Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Bangu no desfile
A bateria “Caldeirão da Zona Oeste” (CZO) da Unidos de Bangu se apresentou bem, comandada por mestre Laion. Um leque de bossas culturalmente inserido no enredo da escola e bem musical foi exibido.

Uma bateria CZO com boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda foram precisos, além de seguros. Surdos de terceira com balanço envolvente ajudou no swing da bateria da Bangu. Repiques coesos e técnicos se exibiram junto de caixas de guerra sólidas e com boa ressonância.
Na cabeça da bateria da Bangu, uma ala de tamborins de alto nível técnico tocou de modo entrelaçado com um naipe de chocalhos extremamente acima da média. Uma ala de agogôs correta auxiliou no preenchimento sonoro das peças leves, bem como cuícas seguras também mostraram seu valor. Dois ritmistas com pratos também desfilaram na parte da frente do ritmo, contribuindo de forma luxuosa com a bossa com musicalidade mais atraente, a da marcha para Jorge, conectando à musicalidade do ritmo ao enredo da vermelha e branca da zona Oeste. Instrumentos de pagode também vieram na primeira fila da bateria e auxiliaram na paradinha do trecho “Tem pagode e feijoada nos terreiros do Brasil”.
Um leque de bossas com certo refino foi apresentado. Todas ligadas à melodia do samba da agremiação e se aproveitando do impacto sonoro dos surdos, além da consistência das caixas. Destaque musical positivo para o belo arranjo musical da marcha para Jorge, exibida com segurança.
A apresentação na primeira cabine (módulo duplo) deixou um pouco a desejar. Já que na segunda cabine um ritmo bem mais fluído e encaixado foi exibido. Sem dúvida, a melhor apresentação para jurado foi no último módulo, no bom desfile da bateria da Unidos de Bangu, dirigida por mestre Laion.
Terceiro carro do Império Serrano consagra Oxalá
Para fechar o desfile das escolas da Série Ouro do Carnaval carioca neste sábado (10), o Império Serrano desfilou com 5 alegorias. Entre elas, o último carro da agremiação, “Ilé-Ifé, Igbó E Ifón. O Imperador De Oxalá”, apresentou o grande Orixá: Oxalá, o “pai” de todos.
A alegoria gigante é branca com detalhes prateados. Na frente, dois caracóis em marrom e ao centro a figura de Oxalá. Na alegoria desfilou tanto componentes mais jovens como a velha guarda da escola.
André de Souza, de 42 anos, é fiscal da receita e viajou de Brasília até o Rio para desfilar pela primeira vez no Império Serrano. Apaixonado pelo Carnaval, e realizando um sonho, ele falou sobre a importância de estar na alegoria: “Este carro representa a liberdade, representa como é que você é e como você pode ser por completo”, disse emocionado.
Com o enredo intitulado “Ilú-ọba Ọ̀yọ́: a gira dos ancestrais”. A obra, desenvolvida pelo carnavalesco Alex de Souza, pretende levar o título da Série Ouro com uma celebração aos orixás.
Alan Paiva, de 33 anos, é figurinista e o destaque da alegoria. Vestindo a fantasia de Orixá Funfun, ele falou sobre o sentimento de estar numa posição importante na alegoria. “Eu tenho uma casa de Umbanda, então eu me sinto muito emocionado por estar aqui vestindo essa fantasia no carro. É reconhecimento e ancestralidade”, disse Alan emocionado. Ele é pai de todos nós”, completou.
“Ilu-ọba Ọ̀yọ́” se refere ao nome de um antigo império que se estendia pelas regiões que hoje são conhecidas como Nigéria, Togo e Benin, na África Ocidental. Com a diáspora africana, os povos originários dessas terras trouxeram para o Brasil seus rituais sagrados, fundando e recriando suas tradições ancestrais na forma do candomblé, com forte presença na Bahia. Essa religião se expandiu, evoluindo para um rito que unifica diversas divindades em um culto coletivo conhecido como xirê, o qual é descrito no enredo como a “gira dos ancestrais”.
Ivo Mendes, de 73 anos, é o vice-presidente do Jongo da Serrinha e filho de Maria de Lourdes Mendes, uma das fundadoras da escola de samba. Desfilando na alegoria, ele defende o enredo e como ele se encontra com a “ancestralidade”: “Estar aqui é estar representando também os meus antepassados, os orixás”, disse alegre e com brilho nos olhos por defender a sua escola por mais um ano. “É uma homenagem que eu estou fazendo aqui a eles, e para mim é representar o meu povo”, completou.
Bangu faz desfile de harmonia irregular e falhas de acabamento nas alegorias; comissão de frente foi destaque
Por Rafael Soares e fotos de Nelson Malfacini
A Unidos de Bangu foi a sétima a se apresentar na Marquês de Sapucaí neste sábado de carnaval da Série Ouro. A vermelho e branco levou o enredo “Jorge da Capadócia” para a avenida. O desfile da agremiação se mostrou bem problemático. As alegorias eram simples e tinham graves defeitos de acabamento, com esculturas quebradas e panos rasgados. As fantasias tiveram bom uso de cores, mas irregularidade no acabamento. O enredo não mostrou nenhuma novidade em relação aos vários que já passaram na avenida sobre o mesmo tema, o que resultou em uma leitura facilitada. Outro quesito comprometido foi a harmonia, que se exibiu com baixo nível de canto na maior parte do cortejo, apesar do bom trabalho do time de carro de som. A evolução foi correta em seu ritmo, mas fria na animação dos componentes. O casal de mestre-sala e porta-bandeira mostrou um número apenas correto. O grande destaque foi a apresentação da comissão de frente, bem expressiva e sincronizada.
Comissão de Frente
Com o nome de “Guerreiros da Capadócia”, a comissão de frente assinada pelo coreógrafo Fábio Costa trouxe um grupo de 15 componentes homens. Usando uma bela fantasia de guerreiros, o grupo mostrou uma dança bastante expressiva, e muito bem sincronizada em seus movimentos. Os integrantes gritavam ao guerrear, passando bastante realismo no ato. Alguns eram jogados contra o tripé, chegando a cair no chão e aparentarem sentir dor. Na reta final do número, dois guerreiros subiam no alto tripé, e pouco depois, no seu topo, surgia um integrante representando São Jorge, montado em um cavalo articulado. O quesito foi o maior destaque do desfile.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Jorge Vinícius e Verônica Lima, veio com uma fantasia de nome “Vestidos com as Armas de Jorge”, representando os elementos usados pelos soldados em combate. A dança exibida pelos dois foi apenas correta e leve, chegando a ser lenta, sem tanta expressividade ou movimentos mais ousados. Eles bailaram de forma bem tradicional, com alguns momentos coreografados de acordo com a letra do samba.

