O Carnaval 2026 chega como mais um capítulo de resistência, amadurecimento e entrega para o casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade Independente de Padre Miguel, Diogo Jesus e Bruna Santos. À frente de um dos pavilhões mais tradicionais do samba, os dois encaram mais um desfile conscientes do peso que carregam e certos de que a evolução é diária, construída muito antes de a Sapucaí se abrir.
Para Diogo, o sentimento que resume o momento é direto e simbólico: superação.
“Superação. Acho que, a cada ano que passa, a gente vem se superando, tanto aqui na Sapucaí quanto fora, nos nossos trabalhos, no dia a dia. É superação para mim, superação para o nosso trabalho e, com certeza, para o nosso espírito”, afirmou o mestre-sala, destacando que o crescimento não se limita à avenida, mas atravessa a rotina, os ensaios e a vida profissional do casal.
Bruna amplia esse olhar ao falar da responsabilidade assumida desde que chegaram ao posto. Para ela, a cobrança e o compromisso não são recentes.
“A responsabilidade vem desde 2020, desde quando a gente assumiu o posto. Eu e o Diogo assumimos uma responsabilidade muito grande, até porque assumimos a condução de um casal. Essa cobrança já vem de muito tempo. A gente tenta, a cada ano, melhorar, a cada dia a mais, para superar o nosso trabalho e o nosso desempenho na Avenida”, explicou a porta-bandeira.
A busca pelos 40 pontos segue sendo um norte constante, mas o Carnaval 2026 traz um novo desafio técnico: a cabine espelhada. Diogo reconhece que a tensão aumenta, mas garante que o preparo acompanha a mudança.
“A busca é incansável o ano todo. Termina um carnaval e a gente já pensa no outro. Este ano são 60 pontos e cabine espelhada, então vai ser um pouco mais tenso, mas estamos preparados. Temos uma rede de apoio, pessoas trabalhando com a gente, e com certeza vamos dar o nosso melhor”, afirmou.
Bruna, por sua vez, enxerga a novidade como um ajuste, não como uma ruptura.
“Acredito que não muda muita coisa, até porque a gente já está acostumado a dançar em 360 graus na quadra. Isso já é comum para nós. A diferença é que o novo assusta, dá aquele friozinho na barriga por ser novidade. É preciso ter atenção para os dois lados, mas estamos trabalhando muito bem isso junto aos coreógrafos. A ideia é chegar aqui, fazer o melhor e que os jurados gostem da nossa coreografia”, disse.
Sobre a fantasia, o casal mantém o mistério, mas deixa escapar um clima de exuberância. Entre risos, adiantam apenas que o visual terá brilho, muitas cores e a identidade verde e branca que representa a Mocidade, reforçando a expectativa para o desfile.
A construção da dança, ponto central da apresentação, é descrita por Diogo como um encontro entre tradição e contemporaneidade.
“Sou muito tradicional na minha dança, enquanto a Bruna vem com uma energia e uma modernidade muito fortes. Os coreógrafos trabalham bem isso com a gente. Conseguimos conciliar, mesclar, e com certeza sai uma dança bonita, porque a gente trabalha muito para isso”, afirmou.
Entre técnica, emoção e compromisso com o pavilhão, Diogo Jesus e Bruna Santos chegam ao Carnaval 2026 reafirmando não apenas a busca pela nota máxima, mas o respeito à história da Mocidade e à arte do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Um trabalho que segue sendo lapidado dia após dia, com a superação como princípio e a avenida como palco final.
Intérprete da Acadêmicos de Niterói, Emerson Dias vive um dos momentos mais simbólicos de sua trajetória no carnaval. À frente do microfone, ele será responsável por conduzir o samba-enredo que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, figura central da história política brasileira e símbolo de luta popular. Mais do que cantar, Emerson entende o desfile como um ato de exaltação histórica e cultural.
Conhecido por fugir do figurino tradicional, o intérprete já adiantou que o público pode esperar inovação também na avenida. “Fantasia, fantasia, fantasia”, resumiu. Para ele, a roupa precisa dialogar diretamente com o enredo.
“Eu não me vejo cantando de terno, não me vejo cantando tradicionalmente. Gosto sempre de vir com alguma coisa que caracterize o enredo, e é isso que vai ser”, afirmou.
Cantar um samba que homenageia Lula tem um peso especial para Emerson. Segundo ele, o desfile representa o reconhecimento de uma trajetória marcada pela resistência.
“É um momento muito especial, um momento homenageado pela história, pela luta de um nordestino que veio do interior do Brasil e hoje é o nosso presidente. Então é para ser exaltado”, declarou.
Com a confirmação do enredo, surgiram especulações e comentários nas redes sociais questionando o posicionamento político do intérprete. Emerson, no entanto, foi direto ao negar qualquer incoerência. “Eu nunca fui fanático, mas sempre me posicionei ideologicamente nos partidos de esquerda”, explicou. Ele relembra sua trajetória política, desde o período de Leonel Brizola até o apoio ao Partido dos Trabalhadores, afirmando que mantém essa posição até hoje.
A polarização política no país também se refletiu nos debates em torno do samba, algo que Emerson encara com naturalidade. “O Brasil hoje é praticamente meio a meio, de 49% a 51% na divisão política. Foi assim nas eleições. É um tema que mexe com a polarização. Desde o anúncio do samba, já ganhei mais de 15 mil seguidores no Instagram”, avaliou.
Com maturidade, Emerson defende que o carnaval também pode ser um espaço de diálogo. “Nem todo mundo gosta do vermelho, tem gente que gosta mais do amarelo. A democracia funciona assim, a gente não precisa sair brigando com ninguém. Acho que esse é o momento de ter equilíbrio.” Para Emerson, o caminho mais sensato é evitar ataques e confrontos.
Na avenida, a Acadêmicos de Niterói promete unir música, narrativa e posicionamento, com Emerson Dias como porta-voz dessa história cantada. Um desfile que reafirma o carnaval como manifestação cultural, política e popular, sem perder o ritmo, a emoção e a potência simbólica que só a Sapucaí conhece.
Na noite desta sexta-feira, a Torcida Jovem realizou seu primeiro e único ensaio técnico visando o Carnaval 2026. A escola promoveu um treino consistente e completo, no qual todos os quesitos apresentaram bons níveis de desempenho. A comissão de frente traduziu com eficiência a proposta do enredo ao representar a fé presente na África Baiana. Outro destaque ficou por conta do casal de mestre-sala e porta-bandeira, Gabriel Vullen e Joice Prado, que demonstrou um bailado seguro e claramente pronto para o desfile. O forte canto da comunidade, aliado ao bom rendimento de todo o conjunto musical, também foi um fator animador para a agremiação. O ensaio marcou ainda a estreia do intérprete Ivanzinho com a Torcida Jovem no Sambódromo do Anhembi. Experiente no Carnaval de São Paulo, o cantor retorna a defender oficialmente uma escola da Liga-SP com a missão de reforçar o desempenho do carro de som.
No entanto, o treino apresentou um ponto de atenção no quesito evolução. A bateria teve certa demora na realização da manobra do recuo, o que impactou o tempo cronometrado de pista, que chegou a 53 minutos e 58 segundos. Vale lembrar que, no Grupo de Acesso 2, o tempo máximo permitido para o desfile é de 50 minutos. Entretanto, a reportagem do CARNAVALESCO apurou que a largada da escola ocorreu com três minutos de atraso e, segundo a contagem interna da agremiação, o desfile teria sido encerrado dentro do limite, em aproximadamente 50 minutos. Ainda assim, o episódio serve como um alerta para ajustes finais.
De modo geral, o ensaio deixou uma impressão positiva e indicou que a Torcida Jovem tem potencial para brigar por uma vaga mais alta na classificação, no desfile que acontece na próxima semana.
A Torcida Jovem desfilará pelo Grupo de Acesso 2 no próximo sábado, com o enredo “Axé – Raízes e Ritmos da Cultura Afro-Baiana”, desenvolvido por uma comissão de carnaval.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob o comando de Fernando Lee, a comissão de frente da Torcida Jovem apresentou uma coreografia de alta complexidade e forte carga simbólica. No primeiro ato, Exu evoluía durante todo o percurso da passarela, enquanto os guerreiros bantos se alinhavam e executavam a coreografia em sintonia com o samba, realizando os movimentos obrigatórios do quesito: a saudação ao público e a apresentação da escola.
