Por Diogo Cesar Sampaio
Localizado na região Sul Fluminense do estado do Rio de Janeiro, o Vale do Café corresponde a um conjunto de 15 municípios que, durante o século XIX, foram responsáveis por 75% da produção de café consumido no mundo. E até os dias de hoje, as fazendas e lavouras do grão, mesmo que de forma indireta, são grandes fontes de renda para região, através do turismo. Mas engana-se quem pensa que o Vale do Café vive apenas das glórias de seu passado. Atualmente, a região tem no agronegócio a sua válvula propulsora. É esse Vale do Café, antigo e atual, que o Império da Tijuca promete trazer para Sapucaí em 2019.
O enredo intitulado de “Império do Café, o Vale da Esperança” foi uma alternativa encontrada pelo carnavalesco Jorge Caribé e pela agremiação de viabilizar o carnaval da escola, em meio a forte crise que a festa do momo vive. A intenção, ao fazer essa escolha, era de conseguir patrocinadores que comprassem a ideia e, de alguma forma, dessem alguma contribuição financeira ou suporte ao desfile do Império da Tijuca.
“A ideia do enredo surgiu de um amigo, que é um diretor da escola. Ele tem um veículo que poderia levar a gente até lá para tentar negociar e conseguir algum tipo de patrocínio. Isso foi vistoriado e está sendo acompanhado, até hoje, pelo presidente Tê (Antônio Marcos Teles, popularmente conhecido como Tê) e pelo diretor de carnaval Ailton. Eles tem ido a todas as prefeituras para tentar algum tipo de patrocínio. E o que deu mais certo é eles dividiram os custos em cotas e mini cotas, porque ninguém mais tem dinheiro para esbanjar. Isto funciona da seguinte forma: Um prefeito, por exemplo, pegou uma ala de 60 pessoas e comprou as fantasias para trazer o pessoal de lá. Já outra prefeitura gostaria que tivesse um trem. Daí, ela bancou a escultura do trem. Graças a essa ajuda que não paramos e conseguimos tocar o nosso carnaval. Não teve nenhum corte de funcionário. Pra mim, está mais fácil que no ano passado. As coisas, por incrível que pareça, andaram com mais tranquilidade”.
Ao decidir falar sobre a região do Vale do Café, Caribé acaba por revisitar um trabalho recente seu. No ano de 2013, o carnavalesco assinou na União de Jacarepaguá, também pela Série A, um desfile em homenagem a cidade de Vassouras, um dos principais municípios que formam o Vale.
“Existem algumas semelhanças entre o enredo desse ano, e o que eu fiz em 2013. Até porque, Vassouras está dentro do Vale do Café. Assim como Mendes, Valença… Então, subentende-se que é uma sequência de fazendas e de produtores. O diferencial é que são escolas completamente diferentes. Eu fiz em 2013 na União de Jacarepaguá, escola que estou como carnavalesco lá até hoje. Era uma escola da antiga Série B, que desfilava na terça de carnaval. Aí juntaram o grupo B com o A, e fizeram a Série A na sexta e no sábado. Inicialmente, era pra ser um carnaval médio e passamos para um grupo gigantesco, fora da nossa realidade, e conseguimos sobreviver e ficar no grupo. A diferença é que agora estou fazendo no Império da Tijuca, que é uma escola especial e que tem outra estrutura. Naquela época, eu fiz as alegorias num terreno a céu aberto, debaixo de uma lona de circo. Hoje faço num barracão atrás do sambódromo. A estrutura é muito diferente, a realidade é outra. Os componentes já estão acostumados a fazer grandes desfiles, o uso de materiais também mudou muito. Em relação a temática, realmente é muito parecido. E dá pra fazer mais uns dois ou três enredos do Vale ainda, pois tem muita história para contar”.
Segundo Jorge Caribé, o caráter histórico do enredo, se fará presente em boa parte do desfile, começando pela abertura da escola. É nesse início que o Império da Tijuca trará referências ao trabalho escravo, que foi pilar da produção de café na região. Com isso, mais uma vez a verde e branco do Morro da Formiga explora suas raízes, fortemente relacionadas às temáticas negras.
E se não bastasse à identificação da escola com a questão negra, também tem a do carnavalesco com tema. Ao longo de toda sua carreira, Jorge Caribé desenvolveu uma lista de desfiles que se utilizaram da estética e/ou da temática africana, principalmente ligada à religiosidade. Por isso, para Caribé, é sempre um trunfo falar do negro e da sua história.