Samba-Enredo
O samba da Unidos de Bangu tem uma letra forte que descreve bem o enredo, retratando a história guerreira de Jorge, além do sincretismo no Brasil através da figura de Ogum. A melodia é pesada e valante, com boas variações para impulsionar o canto. Composto por Tem-Tem Jr, Dudu Senna, Marcelinho Santos, Jefferson Oliveira, Rafael Ribeiro, Ronie Oliveira, Cândido Bigarin, Binho Percussão VR, Jorginho Via 13, Juca, Renan Diniz e Denis Morais, a obra musical teve um rendimento que deixou a desejar na avenida. Os intérpretes Igor Viana e Pipa Brasey mostraram um bom desempenho ao cantar o samba, embalado pela bateria de mestre Laion, mas isso não foi o suficiente para impulsionar a obra, que pouco foi entoada pela comunidade. Isso ficou ainda mais notório nos ‘apagões’ dos ritmistas, quando não se ouvia a escola cantar.

Harmonia
A comunidade da Unidos de Bangu teve um canto irregular em seu desfile, com muito mais pontos baixos do que altos. O principal trecho entoado pelos componentes foi o falso refrão, mas também sem tanto volume. Muitas alas passaram com componentes calados ou entoando mínimas partes da obra musical. Algumas alas na segunda parte do cortejo mostraram um canto mais satisfatório, mas isso não se manteve no restante da agremiação. Se destacaram as alas “O Martírio do Jovem Guerreiro”, “O Bem Venceu o Mal” e “Patrono da Inglaterra”.