Em um segundo momento, a comissão revelou bailarinos representando entidades espirituais, que surgiam a partir do tripé e realizavam movimentos característicos de cada figura, como Oxóssi, Ogum, Oxum e outros orixás. Dentro dessa encenação, destacava-se a presença de uma mulher mais velha acompanhada por uma criança, em uma representação simbólica da transmissão de saberes, como se ela apresentasse ao menino a África Baiana. A criança reagia com encantamento, demonstrando curiosidade e admiração por aquele universo cultural. Eles realizavam tal encenação em volta dos bailarinos que dançavam na pista.
Ao final da coreografia, o menino batia cabeça para Exu, simbolizando seu rito de iniciação. No tripé, que representava a árvore da vida, ocorria ainda a aparição de Oxalá em forma humana em determinados momentos, reforçando o caráter religioso da narrativa apresentada pela comissão de frente. A fé da África Baiana pôde ser vista de maneira clara.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Rumo ao segundo desfile com o pavilhão da entidade, o casal Gabriel Vullen e Joice Prado realizou um ensaio bastante positivo. O destaque ficou por conta da coreografia inspirada em saudações aos orixás, bem executada e com forte expressão. A porta-bandeira apresentou giros intensos e bem sustentados, sem perder o ritmo ao longo da avenida, sempre acompanhada com precisão por Gabriel Vullen.
Outro ponto que merece destaque foi a situação ocorrida na cabine 3, no Setor H, quando a escola precisou parar para realizar a manobra do recuo da bateria.
Mesmo com a interrupção, o casal manteve a apresentação, repetindo os movimentos sempre que necessário e demonstrando segurança máxima. O sorriso constante no rosto e a sintonia nos toques entre os dois também marcaram o ensaio, reforçando a conexão e o entrosamento do casal, que está há oito anos junto.
HARMONIA
O canto da comunidade da Torcida Jovem foi um dos grandes destaques do ensaio. Todas as alas demonstraram domínio total do samba, sem exceções. Trata-se de uma obra com melodia mais cadenciada, marcada por três ou quatro versos de maior elevação, o que poderia comprometer o rendimento do canto. No entanto, a comunidade da Jovem sustentou a execução com muita força, sem deixar o samba cair em nenhum momento.
Mesmo com essa característica melódica, o samba não soou sonolento. A bateria, que se encaixou perfeitamente na obra, teve papel fundamental nesse desempenho. Mantendo o andamento acelerado durante todo o ensaio, a “Firmeza Total”, sob o comando do mestre Caverna, imprimiu o ritmo ideal para o conjunto musical, garantindo intensidade e empolgação.
Entre os trechos mais cantados, destacam-se o refrão de cabeça e os versos “Êh Bahia, nas ladeiras o feitiço / Êh Bahia, dos afoxés embalando o destino”, momentos em que o canto se mostrou ainda mais forte e perceptível. Por fim, vale ressaltar o desempenho das últimas três alas, que representaram o ápice do canto da escola ao longo do ensaio.
EVOLUÇÃO
A evolução talvez seja o único quesito que mereça maior atenção por parte da escola em relação a este ensaio. Houve um momento de demora no recuo, o que resultou em um tempo excessivo de parada. Essa situação fez com que a escola estourasse o cronômetro instalado na pista e quase ultrapassasse o tempo oficial previsto pela própria contagem da agremiação.
Fora esse episódio, o desempenho foi bastante positivo. Os componentes evoluíram de forma solta, ocupando bem a pista, cantando e dançando o samba com muita garra. A ausência de coreografias obrigatórias contribuiu para uma evolução mais natural e espontânea. Além disso, foi possível observar uma escola compacta, sem a formação de buracos ou divisões, mantendo a coesão do conjunto durante todo o ensaio.
SAMBA-ENREDO
Estreando na escola, o intérprete Ivanzinho se saiu bem no comando do carro de som da entidade. A ala musical se mostrou entrosada nos arranjos da bateria “Firmeza Total” e na condução para o canto da escola. Como dito anteriormente, o samba da Torcida Jovem tem melodia cadenciada, e o carro de som foi fundamental no trabalho para que o andamento não caísse. Conjunto musical com desempenho além do satisfatório no ensaio da escola.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Firmeza Total”, comandada pelo mestre Caverna, executou bossas estratégicas em frente às cabines, para mostrar os compassos necessários que o manual exige para a obtenção da nota 10. Porém, um arranjo que foi feito algumas vezes foi a bossa que apresentava um pequeno apagão na frase “O tambor da Jovem ninguém vai calar”.
A Dom Bosco de Itaquera realizou seu último ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em preparação para o desfile de 2026. A escola concluiu o treino em aproximadamente 59 minutos. A comissão de frente foi o grande destaque do ensaio, ao interpretar de forma literal o enredo e apresentar a comunidade ao público. Com os quesitos bem alinhados, a comunidade itaquerense realizou um desfile técnico e empolgado.
A Dom Bosco será a sétima escola a desfilar no domingo de carnaval e levará para a avenida o enredo “Mariama, mãe de todas as raças, mãe de todas as cores, mãe de todos os cantos da Terra”, assinado pelo carnavalesco Fábio Gouveia.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, coreografada por Luana Poletti, dividiu-se em grupos para representar o enredo, contando com dois personagens centrais. Durante a apresentação, um dos grupos representou as águas, executando uma dança mais fluida, enquanto outro grupo, representando os romeiros, interagia com um personagem principal que simbolizava um escravizado, suplicando pela quebra das correntes.
Por fim, um terceiro grupo de bailarinos interagiu sobre um tripé, representando anjos, até a aparição da personagem principal: a santa homenageada pelo enredo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
A dupla Leonardo e Mariana apostou em uma apresentação tradicional, marcada pelo sincronismo e pela expressividade facial. O casal executou corretamente os movimentos obrigatórios do quesito e, em determinado momento, o mestre-sala reverenciou ainda mais sua porta-bandeira, sugerindo que ela representará uma figura central do enredo no desfile oficial.
Ao CARNAVALESCO, o casal fez um balanço dos ensaios técnicos. “O que mudou foi a maturidade. A gente veio no primeiro com a intenção de sentir como seria o andamento com a escola toda, porque a gente se prepara nos ensaios específicos, mas não é a mesma coisa com a escola no contexto todo. No primeiro, a gente sentiu, e no segundo veio a maturidade: ter a certeza do que tem que fazer, os pontos que tem que olhar, que tem que respirar e os pontos que tem que marcar”, disse Léo.
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
“Conseguimos encaixar tudo o que achamos que deveria mudar do primeiro ensaio e hoje posso dizer que foi praticamente perfeito. Como o Léo disse, no primeiro a gente sentiu, veio a maturidade e hoje conseguimos concretizar o trabalho”, concluiu Mariana.
HARMONIA
O canto manteve-se linear em relação ao ensaio anterior. Os componentes se destacaram especialmente no trecho do samba que entoa “É jeito do samba rezar”.
Com o auxílio do intérprete Rodrigo Xará, que animou as alas e o público presente, a escola apresentou um desempenho satisfatório no quesito.
A equipe do CARNAVALESCO conversou com o intérprete. “A gente se preparou para esse ensaio técnico, fizemos alguns ensaios na rua para simular o dia de hoje e a gente saiu feliz. Eu brinco sempre que sempre terá alguma coisinha para acertar, mas acho que hoje fizemos um grande ensaio técnico e tenho certeza de que a gente vai se preparar ainda mais. Costumo dizer que estar pronto é só no dia. Hoje não estamos, mas falta um pouquinho e, no dia, a gente vai bem”, conta.
“A escola é uma escola alegre, o enredo está dentro desse nosso contexto. Vamos colocar que a perspectiva é das melhores, a gente veio para ser campeão, a gente veio para brigar com respeito às nossas coirmãs. A gente está num grupo que acho que é o acesso mais difícil da história do carnaval e de todos os tempos, mas a gente veio para ganhar com todo respeito. Vamos fazer um trabalho bem bonito, tenho certeza de que quem vier ver irá gostar”, explica.
