Almejando o inédito título do Grupo Especial do carnaval de São Paulo, a escola de samba Mancha Verde investiu uma alta quantia em dinheiro para ver sonho se tornar realidade. Conceituado na região paulista e estreante na agremiação, Jorge Freitas assume responsabilidade como carnavalesco, desenvolvendo o enredo africano: “Oxalá, Salva a Princesa! A Saga de uma Guerreira Negra!”. Jorge recebeu a reportagem do site CARNAVALESCO no barracão localizado junto à quadra. Ele explica detalhes do tema, destaca força feminina e revela que protagonista está inserida na realidade atual.
“Quando eu fechei com a Mancha eles queriam falar da saga dessa guerreira negra. Idealizamos uma sinopse onde uma negra nasce princesa no Congo, ela é escravizada pela cobiça do invasor europeu que invadiu sua terra para roubar a maior riqueza, que era o Marfim. Ela cresce e na sua juventude é tirada das suas origens e feita escrava, ela cruza o oceano sem saber onde iria parar. Durante a viagem é marcada no corpo, é violentada, carrega em seu ventre o fruto da violação. Ao chegar no Brasil, se encanta pelas terras, pede as bençãos dos orixás e é recebida por Iemanjá. Em Pernanbuco, ela vê as mãos negras atuando nas plantações, no café, da cana-de-açúycar. Na senzala ela pede aos santos brasileiros para que abençoe e vai a luta, não só por ela, e sim pra fazer que o seu povo tenha a libertação. Ouve falar de Palmares onde poderia expressar os seus sentimentos, e lá fica cada vez mais forte, e se torna uma das pessoas que coordena os Palmares. Lá tem seus filhos, sendo que um é a história do Brasil, sem Aqualtune, não teríamos um dos personagens principais que é Zumbi dos Palmares. O papel dessa mulher a gente coloca como libertação para todas as mulheres que sofrem de violência, abusos e sempre vão em busca de liberdade. A protagonista do nosso enredo é inserida numa realidade atual, o mundo mostra isso. Todos nós somos iguais, todos temos os mesmos direitos e os mesmos deveres sem distinção de cor, de raça, de religião”.
No último setor, a escola traz a princesa Aqualtune carregando a mistura das duas regiões, Brasil e África. O sambista encontrará no desfile uma grande escultura de Zumbi dos Palmares, neto da princesa, toda esculpida por ferro.
“Eu acredito que é um desfecho nosso e uma forma muito poética de enfatizar uma parte da história do Brasil, mas também com foco no grande orixá que está nos guiando”, finaliza.
Sobre a pesquisa, Jorge Freitas conta que altruísmo e força de Aqualtune chamou sua atenção.
“O que mais me intrigou foi a bravura dessa mulher em não lutar apenas por si, e sim pelo povo no qual se sentia responsável. Tanto é que ela nasce princesa e se torna escrava, mas o ‘eu’ dela, como princesa daquele povo, fez com que lutasse e encontrasse a igualdade do negro como ser humano”.
O carnavalesco se mostra seguro ao falar sobre cronograma de barracão e brinca com alegorias prontas.
“Na verdade só estamos dando alguns retoques finais que poderiam ser deixados até pra avenida, mas como sobrou tempo, estamos fazendo dentro do barracão mesmo. Como você pôde ver, ta tudo embalado (risos)”.
Patrocínio ultrapassa o valor R$ 3 milhões
Num cenário de crise onde muitas escolas de samba diminuem a grandiosidade do desfile para que caiba no orçamento, a escola de samba Mancha Verde corre na contramão dessa realidade. Através do patrocínio da Crefisa, a entidade alviverde arrecadou R$ 3.426.370,00 pela Lei Rouanet (Lei de incentivo a cultura). Não tem relatos na história do carnaval de valor maior captado de um único incentivador, englobando também o carnaval do Rio de Janeiro.
Jorge Freitas indica destino de parte da verba e afirma necessidade de uma boa direção para administrar o valor arrecadado.