Evolução
A evolução da agremiação foi correta no ritmo adotado durante a passagem pela Sapucaí. Não se viu correria ou lentidão no cortejo, nem qualquer tipo de espaçamento inadequado. A escola encerrou o desfile em 53 minutos. Entretanto, os componentes se exibiram com certa frieza, pouca animação ou espontaneidade.

Enredo
A Unidos de Bangu apresentou o enredo “Jorge da Capadócia”, uma das figuras mais populares da fé no Brasil. Venerado como mártir da fé em Jesus Cristo no catolicismo, é sincretizado com Ogum no candomblé e na umbanda, e de forma especial com Oxóssi no candomblé baiano. As fantasias e alegorias foram de óbvia leitura, até por conta do enredo já ter passado inúmeras vezes pelo carnaval carioca, e ter muitos símbolos e elementos de fácil identificação. O acabamento precário das alegorias e algumas fantasias não prejudicou o quesito.

Fantasias
O conjunto de fantasias da Unidos de Bangu se mostrou com soluções e materiais mais simples, facilitando a leitura. Mas no aspecto estético deixou a desejar em vários momentos, com acabamentos razoáveis. De forma geral, o uso de cores foi interessante. No último carro alegórico, alguns componentes estavam com fantasias incompletas. Algumas poucas se destacaram na beleza, como as baianas “Escudo de Jorge”, a ala “Ogum do Ferro e da Estrada” e “Ogum Vence Demanda”, com belas combinações de cores.

Alegorias
O conjunto alegórico da escola foi marcado pelos problemas de acabamento bem visíveis. O carro abre-alas, intitulado “Capadócia Entre Lutas e Combates”, apresentava os tradicionais cavalos, usados em tantas batalhas, soldados guerreiros e o bravo Jorge, liderando seu exército. O elemento cênico remeteu aos tempos medievais, com escudos, gárgulas e lanças. A grande escultura principal passou com o braço quebrado. Outra escultura tinha uma lança mal executada, fora de proporção. A saia também era bem simplória. Além disso, a iluminação foi bem tímida.

Na sequência do desfile, a segunda alegoria de Bangu, de nome “Alvorada de São Jorge: Ritos de Fé”, simbolizava uma grande homenagem às alvoradas ao Santo Guerreiro ocorridas em todo 23 de abril. Apresentava a figura de São Jorge montado sobre seu cavalo, velas, escudos e os dragões que são enfrentados e vencidos pelo seu povo. Os dragões eram grandes e tinham efeito de fumaça, mas um dos homens que fazia os movimentos estava visível no carro. Outra escultura de São Jorge estava sem sua lança. Um queijo foi coberto com material precário. O acabamento geral era bem básico.

