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Beija-Flor faz ensaio técnico de rolo compressor, exalta a ancestralidade e deixa claro o desejo pelo bicampeonato

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Por Marielli Patrocínio, Lucas Santos, Marcos Marinho e Matheus Morais

A Beija-Flor de Nilópolis entrou na Marquês de Sapucaí já sob um signo simbólico poderoso. O ensaio técnico aconteceu no dia 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, e a escola fez questão de abrir sua apresentação saudando a orixá, levando à frente do desfile uma imagem dedicada à Rainha do Mar. O gesto antecipou o tom do que viria a seguir: um ensaio forte, ancestral e avassalador. Com o enredo “Bembé”, sobre o maior candomblé de rua que acontece todo 13 de maio em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, a azul e branca da Baixada Fluminense mostrou por que é historicamente reconhecida como o “rolo compressor” da Sapucaí e deixou evidente que quer, mais uma vez, brigar diretamente pelo título.

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COMISSÃO DE FRENTE

Assinada pelos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, a comissão de frente da Beija-Flor foi um dos grandes pontos altos do ensaio técnico. A apresentação se destacou pela potência dos movimentos e pela sincronia impecável dos 15 bailarinos, que atuaram com extrema precisão.

A coreografia começa com movimentos concentrados nos braços, de forte carga simbólica, e evolui para ações mais diretas e ágeis com o corpo inteiro, demarcando claramente o espaço da comissão e ocupando a pista com autoridade. As constantes trocas de posição garantem dinamismo e leitura fácil, característica fundamental para o julgamento e o entendimento do público.

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Um dos elementos de maior impacto visual foi o recurso cenográfico que simulava a continuidade do corpo de uma bailarina posicionada no topo, realizando movimentos mais sutis, porém carregados de simbolismo e força estética, evocando a ancestralidade como eixo central da narrativa. Os figurinos, em tons terrosos e com estampas que remetem à herança africana, reforçaram o conceito da apresentação.

Foi uma comissão com performance de desfile oficial, que funcionou de maneira exemplar para a cabine espelhada, demonstrando maturidade e alto nível de acabamento.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Claudinho e Selminha Sorriso, o mais longevo em atividade atualmente na Marquês de Sapucaí, apresentou uma dança segura, refinada e de forte caráter tradicional, sem abrir mão da leitura temática do samba.

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Vestida de Iemanjá, Selminha Sorriso realizou uma dança em saudação à orixá no trecho “Iemanjá alodê no mar, no mar”, enquanto Claudinho a reverenciava com precisão e respeito ritualístico. A coreografia alternou momentos de cortejo, interações mais próximas entre o casal e passagens de grande leveza, equilibradas com trechos de maior vigor, acompanhando as variações do samba.

Uma apresentação madura, bem construída e tecnicamente segura, com excelente aproveitamento da pista e leitura clara.

HARMONIA E SAMBA

A Beija-Flor reafirmou uma de suas marcas históricas: o chão. A comunidade cantou o samba do início ao fim com força, entrega e harmonia uníssona, sem oscilações perceptíveis. O ponto alto foi o paradão, em que a escola sustentou o canto apenas na voz dos componentes, em volume alto e impressionante, evidenciando o entrosamento entre comunidade e samba.

Os intérpretes Nino do Milênio e Jéssica Martin conduziram o samba com extrema competência, exibindo uma sintonia vocal que se encaixa perfeitamente com a ala musical. Destaque para a potência vocal de Jéssica, que imprimiu força e emoção à condução da obra.

EVOLUÇÃO

A evolução da Beija-Flor foi segura e impactante em todos os setores. A escola tomou a Marquês de Sapucaí com autoridade, justificando plenamente o apelido de rolo compressor. As alas desfilaram cantando forte, bem posicionadas, enfileiradas e ocupando corretamente os espaços.

Os componentes demonstraram alto nível de animação e entrega, atravessando a Avenida em verdadeiro estado de êxtase, o que contribuiu para a fluidez do desfile e para o impacto do conjunto.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Soberana”, comandada por mestre Rodney e Plínio, deu um verdadeiro espetáculo. As bossas se destacaram especialmente nos trechos “atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba”, com os sons dos atabaques ecoando com força pela Sapucaí, e em “Iemanjá alodê no mar, no mar”, quando a bateria executou uma bossa inspirada no toque da orixá. Uma bateria de identidade clara, pulsante e carregada de força ancestral.

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Fotos: Vítor Melo/Divulgação Rio Carnaval

A rainha de bateria Lorena Raíssa foi um dos grandes nomes da noite, com muito samba no pé, carisma e uma performance que reforça a ideia de que o samba é ancestralidade em movimento.

As alas coreografadas também chamaram atenção, adicionando ainda mais força ao conjunto e reforçando a imagem de uma escola que atravessa a Sapucaí com potência, organização e impacto visual.

O ensaio técnico da Beija-Flor de Nilópolis deixou uma mensagem clara de que a escola está preparada, segura de suas escolhas e disposta a lutar com força total pelo bicampeonato em 2026.

Grande Rio atravessa a chuva com força ancestral e confirma consistência na disputa pelo topo

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Por Matheus Morais, Marcos Marinho, Lucas Santos e Marielli Patrocínio

Evocando a cultura pernambucana do Manguebeat e a força ancestral da lama, a Grande Rio veio firme em seu primeiro ensaio técnico na Sapucaí nesta temporada, entrando na Marquês de Sapucaí após a maior parte da chuva que tomou conta da cidade nesta noite de domingo. Saudando Nanã em sua comissão de frente, a escola de Caxias demonstrou uma participação ativa de sua comunidade por meio do canto e da desenvoltura dos componentes ao longo da pista, com merecido destaque também para o casal Daniel Werneck e Taciana Couto, que abrilhantou a Avenida durante sua passagem. Com o enredo “A Nação do Mangue”, a Grande Rio será a terceira escola a se apresentar na terceira noite de desfiles do Grupo Especial, na terça-feira de carnaval.