“As pessoas acham que o patrocínio é todo no carnaval, mas se tem um investimento na estrutura. Acabou o carnaval em Fevereiro, em Março já estávamos ensaiando. Pra ensaiar você abre a quadra, tem a luz, tem a água. A escola montou uma infraestrutura pra receber os seus componentes durante um ano de uma forma legal, e tem os investimentos do próprio patrimônio da quadra. Pra que a gente pudesse fazer um carnaval maior, você tem que montar uma estrutura onde tem que aumentar o tamanho do barracão, tudo isso também está inserido na verba que a Crefisa disponibilizou. Tem coisas que você não pode pagar com a lei Rouanet. O investimento é fantástico, mas você precisa de uma boa gestão pra administrar. Houve um investimento muito forte. Quando você ensaia o ano todo, quando você traz o componente ao ano todo pra dentro da quadra, isso é um investimento”.
É inevitável não esperar um carnaval competitivo da escola. Cauteloso sobre resultado, Jorge assegura estilo detalhista nas alegorias.
“Falar da vitória é uma consequência do trabalho, nós temos grandes chances de fazer um grande espetáculo, mas tudo acontece na hora. Pra que tudo isso aconteça nós fizemos um trabalho muito intenso com os quesitos que são de avenida, os 70% nós trabalhamos muito. Vamos ver na avenida esse projeto grandioso que a Mancha está preparando. Quando eu falo de grandioso é do trabalho em si, acabamento, riqueza de detalhes nas alegorias e nas fantasias”.
Bit da bateria para 2019 cresce por influência de Jorge Freitas
As apresentações do Puro Balanço provocaram curiosidade para quem comparasse com a postura do último carnaval, sentimento provocado pela presença do carnavalesco. Isso porque, ao escolher o samba-enredo, Jorge Freitas conversou com o Mestre Maradona e outros dirigentes sobre vontade de aumentar o andamento da bateria.
“Na verdade não é só aumentar o bit, é preciso conciliar três quesitos: Ritmo, dança e canto. O nosso samba precisava de um bit mais elevado para que a nossa evolução acontecesse de uma forma mais satisfatória para o desfile, são três coisas que são totalmente juntas e não tem como separar. Você tem a bateria, tem o samba-enredo e a evolução do componente, houve um consenso não só na parte de bit, mas nós trocamos as afinações dos surdos pra um tom mais apurado, com distinção entre os outros naipes. É uma medida para que tudo aconteça de maneira satisfatória. As pessoas estranham, mas é tudo técnico, nós temos que trabalhar os noves quesitos em conjunto”.
Além de carnavalesco, Jorge Freitas é cenógrafo, artista plástico, diretor artístico e, durante 25 anos, atuou como regente de banda bicampeã. Ele revela que cargos do passado influenciam no trabalho do presente.
“Não existe segredo, o que existe é o comprometimento muito grande do profissional com a agremiação com a realização do trabalho, eu amo o que eu faço. Todos os atributos que eu tinha no cotidiano insiro no trabalho, a regência me ajudou muito nessa parte harmônica, me ajudou muito na parte da evolução, isso ai é o meu segredo. Tenho uma linguagem muito didática no motivacional com o componente”.
Praticamente todas as agremiações que Jorge Freitas assinou carnaval foi campeã. Sobre desfile da Mancha, o carnavalesco garante que não considera como desafio e elogia gestão.
“Não é um desafio, a Mancha vem numa crescente muito grande. Teve alguma fatalidade que fez ela descer, e ela subiu com uma força muito grande. Eu acho que é uma das grandes potência do carnaval de São Paulo. Ela tem uma gestão de invejar, o carnaval necessita de bons gestores e na Mancha isso aqui é muito claro. Desde a sua fundação é o mesmo presidente, e ele conseguiu fazer com que a agremiação se transformasse numa potência disciplinada. Quando você chega na quadra é de uma limpeza fenomenal, e isso é no dia a dia, o cotidiano da Mancha se faz dessa forma”.
Conheça o desfile
1° SETOR –Áfica Suntuosa
“A gente abre com o grande nascimento de Aqualtune e a gente faz uma homenagem à África suntuosa que até então era de riquezas, essa é a primeira parte do nosso enredo. Era um local de muita riqueza, tanto que no samba diz ‘África, suntuosa riqueza’, e dali a gente chega a cobiça dos invasores. Ele chegam, dominam o Congo e começa o confronto do homem branco e o Congolês, fazendo os africanos se tornarem escravos”.
2° SETOR – A África Chora
“Nesse setor temos o negro transformado em escravo. Existem fatos de violência com a mulher grávida até cruzar o mar vermelho de dor, porque o negro é trazido para o mar, eles choram e tem suas lágrimas transformadas em sangue”.
