Vice-campeã do carnaval de 2018, a Mocidade Alegre entra pra avenida em busca do 11° título. A carnavalesca Neide Lopes, que integra a comissão de carnaval, é uma das responsáveis pelo enredo: “Ayakamaé – As Águas Sagradas do Sol e da Lua”, uma homenagem ao Rio Amazonas.
“É um tema que a gente trabalha a lenda do surgimento do rio Amazonas , toda a contribuição que ele tem pra Amazônia e todas as lendas, mitos, povos das florestas. Então ele é um grande vôo do rio, desde quando ele nasce até o momento dele desaguar quando encontra o mar. Nós rufamos os nossos tambores e tremulamos o pavilhão em homenagem a esse rio. A mocidade se torna não só a morada do samba, mas se torna também a morada das águas pra contemplar esse grande tesouro”.
Neide Lopes revela que enredo é uma antiga lenda romântica indígena e afirma que escola está entrando no clima que o tema propõe.
“É uma história que a gente sempre ouviu, na escola sempre ouvíamos desse amor do sol com a lua. Em 1996 dois compositores do boi caprichoso fizeram uma toada que conta a lenda de forma mais romântica ainda. Quando a gente ouviu, aquilo nos deu muita inspiração, porém só se concretizou em 2005. Estávamos no Império de Casa Verde e aí teve uma grande seca no rio Amazonas, a gente viu o sofrimento do nosso povo e isso nos deixou muito tristes, então resolvemos escrever um enredo que falasse sobre a importância do rio. Colocamos no papel, mas em 2006 o Império fez um enredo patrocinado e acabou que o Ayakamé ficou pra depois. A gente chegou a apresentar na Grande Rio e em outras escola, mas sempre tinha aquela questão de ‘ah, vamos ver’, ‘é um enredo grandioso’, ‘tem um custo maior’, ‘é trabalhoso’. Pra esse ano, depois do enredo sobre Alcione, a Mocidade se interessou em fazer um enredo indígena. Na reunião a presidente Solange pediu uma ideia de tema que fala sobre alguma lenda indígena, depois eu resolvi falar sobre o enredo pronto, que há treze anos estava escrito, e a escola ficou encantada. Tá sendo muito bacana falar de uma cultura que é próxima do samba, porque não deixa de ter o batuque, essa importância do negro, e conseguir trazer isso pra comunidade tá sendo muito legal. As pessoas estão sentindo essa energia indígena da Amazônia, e eu fico muito emocionada”.
A lenda contempla o amor do sol com a lua, sobre isso a carnavalesca Neide Lopes nos contou um ponto alto do desfile
“A gente foi ajustando o enredo pra ficar com a cara da Mocidade Alegre. Eu acho muito bacana ressaltar o primeiro setor, porque a gente fala do amor, e o último encerra esse grande amor dos astros. Então, no primeiro setor a lua vem separada do sol e no último eles se reencontram, e não da pra se ver de frente, é só na lateral, é para o público mesmo. A gente quer que o público se sinta dentro dessa história de amor”.
Sobre desfile grandioso e suntuoso, Neide defende outra intenção.
“Queremos mais que passar bem, a gente quer encantar, quer emocionar o público, vivenciar um momento alegre, feliz, que é o que a Mocidade Alegre é, uma escola de união, força, garra e simplesmente de alegria”.
Carnavalesca é a única parintinense a assinar enredo no estado
A importação de profissionais vindos de Parintins cresce a cada ano no carnaval de São Paulo, eles estão presentes em diversos barracões e ateliês. A Neide iniciou sua trajetória no festival dos dois bois, mas se engana quem acha que a carnavalesca começou agora.