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COMISSÃO DE FRENTE

A apresentação comandada por Hélio e Beth Bejani apresentou uma narrativa em torno de Nanã e do mangue, com os bailarinos representando viventes e sobreviventes desse tipo de bioma, além da própria orixá, que tem profunda relação com a lama e funciona como ponto de partida do enredo. A história encenada teve recepção muito animada do público das arquibancadas, iniciando-se a partir da metade do refrão do meio e percorrendo uma trajetória guiada pela orixá, que passa pela pobreza, pela diversidade dos viventes do mangue, incluindo os animais, por suas lutas e desafios.

A coreografia se destaca por movimentos mais diretos, com uso frequente dos braços e da cabeça, remetendo aos caranguejos, e ganha nova dinâmica na segunda parte da apresentação com a utilização da luz roxa na Sapucaí, focando mais na dimensão social do enredo. O deslocamento rápido do elenco dominou bem o espaço da Avenida, com movimentos bem sincronizados e até uma queda muito bem executada, que obteve boa resposta do público.

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O figurino utilizado pelos bailarinos da comissão também foi muito bem realizado, com referências aos pescadores e a outros profissionais que têm na lama e no mangue sua forma de sustento. Houve bom uso de elementos como redes e tecidos que remetem a trapos, com Nanã surgindo na mesma linguagem estética dos demais integrantes.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Em uma noite encantada, Daniel e Taciana viveram um grande momento protegendo e portando o pavilhão tricolor de Caxias. Com uma apresentação segura em todos os módulos, o casal demonstrou muita garra ao desfilar após a chuva e ainda sob vento forte na Avenida. A coreografia foi muito bem executada, com destaque para os giros precisos de Taciana e para a dança e o cortejo de Daniel, ambos de perfil tradicional, mas incorporando com propriedade elementos relacionados a trechos do samba ao longo da apresentação, como nos gestos que remetem a Nanã durante o refrão do meio.

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O casal apresentou figurinos coerentes com a proposta: o terno de Daniel trouxe referências mais ligadas à arte, enquanto Taciana vestiu um traje mais tradicional, em tons de roxo e lilás escuro, cores associadas a Nanã.

SAMBA E HARMONIA

Demonstrando canto forte e consistente, a comunidade caxiense leva seu hino para 2026 muito a sério e canta com alegria e verdade a obra que estará na Sapucaí. O samba se mostrou poético, carregando a escola e convidando à reflexão, sendo interpretado com maestria por Evandro Malandro, que demonstrou grande segurança na condução da obra, assim como os componentes da Tricolor de Caxias.

O domínio do samba ficou evidente e reforça a profundidade da identidade que a Grande Rio vem construindo nos últimos carnavais. Um dos destaques foi, mais uma vez, o trabalho de Evandro Malandro em conjunto com o carro de som, impecável dentro da proposta, inclusive nos momentos em que a condução deixou espaço apenas para a voz da comunidade se destacar nas paradinhas. Trechos que já viralizaram foram bem cantados e bem recebidos pelas arquibancadas, como os refrões e a subida “Freire, ensine um país analfabeto / Que não entendeu o manifesto da consciência social”, que marcaram claramente o ensaio.

EVOLUÇÃO

A Grande Rio passou leve e correta pela Passarela do Samba, demonstrando uma evolução tranquila, sem deixar de se movimentar e de se divertir, mesmo sustentando um forte grito social. As alas desfilaram sem atropelos, com boa comunicação com o público, especialmente aquelas que apresentaram coreografias ou elementos mais inusitados, como as plaquinhas com trechos do samba.

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Fotos: Vítor Melo/Divulgação Rio Carnaval

De ponta a ponta, a escola de Caxias mostrou bom manejo dos momentos de avanço e de pausa realizados ao longo do ensaio deste domingo.

OUTROS DESTAQUES

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A bateria da Grande Rio veio pulsando com muita força sob o comando de mestre Fafá, que utilizou com propriedade as bossas e convenções apresentadas na Sapucaí diante da comunidade, reforçando o bom trabalho desenvolvido à frente do naipe. A rainha Virgínia Fonseca também esteve presente em seu primeiro ensaio técnico na Passarela do Samba.

Mesmo com dilúvio, Imperatriz bota pra ferver e consolida rotina avassaladora de ensaios

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Por Lucas Santos, Marcos Marinho, Matheus Morais e Marielli Patrocínio

Por volta das nove da noite do último domingo, a cidade do Rio de Janeiro presenciou dois fenômenos de força avassaladora. Um foi a chuva que desabou sobre a cidade de forma torrencial. O outro, que já nem é algo tão atípico, pelo contrário, está bem rotineiro, foi a Imperatriz colocando para ferver em seu primeiro ensaio técnico na Sapucaí para o Carnaval 2026. E, aqui, fala-se “botou para ferver”, parafraseando a letra do samba, mas poderia até utilizar aquele palavrão no lugar de “ferver”, que talvez sintetizasse melhor o sentimento dos gresilenses após o show da escola, que passou por cima da chuva que começou a cair na Sapucaí e que só a Rainha de Ramos enfrentou neste domingo com essa intensidade.

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Desde o esquenta, o público não arredou pé das arquibancadas, esperando a Verde e Branca que fica aos pés do Morro do Alemão. Na pista, o que se viu foi uma escola quentíssima, sacana, sagaz, alegre, sensual, que canta muito até quando sabe que o samba é inferior aos que a Imperatriz vinha levando. Camaleônica, e não é de hoje. Excelência de quesitos, criatividade e uma agremiação que tem feito da rotina de seus ensaios, seja em Ramos ou na Sapucaí, verdadeiros acontecimentos.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

Com o enredo “Camaleônico”, que está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Imperatriz será a segunda escola a pisar na Sapucaí na primeira noite de desfiles do Grupo Especial.