3° SETOR – Tráfico do navio negreiro
“Chegamos então na nossa terceira alegoria, o tráfico do navio negreiro e recebidas em águas brasileiras por Yemanjá. Aqui chega, encontra coqueiro na terra do Maracatu, tem a colheita de algodão, de café, da cana-de-açúcar. Nos deparamos a imagem de Nossa Senhora do Rosário, onde Aqualtune pede libertação e proteção”.
4° SETOR – Pernambuco
“Ela vai a Palmares, e a expressão africana é colocada em potes de argila. Traremos os tambores que foram criados pra expressão musical do povo africano, os turbantes que os negros usavam e que virou moda no Brasil”.
5° SETOR – Afro-Brasil
“Nosso desfecho é unindo a Aqualtune com o coração afro-brasileiro. A gente termina com África-Brasil, fazendo uma grande homenagem à Aqualtune simbolizando a luta da mulher, a luta do ser humano e aparece a imagem de Zumbi dos Palmares. Zumbi vai ser uma grande peça feita durante quatro meses, toda ela em ferro porque estamos num ano de Ogum, então o ferro estará presente a essa homenagem a Aqualtune”
História do carnavalesco Jorge Freitas
“Eu sou da região serrana do Rio de Janeiro. Alguns trabalhos meus no Rio foi Portela, Vila Isabel, depois vim pra São Paulo em 1999 pra fazer aquela homenagem ao Brasil dos 500 anos. Aqui passei por quatro agremiações, foi Gaviões da Fiel, Pérola, Rosas de Ouro no qual fiquei muito tempo e Império de Casa Verde. Todas escolas que passei tive títulos, e agora uma nova experiência na Mancha Verde. Junto com meu filho fizemos Independente e ano passado subimos com o Águia de Ouro. Eu acho que essa trajetória é vitoriosa, mas o que me diferencia é o trabalho que faço com a comunidade. O trabalho de carnavalesco nada mais é que uma coisa que faz parte de dois quesitos, o trabalho motivacional que eu faço com os componentes é o diferencial, e esse trabalho é o que as escolas necessitam. É um trabalho exaustivo mas a gente vê que tem um resultado enorme”.


“Está sendo uma honra desenvolver esse trabalho. Na época foi um desfile com cara de campeã, a escola levantou o público e todos apostaram no título. Teve uma apuração muito conturbada, na época o carnaval de São Paulo não era tão profissionalizado como se é hoje, e parece que teve notas que sumiram e depois acharam. O jurado de samba-enredo deu nota seis de melodia pra o samba que era um dos mais cantados do ano. Ficou um clima estranho, e com essa nota seis a escola ficou na segunda colocação, e isso ficou meio que entalado na garganta. Quanto tivemos a ideia de resgatar o enredo, isso gerou um alvoroço na comunidade justamente por isso”, afirma.
“Muitas pessoas me perguntam se o desfile vai ser apresentado da mesma maneira, e eu sempre respondendo ‘não’. O enredo foi totalmente remodelado, até porque falar do tabaco, que deriva pro cigarro há 25 anos era uma coisa, hoje a sociedade está mais politizada. Fiz toda uma repaginação, respeitando a essência do samba mas não necessariamente o que foi mostrado em 94. Visualmente falando a escola mudou demais, os carros estão maiores, as fantasias mudaram, os materiais, e isso vai refletir pra quem for comparar o desfile de 2019 com o de 1994. Claro, eu escolhi pontos do desfile até pra homenagear o Raul Diniz, mas numa releitura repaginada. Por exemplo, em 94 a última alegoria era uma caveira, e isso significa que quem fuma está perto da morte. Eu não concordo com essa visão, em 2019 vai ter uma nova leitura, o final do desfile não faz um julgamento de ser certo ou errado fumar, a questão não é essa, cada pessoa é dona de si e é responsável pelas consequências dos seus atos. Eu deixei mais leve, colorido, conto a história do tabaco como ele é deixo as escolhas para cada pessoa”.