“Sou de Parintins, estou nessa trajetória cultural há 28 anos. Nós começamos exatamente em Parintins, eu falo nós porque eu e o Carlos sempre estivemos juntos, além de meu esposo ele é artista plástico. Trabalhamos em várias festas regionais além do festival folclórico de Parintins, até que surgiu a oportunidade de vir pra São Paulo, isso em 1999. Chegando aqui começamos pela Nenê de Vila Matilde e depois conhecemos o Império de Casa Verde, na época no acesso. No ano de 2001 fizemos um trabalho paralelo entre Império e Tucuruvi. No ano seguinte no especial, o Seo Chico Ronda propôs um projeto ousado de dar uma cara pro Império porque até então a escola era muito nova, e o projeto era de fazer uma grande escola, com alegorias grandiosas. Com todo esse suporte, eu e o Carlos nos mudamos para São Paulo. O primeiro ano foi bem difícil porque quase caímos, no ano seguinte voltamos nas campeãs e em 2005 fomos campeões, 2006 bicampeão e em 2007 foi o nosso último desfile. Nesse ano em questão recebemos o convite de fazer o carnaval da Grande Rio, e ficamos dez anos trabalhando ali, Grande Rio, Salgueiro, Mangueira, Império Serrano, fizemos várias escola mas o Salgueiro era a qual ficávamos com mais exclusividade, onde fomos campeões em 2009. Em 2015 recebemos o convide do Mocidade Alegre para participar da comissão de carnaval na época com o Sidney França e permanecemos até hoje”.
Neide explica o motivo que voltou para São Paulo e afirma que carnaval carioca precisa ser mais valorizado.
“Foi uma questão familiar, em 2015 nós já estávamos sentindo umas problemáticas do Rio, em termos de verba, logística, e isso já estava desandando, como se fosse um pré-crise, hoje isso se agravou bem mais. Se a pessoas não sentarem pra discutir acordos em prol do carnaval do Rio, o evento tem a perder muito. Eu que sou produtora cultural vejo falta de conscientização de alguns, inclusive de líderes governamentais. A cultura é um recurso de transformar vidas, e infelizmente isso não é vista pra alguns. A gente trabalha no carnaval o ano inteiro, e se colocar o ângulo do minimo para o máximo, vai perceber que atinge muitos setores, fornecedor de tecido, material, cola, isopor, de tudo, isso está empregando pessoas. Você sai do ambiente interno e vai para o externo, você tem a movimentação em hotéis, uber, alimentação, viagens, tudo que circula em prol do acontecimento. Isso não é só no período fevereiro/março, é o ano todo. O deslocamento que tem de profissionais de Parintins e a renda que tem lá, tem um grande intercâmbio econômico. As pessoas tem que entender a importância da cultura, e no Rio essa crise está mais agravada ainda”.
Amazonense apaixonada pelas suas raízes, Neide comenta sobre diferença do festival de Parintins com o desfile de escola de samba e ressalta que a disputa dos bois serve de vitrine para os profissionais do norte.
“Em Parintins a cidade toda é preparada em prol da disputa dos dois bois.Você tem os bois de rua que arrasta mais de cinco mil pessoas, que é uma prévia da disputa. A cidade é construída em prol da festa e exporta vários talentos, mas existe uma dificuldade de fornecimento de material, e aí existe a vantagem do improviso, porque lá se usa os recursos que tem. Se tem uma escultura de cipó, é porque era o único recurso disponível e o mais barato. É importante frisar que lá se tem mais mãos de obra, então o processo de construção de Parintins é muito mais rápido que em São Paulo. Já o carnaval do Rio de Janeiro e o de São Paulo é pensado com bastante antecedência, e aqui nós temos também a farta diversidade de materiais, isso faz com que a gente consiga bater o olho e executar tal coisa, talvez um tecido, uma arte gráfica, até material de construção civil. Outra coisa também é a estrutura, o sambódromo de São Paulo tem uma ótima estrutura, diferente do Rio que se tem uma concentração e uma dispersão bastante problemática. Muita gente de Parintins vem trabalhar em São Paulo porque é um mercado de trabalho, e o festival de Parintins acaba sendo uma grande vitrine”.