COMISSÃO DE FRENTE

Camaleônico, o título do enredo, definitivamente pode ilustrar a comissão que o coreógrafo Patrick Carvalho trouxe para este primeiro ensaio. Os componentes apresentavam a fantasia de uma entidade humanoide, mas com a pele de camaleão. Coloridos, a pintura do corpo se destacava quando a iluminação da Sapucaí diminuía. No centro, um pivô trazia Ney com a sua fantasia mais conhecida do “Secos e Molhados”, o rosto pintado de branco, as crinas e penas penduradas e um tapa-sexo.

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Os “camaleões” mostraram muita sensualidade na dança, trabalhando essa ideia de movimento corporal que o enredo também valoriza na obra do homenageado, e a todo momento interagiam com o pivô, chegando até a erguê-lo no alto. No clímax da apresentação, o grupo escondia o pivô e uma outra “entidade em pele camaleônica” aparecia para delírio do público. Depois, “Ney” retornava em outro momento, em que os componentes se uniam, agora com a bandeira da Rainha de Ramos nas costas.

Ótimas sacadas na apresentação, conceito muito bem definido e execução muito bem realizada. Além de tudo, trouxe o enredo, o homenageado e interagiu com o público. E a dança dos componentes trouxe muito dos movimentos de Ney e sua sensualidade. Tudo muito bem ensaiado.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

A chegada da renomada coreógrafa Ana Botafogo só ajudou a consolidar o crescimento e o amadurecimento do casal Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro, que já é latente desde o desfile do Lampião. E, a cada ano juntos, a dupla evolui cada vez mais e se mostra mais confiante quando pisa na Sapucaí.

Com a pista bastante molhada, com poças e mais poças, mesmo com chuva e vento, Phelipe e Rafaela não se intimidaram. Além do bailado clássico que a dupla tem como característica, neste ensaio, particularmente, o casal mostrou muita sensualidade e uma pitada do feitiço que Ney usa em suas danças para deixar o público atônito. Apresentação muito madura.

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Phelipe chegava a levantar água quando fazia seus movimentos, em um bailar e efeito que pareciam até ter combinado com a natureza. E Rafaela, segura e intensa nos giros, manteve a bandeira bem desfraldada durante todo o tempo. A roupa preta da dupla combinou com a elegância e a magia do homenageado que trouxeram para a Sapucaí. E os dois não só cumpriram bem o seu papel como entraram no espírito do homenageado.

HARMONIA E SAMBA

A maturidade que Pitty e Lolo atingiram no entrosamento e na qualidade musical é diferenciada. Mesmo com um samba que claramente está abaixo em relação às últimas obras que a escola levou para a Sapucaí, a dupla incrementou a música e fez ela crescer muito, destacando aquilo que tem de mais forte, com bossas e vocalizações, confirmando a espiral de crescimento que já vinha sendo notada nos ensaios na Euclides Faria, em Ramos.

O refrão de baixo, que certamente é o trecho de maior força da obra, está surgindo sempre com muita intensidade, em diversas vezes cantado apenas pela comunidade. No “Eu juro que é melhor”, a levada da bossa deixou o trecho “gostoso” de cantar e com um convite para dançar. A bossa de charanga no “se joga na festa” é outro ponto alto, sempre com a enorme qualidade do time de vozes, bem afinado, treinado e entrosado, que deixa Pitty à vontade e livre para conduzir com força, mas também com muita técnica e correção.

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E a comunidade, debaixo de um dilúvio no início do treino e com chuva moderada e constante em todo o ensaio, deu um show de canto, com firmeza, mostrando que a letra estava na ponta da língua. Algumas alas dançavam, faziam coreografias e, mesmo assim, não deixavam de cantar em nenhum momento. A resposta do público foi muito boa, cantando também, principalmente nas partes que a bateria e o carro de som jogavam para a galera.

EVOLUÇÃO

Como tem sido a tônica dos últimos anos e também neste carnaval, nos ensaios, a Imperatriz apresentou mais uma vez uma evolução muito espontânea, quente, livre e com muita alegria dos componentes. A escola brincava muito entre si, e era fácil encontrar desfilantes interagindo com o público das frisas, que adorava.

A chuva parece ter dado ainda mais energia e garra, e a Imperatriz teve muita fluidez e ritmo, na mesma pegada do samba, sem correria, e com as alas, no geral, bem livres. A escola passou pela Avenida sem apresentar problemas aparentes no quesito.

Algumas alas no início da escola traziam pequenas coreografias bem dentro da proposta do enredo, sem influir na espontaneidade dos componentes, produzindo um bonito efeito. Aliás, muitos se entregaram de alma ao enredo e passavam dançando com sensualidade, como uma ala de rosa que vinha antes da coroa da escola, com chapéu de vaqueiro. No final, uma ala com quepe de policial também roubou a cena nesse sentido. A antiga “Certinha de Ramos” segue quebrando seus próprios paradigmas e tem um dos ensaios mais quentes do carnaval carioca.

OUTROS DESTAQUES

Pitty conseguiu levantar a Sapucaí em um momento em que a chuva estava muito forte, cantando os últimos sambas que a escola levou para a Avenida no esquenta. “Cigana Esmeralda” e “Oxalá” obtiveram uma grande recepção do público e começaram a incendiar a Sapucaí antes do treino propriamente dito.

A rainha Iza esbanjou samba no pé e, com a fantasia “Jeito felino provocador”, com penugem preta e o verde da escola, além de uma imagem de onça dourada na cabeça, fez sua homenagem a Ney Matogrosso. A bateria Swing da Leopoldina, de mestre Lolo, além das bossas e da sonoridade primorosa, ainda mostrou repertório dançante com coreografias e realizou alguns movimentos de deslocamento interessantes, sempre em conformidade com o desenho que fazia na parte rítmica e sonora. A coroa de Ramos, toda iluminada, abriu o cortejo da escola neste ensaio, assim como no minidesfile.