Por fim, o terceiro e último carro da agremiação, intitulado “Jorge Sincretizado! Patacori, Ogum!”, apresentava uma grande festa em louvor a Ogum, o orixá guerreiro. Irmão de Exu e Oxóssi, filho de Iemanjá, amante de Oyá, parceiro de Oxaguiã em suas lutas e batalhas. As cores dessa alegoria eram interessantes, gerando uma combinação diferente. Porém, o acabamento geral também foi muito simplório, marca do conjunto da Unidos de Bangu.
Outros destaques
A bateria da Bangu, comandada pelo mestre Laion, mostrou um ritmo bem adequado para a execução do samba-enredo. As bossas tinham ótima qualidade musical, tentando impulsionar o canto e animação dos componentes.
Integrantes do Império Serrano elogiam conjunto alegórico da escola
A última agremiação a desfilr na Série Ouro neste sábado (10), o Império Serrano, caprichou nas alegorias que apresentou no desfile. Com 5, sendo 2 tripés e 3 carros, a verde e branco de Madureira, tem como objetivo conquistar o campeonato da Série Ouro com uma homenagem aos orixás.
A escola abriu o desfile com o tripé “Exu”, representando a comunicação de Exu, o senhor do movimento e da transformação torna-se rei: Ésú Alákètú. A alegoria com figuras de exu, é vermelha com detalhes pretos e prateados.
“Eu estou muito contente porque agora nos próximos seis meses são os meses de Exu”, lembrou Cristiane Hikiji, médica e destaque do tripé. Ela é moradora de Ribeirão Preto, em São Paulo, e vem ao Rio para desfilar na escola nos últimos 10 anos. “Ele abre os caminhos, ele é como eu, é da alegria, da prosperidade. É uma alegoria muito importante e nós vamos abrir a escola, dando passagem para todos os orixás”.
O abre-alas da escola, chamado de “Reino de Ketu, Ifé e Iré”, apresentou a história dos irmãos Ogum e Oxóssi e de seus reinos, no Império Yorubá. Para representar, a alegoria, os personagens aparecem lutando em uma alegoria azul com detalhes verdes.
Angélica Vilasboas, de 49 anos, é militar e desfila “há décadas” no Império Serrano. Ela falou sobre a importância de desfilar no abre-alas da escola, que é o carro que “abre o enredo” para o público na avenida. “O Abre Alas é o termômetro quando você entra no setor 1, não tem sensação melhor na vida que ser componente do abre-alas”, relatou animada.
O enredo, denominado “Ilú-ọba Ọ̀yọ́: a gira dos ancestrais”, foi criado pelo carnavalesco Alex de Souza. “Ilu-ọba Ọ̀yọ́” era a denominação de um vasto império localizado nas áreas que atualmente correspondem à Nigéria, Togo e Benin, no oeste africano.
“Este reino dos orixás está bem representado nesse Abre Alas, fala da nossa ancestralidade, e o império está trazendo xirê pra avenida. É um passeio sobre a lenda dos orixás”, explicou Angélica.
No seu segundo carro, chamado de “Dan do Reino de Daomé”, a verde e branco contou a riqueza de Oxumaré, o Rei do povo Jeje, do reino de Daomé como representação do símbolo da continuidade e permanência. Para representar o reino, a agremiação usou cobras, em uma alegoria bem colorida.
“Eu venho como a serpente sagrada, que vem em homenagem a todo o povo de Oxumaré”, disse Leila Matias, de 52 anos, destaque do segundo carro. Ela desfila na escola desde os 19 anos e destaca o significado que o desfile tem para a agremiação: “Esse ano é muito importante porque a gente está lutando para voltar para o grupo especial. Esse enredo também significa prosperidade, ou seja, tem um significado especial”, completou.
O segundo tripé, com o nome de “O Alafin de Oyó”, mostrou a grandeza do reino de Oyó, na figura de Xangô, à justiça do povo de Yorubá. Retratando o Reino de Oyyó, Xangô é exibido em uma alegoria laranja.
Durante o período da diáspora africana, os descendentes dessa região levaram seus rituais religiosos para o Brasil, onde estabeleceram e adaptaram suas práticas tradicionais, criando a religião conhecida como candomblé, especialmente na Bahia. Esta religião se difundiu e adquiriu uma nova dimensão ritualística com a integração de várias divindades em um único culto chamado xirê, referido no enredo como “gira dos ancestrais”.
O terceiro e último carro da agremiação, “Ilé-Ifé, Igbó e Ifón. O Imperador de Oxalá”, apresenta o grande Orixá: Oxalá, o “pai” de todos. O carro é branco e prateado, com detalhes em marrom, com dois caracóis na frente. A figura de Oxalá aparece no centro da alegoria.
A mãe Marcia Marçal de 63 anos, é neta do Mano Elói – um dos fundadores do Império Serrano – e desfila “desde criança” na agremiação. Componente do terceiro carro da escola, ela fala sobre a importância do enredo e da alegoria: “O tema é lindo, nesse carnaval lindo que o Império está botando na avenida falando sobre Orixá. É a minha bandeira, e a gente sabe, é o pai maior, é o pai de todos, é o senhor do branco, é o senhor da paz, é o senhor da cura. Estar no carro representando Oxalá pra mim é uma honra.
Freddy Ferreira analisa a bateria da São Clemente no desfile
Uma estreia muito boa de mestre Marfim, comandando a “Fiel Bateria” da São Clemente. Um ritmo com bom equilíbrio foi exibido, que ainda contou com apresentações seguras nos julgadores, principalmente na última cabine, onde houve inclusive certa interação popular.