EVOLUÇÃO
As alas evoluíram de forma leve e empolgada. Os componentes desfilaram soltos, interpretando o samba durante todo o ensaio.
O tempo final foi de 59 minutos, e o andamento da escola foi contínuo, permitindo uma evolução organizada ao longo da pista.
SAMBA-ENREDO
O samba-enredo, composto por Gui Cruz, Darlan Alves, Portuga, Imperial, Douglas Chocolate, Marcos Mala, Luciano Rosa, Gabriel, Reinaldo Marques e Willian Tadeu, apresenta uma linha melódica capaz de emocionar e empolgar simultaneamente.
Essa característica ficou evidente ao observar a evolução da escola durante o ensaio técnico.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada pelo mestre Bola, demonstrou bom entrosamento com o carro de som e executou as bossas com eficiência.
O mestre Bola fez uma análise da bateria durante esse ensaio técnico. “O ensaio de hoje foi muito bom, muito melhor do que o primeiro. Hoje conseguimos atingir o nosso objetivo, que era fazer as paradinhas em frente ao jurado. Estou muito contente, de verdade. Foi muito bom. Sinto que este ano, principalmente pelo enredo, é um ano especial para a Dom Bosco. Tenho certeza de que vai vir coisa boa para a escola. Estamos em um clima muito bom, então aguardem, porque vamos vir com a garra total”, conta o mestre.
A ala das baianas surgiu vestida em tons de azul, vermelho, roxo, verde e outras cores vibrantes, acompanhada por uma pessoa que conduzia uma imagem de santa ao centro da ala, conferindo ainda mais brilho e representatividade ao enredo.
A primeira noite de ensaios técnicos do Grupo Especial do Carnaval 2026 movimentou a Marquês de Sapucaí nesta sexta-feira, com desfiles marcados por enredos potentes, sambas bastante cantados e forte resposta das arquibancadas. A Acadêmicos de Niterói abriu a programação com “Do alto do Mulungu surge a espera: Lula, o operário do Brasil”. Na sequência, a Mocidade Independente de Padre Miguel levou à Avenida o enredo “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”. A terceira escola a ensaiar foi a Estação Primeira de Mangueira, com “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”. Fechando a noite, a Unidos da Tijuca apresentou seu ensaio em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus.
Com a pista pulsando e o público envolvido do início ao fim, o CARNAVALESCO foi à galera ouvir quem acompanhou tudo de perto. Torcedores de diferentes escolas analisaram os ensaios, comentaram os sambas, destacaram surpresas da noite e apontaram os momentos que mais emocionaram na Avenida.
Jonathan Firmino, 35 anos, relações públicas do MEC e torcedor da Mangueira, avaliou a noite sob o ponto de vista político e simbólico. Para ele, duas escolas se destacaram. “A Tijuca, que está com esse enredo muito forte de Carolina Maria de Jesus, que fala muito sobre o Brasil”, afirmou. Jonathan também ressaltou a coragem da Acadêmicos de Niterói. “E a Niterói, que foi revolucionária, falando do presidente Lula no meio de um país muito polarizado. Ter a coragem de trazer um enredo desses é muito forte para o momento que a gente vive”, contou.
Jonathan Firmino
Quando o assunto foi samba-enredo, Jonathan não teve dúvidas. “Foi esse que acabou de tocar na avenida, o de Carolina Maria de Jesus. Esse samba é muito bom, é muito forte, é poético, faz a gente sambar, traz energia para a avenida”, destacou. Sobre a surpresa da noite, exaltou a escola do coração. “A Mangueira levanta a galera, faz a arquibancada tremer. É uma escola que, ainda que o samba não seja o melhor da noite, faz a galera tremer mesmo assim”, disse. Para o desfile oficial, arriscou um palpite: “Eu acho que quem vai levar vai ser a Beija-Flor. O Bembé está tomando a rua mesmo”.
Quem também acompanhou a noite com atenção foi Alisson Silva, 32 anos, barman e torcedor da Unidos da Tijuca, que chegou ao fim da primeira escola, mas não deixou de se impressionar com o que viu na Avenida. “Consegui pegar um pouco da Niterói. Depois veio a Padre Miguel, que estava maravilhosa. As alas, as musas, a bateria… tudo muito maravilhoso”, relatou.
Alisson Silva
Sobre a Mangueira, Alisson falou com empolgação. “Mangueira veio com tudo! Nem sei se podia falar palavrão, mas veio com tudo!”, disse, aos risos. Mesmo sendo tijucano, explicou o motivo da admiração. “Mangueira, para mim, tem um primor, porque as musas são da comunidade. E ter musa preta da comunidade, para mim, é tudo”, destacou.
Ao comentar a Unidos da Tijuca, falou com emoção. “A Tijuca, que é o meu amor, vem falando de um tema, de uma escritora que ainda está muito viva para todo mundo que gosta de literatura. É muito essencial tudo o que ela escreveu”, afirmou. Questionado sobre a escola que mais gostou, reforçou sua conexão com o samba de raiz. “Por esse amor às pretas da favela, às pretas do samba, eu gosto muito de ver preta sambando, de ver samba de verdade. E a Mangueira traz muito isso, traz muito samba autêntico”, contou.
Sobre o samba que mais o marcou na noite, Alisson destacou a Mocidade. “Eu não ouvi muitos sambas esse ano, mas o que mais me tocou hoje foi o da Rita Lee. Me pegou muito”, afirmou.
Representando a nova geração de torcedores, Raica Silva Nascimento, 18 anos, estudante e torcedora da Unidos da Tijuca, avaliou o ensaio de forma positiva. “Achei o ensaio muito surpreendente. Todas as escolas foram ótimas, as fantasias estavam lindas. Algumas vieram com tripés, alas das baianas… coisas que eu não esperava. Foi tudo muito bonito”, afirmou.
Raica Silva Nascimento
Mesmo declaradamente tijucana, Raica admitiu o impacto de outra escola. “Hoje eu torço pela Unidos da Tijuca, mas a que eu mais gostei foi a Mangueira, não tem jeito. A mais bonita sempre vai ser a Mangueira. É a escola do povo”, pontuou. Entre as surpresas, citou a Acadêmicos de Niterói. “A Niterói me surpreendeu muito. Eles estão fazendo valer a pena ter subido para o Grupo Especial”, contou.
No quesito samba-enredo, Raica foi direta. “A Unidos da Tijuca, com Carolina Maria de Jesus, sem dúvida. Foi um dos melhores sambas que eu já ouvi. A letra é muito atual, fala sobre tudo, sobre muitos jovens morrendo hoje em dia, sobre mães que tiveram seus filhos crucificados. A gente vê isso nas comunidades todos os dias”, destacou.
Na mesma linha de entusiasmo, Luana Moraes, 32 anos, torcedora da Unidos da Tijuca, resumiu a noite. “Maravilhoso! Não só a minha escola, mas todas as quatro brilharam, fizeram muito bonito. A minha Tijuca veio com garra, veio com sede, veio focada, veio para a briga, veio para ganhar”, declarou.
Luana Moraes
Mesmo assim, Luana reconheceu uma surpresa. “Niterói. Não esperava… por mais que eu seja tijucana, Niterói me surpreendeu”, contou. Para fechar, escolheu o samba da Tijuca como destaque. “Claro, maravilhoso! Um enredo necessário”, afirmou, cantando um trecho que a marcou: “Muda essa história, Tijuca / Tira do meu verso a força pra vencer / Reconhece o seu lugar e luta / Esse é o nosso jeito de escrever”.
Encerrando os depoimentos, Jean Lucas Jesus, 27 anos, estudante e torcedor da Vila Isabel, elogiou a organização do ensaio técnico. “Gostei muito da organização, tudo bem tranquilo. Ainda bem que acabou essa parada do ingresso por QR Code, isso viabilizou melhor o ensaio e deixou tudo fluir”, afirmou.