“Ele é um enredo histórico. E todo mundo que estuda história, aprende o que é o Vale do Café. Todos sabem da minha loucura de fazer enredo com temática africana. E ao fazer as pesquisas para o desenvolvimento do enredo, descobri uma triste parte da história do Vale, em que os negros que vieram da África sequestrados, vieram mais de 300 mil como escravos só para o Vale do Café. A minha crença, religião e história de vida, além do que eu prático no dia a dia, é sequência da história do negro. Eu sou do candomblé e todo mundo sabe. Sou babalorixá, que tem uma casa religiosa. Sabendo que na África não tem candomblé, pois é algo tipicamente brasileiro, é saber que tudo isso veio desses 300 mil escravos. Quando se fala em negro, todo mundo pensa em Salvador, Bahia ou até Minas. Eu jamais podia imaginar que, no Rio de Janeiro, teria essa quantidade gigantesca de escravo para plantar café. É a parte que mais gosto do enredo”.
Já quando o assunto são os pontos fortes do Império da Tijuca para 2019, eles vão além da identidade negra, presente no enredo. E durante a conversa com a reportagem do site CARNAVALESCO, Caribé elencou alguns dos destaques, tanto em seu trabalho no barracão, como na escola como um todo:
“Para o meu gosto, um ponto forte em 2019 é a parte que fala de negros. O abre-alas é onde jogamos todas as fichas da escola. Eu acho que ele será o grande ponto alto da escola. Mas esse só um, entre vários. Nós temos uma comissão de frente maravilhosa que é feita pelo Scapin (Júnior Scapin, coreógrafo), temos um casal que a roupa está pronta, temos uma porta-bandeira de altíssimo nível que é a Gleice Simpatia, além do outro grande ponto alto que é a comunidade da Formiga. Temos também a bateria que ensaia o ano todo, a ala de baianas, passistas que vão até fantasiadas para o ensaio de rua… O Império é uma escola de raiz. Teremos mais um ano a Selminha Sorriso como destaque do abre-alas. Teremos a presença da mãe do Cazuza, que estudou na Universidade de Vassouras, que é uma das apoiadoras do enredo”.
‘Iremos brigar com quem acha que vai ser campeã’, declara Caribé
Indo para o seu segundo desfile a frente da escola, Jorge Caribé acredita que o carnaval de 2019 pode representar uma virada para o Império da Tijuca, que segundo o artista, até hoje, paga contas e dívidas referentes à passagem pelo Especial em 2014. Para o carnavalesco, o atual trabalho de barracão é superior ao que realizou em 2018, além de já ver uma estrutura interna maior esse ano.
“Estou no meu segundo carnaval aqui, já conheço melhor as pessoas, sei onde posso ir, falar e fazer. Eu me sinto mais a vontade por ter um carnaval mais sólido do que tinha em 2018. Ano passado não tínhamos dinheiro. A escola ainda está tentando se estruturar desde o rebaixamento em 2014. Ano passado, eu fiz as alegorias com muito material reciclado e alternativo. Esse ano foi mais fácil, porque não ficamos esperando nada. Eu e minha equipe começamos a arrumar adereços e montar, sem esperar um milagre. Antes nós éramos os irmãos pobres e íamos aos irmãos ricos. Agora não tem mais rico. Eles são os pobres e nós os miseráveis. E como nesse grupo não temos nenhuma escola com padrinho, não que seja contra, sou louco pra chegar um padrinho aqui, mas, como todas as 13 estão comungando do mesmo prato, da mesma bacia das almas, se não errar, eu acho que iremos brigar com quem acha que vai ser campeã. Aqui é o Império da Tijuca. Não é escola que vai catar componente, em cima da hora, para conseguir desfilar. Eu acho que, mesmo com toda a dificuldade, a surpresa será grande”.
E em meio a todas as dificuldades, oriundas de se fazer carnaval na Série A, com ou sem crise, é necessário trabalhar com a criatividade. E Caribé, tem uma larga experiência com isso. O artista é reconhecido, dentro do mundo do carnaval, por seu talento em trabalhar com materiais alternativos e reciclados.
“A minha inspiração vem do candomblé. Meu pai e minha mãe eram do candomblé. Então, eu vivi vendo as pessoas fazendo as coroas dos santos, usando máquina de costura para fazer babados, fitinha e saias. A minha inspiração vem dessa minha cultura e vivência religiosa. Eu vivia dentro de casa vendo minha mãe e meu pai montar ala, fantasia, destaque, e bordar. Meu pai tinha uma ala na Vila Isabel. Antigamente, não se colava nada, era tudo costurado com agulha, linha, paetê e miçanga. A minha criatividade para fazer carnaval vem daí, vem dos orixás, vem da casa do candomblé. Quando vou montar uma alegoria, eu penso nas grandezas das florestas, no brilho das Iabás, na simplicidade de Omolu, e assim vou trabalhando com as palhas. Eu sou um carnavalesco orgânico. Quem me disse isso foi o Chico Spinoza e jamais esqueci. Pois uso muitos materiais da terra. Muito material que está ligado ao culto dos orixás, como corda, palha e búzio, por exemplo”.
