Barracões: Gaviões da Fiel aposta em reedição com linguagem diferente
A Gaviões da Fiel traz um enredo reeditado de 1994. Sidnei França é o responsável pelo desenvolvimento do tema: “A saliva do santo e o Veneno da serpente”.
“Está sendo uma honra desenvolver esse trabalho. Na época foi um desfile com cara de campeã, a escola levantou o público e todos apostaram no título. Teve uma apuração muito conturbada, na época o carnaval de São Paulo não era tão profissionalizado como se é hoje, e parece que teve notas que sumiram e depois acharam. O jurado de samba-enredo deu nota seis de melodia pra o samba que era um dos mais cantados do ano. Ficou um clima estranho, e com essa nota seis a escola ficou na segunda colocação, e isso ficou meio que entalado na garganta. Quanto tivemos a ideia de resgatar o enredo, isso gerou um alvoroço na comunidade justamente por isso”, afirma.
O carnavalesco diz que poucos elementos do desfile original será usado e revela nova linguagem, principalmente no último setor.
“Muitas pessoas me perguntam se o desfile vai ser apresentado da mesma maneira, e eu sempre respondendo ‘não’. O enredo foi totalmente remodelado, até porque falar do tabaco, que deriva pro cigarro há 25 anos era uma coisa, hoje a sociedade está mais politizada. Fiz toda uma repaginação, respeitando a essência do samba mas não necessariamente o que foi mostrado em 94. Visualmente falando a escola mudou demais, os carros estão maiores, as fantasias mudaram, os materiais, e isso vai refletir pra quem for comparar o desfile de 2019 com o de 1994. Claro, eu escolhi pontos do desfile até pra homenagear o Raul Diniz, mas numa releitura repaginada. Por exemplo, em 94 a última alegoria era uma caveira, e isso significa que quem fuma está perto da morte. Eu não concordo com essa visão, em 2019 vai ter uma nova leitura, o final do desfile não faz um julgamento de ser certo ou errado fumar, a questão não é essa, cada pessoa é dona de si e é responsável pelas consequências dos seus atos. Eu deixei mais leve, colorido, conto a história do tabaco como ele é deixo as escolhas para cada pessoa”.
Sidnei França conta que ideia de reedição surgiu através de um diretor e revela que tema gerou polêmica.
“Desde o carnaval do ano passado já existia uma ideia de um grande carnaval em 2019 porque é o ano que os Gaviões faz 50 anos, queríamos um enredo que conseguisse agradar a escola com um sentido mais emocional. Um diretor me perguntou se a gente não poderia reeditar o enredo de 94, eu pensei e achei que daria um caldo legal. O presidente me perguntou se eu não teria medo do julgamento, eu até acreditava que poderia gerar uma polêmica, mas eu acho que os Gaviões tem uma linhagem de enfrentamento, ela é não é uma escola de fica em cima do muro, e eu acho que ele tinha que comprar briga e foi o que aconteceu. Algumas mídias comentaram que enredo era uma apologia ao fumo, incentivar as crianças, mas a gente não se abateu as críticas”.
Sobra a pesquisa, Sidnei ressalta que quantidade de informações sobre o tabaco foi o que mais lhe cativou.
“O que mais me chamou a atenção foi a capacidade desse tema de encantar. Falar do tabaco gera uma riqueza cultural, de signos e símbolos que o homem foi se apegando e o tabaco sempre esteve presente”.
Conheça o desfile
SETOR DE ABERTURA – Saliva do santo e o veneno da serpente
“A comissão de frente se auto-explica. Ela vai contar sobre uma lenda árabe que diz sobre um santo que viveu na época de Cristo. A família dele, fugindo do exército romano, foi para o norte da África, especificamente no Egito. Esse santo, chamado de Santo Antão, teria abdicado sua vida toda a percorrer a África levando a mensagem de Cristo, ele acreditava nesse conceito cristão. Já adulto encontrou uma serpente, maltratada, judiada, com sede, descamando, e a acolheu. Quando ela se restabeleceu, a serpente picou o braço desse santo, traiu a confiança dele. O santo assustado pela picada, jogou a cobra longe e chupou o veneno da cobra na mordida. No local que ele cuspiu esse veneno, surgiu um pé de tabaco. O enredo parte pra contar a história do tabaco através dessa lenda muito lúdica de como teria surgido o pé de tabaco no oriente, essa é a nossa comissão de frente”.
1°SETOR
“Aqui conta que muito tempo depois dessa lenda um árabe estaria percorrendo o mesmo local e encontrou um pé de tabaco. Curioso, porque ele era um grande conhecedor de ervas, pegou um pé e levou pra terra dele, e esse árabe é Maomé, fundador da religião muçulmana. Ele teria levado o tabaco para o oriente médio e ali se espalhou. A gente vai mostrar toda a suntuosidade dos templos árabes, os camelos, desertos, enfim. É o trecho que passou a comissão de frente até o abre-alas”.