Uma bateria clementiana com boa afinação de surdos foi percebida. Surdos de primeira e segunda mostraram precisão e firmeza. Já os surdos de terceira foram responsáveis pelo balanço eficiente. Repiques coesos e caixas de guerra consistentes auxiliaram no preenchimento da sonoridade dos médios.
A cabeça da “Fiel Bateria” contou com um bom trabalho envolvendo as peças leves. Cuícas ressonantes mostraram solidez. Enquanto um naipe de tamborins com bom volume tocou de modo integrado a uma ala de chocalhos de nítida técnica musical. O desenho rítmico dos tamborins era simples, mas foi executado com bastante precisão.
Bossas com boa integração musical com o samba da escola preta e amarela do bairro de Botafogo foram notadas. O ponto alto dos arranjos, além da simplicidade e praticidade, reside na funcionalidade proporcionada por eles. Como se tratam de bossas simplesmente intuitivas, sua assimilação foi praticamente orgânica, garantindo execuções leves e principalmente fluídas. Pode ser dito que a concepção criativa da “Fiel Bateria” foi dar ao samba exatamente o que ele pede.
Na primeira cabine (módulo duplo) a apresentação foi enxuta e segura. Já na segunda cabine foi até superior, com uma maior fluidez musical e garantindo um bom encaixe das bossas nas execuções. A melhor apresentação em cabine acabou ficando para o final. No último módulo, é possível dizer que a “Fiel Bateria” deu um verdadeiro show, evidenciando a estreia muito boa de mestre Marfim, no comando da bateria da São Clemente.
Repleta de grandes histórias e alegorias, Águia de Ouro surpreende homenageando o rádio
Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins
O grande temor de toda escola de samba é ouvir uma nota diferente de dez no dia da apuração. Para que isso aconteça, não é permitido errar. E, buscando sempre a segurança em cada quesito, o Águia de Ouro teve uma atuação bastante destacada defendendo o enredo “Águia de Ouro nas Ondas do Rádio”, idealizado pelo carnavalesco Victor Santos. Quinta escola a desfilar no sábado de carnaval, a agremiação não deixou de ter pontos de destaque. As alegorias, bastante altas e imponentes, chamara atenção de quem estava no Anhembi. Histórias bastante interessantes, como a de um casal de mestre-sala e porta-bandeira formado há menos de um mês e que tiveram ótima atuação e a de uma rainha de bateria que teve uma fratura no pé e desfilou mesmo assim, rechearam um desfile que surpreendo positivamente.

Comissão de Frente
Com um grande tripé, o segmento, chamado de “Nas ondas do Rádio… em uma viagem imersiva, a invenção do Rádio é Ciência ou Bruxaria?” no enredo, fazia homenagens e continha uma própria história – toda idealizada pelo coreógrafo Ruy Oliveira. Em cima do tripé, uma dona de casa e o marido embarcavam em todas as emoções que o aparelho conseguiu despertar ao longo da centenária história do rádio no Brasil – principal mote do enredo, por sinal. Também fazendo referência a Landell de Moura, padre que patenteou o rádio nos Estados Unidos, o segmento trazia bailarinos representando grandes ícones do universo radiofônico, como Carmem Miranda, Ary Barroso, Linda Batista e Chacrinha. É importante pontuar que os dois grupos citados não tinham grande integração, cada qual com a própria coreografia.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Juntos há cerca de vinte dias, João Carlos Camargo e Monalisa Bueno representavam os Dragões da Independência, que participaram da primeira transmissão radiofônica do Brasil – os festejos da Independência do Brasil, em 1922. Com uma fantasia de identificação bastante simples para quem conhece a unidade militar, ambos passaram longe de ter qualquer falha de sincronia – na realidade, a impressão é que ambos dançavam há tempos juntos. Com ótimas apresentações nos quatro módulos, cumprindo todos os balizamentos obrigatórios, é importante pontuar que a sequência de giros do Casal era bastante extensa, impressionando todos os presentes.