Entenda o desfile
O Império da Tijuca vem com 4 alegorias, sendo o abre-alas acoplado, e uma média de 2500 componentes. A agremiação, mesmo com a crise, não cortou nenhuma ala e novamente virá com um total de 23, mesmo número do último carnaval. E entre as curiosidades da escola está o número de destaques. Ao todo, terão 28 destaques no desfile, o maior contingente do Rio de Janeiro, entre todas as agremiações de todos os grupos, segundo o próprio carnavalesco Jorge Caribé. A verde e branco do Morro da Formiga será a quinta e penúltima escola a desfilar, no sábado de carnaval.
Setor 1: O Negô tá cansado de trabaiá… Trabaia… Trabaia Nêgo…
“A abertura serão os 300 mil negros. Será uma abertura africana dentro do Vale do Café. Um grande quilombo dos negros plantando café. O abre-alas terá sementes de café, além de levar o cheiro de café para Sapucaí. Nesse primeiro setor também retratamos a chegada dos barões vindos de Minas. Com a falência do ouro, eles vieram colocar a fortuna no plantio do café. Terão as mucamas que saíram das senzalas e foram para a casa grande, as festas, o alto consumo do café, as xícaras de porcelana, os bules, os bolos, os doces… A grande coincidência é que tem café na bandeira do Império. O Morro da Formiga era plantação de café, e isso também será lembrado”.
Setor 2: “Na hora em que a terra dorme, enroladas em frios véus, eu ouço uma reza enorme enchendo o abismo dos céus…” (Castro Alves).
“O segundo carro da escola é sobre Nossa Senhora da Conceição e a grande igreja da padroeira. Que também é padroeira do Império da Tijuca, que foi fundado em 08 de dezembro. Nesse setor temos a mistura de crenças dos negros com a crença do branco. Daí surge os cortejos religiosos, as festas da folia de reis, a festa do divino. Misturamos todas essas cores e cânticos quase miscigenados. Temos são Benedito, Santa Efigênia e começa toda aquela mistura”.
Setor 3: “Não candeia Clementina… Fui feita pra vadiá…” (Clementina de Jesus).
“Nosso terceiro setor traz a verdadeira Folia de Reis. Que tem no Vale do Café, e também tem na Formiga até os dias de hoje. Também vem nesse setor o legado que o café deixou para o Vale. Pois hoje, eles não vivem mais do café, e sim do turismo em todas aquelas casas maravilhosas que hoje viraram casas de exposição. As casas dos barões, fazendas lindas, com cortinas e móveis… Tudo isso virou turismo”.
Setor 4: O legado deixado pelo café.
“O último setor vai falar da ida das pessoas para o Vale e o que impulsiona ele hoje, como indústrias automobilísticas, criação de cavalo, universidade, cervejaria, o agronegócio. Apesar da crítica das pessoas por mencionarmos o agronegócio, temos que falar dele sim, porque faz parte do enredo. Vamos falar também de criação de animais correta, clonagem de ovelha e toda essa realidade do Vale hoje em dia. E encerramos com o último carro, que é a estação ferroviária, que nada mais é a mola mestra do Vale. Tudo é escoado através do trem. A última ala será o café do Vale com o café do Morro da Formiga”.


Alex conversou com a reportagem do CARNAVALESCO sobre o projeto e as dificuldades em se realizar o carnaval deste ano, e confirmou que o último setor do desfile terá uma crítica ao sistema judiciário.
“Eu acho tem a importância de estar no Salgueiro, independente do enredo. Tem um passado, uma força, uma história das mais imponentes do carnaval. Fazer Xangô é mais honra que responsabilidade. Prestar essa homenagem ao padroeiro da escola. Nasci no dia de Xangô, 30 de setembro. Já tem uma coisa cósmica, que estava traçada a muito tempo. Tivemos dificuldades mas espero fazer o melhor trabalho que honre o orixá e a escola de samba”, garante.
Setor 1: “Começamos com a criação do mundo segundo o povo iorubano. A partir daí fazemos o link entre o real e o irreal. Xangô teria existido em 1400 como um rei do povo Iorubá, de Oyó. Fazemos uma citação sobre a história do avô, pai, irmão mais velho. Ele toma o lugar do rei e depois ele é destituído. Esse setor é o Xangô histórico, um rei africano”.
Setor 3: “O orixá difundido no Brasil e no mundo. Aqui os escravizados para poder celebrá-lo apelavam por um sincretismo aos santos católicos. Em festejos desses santos que tinham afinidade com Xangô eram utilizadas essas datas para louvar o orixá. São Pedro e São Jerônimo são alguns desses santos”.