Viradouro confirma excelência de seus quesitos em noite de devoção a Ciça

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Por Marcos Marinho, Matheus Morais, Marielli Patrocínio e Lucas Santos

Mesmo sob chuva e vento durante parte do ensaio, a Viradouro apresentou rendimento consistente na Marquês de Sapucaí e confirmou a excelência de seus quesitos no primeiro ensaio técnico para o Carnaval 2026. Com comissão de frente de leitura clara, casal de mestre-sala e porta-bandeira seguro, canto constante da comunidade, bateria precisa e evolução fluida, a escola atravessou as adversidades climáticas mantendo controle técnico em uma noite marcada pela homenagem ao mestre Ciça. A Viradouro será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval com o enredo “Pra cima, Ciça!”, assinado pelo carnavalesco Tarcísio Zanon.

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COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Priscilla Mota e Rodrigo Negri, a comissão de frente da Viradouro apresentou uma proposta cênica ao mesmo tempo chamativa e divertida, apostando na clareza da leitura e na comunicação direta com o público. Em cena, 13 componentes vestem ternos bicolores, de um lado, vermelho; do outro, branco, que estruturam o principal jogo da coreografia.

No lado vermelho, os integrantes utilizam máscaras de caveira e gravatas; no branco, máscaras com o rosto do mestre Ciça e apitos pendurados no pescoço. À medida que os corpos giram e mudam de posição, as figuras se alternam diante do olhar do público, revelando ora a caveira, apelido pelo qual o mestre é conhecido entre seus ritmistas, ora o rosto afável e amplamente reconhecido no mundo do samba. A dinâmica cria uma brincadeira visual eficiente, de leitura imediata, que sustenta o impacto da apresentação.

A movimentação coreográfica privilegia o samba no pé como eixo expressivo, conectando passado e presente da trajetória do homenageado. A comissão evoca o início do percurso de Ciça no samba, como passista do São Carlos, em diálogo com a figura consagrada e reverenciada como mestre de bateria, que hoje ocupa lugar central na história do carnaval. Essa dualidade é conduzida com leveza, sem excessos, reforçando a inteligibilidade da cena.

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Um dos momentos mais expressivos ocorre no trecho do samba “Quando o apito ressoa, parece magia”: os componentes se organizam em duas filas e executam movimentos que remetem à regência de uma bateria, evocando diretamente a atuação de Ciça como mestre. A imagem é simples, precisa e simbólica, funcionando como síntese do enredo dentro do quesito.

Mesmo sob chuva e vento, a comissão manteve regularidade, vigor e clareza na execução dos movimentos, demonstrando segurança técnica e controle cênico em condições climáticas adversas. Ainda que não se trate da coreografia oficial do desfile, Priscilla Mota e Rodrigo Negri, em consonância com a Viradouro, optam por entregar ao público da Sapucaí uma apresentação do quesito completa, acessível e respeitosa ao enredo. A proposta honra quem esteve presente na noite de domingo na Sapucaí e cumpre, com eficiência, um papel fundamental da comissão de frente: convocar público e jurados a embarcar no enredo da escola. Nesse sentido, é um acerto pleno.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Julinho e Rute realizaram uma apresentação de alto nível no primeiro ensaio técnico da Viradouro, confirmando a maturidade e a solidez de um casal que se destaca pela fina sintonia em cena. Há entre os dois um entrosamento evidente, construído ao longo de 18 anos de trajetória conjunta, perceptível no olhar, no sorriso, na sincronia dos movimentos e na precisão das finalizações coreográficas.

Julinho atua como um mestre-sala de perfil generoso. Seu bailado é marcado pelo cortejo atento e pela constante abertura de cena, conduzindo o foco da apresentação para a porta-bandeira e permitindo que o pavilhão se imponha com elegância. Não há disputa de protagonismo: sua dança está claramente a serviço de Rute e do símbolo maior da escola. Essa postura qualifica ainda mais a apresentação do casal.

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Rute, por sua vez, demonstra força, vigor e grande domínio na condução do pavilhão, especialmente diante das adversidades climáticas que marcaram o ensaio. Desde o primeiro módulo, o vento já se fazia presente, exigindo atenção constante. Ainda assim, a porta-bandeira conseguiu manter o controle da bandeira com segurança tanto no primeiro módulo quanto nos módulos espelhados.

No terceiro módulo, com a intensificação do vento e a chegada da chuva mais forte, o pavilhão chegou a enrolar em alguns momentos, consequência direta das condições adversas, episódio pontual que não compromete a avaliação geral da apresentação, sobretudo considerando que Rute enfrentou o vento desde o início do percurso.

A resposta do casal diante dessas dificuldades foi imediata e segura: a bandeira é rapidamente recomposta, a coreografia retomada e a fluidez da dança restabelecida sem sobressaltos. A apresentação se mantém firme, madura e tecnicamente bem resolvida, revelando categoria para atravessar situações adversas com naturalidade.

No ensaio técnico, Julinho e Rute pareciam ainda mais cúmplices do que de costume. A conexão entre os dois se impôs como um dos grandes trunfos da apresentação, reforçando o casal como referência no quesito e como um dos melhores do carnaval.

SAMBA E HARMONIA

O canto da Viradouro se mantém constante ao longo de todo o ensaio, revelando uma comunidade que conhece profundamente a obra e sustenta o rendimento do início ao fim da apresentação. O componente canta o samba inteiro, sem quedas de intensidade, assegurando uma base sólida de harmonia sobre a qual a escola constrói seus momentos de maior impacto emocional.

Os picos de volume surgem de forma clara e orgânica nos trechos de maior evocação ao mestre Ciça. O refrão principal, “Se eu for morrer de amor”, é cantado com paixão, devoção e forte implicação afetiva, funcionando como um gesto coletivo de entrega e reverência. O mesmo ocorre nos versos “Traz surdo, tarol e repique pro mestre bater” e “Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você”, momentos em que o canto cresce de maneira evidente e a Avenida é tomada por uma vibração afetiva compartilhada entre ritmistas, componentes e público.