Jean Lucas Jesus
Sobre as escolas, Jean foi direto. “Muito bacana. Só escola absurda. Gostei demais”, disse. Mesmo sem sua escola na Avenida, apontou a que mais o impactou. “Foi a Tijuca. Gostei muito do enredo e de ouvir a bateria ao vivo pela primeira vez aqui. O andamento lá para frente… achei incrível”, contou.
A Acadêmicos de Niterói também apareceu como destaque. “Eu já tinha visto em Niterói, mas cheguei aqui e gostei bastante também. Achei que foi um samba que pegou legal na galera, todo mundo cantou bastante”, afirmou. Para ele, o samba da noite foi claro. “O que mais me pegou foi o da Tijuca. O andamento maneiro e a letra muito linda. Acho que foi uma baita canetada”, concluiu.
A União de Maricá realizou na última sexta-feira seu penúltimo ensaio de rua antes do desfile de 2026. Para marcar a reta final, a escola deixou a Passarela do Samba Adélia Breve, tradicional local de ensaios no Centro do município, e ocupou a Praia de Itaipuaçu, encantando, mais uma vez, o público presente com a força de seu canto e de sua comunidade. O CARNAVALESCO esteve presente e conversou com integrantes estrelados da agremiação sobre os preparativos para o grande dia do desfile.
O presidente da União de Maricá, Matheus Santos, avaliou a longa jornada da escola para o Carnaval de 2026.
“A escola está muito preparada. Chega ao fim o trabalho de todo um ano, de todo um ciclo, e esse final está sendo impactante. Hoje, fizemos esse ensaio em Itaipuaçu para pegar o axé da praia. Pudemos afinar o canto e mostrar a garra de toda a nossa comunidade”, disse Matheus.
O intérprete Zé Paulo Sierra também enalteceu a opção de levar o ensaio da agremiação para um espaço mais amplo e festivo.
“Hoje é um ensaio aqui na orla de Itaipuaçu, para confraternizar ainda mais”, colocou ele. “A escola está grande e amadurecida. Ela fez, no ensaio técnico, exatamente o que vem fazendo nos outros ensaios, com muito canto e determinação. Se a gente tem feito bem aqui, não tem por que fazer diferente na Sapucaí. É só mais um dia. Precisamos controlar a ansiedade e o nervosismo”, afirmou.
Já Paulinho Steves, mestre de bateria, celebrou a performance do conjunto rítmico maricaense às vésperas do desfile oficial.
“Falta menos de 1% para a ‘Maricadência’ atingir seu desempenho pleno. Eu sempre peço a energia dos ritmistas, mas a energia deles já está lá em cima. O coração da União de Maricá está feliz e pulsando muito. Agora é desfilar com alegria nos olhos e felicidade no corpo”, expressou Paulinho.
Além do carro de som e da bateria, quem também abrilhantou o ensaio da escola foi o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Fabrício Pires e Giovanna Justo.
“Nossa coreógrafa, Beth Bejani, enaltece o que cada um tem de melhor e nos encoraja a reproduzir aquilo em que acreditamos sobre o quesito. O objetivo é passar a nossa verdade enquanto casal de mestre-sala e porta-bandeira, em função da qual vamos apresentar um trabalho de muita qualidade e emoção”, garantiu Fabrício.
“A ansiedade está à flor da pele. Não consigo dormir, não consigo me alimentar direito porque não vejo a hora de chegar o dia 14. Eu amo a arte da dança, especialmente a dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Isso me comove muito. Os últimos retoques são mínimos. É a posição de uma mão, da cabeça, um sorriso; a coreografia em si já está afiada. Vamos fazer um belíssimo carnaval”, disse Giovanna.
Conhecida pela estrutura de Grupo Especial e pela excelência técnica, a União de Maricá chega a cerca de duas semanas de seu grande cortejo com 70% a 80% dos componentes já tendo recebido suas fantasias, de acordo com o presidente Matheus Santos.
Para Fabrício Pires, a intimidade com o figurino consiste no detalhe final de sua longa preparação. “O Leandro (Vieira, carnavalesco) pensou, para este ano, em uma fantasia bem exuberante. A escola está muito grande, e ele também quer que o casal esteja imponente. Às vésperas do desfile, os últimos ajustes estão em adequar o nosso tempo de evolução à exuberância do figurino”, comentou Fabrício.
Com uma equipe tão competente e bem preparada, cabe à comunidade maricaense exibir todo o seu potencial na avenida, mostrando o porquê de a agremiação ser considerada, por muitos, uma das favoritas ao título.
“Mais do que qualquer opinião minha, que seria fatalmente parcial, posso dizer que os colegas da imprensa especializada em carnaval consideraram nosso ensaio técnico muito forte. Os ajustes finais não dependem mais da direção; agora é com a escola. É esperar a comunidade corresponder no dia 14”, resumiu, por fim, o dirigente Matheus Santos.
O primeiro dia de ensaios técnicos para o Carnaval 2026 começou com o “pé direito” e a Sapucaí lotada, apesar da chuva que atingiu o Rio de Janeiro. Em coletiva realizada após o término dos treinos da Acadêmicos de Niterói, Mocidade Independente, Mangueira e Unidos da Tijuca, o presidente da Liesa, Gabriel David, fez um balanço positivo da noite, destacando a presença de mais de 53 mil pessoas no Sambódromo.
“O balanço é o melhor possível. Eu queria destacar que as escolas, como sempre, arrasaram na avenida. Público sensacional: mais de 53 mil pessoas presentes aqui no Sambódromo em sexta-feira. É um saldo super positivo e a tendência é ir melhorando”.
Para Gabriel David, o novo sistema de som é o grande trunfo deste pré-carnaval, embora ainda esteja em processo de ajuste. O presidente esclareceu que não houve falha técnica no microfone. Sobre o “ruído” e o atraso entre a passagem da Niterói e da Mocidade, Gabriel explicou que foi uma questão logística das equipes de som. Por serem as mesmas equipes atuando em sequência, houve o tempo de deslocamento. Nos desfiles oficiais, as equipes serão alternadas, garantindo o tempo exato de intervalo.
“Sobre o som, acho que é o ponto alto desse pré-carnaval até aqui, mas eu queria destacar que é um processo, estamos no meio desse processo e a vitória só vem lá no sábado das campeãs. Nenhum problema no som foi detectado ao longo de toda a noite. No caso da Unidos da Tijuca, que teve falhas no microfone, não foi no microfone. Foi porque o enredista da escola, na hora de falar, pegou na parte de baixo onde tem o sensor. Damos muita importância para que sejam as mesmas equipes que vão atuar durante os desfiles. Isso é muito importante para a melhor qualidade do som e a melhor performance das escolas”, disse o presidente da Liga.
Segurança e polêmica do Acesso
O controle de público através de QR Codes foi o tema mais sensível da semana. Gabriel David foi enfático ao dizer que o controle não é uma escolha “popular”, mas uma obrigação de segurança imposta pelo poder público para evitar a superlotação. A ocupação dos setores foi acompanhada por câmeras e divulgada nas redes sociais para que o público soubesse onde ainda havia espaço.
“Não é uma tomada de decisão da Liesa. É uma obrigação que a Liesa tem a cumprir de controlar o público por conta de problemas que aconteceram no passado. Não é porque um evento é popular que ele não tem que ser seguro ou que ele tem que ser feito de qualquer jeito. A gente não vai superlotar nenhum dos setores em hipótese alguma. Se vierem mais pessoas do que o que comporta, infelizmente, não vai dar para todo mundo entrar”, afirmou Gabriel David.
Diferente de anos anteriores, onde obras ainda eram finalizadas durante os ensaios, David destacou que o Sambódromo está 95% pronto. Sobre as críticas à diminuição das frisas, o presidente negou qualquer redução de tamanho físico. Ele afirmou que o espaço de frisas até aumentou levemente nos últimos dois anos e que a sensação de mudança se deve ao controle rigoroso de acesso, evitando que pessoas sem ingresso ocupem os corredores das frisas, como ocorria no passado.
“Vamos lembrar de um ano atrás: a gente estava no ensaio técnico onde tinha muita madeira sendo quebrada nos camarotes, barulho de martelo… e a gente vem para um ano onde a Sapucaí está 95% pronta”.