Conheça o desfile
1° SETOR – Surgimento das águas através da lenda Ayakamaé
“Abrimos o carnaval com a lenda das águas, que conta desse amor impossível do sol e da lua de forma indígena. É uma lenda muito ancestral da Amazônia e que está registrado em várias etnias linguísticas, e que pra gente é contando de forma oral, nossos antepassados contavam muito. A lenda fala que a lua, enamorada do sol, e eles não puderem ficar juntos porque iria ocasionar um grande cataclisma na terra. Mesmo assim esse sentimento brotou e se entregaram ao amor, e nisso aconteceu um cataclisma na terra, e nisso parte da terra queimou, a água evaporou e Tupã, Deus criador, teve que intervir e separou os dois. Tupã então lançou os dois como astros, um dia para reger o dia e outro para reger a noite, os mistérios do mundo que nunca dorme. A lua então chorou por longas noites e as suas lágrimas caíram sobre as cordilheiras dos Andes, derretendo o gelo e fizeram com que nascessem as águas do rio. Para que ela parasse de chorar, Tupã prometeu em alguns momentos do dia ela poderia ver o seu amado de volta, mas eles não poderiam viver mais juntos na terra e sim alguns momentos fora dela, que são os eclipses, e com isso o rio nasceu. Nosso primeiro setor fala do surgimento do rio pela visão indígena, isso com o sambista em transe para que ele pudesse enxergar tudo isso”.
2° SETOR – As águas da vida
“No nosso segundo setor gente começa a falar das águas que nasce, se torna grande e de todas as vidas que foi destruída pelo cataclisma da lua. Então começa a vir os peixes, as lendas, os jacarés, a gente começa falar de momentos históricos e lendários que se remetem as águas, como os Manaós que são heróis encantados no fundo do encontro das águas do rio negro e solimões. A gente encerra esse setor com um grande santuário de vida, se retendo a grande diversidade da Amazônia, principalmente a fauna e a flora”
3° SETOR – As águas da cura do verde coração
“Toda a consequência do cataclisma da lua com o sol acaba sendo lavada pelas águas do rio e o sol é curado. Então as plantas sagradas começa a nascer, e a gente começa a ver a mandioca, o guaraná, plantas sagradas que são remédios ou alimentos. A gente encerra o setor com um grande ritual de cura dos povo indigenas que fazem nas margens do rio, então são as águas que curam o verde coração. É o momento do nosso Ariê auê, onde todo mundo participa desse ritual de celebração em prol das águas”.
4° SETOR – Água da fé dos caboclos da Amazônia
“Então a gente continua navegando pelos rios através desse transe mágico e deslumbra a vida do cabloco Ribeirinho, que é um povo que se estabeleceu nas margens do rio, que pesca, que colhe, que trança os seus artesanatos que tem no rio a sua fé, eles fazem a romaria nas águas à São Pedro pescador, que é o grande padroeiro desse povo e dos navegantes. A gente encerra esse quarto setor com as águas sagradas do povo do Amazônia”.
5° SETOR – Águas do eterno amor do Sol e Lua
“A gente prepara o povo indígena pra deslumbrar o grande pôr do sol, o momento em que a luga encontra o sol e fortalece a certeza do amor que vive pra sempre. É o momento que o índio enxerga no horizonte os pássaros do pôr do sol anunciando que o entardecer vai chegar, e que o sol vi encontrar a lua. O sol vai descendo devagar como se ele fosse um grande mar, e os raios do sol adoram um grande rio, e é o momento em que a lua vai chegando com as penumbras da noite. Em instantes eles descobrem a certeza do amor, o rio segue para encontrar o mar. Nós da Mocidade Alegre rufamos os nossos tambores para homenagear esse rio que é um patrimônio mundial, não é só da Amazônia, ele acaba fertilizando um terço de todo continente sul-americano.