Nesses trechos, o aumento de volume não é casual: está diretamente ligado ao caráter devocional do samba. São passagens em que a homenagem se explicita e o canto assume contornos de reverência, respeito e celebração, mobilizando a escola de forma coletiva. Fora esses momentos de exaltação, o canto permanece regular e bem sustentado, evidenciando um samba de arco dinâmico bem definido, com variações naturais de intensidade, sem oscilações bruscas ou perda de coesão.

Esse gesto de devoção também se materializa na atuação de Wander Pires ao longo de toda a Avenida. Cantando em homenagem a um amigo, o intérprete conduz o samba com segurança, vigor e controle. Sua interpretação não apenas sustenta a harmonia, mas transmite com clareza o afeto coletivo da escola pelo mestre Ciça. O canto carrega amor, respeito e reverência, elementos que estruturam emocionalmente o enredo e conferem densidade simbólica à apresentação da Viradouro.

EVOLUÇÃO

Antes mesmo da metade do tempo regulamentar, a Viradouro já começa a sair da pista, apresentando uma evolução fluida, coordenada e muito bem conduzida. A progressão da escola é inteligente: o desfile cresce aos poucos, sem atropelos, com todos caminhando juntos.

Mesmo com a pista molhada pela chuva que caiu, não há perda de vigor no canto nem desânimo na dança. O samba convida o componente a seguir para frente, e isso se reflete diretamente na evolução.

Na segunda metade do ensaio, a escola desfila ainda mais vigorosa, administrando o tempo com tranquilidade. A entrada no segundo recuo de bateria é organizada, com a bateria entrando de forma correta e a ala seguinte acompanhando sem ruptura, reforçando a leitura de uma escola que evolui com excelência.

OUTROS DESTAQUES

Destaque para a bateria “Furacão Vermelho e Branco”, precisa e segura ao longo de todo o ensaio. No trecho do samba que diz “Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você”, a bateria se divide ao meio, abaixa e abre caminho para que Ciça se encaminhe até o centro do próprio naipe, onde é reverenciado pelos ritmistas. O momento se impõe pelo desenho corporal da bateria e pela clareza da ação, criando uma imagem forte e facilmente legível na pista.

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Fora esse trecho específico, a bateria mantém andamento firme, bossas bem marcadas e regularidade de execução, projetando o desenho rítmico sempre para frente, com precisão e controle. A condução segura contribui diretamente para a fluidez da evolução e para a leitura musical do samba ao longo de toda a Avenida.

Freddy Ferreira analisa bateria da Beija-Flor no ensaio técnico na Sapucaí

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Um ensaio técnico muito bom da bateria “Soberana” da Beija-Flor de Nilópolis, comandada pelos mestres Rodney e Plínio. Uma conjunção sonora de grande virtude musical coletiva foi exibida. A integração rítmica dos mais diversos naipes nilopolitanos impressionou pela excelente fluência entre as peças.

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Na parte da frente do ritmo da azul e branca de Nilópolis, um naipe de cuícas correto ajudou a complementar a sonoridade das peças leves. Uma ala de chocalhos de boa qualidade técnica se apresentou vestida de iaô, conectando-se ao aspecto religioso do grande enredo da Beija-Flor. Um naipe de tamborins com trabalho coletivo destacado executou um desenho rítmico simples e funcional, com bastante precisão. O casamento musical entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto da cabeça da bateria da atual campeã do Carnaval.

Na cozinha do ritmo soberano, foi notada uma afinação privilegiada de surdos. Simplesmente sensacional a ressonância muito bem apurada do timbre do surdo de segunda. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com firmeza e absoluta precisão. Os surdos de terceira foram responsáveis pelo bom balanço dos graves. Uma ala de repiques extremamente coesa tocou integrada a um naipe de caixas de guerra consistente. O preenchimento musical dos médios formou uma camada rítmica bastante sólida na bateria “Soberana”. Próximo ao corredor, as tradicionais frigideiras de Nilópolis deram o toque metálico peculiar à sonoridade. Na parte de trás do ritmo, os atabaques ecoaram, como solicitava o próprio samba, conferindo um brilho sonoro diferenciado à bateria da Beija-Flor.

Bossas e nuances rítmicas bem vinculadas ao belíssimo samba da Beija-Flor foram executadas com precisão cirúrgica, todas baseadas nas variações melódicas da obra nilopolitana. Destaque para a participação especial dos atabaques, que tocaram com baquetas, fazendo referência ao aguidavi sagrado presente no Candomblé. O conceito criativo musical mostrou-se bem definido e pautado pela simplicidade: dar ao samba exatamente o que ele solicita, nada além. Merece menção musical positiva o trabalho diferenciado dos repiques-mor nos arranjos.

Uma apresentação muito boa da bateria da Beija-Flor de Nilópolis, dirigida pelos mestres Rodney e Plínio. Uma bateria equilibrada e muito bem equalizada, graças a uma afinação primorosa de surdos, com destaque para a qualidade da ressonância do surdo de segunda. O conjunto de bossas dançantes ajudou a impulsionar o componente nilopolitano. Uma bateria verdadeiramente “Soberana” ao acompanhar e servir o samba-enredo, oferecendo à obra da Deusa da Passarela exatamente o que ela pedia.

Freddy Ferreira analisa bateria da Grande Rio no ensaio técnico na Sapucaí

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Um ótimo ensaio técnico da bateria do Acadêmicos do Grande Rio, sob o comando de mestre Fafá. Uma conjunção sonora destacada foi produzida, resultando em um ritmo bastante equilibrado e profundamente bem equalizado. Uma bateria da Grande Rio enxuta e com andamento confortável, evidenciando a boa educação musical de seus ritmistas.

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Na cabeça da bateria da Grande Rio, um naipe de tamborins de qualidade musical exibiu um desenho rítmico simples, porém profundamente funcional. Uma ala de chocalhos com exímia técnica coletiva tocou de forma interligada aos tamborins, demonstrando um belo casamento musical entre ambos os naipes. Uma boa ala de cuícas auxiliou na sonoridade das peças leves, junto de um naipe de agogôs simplesmente sublime. Impressionante o trabalho musical dos agogôs da Grande Rio: é como se a peça, pela ressonância espetacular, ajudasse a costurar o melodioso samba-enredo da escola de Duque de Caxias com um toque pra lá de privilegiado.