O presidente também comentou a relação com a Liga RJ, classificando as queixas recentes como um “ruído de comunicação”. Gabriel defendeu a captação de recursos privados pelas escolas do Grupo Especial, argumentando que um carnaval de alta performance custa entre R$ 18 e R$ 20 milhões, enquanto os repasses atuais ficam na casa dos R$ 13 a R$ 14 milhões.
David elogiou a gestão de Eduardo Paes e destacou a presença do vice-prefeito Cavaliere no evento, reforçando que o diálogo sobre segurança e operação segue fortalecido.
Por Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira
Arquibancadas mais cheias, concentração lotada e uma comunidade em estado de festa. Foi nesse cenário que o Vai-Vai realizou seu último ensaio técnico no Anhembi antes do desfile oficial. Última escola a ensaiar na sexta-feira, a agremiação transformou a noite em um verdadeiro espetáculo popular, impulsionada pelo forte engajamento da comunidade e por um samba que cresce de forma consistente sempre que é cantado.
Com o enredo “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”, a Escola do Povo revisita, sob a ótica cinematográfica, a memória dos Estúdios Cinematográficos Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, além de narrar o desenvolvimento industrial e plural do povo são-bernardense. O Vai-Vai desfilará pelo Grupo Especial, sendo a sexta escola a cruzar o Anhembi no dia 13 de fevereiro.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente manteve a leitura direta já apresentada no primeiro ensaio. A coreografia retrata operários de São Bernardo em uma narrativa que simula a construção de um filme, dialogando diretamente com a proposta do enredo.
Os componentes executam uma dança leve, com movimentos que remetem à encenação cinematográfica, vestindo figurinos de operários constantemente citados na letra do samba. Ao passar pelo Setor E, a comissão realiza a coreografia de forma estática, o que proporciona maior fluidez e clareza nos movimentos, permitindo melhor leitura do conjunto coreográfico.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Pedro Trindade e Mirelly Nunes confirmaram o alto nível apresentado no primeiro ensaio. Se anteriormente o vento interferiu na apresentação, nesta segunda passagem, sem fatores climáticos adversos, o casal conseguiu executar a série com ainda mais precisão e segurança.
Mirelly destacou a diferença entre os ensaios: “Foi totalmente diferente do nosso primeiro ensaio. Antes tinha aquela tensão da primeira descida, da preocupação com o quesito. Agora foi mais tranquilo, conseguimos nos soltar mais, sempre focados no julgamento. A expectativa está lá em cima”.
Pedro também fez um balanço do processo: “Fizemos ajustes necessários na coreografia e no andamento. Na reta final o cansaço aparece, mas o foco é total. A nossa meta é chegar no dia com alegria, leveza e sensação de dever cumprido. Hoje vencemos mais uma etapa e saímos muito felizes”.
Os giros do casal chamaram atenção pela sincronia e controle técnico. A condução do pavilhão foi segura e elegante, evidenciando entrosamento e estabilidade no quesito. A apresentação se destacou pela leveza, precisão e ausência de intercorrências.
HARMONIA
A harmonia segue como um dos grandes trunfos da escola e justifica o título de “Escola do Povo”. A comunidade abraça o samba e responde de forma imediata ao intérprete. Mesmo sendo a última escola da noite, o Vai-Vai manteve alto nível de canto durante todo o percurso, transformando o ensaio em um espetáculo à parte.
Uma das bossas mais impactantes aconteceu no refrão de cabeça, com a pausa das marcações e dos instrumentos leves, restando apenas caixas, repiques e surdos de terceira. A retomada completa da bateria no verso “meu pavilhão está em cartaz” gerou forte reação nas arquibancadas e um verdadeiro frenesi na comunidade da Saracura.
Algumas alas se destacaram pelo canto mais forte, como a “Somos Todos Irmãos”, que representa os imigrantes e desfila com malas nas mãos, em uma leitura viva e sensível do enredo. O samba, que inicialmente gerava dúvidas quanto ao potencial de empolgação, foi totalmente assimilado e hoje é cantado com entrega por toda a escola.
EVOLUÇÃO
A evolução segue como ponto de atenção, embora esteja sob controle. O tempo de desfile foi de 1h05min47s, novamente muito próximo do limite, repetindo o padrão do primeiro ensaio, quando a escola fechou em torno de 1h06.
Em ambos os ensaios houve a parada da comissão de frente no Setor E, agora claramente intencional. A proposta é que, no verso “Vai parar geral”, toda a escola interrompa o andamento com os punhos cerrados ao alto, simbolizando resistência e luta contra a opressão, conforme sugere o samba-enredo.
Apesar da parada, não houve abertura de buracos significativos. Em alguns momentos foi possível notar espaçamento de até quatro grades, o que não caracteriza buraco, mas acende um alerta para ajustes finos no controle da evolução. Em contrapartida, a escola apresentou uma evolução solta, com ritmo e diálogo direto com a levada da Bateria Pegada de Macaco.
SAMBA-ENREDO
O samba se confirma como um dos mais “grudentos” da temporada. De fácil assimilação, mobiliza arquibancadas e comunidade na avenida. O refrão funciona como motor de empolgação, mantendo a escola conectada do início ao fim do ensaio.
Luiz Felipe, intérprete do Vai-Vai, se destacou pela performance expansiva e pelo constante diálogo com o público. Seu carisma contribuiu diretamente para elevar o nível de resposta da comunidade, sendo difícil passar por um setor sem interação direta entre carro de som e arquibancada.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Pegada de Macaco”, comandada historicamente por mestre Tadeu e, na última década, por mestre Beto, apresentou arranjos que mesclam a tradição vaivaiense com tendências modernas das baterias contemporâneas. Um dos destaques foi a chamada de repique na arrancada do samba: ousada, complexa e marcada por muitas notas executadas “na lata”.
Mestre Beto avaliou positivamente o desempenho: “No ensaio passado eu disse que tinha sido bom e que este seria ótimo. Cumprimos o combinado. Tivemos mínimos problemas, mas foi ótimo. A bateria me surpreendeu hoje”.
As musas do Vai-Vai também chamaram atenção pelos figurinos criativos, com referências diretas ao universo cinematográfico, como Gabi Evaristo, com alusões à pipoca, e Thalita Araújo, com capacetes de obra brilhantes e faixas luminosas que remetem aos trabalhadores.
Por Luiz Gustavo, Marcos Marinho, Guibsom Romão e Matheus Morais
Abrindo a temporada de ensaios técnicos do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí para o Carnaval 2026, a Acadêmicos de Niterói pisou na avenida trazendo sua homenagem de teor popular ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A comunicação do enredo com o público se provou certeira no forte início do ensaio da escola, com o público respondendo muito ao samba e, principalmente, ao refrão principal. O canto e o ritmo do treino tiveram uma queda com o passar da apresentação, mas a agremiação se manteve organizada em sua evolução e teve uma excelente exibição do casal Emanuel e Thainara.
Foi um bom ensaio da estreante no Grupo Especial. A azul e branco abrirá os desfiles da elite do carnaval no dia 15 de fevereiro, domingo, levando à Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins.
A comissão coreografada por Marlon Cruz e Handerson Big trouxe os componentes representando retirantes, fazendo alusão à mudança de Lula, ainda criança, de Garanhuns para São Paulo, além de outros componentes vestidos de metalúrgicos, profissão exercida pelo atual presidente da República durante muitos anos.
O grupo utilizou quatro andaimes, nos quais alguns componentes subiam para realizar parte da coreografia. A comissão apostou em uma dança com boa dinâmica e bem executada em termos de sincronia. No entanto, a apresentação não apresentou um norte muito bem definido entre início e finalização da série. Alguns elementos de dança soaram jogados dentro da coreografia, sem uma concatenação clara na sequência dos atos.
Ainda assim, a série teve bastante impacto visual, apesar de realizada de forma correta e sem grandes riscos criativos.