Ficha técnica
23 alas
5 alegorias – abre alas acoplados
2 elementos cenográficos
3.000 componentes


O ano era 1984. O dia, 04 de março. Tratava-se de uma segunda-feira de carnaval. As escolas de samba do Rio debutavam na Marquês de Sapucaí, que recebia a segunda noite de desfiles do Grupo 1A, atualmente conhecido como Especial. A Unidos da Ponte era a segunda escola a entrar na avenida, e trazia um enredo de temática negra e afro, chamado “Oferendas”. A proposta era simples: trazer em cada ala e carro alegórico um orixá, seguido de sua oferenda, de maneira intercalada e contínua.
Responsáveis por fazer esse novo desfile, os carnavalescos Rodrigo Marques e Guilherme Diniz receberam a reportagem do site CARNAVALESCO no barracão da agremiação. Durante a entrevista, a dupla relatou que farão uma releitura do que foi apresentado anteriormente, e não exatamente uma reedição. Em sua segunda passagem pela Sapucaí, “Oferendas” virá com uma nova estruturação e organização de enredo, além de uma estética atualizada, com toques mais modernos, se comparado ao que foi apresentado em 1984.
“Quando a gente foi contratado, existiam várias possibilidades de enredo por parte da direção da Ponte. Nós mesmos tínhamos algumas outras possibilidades nossas, autorais. Contudo, muita gente de fora pedia para reeditar Oferendas. É um samba histórico, que precisava de um desfile a altura dele. Então, passamos a levar isso em consideração ao longo do processo e apresentamos a ideia para a escola. A proposta foi prontamente aceita, sendo praticamente um clamor. Vale ressaltar que, durante o processo, a gente foi ouvindo muita gente da escola, tanto direção, quanto componente, e até torcedores. Foi um trabalho mútuo.” – disse Rodrigo.
A crise no carnaval e os preparativos para o desfile
“O barracão aqui é bem insalubre. Não temos a estrutura que gostaríamos de ter, embora, tenha escola com situação bem pior. Normalmente, fazemos um projeto com nível de Grupo Especial e ao longo do processo, ele vai sendo tesourado. Porém, esse ano, fizemos um projeto pé no chão. É um projeto palpável. Como o Guilherme citou as fantasias já estão prontas desde setembro. Os nossos carros já estão em processo de finalização, desde o início de fevereiro. E um exemplo de como tempo foi favorável a nós, no incêndio que teve aqui, perdemos uma escultura que era o plano A de execução. Na época, ficamos bem chateados. Mas hoje, enxergamos que foi algo benéfico, pois a solução final ficou melhor do que a que nós tínhamos orçado. Sobre o tempo, ele tem nos ajudado a tomar melhores decisões, melhores soluções, com certeza.” – relembrou Rodrigo.
Setor 1: Terreiro
Renato Lage tem a mesma medida de personalidade que tem de talento. Campeão do carnaval quatro vezes é o personagem da série ‘Entrevistão’. Renato não tem medo de falar se quisesse a Grande Rio poderia ter recorrido do resultado em 2018 pois a escola perdeu pontos em uma alegoria que não desfilou. Confirma que a relação com a ex-presidente do Salgueiro, Regina Celi, era ruim e admite a frustração pelo desfile de 2018.
“Eu acho que existe uma intolerância e um ódio gratuito. O que aconteceu foi em um ano atípico. A escola poderia ter impetrado um recurso pois foi julgado a falta de uma alegoria, o que pelo manual do julgador é um equívoco. Pedir desculpas no Grupo de Acesso? A Grande Rio é muito associada ao poder, a escola de artistas. Essas pessoas que pediram isso não sabem a dificuldade que se tem para colocar um carnaval na rua no acesso. Uma escola estrelada e poderosa se quebrando causa um prazer enorme nas pessoas. Eu acho tudo muito estarrecedor”.
“Os presidentes da Grande Rio são empreendedores. Nós pegamos uma vaca mais magra, a situação não está assim tão boa quanto parece. O mais legal é serem corretos conosco e nos dão toda a liberdade para trabalhar. O Jayder é um cara entusiasmado, incentivador, nos dá força e a todos os departamentos da escola. Ele nos convidou para a casa dele logo depois da operação no fígado”.