“Desde o carnaval do ano passado já existia uma ideia de um grande carnaval em 2019 porque é o ano que os Gaviões faz 50 anos, queríamos um enredo que conseguisse agradar a escola com um sentido mais emocional. Um diretor me perguntou se a gente não poderia reeditar o enredo de 94, eu pensei e achei que daria um caldo legal. O presidente me perguntou se eu não teria medo do julgamento, eu até acreditava que poderia gerar uma polêmica, mas eu acho que os Gaviões tem uma linhagem de enfrentamento, ela é não é uma escola de fica em cima do muro, e eu acho que ele tinha que comprar briga e foi o que aconteceu. Algumas mídias comentaram que enredo era uma apologia ao fumo, incentivar as crianças, mas a gente não se abateu as críticas”.
“A comissão de frente se auto-explica. Ela vai contar sobre uma lenda árabe que diz sobre um santo que viveu na época de Cristo. A família dele, fugindo do exército romano, foi para o norte da África, especificamente no Egito. Esse santo, chamado de Santo Antão, teria abdicado sua vida toda a percorrer a África levando a mensagem de Cristo, ele acreditava nesse conceito cristão. Já adulto encontrou uma serpente, maltratada, judiada, com sede, descamando, e a acolheu. Quando ela se restabeleceu, a serpente picou o braço desse santo, traiu a confiança dele. O santo assustado pela picada, jogou a cobra longe e chupou o veneno da cobra na mordida. No local que ele cuspiu esse veneno, surgiu um pé de tabaco. O enredo parte pra contar a história do tabaco através dessa lenda muito lúdica de como teria surgido o pé de tabaco no oriente, essa é a nossa comissão de frente”.
“É aqui que a gente vai contar que os gurus indianos pegaram o tabaco e desenvolveram uma cura, o primeiro uso da erva foi medicinal. Depois a gente conta que foram os árabes que levaram para a Europa o tabaco. Na Europa a gente mostra que foram os alquimistas da era medieval que acreditavam que o tabaco tivessem elementos que os levariam a encontrar a poção da eterna juventude. Temos os portugueses porque foi em Portugal que o tabaco virou rapé, nada mais é ele moído com algumas composições químicas, e foi constatado que em forma de pó ele ajuda a obstruir as artérias e também para curar dores de cabeça. E aí desenrola para o carro dois que é a alegoria da Rainha Catarina de Médici. Tinha um embaixador francês que ouviu dizer sobre a erva que curava dores de cabeça, e na época a rainha era muito famosa pelas dores de cabeças alucinantes, ela saia gritando no palácio, tacando objetos. A gente vai falar nesse carro que o embaixador francês levou para Paris o tabaco para rainha experimentar, e ela foi curada. Nós vamos mostrar no carro que em forma de gratidão ela deu um baile no palácio. Só que não para por ai, após a cura ela começou a ter uma nova fase no seu reinado. Sem as dores de cabeça, Catarina passou a ser mais ativa na sociedade, e ela era conhecida por ser enérgica, por não ter medo de mandar prender. Isso revoltou o povo que foi o começo do processo que culminou na queda das Bastilhas, a revolução francesa e a construção de uma nova França. Mesmo não intencional, ela ajudou no processo de criação de uma nova França. Esse carro mostra o baile e a construção de uma França nova”.
“O terceiro setor se dedica a contar sobre a Bahia, quando o enredo cai no Brasil. A gente conta da velha Bahia, os pescadores, e que todos conhecem de uma forma lúdica. Foi nessa Bahia que chegou o tabaco, que no começo era vendido por escravos, e isso vai ser retratado na primeira ala. Nesse setor também temos as baianas que são as mães de santo, porque nos terreiros também se usa tabaco triturado como erva de purificação. O setor é encerrado com o terceiro carro que é o sincretismo religioso, a fé católica com o culto aos orixás. É um carro mais místico, religioso”.