Setor 5: “O senhor da justiça. Vamos clamar por ele pois as questões judiciais aqui são complicadas neste país tão controvertido. Que os grupos sociais ameaçados recebam a proteção de Xangô e que a justiça se faça”.
O site CARNAVALESCO, em parceria com a Guaracamp e com a FM O Dia, realizou na tarde desta terça-feira, sua primeira ação de distribuição de ingressos do setor 13, para as duas noites de desfiles da Série A. A ação aconteceu na Praça Doutor Raimundo Paz, em Bangu, e reuniu vários populares interessados em assistir ao carnaval ao vivo na Sapucaí.
Além da distribuição dos ingressos, o evento contou com a entrega de produtos da Guaracamp para o público. Também houve rodas de samba e brincadeiras comandas pelo pessoal da FM O Dia. A reportagem do site CARNAVALESCO ouviu alguns dos populares acerca do que acharam da ação e de ganharem os ingressos para Marquês de Sapucaí.
“Isso (o evento) é uma coisa muito legal. Essa parceria da FM O Dia com o Guaracamp, e também com o site CARNAVALESCO, é muito importante porque dá oportunidade da gente poder ver o carnaval de perto. Eu nunca fui a Sapucaí e essa vai ser a minha primeira vez. Vou eu e a minha esposa”, declarou Silvano Firmino, de 41 anos, morador de Nilópolis e torcedor da Beija-Flor.
Bacharel em química, Eliane Domingos tem 62 anos e é moradora de Bangu. Torcedora da Beija-Flor, ela também ficou muito feliz de ter conseguido os ingressos para curtir o carnaval da Série A ao vivo.
Torcedor da Mocidade Independente, Jorge Luis é morador de Bangu e tem 57 anos. Ele não só ficou contente com a oportunidade de ver os desfiles na Sapucaí, mas com o evento como um todo, o qual ele enxerga ser de muito valor no atual momento da cidade.
Morador do município de Duque de Caxias, Francisco Carlos de 30 anos é camelô e torcedor da Grande Rio. Francisco teve a mesma linha de pensamento de Jorge Luis, e reafirmou a importância da realização da ação no bairro.
“Adorei (ter ganhado ingresso), primeira vez que eu vou. Vim de Recife pra cá, sou pernambucano. Nunca fui ao Sambódromo. É bom ver o Grupo de Acesso, que está crescendo muito, né? Está ótimo esse evento: ganha ingresso, paga mico na roleta, ganha brinde, bem engraçado. Me amarrei”.
Em ação histórica e inédita os desfiles da Série B vão ser transmitidos ao vivo pela televisão, através da TV Max (canal 25 da operadora NET ou 525 pela NET DHD), e o site CARNAVALESCO não poderia ficar de fora desse momento tão especial para escolas de samba e sambistas que desfilam na Intendente Magalhães, na terça-feira gorda de carnaval. Em parceria com a Liesb e a TV Max, a equipe do site estará presente na transmissão participando ativamente com comentários e detalhes exclusivos da nossa cobertura, direto da pista de desfiles e do Botequim da Intendente.
“A gente já estava em um ‘namoro’ longo. Só que as coisas não andavam. O Império Serrano anunciou a renovação. Uma escola que eu respeito demais. Numa quinta-feira houve uma reunião para definir o intérprete. Houve a aprovação do meu nome nesse encontro. Aí meu telefone tocou e era um número desconhecido e era o presidente Chiquinho. Ele me informou que eu era o cantor da Mangueira. Eu comecei a chorar. Eu sou gaguejei à beça no telefone. Pensei até que ele pudesse desistir (risos)”.
“Meu último carnaval como apoio na Porto da Pedra pensei em parar. Na época estava surgindo o Igor Sorriso. Eu não era chamado para lugar nenhum, apesar de todos disserem do meu potencial. Falei para o Bruno Ribas que eu daria um tempo. O Bruno tentou me fazer desistir mas eu fiquei realmente fora em 2011. Não me arrependi de ter feito isso. Em 2012 a convite do Cláudio Russo, que é muito meu amigo, passei a compor o carro de som com o Rogerinho. A Unidos de Padre Miguel havia descido para o Grupo B na época e o Igor Viana havia sido convidado para cantar na Porto da Pedra em 2013, a escola havia descido para a nova Série A. A convite do Kenga e do mestre Dinho eu fui chamado para assumir o microfone principal da Unidos. Ali minha carreira deslanchou”
“A Unidos tem um lugar muito especial no meu coração. Eu devo muito à escola. Até hoje sou muito bem recebido. Todo ano faço questão de ir assistir e torcer pela escola. Eu sei que a hora da Unidos vai chegar se Deus quiser”
O que aconteceu no episódio da sua prisão?