Durante o carnaval a emoção da Sapucaí é sentida de várias formas, seja vendo a escola do coração, um enredo marcante, ou uma personalidade. Mas tem uma mulher que encanta todo o povo da Avenida, independente da torcida: Selminha Sorriso.
A história começou na virada do milênio. Selminha sempre ouviu dos médicos que não poderia engravidar, mas foi pega de surpresa em abril dos anos 2000.
Não demorou muito e Igor já entendeu que era filho de uma das mulheres mais importantes do carnaval. O ano era 2005, Igor tinha 4 anos de idade e viu a azul e branca de Nilópolis trazer para avenida o enredo “Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani”, que sagrou a escola tricampeã.
“Eu me emociono até hoje em ver eles dançando. Hoje mesmo no ensaio eu me emocionei, a lágrima caiu e desde que eu me conheço por gente a arte deles me emociona”.
“A Tatuapé vai ter a honra de fazer uma homenagem aos grandes guerreiros. Pessoas que passaram pela história e deixaram seu nome gravado no coração daqueles menos favorecidos. O enredo é justamente dedicado aos guerreiros. Nós temos setores que vai homenagear indígenas, samurais, diversos tipos. Mas vamos passar também pelos guerreiros brasileiros, que luta dia a dia para o sustento da família. Pra viver no Brasil você precisa ser muito guerreiro”, afirma.
“A ideia partiu da direção da escola. Um componente da nossa agremiação sugeriu, várias outras ideias foram colocadas na mesa e, juntamente com a diretoria, optamos por fazer o carnaval sobre os guerreiros. É um ano com muitas barreiras pra enfrentar, então acho que será um ano dedicado aos guerreiros”.
O experiente sambista Wagner Santos carrega 22 anos como profissional do carnaval. Mesmo com a extensa história na cultura do samba paulista, muito se fala na internet sobre o estilo de trabalho do carnavalesco. Sobre isso ele se defende e diz que o desfile resgata ideias do passado.
A frase “maior carnaval de nossas vidas” virou rotina nas entrevistas do Presidente Eduardo dos Santos. Tanto nos anos passados como no atual, a diretoria programa um desfile grandioso e não esconde a intenção de levar uma escola técnica, focada nas notas.
“A nossa ideia é fazer um carnaval ainda mais grandioso, realmente a gente vai entrar com um desfile bem suntuoso.Vamos apresentar um dos maiores carnavais de nossas vidas. Vamos fazer um desfile digno de uma Bicampeã, porque acho que não podemos brincar, o carnaval virou uma festa bem competitiva e você precisa estar bem preparado, com uma comunidade bem atuante, uma diretoria presente. Não vamos entrar pra brincar, vamos fazer um desfile técnico e se possível brincar na sexta-feira das campeãs. Vamos apresentar um lindo desfile, o resultado é uma consequência, que vença o melhor e que apresente o melhor trabalho”.
E sobre o cronograma do barracão, Wagner conta que está confortável.
“O ano de 2019 é quando a astrologia dedica a data ao planeta marte, o planeta da guerra, o planeta do metal. E no sincretismo religioso africano, é um ano dedicado a Ogum, o orixá guerreiro. No catolicismo é um ano dedicado à São Jorge. O começo do nosso desfile traz toda essa simbologia”.
“Estou no carnaval há 22 anos. Comecei na Mocidade Alegre, já trabalhei na Vila Maria, Acadêmicos do Tucuruvi e atualmente estou na Tatuapé. Pra mim a sendo uma grande honra, porque após esses 22 anos de carreira eu consegui obter o tão sonhado título, todo carnavalesco sonha em ganhar o carnaval pelo menos uma vez. Está sendo um momento bem bacana, estou feliz em saber que já colaborei para o crescimento do carnaval de São Paulo. O ponto alto da vida de um carnavalesco é adquirir respeito dento de uma comunidade, dentro das escolas que você passa, é você construir amigos, formar pessoas que vão dar sequência ao trabalho. Ensinar que o carnaval tem a responsabilidade de recriar histórias”.