“Eu optei por uma linguagem muito mais leve e lúdica, ao invés de falar de câncer, morte. A gente fala desde a venda do cigarro, não da forma maço, mas antigamente numa época mais romântica em que as pessoas iam ao cinema de mãos dadas. Depois a gente mostra doces, porque toda pessoa viciada em cigarro tem um gosto por doces. Um cigarro acompanha um xícara de café, uma barra de chocolate, um chiclete, muitas vezes pra tirar o gosto da boca. É uma forma brincalhona de mostrar os doces acompanhamentos. Nesse setor vou ter uma ala de pessoas vestidas de juiz, uma ala metade preta e metade branca, eu quero mostrar que toda pessoa é dona das suas escolhas. Ela mostra através das cores que tudo tem o seus benefícios e os seus malefícios. A gente vai pra última ala que é o coração e o pulmão, porque o nosso samba termina cantando isso. Você é livre pra escolher o que faz da sua vida, só que tem que preservar a saúde. Então nós vamos para o carro da mente humana, que é um cérebro como parque de diversões mostrando como a mente é delirante, de como ela é entregue aos vícios, e precisamos ser fortes. A mente que busca o cigarro por prazer, só que a mente é delirante, ela te leva ao domínio mas tem horas que você perde o controle. O carro mostra de uma forma bem leve de como o vício faz você brincar com os sentidos”.
“Desde os dois anos eu frequentava a Mocidade Alegre com a minha mãe, e até os 13 eu ia de uma forma descompromissada. Com 14 anos passei a desfilar e, quando a presidente Solange assumiu a presidência, eu comecei a fazer parte da diretoria como Diretor Cultural. Nesse cargo passava a assessorar o antigo carnavalesco nas pesquisas e criação, e com isso eu fui me aproximando cada vez mais. De 2003 e 2008 eu desempenhei esse papel, e quando o carnavalesco saiu da escola a Solange me convidou a integrar a comissão de carnaval, e essa é o começo da minha história como carnavalesco.Meu primeiro desfile que assinei foi em 2009 e, junto à comissão, trouxemos o título. Fiquei até 2016 na Mocidade Alegre, no ano de 2017 aceitei o convite da Vila Maria pra fazer o carnaval sobre os 300 anos do achado da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que também foi um presente. E em 2018 eu aceitei o convite dos Gaviões, quando eu desenvolvi o enredo “Guarus”, que era um tema patrocinado. Mas eu busquei uma outra linguagem, não ser folhetinho político, e busquei uma linha mais mitológica sobre os índios Tupi. E continuo aqui com um grande presente na minha trajetória que é poder reeditar um enredo clássico como esse”.
Pelo sétimo ano consecutivo o site CARNAVALESCO fará todas análises das baterias da Série A e do Grupo Especial no Sambódromo. O trabalho pioneiro começou com o jornalista Rodrigo Coutinho. Com total apoio e respaldo do site, ele dirige o projeto e conta com as participações de Kleber Komká e Guilherme Gonçalves.
Após viver momentos dramáticos para conseguir por o carnaval de 2018 na rua, o ano de 2019 tem tudo para representar uma virada de página na história da escola. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no atual pré-carnaval, a Renascer de Jacarepaguá investiu em seu barracão, e irá apostar em um desfile grandioso e volumoso plasticamente. Com outros dois trabalhos assinados na agremiação em 2017 e 2018, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres acreditam que o atual trabalho será o com resultado mais impactante e surpreendente deles.
No entanto, mesmo com mudanças na plástica, algumas características dos trabalhos anteriores permanecerão. Para Alexandre Rangel, assim como 2018, o desfile de 2019 será marcado pela superação dos problemas.
“Nós apresentamos três propostas para o Salomão (Antônio Carlos Salomão, presidente da Renascer) de enredo. E aí o Salomão veio com Bahia… A gente tinha um outro enredo de Bahia, só que com uma outra pegada. Mas o Salomão queria falar sobre o Rio Vermelho, só sobre o Rio Vermelho. E o bairro Rio Vermelho é uma Lapa hoje em dia. E o que acontece no Rio Vermelho? A festa de Iemanjá. E em uma conversa entre eu e o Raphael pela madrugada, depois de muito bater papo, ele me falou que achava inviável a gente falar só sobre o Rio Vermelho, e deu a ideia de irmos para Salvador. Viajamos para conhecer lá a fundo, pesquisar e trazer material para, em si, começar a desenvolver o enredo. E foi aí que a gente encontrou o nosso fio condutor, que é a festa de Iemanjá, que acontece dia dois de fevereiro. Uma festa muito conhecida, que se não me engano, depois da Lavagem (das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim), é a maior festa que acontece lá. Só que não é tão divulgada assim. Vai gente do mundo todo para essa festa. O bairro fica abarrotado. Daí com esse fio condutor, a gente começou a trabalhar o enredo, e apresentamos para o Salomão essa proposta junto com o Cláudio Russo. Sentamos os quatro juntos, debatemos, pegamos essa pegada que é um pouco para o afro e um pouco para o cultural também, para não sair dessa linguagem que é da Renascer de Jacarepaguá.”, relata Alexandre.