“Foi muito bom para a gente, porque conseguimos sentir a energia da Sapucaí, ver o que planejamos de luz, de andamento com a escola e das experiências que estamos trazendo, além da vibração dos componentes. Foi sensacional. O escopo segue o mesmo, mas estamos preparando algumas surpresas para o ensaio da próxima semana”, citou Handerson.
“Falar do Lula é sensacional. Falar de uma pessoa que nos representa, somos pretos, pobres. Fiz parte do Bolsa Família, do Programa Fome Zero e do Prouni. Estar no Carnaval falando de alguém que me deu acesso e contribuiu para que eu estivesse aqui hoje é uma grande emoção, um grande entusiasmo e uma grande alegria. Me sinto em êxtase, extremamente espiritualizado por esse momento”, comentou Marlon.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Emanuel e Thainara realizaram uma bela apresentação, com muita segurança e entrosamento. A série apresentou poucas coreografias baseadas diretamente na letra do samba, optando por um bailado mais clássico e livre, o que funcionou muito bem.
Thainara encaixou uma sequência de giros na segunda parte do samba, primeiro em sentido horário, depois anti-horário e, em seguida, retornando ao sentido horário, com vários rodopios muito bem executados, marcados por elegância corporal e explosão. Emanuel apresentou um bailado mais convencional, sem tanta explosão, mas com leveza, boa técnica e excelente desempenho no cortejo.
No refrão de cabeça, novamente Thainara brilhou em seus giros, evidenciando excelente nível técnico.
“Estamos extremamente felizes e realizados. Casal, comissão, bateria, todo mundo ensaia muito, e o desejo é sempre conseguir colocar em prática aquilo que foi planejado e hoje conseguimos. Foi tudo feito com muito amor, muita entrega. A energia estava maravilhosa, o público interagiu com a gente, e essa troca é essencial para o artista. O sentimento agora é de alívio e alegria, mas com os pés no chão: é o primeiro passo. Vamos assistir aos vídeos, rever tudo e ajustar o que for preciso para, na semana que vem, ser ainda melhor. Vamos manter, sim, a movimentação espelhada ao longo de todo o desfile, para contemplar o público, mesmo onde não há cabine”, citou a porta-bandeira.
“Foi muita alegria, de verdade. Posso dizer que foi um dos ensaios técnicos mais leves e felizes que já fiz. Olhar para o lado e ver a Thainara feliz, e para o público vibrando com a gente, foi muito especial. Coreograficamente, conseguimos executar tudo o que nos propusemos até aqui. Agora é rever os vídeos, avaliar os movimentos e seguir ajustando. A movimentação espelhada será adotada no desfile oficial; essa decisão veio após reuniões com os jurados e com a Liga, para contemplar os dois lados e também o público. Já vínhamos trabalhando assim e foi um alívio confirmar que o caminho estava certo”, completou o mestre-sala.
EVOLUÇÃO
A Acadêmicos de Niterói apresentou uma evolução organizada, sem abertura de grandes espaços entre as alas. Nos primeiros minutos, a escola mostrou uma evolução mais explosiva e animada, com componentes brincando e utilizando melhor os espaços da pista.
Com o avanço do desfile, as alas passaram a se apresentar de forma mais engessada, desfilando de maneira mais compacta e com menor dinâmica. Os andaimes utilizados na comissão de frente avançaram lentamente pela Sapucaí, travando o deslocamento da escola e contribuindo para um andamento mais lento, o que impactou diretamente o entusiasmo ao longo da apresentação.
Faltou maior soltura dos componentes e melhor trabalho de lateralidade. A Niterói cumpriu o ensaio em 77 minutos.
HARMONIA E SAMBA
Se o público comprou o samba da azul e branco no início do ensaio técnico, acompanhando o refrão de cabeça com entusiasmo, a escola respondeu na mesma intensidade nos primeiros minutos, cantando o samba, extenso, com muita força e alcançando seu ápice justamente no refrão que exalta o homenageado.
Com o andamento mais lento da evolução, a harmonia foi sendo impactada, e o canto da escola caiu gradativamente, ainda explodindo no refrão principal, mas com queda significativa no restante da obra. As últimas alas conseguiram recuperar parte do ritmo inicial, entoando o samba com mais garra.
Emerson Dias teve boa condução da obra, mantendo uma temperatura adequada no rendimento e contribuindo para o ótimo desempenho do refrão principal. O falso refrão central teve um desempenho correto, mas o trecho que o antecede, “por ironia, treze noites, treze dias, me guiou Santa Luzia, São José alumiou”, funcionou melhor, com levada agradável e boa melodia.
Ainda que não tenha sido uma apresentação potente do início ao fim, o samba se mostrou firme, sem grandes quedas estruturais.
Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval
“Foi um grande ensaio, de uma escola recém-chegada ao Grupo Especial, cantando com muita magnitude. O samba funcionou maravilhosamente, a Sapucaí cantou junto e veio com a gente. Foi muito satisfatório esse primeiro contato com o samba aqui. O novo sistema de som apresentou pequenas oscilações, nada comprometedor; é mais uma questão de posicionamento de antenas e alguns ajustes, porque o som é maravilhoso. Se a gente puder cantar mais e evoluir mais, melhor ainda. Quanto mais acertos tivermos, melhor, porque o sarrafo hoje é muito alto e a disputa é grande. A escola vem com um carnaval muito diferente, com um barracão ousado. A escola está ousada”, afirmou o intérprete Emerson Dias.
OUTROS DESTAQUES
Branco Ribeiro comandou a bateria da Niterói, que apresentou bossas mais convencionais, porém executadas com bastante qualidade e precisão, resultando em uma apresentação muito correta.
“Da nossa parte, tudo o que a gente ensaiou conseguiu ser implementado. Todas as convenções foram executadas, o ritmo foi exatamente o que planejamos junto com a direção musical, a direção de Carnaval e toda a escola. Tivemos um probleminha com o som, principalmente no primeiro box, mas faz parte do processo. A gente entende que não vai ser perfeito de primeira. Infelizmente, muitas vezes somos o parâmetro de teste, os primeiros em tudo que acontece, mas tenho certeza de que tanto a equipe da Liesa quanto a equipe de som vão corrigir isso, e vai ficar perfeito. No geral, o som respondeu bem às nossas expectativas. Na pista, não tivemos problemas de delay, atraso ou retorno indevido dentro da bateria; foi tudo muito claro. É mais uma questão de atenção ao primeiro box, para corrigir o volume, e de uma melhor distribuição do equipamento de som, para que toda a bateria receba o retorno, e não apenas a cozinha, evitando desencontros como o que chegou a ocorrer conosco”, explicou mestre Branco Ribeiro.
Marcelo Freixo, político e presidente da Embratur, desfilou à frente da escola com animação, cantando bastante o samba.
A ala de passistas da agremiação mostrou bom samba no pé e acompanhou o samba com canto forte.
Por Marcos Marinho, Luiz Gustavo, Matheus Morais e Guibsom Romão
A Unidos da Tijuca realizou, na Marquês de Sapucaí, o primeiro ensaio técnico rumo ao Carnaval 2026. A clareza dramatúrgica da comissão de frente, a afirmação elegante do casal de mestre-sala e porta-bandeira e o canto forte, já plenamente incorporado pela comunidade, desenharam um treino em que cada quesito parecia apontar para a mesma direção: a Tijuca reescreve a própria história na avenida. A escola será a última a desfilar na segunda-feira de carnaval, levando para a Sapucaí o enredo “Carolina Maria de Jesus”, assinado pelo carnavalesco Edson Pereira.
A comissão de frente da Unidos da Tijuca se destacou, desde o primeiro módulo de jurados, pela clareza dramatúrgica e pela coerência entre samba, coreografia e narrativa. Coreografada por Ariadne Lax e Bruna Lopes, a apresentação estabeleceu rapidamente para o público quem conduz a cena: Carolina Maria de Jesus.
Composta por 14 componentes, sendo uma pivô que encarna Carolina e outros 13 bailarinos com figurinos que dialogam com o da personagem principal, mesclados às cores da escola, a comissão construiu sua dramaturgia diretamente ancorada na letra do samba. No trecho do pré-refrão principal, “sou a liberdade, mãe do Canindé”, a pivô entrou em cena e se apresentou como Carolina. Em seguida, quando o samba convoca “muda essa história, Tijuca”, é ela quem chama os demais bailarinos para a cena, apresentando uma proposta cênica fundamental: é Carolina quem convoca a escola do Borel a reescrever sua própria história.