Na cozinha da bateria da Grande Rio, uma ótima afinação de surdos permitiu que os marcadores de primeira e de segunda realizassem um trabalho simplesmente impecável. Destaca-se a forma como os marcadores caxienses extraem som do instrumento sem recorrer a pancadas excessivas, evidenciando uma consciência musical acima da média. Os surdos de terceira, com balanço envolvente, contribuíram tanto para o ritmo quanto para as paradinhas e nuances rítmicas. Uma ala de repiques consistente tocou de forma reta e coesa, tudo isso sustentado por um naipe de caixas de guerra bastante sólido, que preencheu a sonoridade dos médios com um toque ressonante e equilibrado.

Bossas bem conectadas à obra da escola aproveitaram as variações melódicas para consolidar o ritmo. Na paradinha da cabeça do samba, a escolha conceitual foi construir um arranjo que explorou as diferenças entre os timbres dos surdos. No refrão do meio, outra bossa voltou a trabalhar com essas distintas timbragens, evidenciando a musicalidade apurada de marcadores com educação e disciplina musical irretocáveis. Essa mesma bossa do refrão do meio é finalizada com duas pancadas de forte pressão sonora dos surdos, após um rápido e eficiente carreteiro dos tamborins, conferindo profundidade ao arranjo.

Uma ótima apresentação da bateria da Grande Rio, dirigida por mestre Fafá. A equalização privilegiada dos timbres fez ressoar um ritmo tecnicamente virtuoso, com nítida consciência musical por parte dos ritmistas. Bossas bem vinculadas ao samba souberam explorar os diferentes timbres das marcações, deixando a musicalidade da Grande Rio requintada e evidente neste grande ensaio técnico da bateria tricolor caxiense.

Freddy Ferreira analisa bateria da Imperatriz no ensaio técnico na Sapucaí

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Um excelente ensaio técnico da bateria “Swing da Leopoldina” (SL), da Imperatriz Leopoldinense, comandada por mestre Lolo. Uma conjunção sonora possante foi apresentada, acompanhada de bossas impactantes e dançantes. Desde o esquenta, realizado sob uma chuva torrencial, o que poderia esfriar o clima acabou, na verdade, impulsionando ainda mais a energia dos ritmistas, inspirando a bateria da “SL” a promover um verdadeiro sacode.

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Na parte da frente do ritmo da “SL”, uma ala de tamborins fenomenal executou um desenho rítmico pautado nas nuances do melodioso samba da Rainha de Ramos. Um naipe de chocalhos de inegável qualidade técnica também se apresentou de forma consistente, assim como uma ala de cuícas bastante ressonante, que auxiliou no preenchimento da sonoridade da cabeça da bateria.

Na parte de trás do ritmo da “Swing da Leopoldina”, uma afinação primorosa de surdos garantiu pressão sonora, deixando os graves pesados na medida certa. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza e muita precisão. Os surdos de terceira conduziram o balanço com brilhantismo, inclusive nas bossas. Repiques altamente técnicos tocaram em conjunto com um naipe de caixas de guerra poderoso, de toque uníssono, servindo como base musical para os demais naipes.

Bossas profundamente vinculadas ao samba da Imperatriz foram apresentadas de forma impecável. Arranjos com forte pressão sonora dos surdos, sustentados por conversas rítmicas bem trabalhadas, sendo a maioria bastante dançante. Destaque absoluto para a paradinha antes do refrão do meio, em que os ritmistas tocam dançando e girando. Uma sonoridade ímpar, que inicialmente parece desafiar o próprio tempo musical, mas que, na verdade, se aproveita de maneira sublime da síncope.

Uma apresentação exemplar, tanto em ritmo quanto em energia, da bateria da Imperatriz Leopoldinense, sob a direção de mestre Lolo. Um ritmo de alto refinamento técnico nos mais diversos naipes, com ótima fluência musical e bossas dançantes e impactantes. Em uma exibição energética, influenciada por uma chuva intensa, a bateria “Swing da Leopoldina” não apenas se mostrou musicalmente pronta para o Carnaval, como deixou claro que possui capacidade anímica de elevar o clima do desfile da Imperatriz ao mais alto nível.

Freddy Ferreira analisa bateria da Viradouro no ensaio técnico na Sapucaí

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Um ensaio técnico muito bom da bateria “Furacão Vermelho e Branco”, comandada pelo mestre e enredo Ciça. Um ritmo impactante e pulsante foi apresentado, com bossas pautadas pela pressão sonora dos pesados surdos da Viradouro. A entrega energética dos ritmistas também merece destaque musical: foi possível presenciar inúmeros batuqueiros tocando de forma emocionada, alguns vindo às lágrimas durante o cortejo.

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Na cabeça da bateria da Unidos do Viradouro, um naipe de chocalhos de boa coletividade musical tocou de forma integrada a uma ala de tamborins de alta técnica, que exibiu convenções rítmicas pontuando a melodia do belo samba da escola do Barreto com eficiência. Impressiona o rejuvenescimento observado em ambos os naipes, que já contam com um número considerável de ritmistas oriundos da bateria mirim “Furacão do Futuro”. Um naipe de cuícas de imensa qualidade também contribuiu de forma luxuosa para o preenchimento das peças leves.

Na parte de trás do ritmo da “Furacão Vermelho e Branco”, notou-se uma afinação de surdos pesada e acima da média. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza e segurança. O balanço envolvente dos surdos de terceira deu um molho caprichado aos graves, inclusive nas bossas. Repiques de boa técnica tocaram em conjunto com um naipe de caixas bastante sólido e ressonante, exibindo sua tradicional levada de partido alto.