Para acessar o Sambódromo é recomendado a utilização de transporte público coletivo regulamentado:
Será implantado esquema especial de trânsito no Centro da cidade e em todos os seus acessos, a partir desta quarta-feira. A operação de trânsito contará com a participação de 610 Agentes de Trânsito da Prefeitura, entre Guardas Municipais, CET-Rio e apoiadores de tráfego, que trabalharão para manter a fluidez, coibir o estacionamento irregular, ordenar os cruzamentos, orientar pedestres e efetuar os bloqueios viários necessários.
“A ideia do enredo surgiu de um amigo, que é um diretor da escola. Ele tem um veículo que poderia levar a gente até lá para tentar negociar e conseguir algum tipo de patrocínio. Isso foi vistoriado e está sendo acompanhado, até hoje, pelo presidente Tê (Antônio Marcos Teles, popularmente conhecido como Tê) e pelo diretor de carnaval Ailton. Eles tem ido a todas as prefeituras para tentar algum tipo de patrocínio. E o que deu mais certo é eles dividiram os custos em cotas e mini cotas, porque ninguém mais tem dinheiro para esbanjar. Isto funciona da seguinte forma: Um prefeito, por exemplo, pegou uma ala de 60 pessoas e comprou as fantasias para trazer o pessoal de lá. Já outra prefeitura gostaria que tivesse um trem. Daí, ela bancou a escultura do trem. Graças a essa ajuda que não paramos e conseguimos tocar o nosso carnaval. Não teve nenhum corte de funcionário. Pra mim, está mais fácil que no ano passado. As coisas, por incrível que pareça, andaram com mais tranquilidade”.
“Existem algumas semelhanças entre o enredo desse ano, e o que eu fiz em 2013. Até porque, Vassouras está dentro do Vale do Café. Assim como Mendes, Valença… Então, subentende-se que é uma sequência de fazendas e de produtores. O diferencial é que são escolas completamente diferentes. Eu fiz em 2013 na União de Jacarepaguá, escola que estou como carnavalesco lá até hoje. Era uma escola da antiga Série B, que desfilava na terça de carnaval. Aí juntaram o grupo B com o A, e fizeram a Série A na sexta e no sábado. Inicialmente, era pra ser um carnaval médio e passamos para um grupo gigantesco, fora da nossa realidade, e conseguimos sobreviver e ficar no grupo. A diferença é que agora estou fazendo no Império da Tijuca, que é uma escola especial e que tem outra estrutura. Naquela época, eu fiz as alegorias num terreno a céu aberto, debaixo de uma lona de circo. Hoje faço num barracão atrás do sambódromo. A estrutura é muito diferente, a realidade é outra. Os componentes já estão acostumados a fazer grandes desfiles, o uso de materiais também mudou muito. Em relação a temática, realmente é muito parecido. E dá pra fazer mais uns dois ou três enredos do Vale ainda, pois tem muita história para contar”.
Segundo Jorge Caribé, o caráter histórico do enredo, se fará presente em boa parte do desfile, começando pela abertura da escola. É nesse início que o Império da Tijuca trará referências ao trabalho escravo, que foi pilar da produção de café na região. Com isso, mais uma vez a verde e branco do Morro da Formiga explora suas raízes, fortemente relacionadas às temáticas negras.