Contando com a participação de Cláudio Russo no processo e construção do enredo, a dupla de carnavalescos comentou sobre a relação deles com o compositor. Segundo Alexandre, a parceria se reflete no trabalho de ambos e consiste em ajuda mútua.
“Falar sobre Iemanjá é uma coisa muito forte, falar sobre os orixás… É uma coisa muito delicada quando você fala de um orixá. Isso que me despertou muito interesse na hora de fazer a pesquisa. A cada imagem, a gente chegava lá e fotografava. A cada pessoa que a gente via, perguntávamos. Porque quando você vai fazer um laboratório, você tem que sentir realmente aquilo dali, se aquilo é pra você realmente. Quando você fala de um orixá é uma coisa muito séria, uma coisa que tem que ter um sentimento focado para aquilo dali. Nós ficamos uma semana em Salvador, então a gente foi pesquisando tudo, todos os detalhes. É um enredo riquíssimo, totalmente cultural. A cada momento ele vai abrindo uma base, ele vai abrindo um caminho novo”, disse Alexandre.
“Eu acredito também que essa crise vai passar. Isso é para gente ter um alerta antes de votar. A gente precisa votar em algo ou em alguém que realmente faça pelo carnaval, e não apenas promessas. Porque de promessas já estamos cansado. O mundo do Carnaval tem que se unir e votar na pessoa certa”, opinou Raphael.
“Ano passado, eu lembro que as pessoas vieram perguntar para nós se íamos conseguir colocar a Renascer na avenida. E a gente no barracão, seja com sol ou com chuva. No último momento, nossos dois macacos pegaram fogo, e o Raphael olhava para a minha cara, com a lágrima no olho, perguntando o que faríamos. Foi aí que fomos para a Cidade do Samba, para continuar a fazer aquele carnaval, mesmo com muitas dificuldades. Então, a gente não se abala assim. Acho que são esses desafios que deixam o ser humano mais forte, mais preparado pra vida aí fora. A verdadeira faculdade, realmente é a Série A, porque aqui só sobrevivem os fortes. Aqui somos todos guerreiros, não tem essa de vaidade com a gente. A gente não tem, a gente vai te pedir. Eu peço aos meus amigos, eles pedem à mim, tem aquela coisa de união com o outro, e essa união é que está fazendo a gente mover o carnaval da Série A esse ano, assim como aconteceu nos outros carnavais”, relembra Alexandre Rangel.
A Renascer de Jacarepaguá será a segunda a desfilar no sábado de carnaval. Em 2019, a escola contará o enredo “Dois de Fevereiro no Rio Vermelho”, e levará para Marquês de Sapucaí um total de 1800 componentes, distribuídos em 21 alas e 4 carros alegóricos. O carnavalesco Raphael Torres explicou como a dupla dividiu o desfile:
“Quando se fala em fá abre-se um leque de opções, emergindo das águas outro leque. Falamos do cristo negro que emergiu das águas no Porto Belo, Panamá. Essa imagem foi encontrada por pescadores e todo 21 de outubro tem uma romaria partindo da Cidade do Panamá até o Porto Belo. Existem alguns questionamentos sobre o enredo, mas acredito que esteja próximo de nós por se comunicar bem com o carioca. O meu link com o Brasil é a coincidência de nossa padroeira também ser negra e emergir das águas. Sempre enxergamos Jesus de uma forma renascentista. Os ocorridos que citei conferem representatividade ao nosso enredo. A Jessica Maia, ex-rainha do carnaval, foi quem sugeriu o enredo a mim. Ela morou 10 anos no Panamá. Em um primeiro momento não gostei, mas quando ela me contou essa história me apaixonei”, declara Zanon em entrevista ao CARNAVALESCO.
“Quando surgiu a ideia da comissão de frente fiquei encantado com o projeto. Nossa sinergia, minha da Ariadne, é muito boa. Sempre conseguimos alcançar um ótimo resultado. Com certeza é um trabalho que vai emocionar e arrebatar o público”, explica.