Bossas muito bem encaixadas com a melodia do samba foram executadas de maneira cirúrgica. Um conjunto de paradinhas de grande impacto musical — impulsionado pela pressão sonora da afinação mais pesada dos surdos — também se destacou por seu caráter dançante. A criação musical potencializou a obra da Viradouro, auxiliando claramente o desempenho dos componentes ao longo da pista. O belo arranjo da segunda parte do samba, além de musicalmente funcional, mostrou-se um acerto energético, levantando o público. Trata-se de uma conversa rítmica extensa, que solta a segunda passada do estribilho para o canto em coro e fecha a bossa retomando com pressão.

Uma apresentação muito boa da “Furacão Vermelho e Branco” da Viradouro, dirigida pelo enredo e tema da agremiação sob o comando do mestre Ciça. Um ritmo profundamente identificado com a história musical do mestre, marcado pela potência sonora dos surdos e por paradinhas muito bem integradas como destaque. Uma passagem segura e energética de uma bateria da Unidos do Viradouro, aplaudida em praticamente todos os setores, diante de uma das mais belas homenagens do Carnaval.

Carnaval mirim estreia formato ao lado do Grupo Especial

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Por Rhyan de Meira e Juliana Henrik

Os desfiles das escolas mirins tiveram início no sábado, na Marquês de Sapucaí, inaugurando um novo formato para o Carnaval das crianças e adolescentes ligados às agremiações do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, as apresentações foram divididas em quatro datas e passaram a ocupar o mesmo dia do ensaio técnico das escolas do Grupo Especial, ampliando a circulação de público e a visibilidade das agremiações mirins.

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Na abertura da programação, Miúda da Cabuçu, Inocentes da Caprichosos e Império do Futuro levaram para a avenida não apenas seus enredos e sambas, mas também a experiência de desfilar em um ambiente tradicionalmente reservado às grandes escolas.

A mudança impactou diretamente a rotina de preparação dos componentes, que passaram a vivenciar a Sapucaí em um contexto diferente daquele que historicamente marcava os desfiles mirins.

Para mestres, cantores e integrantes dos casais, a oportunidade representou reconhecimento, aprendizado e, sobretudo, a sensação de que o carnaval mirim passou a ocupar um espaço mais central na festa. Na Império do Futuro, o desfile também foi marcado por uma homenagem carregada de significado para quem cresceu dentro da escola e carrega a tradição da bateria como identidade.

Responsável pela condução rítmica da agremiação, o mestre de bateria Luiz Gustavo destacou o simbolismo daquele momento, vivido diante de um público maior e em um dia de grande circulação na Sapucaí. A presença no ensaio técnico do Grupo Especial deu ainda mais peso à homenagem levada para a avenida e reforçou o vínculo entre o carnaval mirim e a história das escolas-mães.

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“Uma sensação muito boa. Vamos ter um homenageado aí que faz parte da nossa sala, que é o Edgar. Então é um privilégio muito grande estar homenageando um homem que criou o brilho da bateria do Império Serrano. E é isso, muito feliz, muito feliz de estar participando dessa homenagem. Estou preparado? Com certeza, sempre”.

Entre os integrantes dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, a mudança no calendário também trouxe novas expectativas.

Visibilidade maior para os mirins

Acostumados a desfilar em datas mais reservadas aos mirins, os jovens passaram a dividir o espaço com ensaios técnicos que tradicionalmente atraem grande público, alterando completamente a dinâmica do dia e a percepção sobre o desfile.

Porta-bandeira da escola, Isabela, de 20 anos, avaliou a experiência como um marco diferente na trajetória das escolas mirins. Para ela, a antecipação do desfile e a possibilidade de uma Sapucaí mais cheia deram um novo significado à apresentação, reforçando o sentimento de valorização das crianças e adolescentes que constroem o carnaval desde cedo.

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“Está sendo bem diferente. É um dia bem fora do comum do que nós, crianças, estamos habituados a fazer o nosso desfile. Então a expectativa é um pouco diferente também. Acredito que a pista vai estar um pouco mais cheia. Tomara que esteja cheia, assim como no dia dos mirins antecedendo ao desfile das campeãs, porque as crianças merecem de fato que essa pista esteja cheia. Mas acho que hoje vai estar diferente por serem os ensaios técnicos”.

“Por um lado, eu achei interessante, traz mais visibilidade de fato para o carnaval mirim. Então, como ela disse, é uma experiência nova. Pra gente é uma nova rotina”.

Já para o mestre-sala Paulo, de 17 anos, da Império do Futuro, o desfile no dia de ensaio técnico foi resultado de um longo processo de preparação que envolveu treinos intensos, dedicação e o compromisso de representar não apenas a escola mirim, mas também a tradição herdada da escola-mãe. O momento, segundo ele, foi vivido como um estímulo a mais para quem sonha em seguir no carnaval.

“A gente se treinou muito, a gente saiu muito, foi bastante esforço pra dar um resultado bom, porque a gente tem que levar o nosso nome com todo amor na Escola do Império do Futuro, assim como na Escola Mãe, que nós somos terceiros do Império Serrano, graças ao Império do Futuro”.

“É uma visibilidade muito grande e muito boa pras crianças, que muitas vezes têm poucos dias com público pra assistir. Colocar os desfiles das mirins antes do ensaio técnico é um gás, é um incentivo a mais. Você vê todo mundo ali, fica mais feliz, todo mundo te vendo, todo mundo te aplaudindo”.

“É um sentimento inexplicável você ser aplaudido. É o sonho de todo mundo. Então é isso, é felicidade, depositar toda a sua força enquanto você mostra que está feliz, porque isso é o carnaval: carnaval é felicidade”.

A participação dos intérpretes da Miúda da Cabuçu no mesmo dia do ensaio técnico do Grupo Especial também foi marcada por emoção e significado. Para Rafael Ídalo Correia dos Santos, estar na Sapucaí em um contexto diferente do habitual trouxe a sensação de pertencimento a um espetáculo maior, onde o samba mirim ocupou o mesmo espaço das grandes escolas. “A hora que eles vendem a palma… por favor!”, comentou, em tom empolgado, ao falar da resposta do público e da energia sentida na avenida.