“Ele é um enredo histórico. E todo mundo que estuda história, aprende o que é o Vale do Café. Todos sabem da minha loucura de fazer enredo com temática africana. E ao fazer as pesquisas para o desenvolvimento do enredo, descobri uma triste parte da história do Vale, em que os negros que vieram da África sequestrados, vieram mais de 300 mil como escravos só para o Vale do Café. A minha crença, religião e história de vida, além do que eu prático no dia a dia, é sequência da história do negro. Eu sou do candomblé e todo mundo sabe. Sou babalorixá, que tem uma casa religiosa. Sabendo que na África não tem candomblé, pois é algo tipicamente brasileiro, é saber que tudo isso veio desses 300 mil escravos. Quando se fala em negro, todo mundo pensa em Salvador, Bahia ou até Minas. Eu jamais podia imaginar que, no Rio de Janeiro, teria essa quantidade gigantesca de escravo para plantar café. É a parte que mais gosto do enredo”.
“Para o meu gosto, um ponto forte em 2019 é a parte que fala de negros. O abre-alas é onde jogamos todas as fichas da escola. Eu acho que ele será o grande ponto alto da escola. Mas esse só um, entre vários. Nós temos uma comissão de frente maravilhosa que é feita pelo Scapin (Júnior Scapin, coreógrafo), temos um casal que a roupa está pronta, temos uma porta-bandeira de altíssimo nível que é a Gleice Simpatia, além do outro grande ponto alto que é a comunidade da Formiga. Temos também a bateria que ensaia o ano todo, a ala de baianas, passistas que vão até fantasiadas para o ensaio de rua… O Império é uma escola de raiz. Teremos mais um ano a Selminha Sorriso como destaque do abre-alas. Teremos a presença da mãe do Cazuza, que estudou na Universidade de Vassouras, que é uma das apoiadoras do enredo”.
Indo para o seu segundo desfile a frente da escola, Jorge Caribé acredita que o carnaval de 2019 pode representar uma virada para o Império da Tijuca, que segundo o artista, até hoje, paga contas e dívidas referentes à passagem pelo Especial em 2014. Para o carnavalesco, o atual trabalho de barracão é superior ao que realizou em 2018, além de já ver uma estrutura interna maior esse ano.
“Estou no meu segundo carnaval aqui, já conheço melhor as pessoas, sei onde posso ir, falar e fazer. Eu me sinto mais a vontade por ter um carnaval mais sólido do que tinha em 2018. Ano passado não tínhamos dinheiro. A escola ainda está tentando se estruturar desde o rebaixamento em 2014. Ano passado, eu fiz as alegorias com muito material reciclado e alternativo. Esse ano foi mais fácil, porque não ficamos esperando nada. Eu e minha equipe começamos a arrumar adereços e montar, sem esperar um milagre. Antes nós éramos os irmãos pobres e íamos aos irmãos ricos. Agora não tem mais rico. Eles são os pobres e nós os miseráveis. E como nesse grupo não temos nenhuma escola com padrinho, não que seja contra, sou louco pra chegar um padrinho aqui, mas, como todas as 13 estão comungando do mesmo prato, da mesma bacia das almas, se não errar, eu acho que iremos brigar com quem acha que vai ser campeã. Aqui é o Império da Tijuca. Não é escola que vai catar componente, em cima da hora, para conseguir desfilar. Eu acho que, mesmo com toda a dificuldade, a surpresa será grande”.
“A minha inspiração vem do candomblé. Meu pai e minha mãe eram do candomblé. Então, eu vivi vendo as pessoas fazendo as coroas dos santos, usando máquina de costura para fazer babados, fitinha e saias. A minha inspiração vem dessa minha cultura e vivência religiosa. Eu vivia dentro de casa vendo minha mãe e meu pai montar ala, fantasia, destaque, e bordar. Meu pai tinha uma ala na Vila Isabel. Antigamente, não se colava nada, era tudo costurado com agulha, linha, paetê e miçanga. A minha criatividade para fazer carnaval vem daí, vem dos orixás, vem da casa do candomblé. Quando vou montar uma alegoria, eu penso nas grandezas das florestas, no brilho das Iabás, na simplicidade de Omolu, e assim vou trabalhando com as palhas. Eu sou um carnavalesco orgânico. Quem me disse isso foi o Chico Spinoza e jamais esqueci. Pois uso muitos materiais da terra. Muito material que está ligado ao culto dos orixás, como corda, palha e búzio, por exemplo”.