Enredo
O Águia de Ouro buscou, em todo o desfile, prestar uma homenagem ao rádio – item que completou o centenário de existência em 2022. O primeiro setor (chamado de “Sintonia” na carnavalização) falava de toda a ciência que existiu para que a criação do item se concretizasse, além de exaltar a primeira transmissão via rádio no país – já citada neste texto; no segundo, como o objeto se tornou fundamental na sociedade brasileira para informação, lazer e formação da identidade do país ao longo de todo o século XX; no terceiro, o enfoque foi para o radiojornalismo e para as transmissões religiosas, também muito presentes no país até hoje; e, no quarto, falando do futuro, uma homenagem à internet e a Eli Corrêa, homenageado e dos grandes radialistas de São Paulo e do Brasil. De forma bastante leve, a agremiação da Pompeia conseguiu passar seu recado de maneira bastante eficiente e lúdica.

Alegorias
Absolutamente todas alegorias, além de bastante altos, impressionavam pela beleza, pelo bom gosto e pelo excelente acabamento. O abre-alas, “As ondas radiofônicas e a primeira transmissão nacional”, com uma imponente águia dourada em um primeiro chassi, trazia o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, palco inaugural do instrumento no Brasil. O segundo era claramente estilizado em homenagem à relevantíssima Rádio Nacional; o terceiro, “Hora do Angelus”, destaca a miríade de atrações religiosas no rádio brasileiro, todo decorado com motivos religiosos; por fim, o quarto, “O futuro é agora!”, buscava trazer uma mensagem positiva sobre os próximos momentos do instrumento – sempre citado como um meio de comunicação obsoleto, mas que nunca desaparece.

Também é importante pontuar o tripé alegórico “O som do meu carro”, com um conversível vermelho, que representava o status que um jovem possuía em décadas anteriores com um equipamento musical potente. De se pontuar, apenas, um integrante com uma camisa da escola no segundo carro, inteiramente com pessoas com traje de gala.
Fantasias
Chamou atenção o quanto a escola, em sua totalidade, conseguiu dar uma leitura bastante clara para todas as alas, carros alegóricos, casais e segmentos no geral. A ala 06, “Futebol – a emoção da narração de uma paixão nacional”, por exemplo, tinha camisas amarelas, shorts azuis e bolas de futebol; já a ala 12, “Radinho de pilha”, mostrava o quanto o instrumento portátil ajudava o homem do campo em sua labuta. Todos os fardamentos, por sinal, estavam muito bem acabados – muitos dos segmentos utilizavam materiais claramente nobres, por sinal.

Harmonia
O Águia de Ouro é conhecida pelo quanto os componentes da agremiação cantam forte. E isso, mais uma vez, se mostrou verdadeiro no desfile de 2024. Se o samba-enredo não é dos mais elogiados da safra, é nítido que a comunidade abraçou a leve obra, bastante simples de se cantar e com letra sem complicação alguma. A Batucada da Pompeia, bateria da azul e branca da Zona Oeste, colaborou com convenções que empolgaram os desfilantes, que cantaram em uníssono e sem qualquer percalço ao longo de toda a apresentação.

Samba-enredo
Quando as primeiras gravações de sambas-enredo começaram a ser reveladas, muitas críticas surgiram em relação à obra do Águia – composta por Tales Queralt, Aquiles da Vila, Lucas Queralt, Chanel, Marcelo Dores, Salgado Luz, Luccas Barroso, Abílio Jr., André Ricardo, Bruno Ribas, Nando do Cavaco, Ivanzinho, André Filosofia, Caio Ricci, Cauê Ricci, Edson Lins e Ronny Potolski, em uma fusão para decidir a eliminatória interna da instituição. Ao longo de todo o ciclo carnavalesco, porém, novas gravações e, sobretudo, o desempenho da canção ao vivo fizeram com que muitos reconsiderassem a primeira opinião acerca da qualidade da obra.