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Já para Bruno Rezende, de 21 anos, a experiência teve um peso ainda mais profundo. Além de viver a emoção de cantar no mesmo dia das escolas do Especial, ele destacou a importância de dividir esse momento com Rafael, reforçando o caráter inclusivo do samba.

“A minha emoção de hoje é de poder ajudar ele a estar aqui e fazer ele se sentir feliz, se sentir incluído, porque o samba é isso, é inclusão”, afirmou. “O sentimento pra mim é o mesmo de passar com a Escola Mãe. É gratificante demais, ver o público interagindo, é uma coisa que eu guardo no fundo do meu coração”.

Outro intérprete da Miúda da Cabuçu também ressaltou o impacto de desfilar com a arquibancada cheia e no clima de ensaio técnico. Para ele, a sensação foi resumida em afeto e ligação eterna com a escola. “É amor, é carinho. Acho que minha escola é linda e acho que vou desfilar com ela até eu morrer”, disse. Ao falar sobre inspiração, destacou a base do samba no ritmo e na sintonia com a bateria: “Tem que seguir sempre o intérprete e seguir sempre a bateria, marcar na ponta do pé”.

Ao falar sobre referências, Paulo reforçou o caráter formador do carnaval mirim e como os exemplos vistos nas grandes escolas servem de base para a construção artística e técnica dos jovens sambistas. Para ele, a convivência com esses nomes alimenta sonhos e aponta caminhos para o futuro.

“Eu tenho ótimas referências dentro de casa. No Império Serrano teve um casal maravilhoso. Toda vez que eu falo dela quase choro, é a Raffaella Caboclo. Também tem Andrea Machado, Rita, Nara Matias. Cada vez mais as porta-bandeiras vêm inspirando a nova geração”.

“Hoje em dia a régua tá muito alta. Me inspiro no Rafael, da Vila; Felipe Lemos, da Imperatriz; e Matheus Oliveira, da Mangueira. Esses três pra mim são referência total. Minha dança é muito baseada neles”.

Na ala musical, o clima também foi de expectativa e emoção. Intérprete da Miúda da Cabuçu, Lucas Macumbinho destacou a ansiedade de desfilar em um contexto diferente do habitual, com a responsabilidade de conduzir o samba diante de um público maior.

“Cara, é meio estranho. Eu tô com um sentimento muito ansioso, sentimento de alegria. Acho que a galera pode pegar o samba. A gente tá com um ótimo samba e vamos fazer um ótimo desfile, graças a Deus”.

Na Inocentes da Caprichosos, o ensaio técnico teve um significado ainda mais especial para o intérprete Davi Fernandes. Em seu segundo ano na escola, ele assumiu o microfone principal, vivendo um momento de afirmação e responsabilidade dentro da agremiação mirim.

“Pra mim é um sentimento muito especial. É meu segundo ano desfilando aqui na Inocentes. E é mais especial ainda porque hoje eu sou o microfone número um. Então pra mim é carregar essa responsabilidade. É um sentimento muito grande, muito especial, só tenho a agradecer a todo mundo”.

Com entrada franca, os desfiles mirins seguiram ao longo do mês de fevereiro, reafirmando o papel dessas escolas como espaço de formação, pertencimento e continuidade do carnaval carioca. A experiência de dividir a Sapucaí com o ensaio técnico do Grupo Especial marcou um novo capítulo para o carnaval das crianças, aproximando ainda mais o futuro do presente da maior festa popular do país.

Público reage ao ensaio técnico de sábado e aponta sensações de Vila Isabel, Salgueiro, Tuiuti e Portela

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O ensaio técnico do último sábado levou à Marquês de Sapucaí um público diverso, atento e disposto a sentir o carnaval para além da técnica. Com Vila Isabel, Salgueiro, Tuiuti e Portela na avenida, a noite funcionou como um verdadeiro teste de impacto: quem passou conseguiu provocar reações imediatas na arquibancada, seja pela elegância, pelo canto, pela energia ou pela força da bateria. Entre estreantes no sambódromo e torcedores experientes, o sentimento foi de envolvimento coletivo e leitura espontânea do que cada escola apresentou neste momento de preparação.

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As impressões do público revelam não apenas preferências, mas também como o desfile foi absorvido por diferentes olhares.

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“É a primeira vez que assisto ao ensaio técnico e eu achei legal, achei interessante, cada um com a sua característica. A Vila Isabel foi a mais elegante e bonita. No enredo, eu escolho o Salgueiro. Todo mundo bastante animado e rendeu na avenida”, disse Carol Souza, de 18 anos, estudante, que não torce para nenhuma escola.

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“Me encantei com o ensaio do Salgueiro. A energia, a vibração, os jogos de luzes e o enredo da escola fizeram a arquibancada sair do chão. O trunfo do desfile, com certeza, foi a rainha de bateria do Salgueiro, a Viviane Araújo”, afirmou Débora Luz, de 35 anos, torcedora da Mangueira.

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“Todas as escolas fizeram um ótimo desfile, mas, mesmo sendo salgueirense, a Vila Isabel se destacou mais no samba. No desfile, o Salgueiro me surpreendeu, eu não imaginava a escola vindo tão bonita e elegante, com uma comissão de frente encantadora”, avaliou Marcos Vinícius Paulo, de 18 anos, estudante e torcedor do Salgueiro.

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“Só deu o Salgueiro na Sapucaí. Nenhuma outra superou minha escola do coração, por faltar animação dos torcedores em cantar o samba. O que mais surpreende no desfile do Salgueiro é a bateria Furiosa, é de arrepiar ouvir pessoalmente”, destacou Emerson Santos, de 34 anos, mecânico e salgueirense.

O ensaio técnico mostrou que o carnaval começa a ser medido também pela resposta imediata do público. Elegância, samba, energia, canto e bateria surgem como termômetros claros dessa noite em que Vila Isabel, Salgueiro, Tuiuti e Portela deixaram suas marcas e aqueceram ainda mais a expectativa para os desfiles oficiais.