Quase metade dos 2900 componentes, incluindo os da comissão de frente, passará pelas mãos de um time de mais de 100 pessoas, entre brasileiras e estrangeiras, coordenado por Christina Gall e Juranda Xavier. Será a segunda experiência delas na Viradouro. No Carnaval de 2018, no desfile que deu o título da Série A à vermelho e branco, Christina trouxe profissionais do exterior para a maquiagem de 400 componentes. Este ano, o intercâmbio se dará com a empresa francesa Guaranho Events, responsável pela vinda de nova turma de mão de obra estrangeira.
Paulo Barros diz que nunca teve um contingente tão grande de desfilantes maquiados e considera que o trabalho dos profissionais vai valorizar a passagem da Viradouro.
O Império Serrano vai evitar o clima piegas e a apelação no enredo ‘O que é, o que é’ de autoria do experiente carnavalesco Paulo Menezes. Em entrevista concedida ao site CARNAVALESCO no barracão da escola, o artista afirma que ele próprio se tornou um profissional versátil e que o próprio Império possui a subversão em seu DNA histórico.
Quem passa pela Cidade do Samba se preocupa com o andar dos trabalhos na verde e branca da Serrinha, uma agremiação com nove títulos no Grupo Especial. Paulo Menezes reconhece as dificuldades mas tranquiliza os imperianos afirmando que dificuldades não são novidades para ele e que tem conseguido trabalhar nas últimas semanas.
Paulo Menezes foi o carnavalesco no último momento de brilho do Império Serrano no Grupo Especial, com o enredo ‘O Império do Divino’ em 2006. O artista revela à nossa reportagem que sua chegada foi atrelada a uma proposta ousada e que a opção por desenvolver o enredo em cima de uma canção da MPB foi minuciosamente estudada.
“Nosso enredo é uma reflexão sobre a vida e o viver, o que as pessoas refletem sobre isso e como elas se comportam diante dela. De onde viemos, se vamos para algum lugar. Não sei porque tive essa ideia, mas tem pelo menos dez anos que quero fazer esse enredo. Foi uma coisa que amadureci e cresci. O Império Serrano me pediu uma proposta ousada e aí eu propus essa. O primeiro impacto foi um susto, acharam que eu era louco. Foram muitas reuniões com todos os segmentos envolvidos até bater o martelo. Foi uma coisa pensada e estudada”, conclui.
Setor 2: “A visão religiosa. Como cada uma explica e a maneira que os fieis são conduzidos a se portarem diante da vida”.
Setor 5: “O lado lúdico e poético da vida. A visão infantil, como nos comportamos com o romantismo”.
“Quando eu fui contratado, o presidente me pediu uma temática que tivesse ligação com o nordeste. Mas um nordeste enraizado, que olhasse e visse de imediato a região. Eu queria algo que fugisse do aspecto plástico. Comecei a pesquisar sobre vários assuntos e levei para a direção três temas. Os três temas foram pensados para desenvolver o carnaval diante das dificuldades na Série A. Queria algo que fosse de fácil leitura. Durante as pesquisas sobre vários aspectos do nordeste, eu escolhi falar sobre os objetos que os cangaceiros usavam, no contexto de Lampião e Maria Bonita. Depois disso, passei a ver vários filmes célebres sobre o cangaço brasileiro pra poder entender até as vestimentas deles, além de todas as dificuldades de se viver no sertão. Esse enredo é um olhar meu. O enredo não vem de uma pesquisa ou de um livro. É um olhar fotográfico, sobre tudo que o bando viveu”.
“Minha grande aposta é a maneira como o carnaval está sendo construído. A minha ideia é falar do objeto que não tão somente é usado pelo cangaço, mas o objeto usado pelo sertanista nordestino. O presidente me pediu que o enredo tivesse uma pitada social. Toda vez que eles paravam numa cidade, eles colocavam sobre a natureza seca e quase morta do sertão, os objetos que eles carregavam. Expunham a condição de vida deles. Também observei que o fato de eles andarem com as mãos cheias de anéis, é porque eles não tinham como carregar fisicamente. E é por isso também, que eles costuravam as moedas de ouro e prata na roupa. As mulheres tinham muitos broches que eram frutos dos roubos, principalmente dos coronéis. Em cima disto, eu criei o frasco do bandoleiro. É o frasco que conceitua tudo que guarda. Eu descobri várias curiosidades sobre isso”.
