bafo da Onça, aprovou a fantasia da bateria, a qual considerou leve e elegante.
“As fantasias da Bateria estão maravilhosas, homenageando grandes ícones do carnaval carioca, de um lado o Cacique e de outro o Bafo da Onça. As fantasias estão super leves, bonitas e elegantes, vão trazer um momento de destaque para o desfile e para bateria O Zeca, além de ser um filho do Cacique de Ramos, é um ícone nacional do samba e do pagode. Ter ele presente e poder falar sobre é maravilhoso, sem dúvidas”, concluiu.