O que se pode destacar é que, no desfile, como costuma acontecer com todas as músicas levadas pela agremiação da Pompeia para a avenida, a comunidade inteira carregou a canção no colo e cantou com força. O samba, com característica bastante leve e popular, também pareceu feito para empolgar na voz de Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto, históricos intérpretes da instituição. Para finalizar, a Batucada da Pompeia, comandada mais uma vez por Mestre Juca (e com os também competentíssimos mestres Mi e Marcão na diretoria), sustentou com galhardia o samba, realizando as tradicionais bossas do segmento do Águia – incluindo uma delas no final da música, antes de chegar ao refrão.

Evolução
Se muitos criticam a agremiação por ter um andamento um tanto quanto mecânico, é muitíssimo importante pontuar que, se o objetivo de toda e qualquer escola é conquistar o título, a agremiação da Pompeia executa com perfeição o que o regulamento pede. Com ritmo bastante uniforme ao longo de todo o desfile, sem correrias ou espaços em branco, o Águia foi, novamente, exemplo no quesito. O tempo bastante tranquilo de encerramento da exibição, uma hora e um minuto, é apenas mais uma mostra de que, no atual carnaval paulistano, há uma agremiação que domina o quesito como ninguém.

Outros Destaques
Reinando soberana na corte da Batucada da Pompeia (que chegou a se ajoelhar na frente da Arquibancada Monumental), uma rainha à altura: Vanessa Alves, que desfilou lesionada (ela sofreu uma fratura no pé esquerdo em ensaio no dia 22 de janeiro, passando por cirurgia dias) e precisou de um imenso esforço extrapassarela para estar presente com os ritmistas.
Com a flecha certeira do grande caçador, as baianas do Império Serrano representam Oxóssi, o rei de Ketú
Oxóssi, o rei do candomblé Ketú, é conhecido por ser o grande caçador, o rei de todas as matas. Sua cor característica é azul, mas usa-se o verde para representá-lo por conta da sua conexão com a natureza. E essas foram as cores que as baianas do Império Serrano vestiram para representar esse orixá no enredo “Ilú-Oba Òyó: A Gira dos Ancestrais”.
Conhecido por ser um caçador de uma flecha só, sendo essa flecha certeira, as baianas se apegam nisso para sonhar com um bom resultado do Império Serrano neste ano na Série Ouro.
“Representar Oxóssi, que é a força do Império, significa que a gente não pode desistir, temos que continuar na luta, porque a gente vai chegar onde a gente merece”, disse a psicopedagoga Bruna José, de 35 anos.
A fantasia das baianas era toda desenhada em figuras triangulares, as pontas significam o ataque do caçador. Assim como o ofá, a arma sagrada de Oxóssi, que as baianas trouxeram nas mãos.
Para Vera Lúcia Moreira, de 62 anos, a fantasia de Oxóssi é sinônimo de Império Serrano.
“Para mim, essa fantasia representa muita coisa, representa a minha comunidade, eu que moro na Serrinha, representar Oxóssi, que é muito importante para a escola, é lindo, espero que ele conceda muita felicidade, harmonia e união para nós imperianos”, contou a doméstica.
A baiana mais antiga da ala do Império Serrano pediu a benção do orixá caçador para a sua amada escola.
“A gente vem representando Oxóssi. E que ele venha abençoar e trazer melhoramento para o Império Serrano, só isso e muita paz”, disse Maria José, que tem 85 anos, a maioria deles vividos como baiana da escola da Serrinha.
A escola veio trazendo no abre-alas Ogum, que é irmão de Oxóssi. Ogum é conhecido por ser um nobre e incansável guerreiro, que para a costureira de 72 anos, Regina Dalva, irá dar forças ao Império Serrano.
“A nossa fantasia é Oxóssi, o dono das matas, o grande caçador, a força, a inspiração de todos os caboclos. O Império vem para caça esse ano, e com Ogum na frente, vencendo demanda. Isso, está muito bonito. Um carnaval ótimo que eles estão botando na avenida, o samba é fantástico, fora de série, obra do Aluísio Machado, a letra do samba tem tudo a ver com a escola”, comentou a costureira.