“Um ponto diferente da Inocentes em 2019 é a plástica. Usamos os frascos, que estão no enredo, em sua totalidade. Revestir um carro todo de garrafas pet e caixotes de feira eu nunca tinha feito, e fiz esse ano. É até difícil escolher algo para destacar, que chama mais a minha atenção. Eu gosto muito da fantasia da ala das baianas, por exemplo, pela concepção, por ser uma fantasia diferente. Cada carro tem uma materialidade diferente. O abre-alas eu aproveito a parte do circo e uso muitos tipos de garrafas, não só as pets. No último carro eu uso frascos nossos, do cotidiano, que jogamos fora como panelas, bacias, baldes”.
“Todo artista tem a sua marca, cada um tem sua personalidade. O Wagner é muito meu amigo. A Inocentes ficou durante anos convivendo com a arte do Wagner. E agora eu trago um pouco da minha marca. Eu sempre procuro ouvir o que a escola deseja. Nos últimos anos, a Inocentes veio sempre com temática africana e negra, ou com algo relacionado. Quando eu cheguei, o presidente pediu por algo novo. Justamente para dar uma mudada na cara da escola. Resolvi vir com o que tenho de mais característico no meu trabalho: figurinos leves, com alta costura e muito colorido”.
“Eu sou um cara que trabalho muito. Eu já passei por dificuldades em alguns trabalhos, até dificuldades extremas. Até o título do Império (Serrano) foi muito difícil. Devido a todo o peso do Império Serrano, e por ele estar a nove anos no Acesso na época, eu era muito cobrado. Porém, já no meu primeiro ano alcançamos o campeonato. Aqui na Inocentes, nós estamos tendo muita dificuldade, assim como todas as escolas este ano, e estamos fazendo um trabalho muito pé no chão. E posso dizer que aqui eu tenho contado com o apoio de todos, do presidente ao diretor de carnaval. Aqui eu sou apenas uma parcela de um todo, para fazer a Inocentes chegar mais a frente ainda. Eu quero trazer uma escola competitiva”.
“Eu costumo dizer que o carnaval da Série A é o carnaval da possibilidade, da dificuldade. Esse ano é o carnaval da impossibilidade. Não é só o que o carnavalesco pode usar, mas o que as diretorias podem entregar. O esforço é pensar o carnaval no coletivo. Eu tive o manejo de olhar o carnaval como um todo, para justamente poder finalizar o que está na parede da minha sala”.
“Pessoalmente, eu prefiro trabalhar com sambas encomendados. Até porque as escolhas, hoje, de samba são um pouco cansativas para diretoria e para o carnavalesco. Quando temos a possibilidade de encomendar, nós vamos lapidando até chegar ao ponto ideal que queremos. Olhando como sambista, a questão das escolhas é melhor porque aproxima a comunidade, tem a questão de movimentação na quadra. Mas, no momento atual do carnaval e de segurança da cidade em relação à locomoção, eu vejo hoje a encomenda como algo positivo”.
“Lampião não era só um bandoleiro, um fugitivo social. Ele tinha um apelo pelas artes, pelas primeiras manifestações culturais no Nordeste. Lampião financiou circos, daí sempre meu olhar sobre o frasco. Os malabaristas eram malabaristas de garrafas, lá nos primeiros circos do Nordeste. Lampião também financiou folias de reis, ele era uma espécie de miliciano da década de 20. As vestimentas das folias de reis eram de frascos da natureza, como cabaças, porungas. Isso conceitua a alma de artista bandoleiro do Lampião, que inicia o carnaval da Inocentes”.
“Ao contrário do que se imagina, o bando de Lampião não bebia somente cachaça. Eles também bebiam muito vinho para espantar o frio do sertão. No terceiro setor, a Inocentes mostra que Lampião pressentia que, a qualquer momento, ele poderia morrer. Ele sentiu isso, cerca de 2 a 4 meses antes de sua partida. Ele estava no Raso da Catarina na Bahia, uma região montanhosa, que não é muito auspiciosa a vida. Ali ele enterrou garrafas de bebida e parte do tesouro em botijas do bando. As rendeiras que margeiam o Rio São Francisco, lá na Bahia, dizem que ouvem até hoje o cavalgar dele com o trote das garrafas. Isso talvez tenha originado o hino ao cangaço brasileiro que é uma composição do Lampião: “Mulher rendeira”. Outra curiosidade é que o lugar é um vale que foi habitado por uma cacique chamada Catarina. Ali ele enterrou esses tesouro também em botijas”.