“A abertura serão os 300 mil negros. Será uma abertura africana dentro do Vale do Café. Um grande quilombo dos negros plantando café. O abre-alas terá sementes de café, além de levar o cheiro de café para Sapucaí. Nesse primeiro setor também retratamos a chegada dos barões vindos de Minas. Com a falência do ouro, eles vieram colocar a fortuna no plantio do café. Terão as mucamas que saíram das senzalas e foram para a casa grande, as festas, o alto consumo do café, as xícaras de porcelana, os bules, os bolos, os doces… A grande coincidência é que tem café na bandeira do Império. O Morro da Formiga era plantação de café, e isso também será lembrado”.
“O segundo carro da escola é sobre Nossa Senhora da Conceição e a grande igreja da padroeira. Que também é padroeira do Império da Tijuca, que foi fundado em 08 de dezembro. Nesse setor temos a mistura de crenças dos negros com a crença do branco. Daí surge os cortejos religiosos, as festas da folia de reis, a festa do divino. Misturamos todas essas cores e cânticos quase miscigenados. Temos são Benedito, Santa Efigênia e começa toda aquela mistura”.
“Nosso terceiro setor traz a verdadeira Folia de Reis. Que tem no Vale do Café, e também tem na Formiga até os dias de hoje. Também vem nesse setor o legado que o café deixou para o Vale. Pois hoje, eles não vivem mais do café, e sim do turismo em todas aquelas casas maravilhosas que hoje viraram casas de exposição. As casas dos barões, fazendas lindas, com cortinas e móveis… Tudo isso virou turismo”.
“O último setor vai falar da ida das pessoas para o Vale e o que impulsiona ele hoje, como indústrias automobilísticas, criação de cavalo, universidade, cervejaria, o agronegócio. Apesar da crítica das pessoas por mencionarmos o agronegócio, temos que falar dele sim, porque faz parte do enredo. Vamos falar também de criação de animais correta, clonagem de ovelha e toda essa realidade do Vale hoje em dia. E encerramos com o último carro, que é a estação ferroviária, que nada mais é a mola mestra do Vale. Tudo é escoado através do trem. A última ala será o café do Vale com o café do Morro da Formiga”.
Alex conversou com a reportagem do CARNAVALESCO sobre o projeto e as dificuldades em se realizar o carnaval deste ano, e confirmou que o último setor do desfile terá uma crítica ao sistema judiciário.
“Eu acho tem a importância de estar no Salgueiro, independente do enredo. Tem um passado, uma força, uma história das mais imponentes do carnaval. Fazer Xangô é mais honra que responsabilidade. Prestar essa homenagem ao padroeiro da escola. Nasci no dia de Xangô, 30 de setembro. Já tem uma coisa cósmica, que estava traçada a muito tempo. Tivemos dificuldades mas espero fazer o melhor trabalho que honre o orixá e a escola de samba”, garante.
Setor 1: “Começamos com a criação do mundo segundo o povo iorubano. A partir daí fazemos o link entre o real e o irreal. Xangô teria existido em 1400 como um rei do povo Iorubá, de Oyó. Fazemos uma citação sobre a história do avô, pai, irmão mais velho. Ele toma o lugar do rei e depois ele é destituído. Esse setor é o Xangô histórico, um rei africano”.
Setor 3: “O orixá difundido no Brasil e no mundo. Aqui os escravizados para poder celebrá-lo apelavam por um sincretismo aos santos católicos. Em festejos desses santos que tinham afinidade com Xangô eram utilizadas essas datas para louvar o orixá. São Pedro e São Jerônimo são alguns desses santos”.
Setor 5: “O senhor da justiça. Vamos clamar por ele pois as questões judiciais aqui são complicadas neste país tão controvertido. Que os grupos sociais ameaçados recebam a proteção de Xangô e que a justiça se faça”.