“Eu acredito que o favoritismo é bom em alguns aspectos e ruim em outros. A posição de desfile é excelente e a comunidade está bastante motivada. Também vejo pela questão histórica da Estácio, que vem sim fazendo carnavais grandiosos nos últimos anos. As dificuldades são enormes. Na Série A há quase uma impossibilidade de fazer. Carnaval é na avenida, como sabemos”, destaca.
“A crise atrapalhou de uma forma muito pesado. Claro que a Estácio buscou se cercar de apoios. Esse foi até um dos motivos que nos fez lutar por esse enredo. Os atrasos relacionados à subvenção atrapalharam sensivelmente a construção do projeto. Todo ano ele é mexido, e esse ano a crise de matérias é muito forte. Isso compromete muito o trabalho dos carnavalescos até no Especial”, conclui.
Setor 2: Chegamos ao Canal do Panamá onde tivemos o boom econômico. Construído pelos franceses, foi explorado depois pelos EUA. O chapéu do Panamá na verdade é fabricado na Colômbia. Mas quando o presidente Franklin Roosevelt apareceu com o chapéu no Panamá acabou se difundindo como se fosse feito no país.
A Alegria da Zona Sul vai desfilar no Carnaval 2019 da Série A tendo superado diversos obstáculos. O primeiro e principal foi a ausência de um espaço para construir suas alegorias. Após o último carnaval algumas escolas perderam seus barracões na Zona Portuária e a agremiação foi uma das afetadas, não tendo para onde ir com suas alegorias. Há um mês do desfile, a Alegria começou a erguer suas alegorias e a estrutura física da sua nova moradia carnavalesca. O presidente da escola, Marcus Vinícius, ressaltou a garra na produção do desfile de 2019.
Perguntado sobre o enredo para este ano “Saravá, Umbanda”, o presidente
“Nós íamos fazer um enredo sobre a história dos Pretos Velhos, mas quando fomos pedir a licença para fazê-lo foi pedido para fazer um trabalho com mais história e informações. Foi sugerido falar sobre a religião, não só sobre a entidade e sim sobre a Umbanda em que o mais interessante da própria religião é ela ser totalmente brasileira, misturando o sincretismos religioso a história de todas as guias” declarou.
Marco Antônio comenta que sua aposta será no início da escola.
“Sim, muita preparação para a voz. Da mesma maneira que os carnavalescos precisam ter cuidados com as alegorias, nós precisamos ter cuidado com a nossa voz, nossa principal alegoria. Nós, repórteres, já temos um acompanhamento permanente da uma fonoaudióloga. Há pelo menos 15 dias estou mergulhado nessa preparação, com exercícios para fazer antes e durante o desfile. Conseguimos, em alguns intervalos, fazer alguns exercícios para recuperar a voz. É preciso muita preparação e muito cuidado”. (Foto: João Cotta/TV Globo)
“Não acho que houve um desaprender nosso. Em 2017 houve uma falha humana de engenharia e que acarretou aquele acidente. Não houve uma falha da escola. Um funcionário esqueceu de travar. Ano passado ao meu ver fizemos um desfile sem erros, ficamos por um décimo. Esse ano estamos com raiva. Nos aguardem. O horário de desfile não foi o que eu gostaria mas faremos um belo carnaval”.
“Aqui no barracão nem cruzamos muito. Ele vem sempre na parte da manhã e eu como tenho um outro trabalho chego sempre quando ele já está saindo. Nos cruzamos mais nas reuniões e na quadra e ensaios. Está fluindo, ele tem o jeito dele, ele tem o meu. Os nossos ensaios estão muito bons e temos uma expectativa muito boa”.
“Eu sou um profissional do carnaval mas quando fui para o Salgueiro foi com o aval do Horta. Eles já haviam me chamado duas vezes e eu achei que ainda não tinha condições de comandar. Na terceira vez que fui convidado conversei com o Fernando Horta. Trabalhei em 2007 e 2008 no Salgueiro. Eu fiquei até chateado na época, pois ele me liberou e eu pensava que ele fosse me segurar. Falei que só voltaria quando ele me chamasse de volta e isso aconteceu dois anos depois, e estou até hoje”.
“Não penso e nem quero. Já pensei muito. A lição é observar e fiscalizar mais de perto. Não confiar tanto. Havia uma relação de anos com essa empresa, e acabamos relaxando. Hoje em dia conversamos muito para não acontecer de novo. Na Tijuca não tem nada hidráulico”.