A dupla de coreógrafas propôs uma transição bem delineada entre dor, lamento e superação. No trecho “dele herdei também a cruz”, a pivô foi erguida pelos bailarinos homens em uma imagem de censura e opressão, acompanhada por um grito de dor, gesto que sintetiza a violência estrutural e institucional vivida pela escritora. Mais à frente, em “sonhei sobre as páginas da vida”, o grito retornou, agora como gesto cênico transformado: não mais lamento, mas grito de libertação, de superação e afirmação política.
O ponto alto da apresentação se dá quando as mulheres assumem o protagonismo da cena. À frente, elas conduziram a ação enquanto, ao fundo, os homens abriram uma bandeira com a imagem de Carolina e a frase “A luta continua”. Nesse mesmo momento, surge um gesto de forte materialidade simbólica: as bailarinas tiram de seus figurinos exemplares de Casa de Alvenaria, livro escrito por Carolina após deixar a Favela do Canindé e se mudar para Osasco. A escolha articulou trajetória, ascensão, memória e permanência da luta.
A movimentação corporal reforçou essa dramaturgia ao explorar, inicialmente, planos baixos e médios, em momentos associados à opressão e ao sofrimento, para depois avançar a posições mais eretas, com punhos cerrados e gestos afirmativos, sublinhando a letra do samba. Há ainda um cuidado técnico perceptível na adaptação da coreografia aos módulos: na cabine espelhada, a centralidade do movimento se projeta para frente; na cabine única, a orientação se ajusta diretamente à visão dos jurados. No clímax da cena, a pivô abre um pano com a frase “Quem inventou a fome são os que comê”, atribuída à escritora, reforçando o caráter político e direto da mensagem.
A comissão não aposta em efeitos espetaculares nem em surpresas mirabolantes. Sua força está justamente na simplicidade propositiva, na leitura acessível e na capacidade de contextualizar Carolina dentro da própria história da Unidos da Tijuca. Não se trata apenas de apresentar a escritora, mas de sugerir o que a escola aprende com ela e como essa aprendizagem se inscreve no momento em que a Tijuca também busca reescrever seus caminhos.
Como ponto de atenção, fica registrado que o canto da comissão, com o avançar do desfile, perde volume. No mais, a expectativa é boa para o desfile oficial: a entrada dos figurinos definitivos e a possível inclusão de elemento cenográfico poderão potencializar ainda mais a proposta, ampliando impacto visual e densidade dramatúrgica. Ainda assim, o que se viu no primeiro ensaio técnico indica uma comissão segura, bem resolvida e com propostas claramente estabelecidas e de fácil leitura.
“Esse ensaio foi sensacional e arrepiante. A comissão arrasou, está brilhando com um enredaço e um samba incrível. A galera deu mais do que 100% de si. Já estamos dando alguns mini-spoilers e alinhando com a direção da escola ajustes para o próximo ensaio, mas é tudo surpresa. A princípio, vamos permanecer como estamos, apenas ajustando alguns detalhes”, citou Ariadne.
“A comissão quer emocionar o coração de cada Carolina que nós, mulheres, carregamos. Acredito que hoje a gente deu uma palhinha do que vamos levar para o desfile. É algo sentimental, que vai tocar direto no coração”, afirmou Bruna.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Se a comissão de frente operou pela transição entre dor e superação, o casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos da Tijuca entrou em cena já pelo campo da superação e da cabeça erguida. Matheus Miranda e Lucinha Nobre apresentaram um bailado que apostou na exuberância, na elegância e na imponência como elementos de leitura.
Essa afirmação começa pelo figurino dourado, de forte impacto visual, que dialoga diretamente com o bailado clássico do casal. O desenho do traje potencializou a postura altiva dos dois e reforçou uma ideia de superação: um casal que dança com entrosamento, brilho, segurança e consciência do momento vivido pela escola. É um figurino que não apenas veste, mas sustenta dramaturgicamente a performance.
Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval
Lucinha, em especial, protagonizou momentos de grande beleza e sensibilidade na apresentação. No verso “Dos salões da burguesia aos barracos do Borel”, o gesto de encostar o rosto no pavilhão constrói uma imagem de carinho e amorosidade rara e muito potente. A porta-bandeira reverencia o símbolo máximo da escola como quem acolhe uma história que está sendo reescrita com cuidado e afeto. É uma cena que humaniza o pavilhão e conecta diretamente território, memória e pertencimento.
Outro momento de forte impacto ocorreu no trecho “Fui a caneta que não reproduziu a sina da mulher preta no Brasil”. Ali, Matheus se abaixa em reverência à sua porta-bandeira enquanto Lucinha bate no peito, num gesto direto de afirmação identitária. A cena opera em múltiplas camadas: Lucinha representa as mulheres pretas do Borel, evoca Carolina Maria de Jesus e reafirma, no corpo, a centralidade da mulher negra na narrativa do desfile. Trata-se de uma inteligência coreográfica que sublinha o samba com precisão performativa.
No módulo espelhado, o entrosamento do casal se mostrou ainda mais evidente. A apresentação do pavilhão é limpa, bem conduzida, e o cortejo de Matheus à Lucinha, especialmente no beijo na mão no trecho “Onde nascem Carolina”, evidencia delicadeza, respeito e parceria. Esse entrosamento não é casual: dançando juntos pelo terceiro ano consecutivo, Matheus e Lucinha vêm investindo em múltiplas frentes de aprimoramento, do treinamento físico ao refinamento do bailado, passando inclusive por um processo de terapia de casal, estratégia que se reflete claramente na pista.
Como ponto de atenção, à medida que o ensaio avança, sobretudo no último módulo, há uma leve perda de entrosamento. O olhar se torna menos presente, a graciosidade diminui e o casal parece mais concentrado na execução técnica dos movimentos do que na relação entre si. Não chega a comprometer a apresentação, mas sinaliza a necessidade de garantir que o vigor, a leveza e a vitalidade observados nos primeiros módulos se mantenham até o fim do desfile.
Ainda assim, o conjunto apresentado no primeiro ensaio técnico indica um casal em trajetória consistente de amadurecimento. Mantendo o nível de entrosamento e a qualidade do bailado vistos no início da apresentação, Matheus Miranda e Lucinha Nobre pavimentam um caminho sólido para alcançar boas avaliações no desfile oficial.
“É ensaio. Sempre tem testes, sempre há o que mudar e melhorar. A gente busca a perfeição, mesmo sabendo que ela não existe, mas é essa busca diária que importa. Se tiver algo para ajustar, mudar um pouco a mobilidade, a gente faz. Nossa fantasia está leve, aconchegante, mas sempre tem algum detalhe. É trabalhar, deixar tudo bem encaixadinho para chegar na hora e fazer o melhor”, disse o mestre-sala.
“Eu amei fazer essa coreografia junto com a Camille e o Matheus. Foi um quebra-cabeça, mas acho que conseguimos cumprir o pré-requisito, que era saudar toda a Sapucaí. Com essa energia, conseguimos fazer um trabalho bacana. A escola está muito animada. É muito bonito contar a nossa história e poder reverenciar tantas Carolinas que temos dentro da escola, no Brasil e no mundo”, completou a porta-bandeira.
SAMBA E HARMONIA
Antes que o canto coletivo tome a pista, o samba da Unidos da Tijuca se anuncia pela voz. Na introdução, a cantora de apoio Lissandra Oliveira entoa “Sou Carolina Maria de Jesus, aquela que venceu a fome, reescrevendo o Brasil”, em um gesto que ultrapassa a função musical e se afirma como convocação. A Sapucaí é chamada a entrar no universo do desfile e, mais do que isso, é convidada a cantar essa história com garra, potência e afirmação.