“O último momento da Inocentes é quando o bando atravessa o Rio São Francisco e chega ao Sergipe. Lá todos os filmes mais conhecidos do cangaço brasileiro, mostra que eles chegaram Grota de Angicos, que era o lugar em que Lampião acreditava que o bando ficaria 6 meses, por ser um lugar baixo. Eles acamparam, colocaram todos os frascos, todos os pertences, após o desbravamento pelo sertão. Lá tiveram uma noite regrada de vinhos. Contudo, a “volante” já estava no encalço deles. Dormiram e ao amanhecer, no dia 28 de julho, acordaram sob os tiros de metralhadora. Os frascos foram as testemunhas da barbárie de Angico, em que se exterminou todo o cangaço brasileiro. O último carro “A bacia das almas” mostra os 14 mortos. Eles tiveram as cabeças cortadas e salgadas nos frascos que estavam na grota de Angico. Encerramos o desfile mostrando que hoje os brasileiros são outros. Hoje temos outras vítimas sociais. Eu não encaro o cangaço como bandidos. Claro, que tinham toda a perversidade deles, mas foram justiceiros sociais”.
“Muitas pessoas confundem, elas acham que a gente vai fazer uma cópia do Rei Leão, na verdade o Hakuna Matata vem muito antes do filme da Disney. A Hakuna Matata é uma música queniana, eles criaram essa canção depois da quebra das correntes pra chamar os turistas pro país. O nosso enredo começa nessa questão de mostrar o país para o mundo, a gente abre esses olhos para a África e mostramos todo o continente dentro desse olhar do queniano. Ano passado eu fiz um enredo que era afro, subimos com uma temática de camdomblé, e esse eu ano eu não quis um tema pesado, esse enredo tem leveza. É uma África leve, sem palhas, buzios e nem com dentes, fiz uma coisa lúdica. É uma África infantil, esse é o carnaval da Colorado em 2019”, afirma.
Leonardo conta que a proposta não é dele e diz que está honrado com desenvolvimento pelas diversas opções que o tema proporciona..
“A gente acha que um país da África só tem savana, mas o Quênia é banhado por oceanos. A maior concentração de cavalos marinhos é no Quênia, então isso também abriu meus olhos. Eu gostei da pesquisa porque a África tem de tudo um pouco, eu começo na savana mas tem a parte tropical das matas, do mar. Eu pude misturar as cores, fiquei encantando tanto na pesquisa quanto na elaboração do trabalho”.
“A aranha é um dos pontos altos, mas eu também tenho uma responsabilidade com a ala das baianas, eu crio uma coisa específica pra elas e nesse ano vai ser um ponto forte. Peguei referências das roupas do Quênia e as minhas baianas tem uma variedade de cor bem extensas, são oito ou noves cores diferentes, uma coisa que São Paulo nunca presenciou. Cada baiana vem com uma roupa própria, são peças únicas e isso também acho que vai ser um diferencial”, revela.
A agremiação do Brás se mantém numa crescente histórica. Em 2011 a Colorado desfilou no grupo três da UESP, e precisou de apenas sete anos para chegar ao grupo especial. Acredita-se que a força da comunidade elevou o patamar da escola.
“A nossa comissão de frente mostra a questão do queniano como escravo dele mesmo durante a Guerra Civil. Depois eu venho com a grande savana vermelha, que o primeiro clipe da música não tinha cor, era tudo vermelho. Isso bateu com as cores da escola, então o nosso abre-alas é essa grande savana brilhante.
“No meu terceiro setor eu conto todas essas lendas africanas, não só no Quênia mas de todo o continente. Nesse setor tem uma parte que eu gosto muito que é a Anansi, uma aranha africana, que pra mim essa alegoria vai ser a surpresa do carnaval. Uma grande aranha na avenida.
5° SETOR – COROAÇÃO
“Eu meu trabalho começou na Império de Casa Verde, eu vim como assistente do Alexandre Louzada. Foram três anos, sendo que no último eu assinei como carnavalesco, fiz o carnaval dos sonhos A minha base foi toda feita nessa agremiação, escola que eu respeito muito. Depois tive uma passagem pela X-9 Paulistana, fui assistente do André Machado de criar a proposta do enredo sobre o Açai. Nesses três último anos estou na Colorado, na verdade a Colorado virou a minha família, voltamos para o especial juntos, depois de três anos eu também estou voltando para o especial. A escola está numa gana em abrir o carnaval de São Paulo, que também é um desafio pra mim e pra escola. A gente está preparando um carnaval lúdico, realmente fazer coisas diferentes, a gente que uma coisa de impacto no carnaval. Trabalhamos em cima da proposta de abertura”.
“O Império em 2018 fez um enredo que homenageava o povo e gostei muito da sacada que o Jorge Freitas teve, nada melhor do que falar sobre quem está assistindo, quem vivencia o carnaval. A gente precisava manter uma linha parecida, carnaval voltado ao povo. Eu já assisti carnavais na arquibancada nos quais as escolas passam e você não sabe o que elas representam. A ideia de fazer um enredo sobre o cinema partiu desse princípio, de fazer um enredo em que as pessoas possam bater o olho em uma ala e já saber o que ela representa. A ideia partiu de popularizar o desfile, fazer com que qualquer um possa mergulhar de cabeça naqueles 65 minutos”, explica.