Essa abertura organizou a escuta e preparou o terreno para o crescimento orgânico do canto da escola. Quando o samba avança para o pré-refrão e encontra o refrão principal — “Sou a liberdade, mãe do Canindé / muda essa história, Tijuca” —, a resposta da comunidade é imediata. O canto explode com força, sustentado pela cadência da bateria e pela condução firme do carro de som, transformando esse trecho no motor emocional do desfile.
A comunidade tijucana cantou com propriedade. O samba está na ponta da língua, claramente apropriado pelos componentes, resultado de um trabalho consistente nos ensaios de rua e nos ensaios setoriais ao longo da temporada. Há uma adesão coletiva à mensagem da obra, perceptível não apenas no volume do canto, mas na intenção com que ele é projetado ao longo da pista.
Alguns trechos se destacam de forma mais notória. Versos como “Fui a caneta que não reproduziu a sina da mulher preta no Brasil”, “Me chamo Carolina Maria de Jesus, dele herdei também a cruz” e o bloco mais denso — “Os olhos da fome eram os meios de justiça dos homens / meu quarto foi despejo de agonia, a palavra é arma contra a tirania” — surgem com canto firme, sustentado e atravessado por entendimento do que está sendo narrado.
Na harmonia, a condução de Marquinhos ArtSamba apostou na sobriedade como virtude. Sem firulas vocais ou excessos de arranjo, o carro de som manteve vigor constante, empurrando o samba para frente e convidando o componente a não abandonar a melodia. É um trabalho que privilegia continuidade e sustentação, mais do que impacto pontual.
Já nos metros finais do desfile, especialmente no trecho iniciado em “Sonhei sobre as páginas da vida”, percebe-se uma oscilação de intensidade em algumas alas. Não se trata de um quadro generalizado, mas localizado, possivelmente relacionado ao desgaste físico da apresentação. O contraste aparece em alas que mantêm o canto do início ao fim, como a ala da diversidade, dos passistas e das crianças, que seguem sustentando energia mesmo no encerramento.
Ainda assim, o conjunto revelou uma escola que comprou o samba e o carrega como discurso. De andamento dolente, mas espírito perseverante, a obra convoca o componente a seguir adiante, a evoluir, a insistir. Lapidar a sustentação do canto no trecho final pode elevar um trabalho que, em sua base, já se mostra sólido e plenamente incorporado pela comunidade tijucana.
“O balanço é positivo. Testamos algumas coisas para ver se vão dar certo ou não no dia do desfile, mas o saldo foi bom. Creio que foi um ensaio bacana. Na semana que vem, vamos ensaiar de novo para, no dia 16, estarmos prontos, se Deus quiser, para buscar o campeonato. O novo som é maravilhoso, não tenho nada a reclamar. É lógico que, dentro do possível, sempre há um reajuste aqui e outro ali, mas, no demais, foi maravilhoso”, garantiu o intérprete.
EVOLUÇÃO
A Unidos da Tijuca apresentou uma evolução marcada pela rapidez e pela fluidez. O andamento da escola se mostrou acelerado: em cerca de 36 minutos, a cabeça da escola já deixava a Marquês de Sapucaí, sinal claro de um fluxo veloz ao longo da pista.
No plano dos componentes, a evolução se constrói com naturalidade. As alas desfilaram à vontade, com espaço para brincar, interagir e ocupar a pista sem rigidez. Essa sensação de liberdade, indispensável à boa avaliação do quesito, aparece como um dos pontos fortes do ensaio técnico. A Tijuca encontra um equilíbrio entre deslocamento eficiente e leveza corporal, permitindo que a escola caminhe sem travas e sem perda de leitura.
Essa fluidez, já bastante positiva, ainda pode crescer. Há margem para ampliar a organicidade do conjunto, especialmente no ajuste de tempos entre alas, mas o que se apresenta é sólido e convincente, com uma escola confortável no próprio ritmo.
O momento mais delicado surge na transição para o segundo recuo da bateria. Enquanto a bateria entra, o segundo casal avança para segurar o espaço, e a ala que deveria ocupar imediatamente a área demora alguns momentos para chegar. Não chegou a se configurar um buraco, em grande parte porque o segundo casal administrou bem o tempo e o espaço, mas houve uma leve aceleração da ala que carregava livros nas mãos para preencher o vazio iminente. É um ajuste pontual, que pede atenção no encaixe fino entre recuo e avanço do corpo da escola.
No conjunto, a Unidos da Tijuca entrega uma evolução segura, fluida e bem resolvida, mesmo em um desfile que atravessou a Sapucaí com rapidez. Com pequenos ajustes de sincronia nos momentos de transição, a escola tem potencial para elevar ainda mais um quesito que, já neste ensaio técnico, se apresentou em bom patamar.
“O saldo do ensaio é positivo. Ainda vamos conversar com a harmonia e entender o desfile como um todo, mas, pela minha percepção passeando pela escola, o componente conseguiu reproduzir o que a gente vem fazendo na rua nesses últimos meses. A escola cantou bastante, veio compacta, as pessoas se divertiram e transmitiram a emoção que acreditamos ser o trunfo do nosso projeto: emocionar e contar essa história de Carolina. Para um primeiro ensaio na Sapucaí, a primeira vez que pisamos aqui nesta temporada, o resultado é realmente positivo. Claro que ainda precisamos conversar, reunir cada responsável por setor e entender o que pode ser acrescentado para preparar um ensaio ainda melhor na semana que vem. A empolgação da arquibancada, das frisas e a emoção do componente mostram que o trabalho foi bem realizado, mas ainda não estamos no auge. O nosso auge será na segunda-feira de Carnaval. Vamos subindo de grau a cada semana para chegar lá e fechar de forma apoteótica”, explicou Elisa Fernandes, diretora de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
Sob a cadência segura de mestre Casagrande, a bateria “Pura Cadência” conduziu o samba com firmeza e regularidade, garantindo base rítmica consistente ao longo da apresentação. Mesmo enfrentando problemas técnicos no início do ensaio, especialmente ajustes de volume e questões de delay, mencionadas pelo próprio mestre ao microfone no aquecimento do desfile, a bateria manteve o controle e atravessou a Sapucaí com categoria, sem comprometer o rendimento musical da escola.
“Foi bom. Não foi exatamente aquilo que eu estava esperando, mas ainda estamos em fase de testes: teste de som, ajustes. Tem muita coisa para ajustar ainda, e vamos conversar no meio da semana com a equipe técnica e com a direção da escola. Temos muito a melhorar, e ainda teremos outros ensaios. Para a bateria, hoje foi bom, mas precisamos melhorar bastante, principalmente na questão do som e da logística. É tudo novo para a gente. Sofremos no primeiro box, a audição estava muito alta, mas tivemos uma atenção muito grande do pessoal da logística de som. Isso tudo são ajustes; hoje foi o primeiro dia, então é natural. O som é novo, mais moderno, exige adaptação, mas a qualidade é excelente — tão boa que estava até alta demais. Agora é ajustar. O carro de som está bem encaixado; o Marquinho é um cantor clássico, perfeito para esse samba, parece que foi feito sob encomenda para ele. Pedi para o pessoal agrupar mais perto do carro de som e, no final, deu tudo certo: conseguimos finalizar bem o ensaio. Para o segundo ensaio, a expectativa é que o som já esteja mais definido, com as caixas instaladas. Gradativamente, até o dia do desfile, esses ajustes serão feitos. A ideia é chegar perto do ideal no próximo ensaio, na sexta-feira, dia 6, 100% só no dia, mas chegar a 90% ou 99% já será ótimo”, comentou mestre Casagrande.
Outro ponto alto foi a presença da rainha de bateria Mileide Mihaile, que surgiu com um figurino marcado por folhas. À frente da bateria, Mileide esbanjou simpatia e samba no pé, estabelecendo uma comunicação direta com os ritmistas e com o público, reforçando o clima de leveza e celebração que marcou o ensaio.
A ala de passistas também mereceu atenção especial, tanto pelo figurino quanto pela performance. Os malandros desfilaram com ternos e chapéus amarelos e sapatos azuis, enquanto as cabrochas surgiram em figurinos azuis, combinados com saltos prateados. A elegância visual se refletiu diretamente no samba no pé, com uma apresentação segura, vistosa e bem alinhada à proposta estética da escola.