“Eu sempre tive vontade de falar sobre cinema, eu adoro, até as minhas camisetas tem uma temática de algum filme, eu sou um cinéfilo de carteirinha. Eu falei que ainda iria fazer a minha história do cinema, fazer o carnaval contando a minha visão sobre isso. Aqui em São Paulo surgiu a oportunidade, nós tínhamos oito propostas de enredo, dessas a escola optou por três e a gente foi lapidando. Até que numa reunião eu apresentei a quarta ideia e eles curtiram logo de cara, o presidente comprou , querendo ou não, não existe ninguém que não goste de cinema. Você pode ver que o público comprou a ideia, as pessoas estão curtindo, cada uma com sua personalidade”.
Buscando o quarto título, o Império de Casa Verde traz essa proposta com ênfase, tanto nos carros alegóricos quanto nas alas de chão.
“Quando você faz um carro desse comprimento, parece que o componente entra em delírio. O Império tem isso na sua raiz, na sua essência. O abre-alas vem com dois tigres, e ele representa o templo maior da sétima arte, que é o cinema. As pessoas vão se deparar com um cenário saudosista, nos inspiramos nas salas de cinemas da década de 50/60, quando teve o ‘boom’ do cinema mundial, a gente pegou de referência na cinelândia, nas salas antigas de São Paulo, na Broadway, nas formas do letreiro. Vai ser uma alegoria que a gente vai impressionar pelo gigantismo, só nesse carro nós temos 60 pessoas totalmente coreografadas, dando vida a essa alegoria”.
“Era o carnavalesco da Tucuruvi e estava num ano em que não seria julgado, estava mesmo com uma visão totalmente neutra. Estava assistindo o desfile de sábado no sambódromo e quando terminou o Império eu, Flávio Campello, já contava como a campeã do carnaval, como a maneira que foi conduzida o carnaval, a gente via o desfile com a essência que a gente está trabalhando aqui, com cara de espetáculo. Acho que as pessoas do Império ficaram mais fascinadas foi com o título do enredo, eles disseram que o título tinha uma resposta ao resultado do carnaval passado, que é ‘O Império Contra-ataca’. O Carlos Júnior acha que é a maior sacada do carnaval foi no título do enredo”, finaliza.
“A ideia não foi buscar na cronologia do cinema pra contar a trajetória dele, até como historiador eu tenho esse vicio de buscar o inicio. Mas não, desde o começo buscamos um enredo não-linear, contar uma história sem se preocupar com uma cronologia e a gente dividiu esse enredo em cinco partes. A gente abre o desfile com início do cinema, com a realização do sonho dos irmão Lumière, que são os inventores que praticamente projetaram o primeiro filme em movimentos. Isso fez com que a gente buscasse inspiração nesse fato e abrisse o desfile. A invenção dos Lumière estará na comissão de frente. A primeira alegoria retrata o ponto de partida de qualquer pessoa que vai assistir um filme, que é o cinema. A gente tem no abre-alas o que a gente denomina o templo da sétima arte, a gente vai brincar um pouco com o público nessa alegoria. Nós teremos algumas meninas que vão estar assistindo o filme como espectadoras, vai ter telão, vai ter poltronas, os filmes vão passando e num tapete vermelho terá os personagens dos filmes passando. A gente tem cerca de 20/25 personagens que vão interagir com esses espectadores como se esses personagens ganhassem vida”.
“Vamos falar dos filmes que marcaram época, como: Senhor do Anéis, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia.
“Em 2019 faço dez anos no carnaval de São Paulo. Cheguei aqui em 2009 na Mocidade Alegre, a gente saiu da avenida campeão com aquele enredo do coração, foi muito bom fazer parte daquele projeto, conhecer as pessoas das quais eu trabalhei, Presidente Solange, Sidney França, Márcio Gonçalves, Fábio Lima, foi um time muito legal, eu curti demais, e isso conta bastante para que a gente se firme no carnaval de São Paulo. Eu largei toda a minha vida no Rio de Janeiro e me mudei totalmente pra São Paulo, porque eu acreditei que aqui poderia fazer o que eu goste de fazer e de uma forma que a gente almeja, que é o respeito, o carnaval daqui valoriza muito o profissional, eu sou muito feliz aqui. Depois do Mocidade Alegre eu fui para a X-9 Paulistana onde fiquei quatro anos, depois fiquei dois anos na Dragões da Real, um ano na Tatuapé, ano passado fiz Tucuruvi e esse ano estou aqui no Império de Casa Verde”.