2° SETOR
“É aqui que a gente vai contar que os gurus indianos pegaram o tabaco e desenvolveram uma cura, o primeiro uso da erva foi medicinal. Depois a gente conta que foram os árabes que levaram para a Europa o tabaco. Na Europa a gente mostra que foram os alquimistas da era medieval que acreditavam que o tabaco tivessem elementos que os levariam a encontrar a poção da eterna juventude. Temos os portugueses porque foi em Portugal que o tabaco virou rapé, nada mais é ele moído com algumas composições químicas, e foi constatado que em forma de pó ele ajuda a obstruir as artérias e também para curar dores de cabeça. E aí desenrola para o carro dois que é a alegoria da Rainha Catarina de Médici. Tinha um embaixador francês que ouviu dizer sobre a erva que curava dores de cabeça, e na época a rainha era muito famosa pelas dores de cabeças alucinantes, ela saia gritando no palácio, tacando objetos. A gente vai falar nesse carro que o embaixador francês levou para Paris o tabaco para rainha experimentar, e ela foi curada. Nós vamos mostrar no carro que em forma de gratidão ela deu um baile no palácio. Só que não para por ai, após a cura ela começou a ter uma nova fase no seu reinado. Sem as dores de cabeça, Catarina passou a ser mais ativa na sociedade, e ela era conhecida por ser enérgica, por não ter medo de mandar prender. Isso revoltou o povo que foi o começo do processo que culminou na queda das Bastilhas, a revolução francesa e a construção de uma nova França. Mesmo não intencional, ela ajudou no processo de criação de uma nova França. Esse carro mostra o baile e a construção de uma França nova”.
3° SETOR
“O terceiro setor se dedica a contar sobre a Bahia, quando o enredo cai no Brasil. A gente conta da velha Bahia, os pescadores, e que todos conhecem de uma forma lúdica. Foi nessa Bahia que chegou o tabaco, que no começo era vendido por escravos, e isso vai ser retratado na primeira ala. Nesse setor também temos as baianas que são as mães de santo, porque nos terreiros também se usa tabaco triturado como erva de purificação. O setor é encerrado com o terceiro carro que é o sincretismo religioso, a fé católica com o culto aos orixás. É um carro mais místico, religioso”.
4° SETOR
“Na penúltima parte do desfile a gente mostra como a mulher na sociedade buscou no cigarro uma forma de emancipação feminina. A mulher e o cigarro estiveram ligados no século 20 como uma forma de emponderamento, de mostrar que a mulher tem o direito de fazer o que quiser. Tem várias alas que mostram isso que estou falando. Também tem uma ala que homenageia a Rita Lee, que foi uma mulher que nunca escondeu que fumava e que sempre se mostrou a frente do tempo dela. O quarto carro é um cabaré, que mostra que a mulher é dona do seu corpo, das suas atitudes, e o cigarro sempre presente”.
5°SETOR
“Eu optei por uma linguagem muito mais leve e lúdica, ao invés de falar de câncer, morte. A gente fala desde a venda do cigarro, não da forma maço, mas antigamente numa época mais romântica em que as pessoas iam ao cinema de mãos dadas. Depois a gente mostra doces, porque toda pessoa viciada em cigarro tem um gosto por doces. Um cigarro acompanha um xícara de café, uma barra de chocolate, um chiclete, muitas vezes pra tirar o gosto da boca. É uma forma brincalhona de mostrar os doces acompanhamentos. Nesse setor vou ter uma ala de pessoas vestidas de juiz, uma ala metade preta e metade branca, eu quero mostrar que toda pessoa é dona das suas escolhas. Ela mostra através das cores que tudo tem o seus benefícios e os seus malefícios. A gente vai pra última ala que é o coração e o pulmão, porque o nosso samba termina cantando isso. Você é livre pra escolher o que faz da sua vida, só que tem que preservar a saúde. Então nós vamos para o carro da mente humana, que é um cérebro como parque de diversões mostrando como a mente é delirante, de como ela é entregue aos vícios, e precisamos ser fortes. A mente que busca o cigarro por prazer, só que a mente é delirante, ela te leva ao domínio mas tem horas que você perde o controle. O carro mostra de uma forma bem leve de como o vício faz você brincar com os sentidos”.
História do Sidnei França
“Desde os dois anos eu frequentava a Mocidade Alegre com a minha mãe, e até os 13 eu ia de uma forma descompromissada. Com 14 anos passei a desfilar e, quando a presidente Solange assumiu a presidência, eu comecei a fazer parte da diretoria como Diretor Cultural. Nesse cargo passava a assessorar o antigo carnavalesco nas pesquisas e criação, e com isso eu fui me aproximando cada vez mais. De 2003 e 2008 eu desempenhei esse papel, e quando o carnavalesco saiu da escola a Solange me convidou a integrar a comissão de carnaval, e essa é o começo da minha história como carnavalesco.Meu primeiro desfile que assinei foi em 2009 e, junto à comissão, trouxemos o título. Fiquei até 2016 na Mocidade Alegre, no ano de 2017 aceitei o convite da Vila Maria pra fazer o carnaval sobre os 300 anos do achado da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que também foi um presente. E em 2018 eu aceitei o convite dos Gaviões, quando eu desenvolvi o enredo “Guarus”, que era um tema patrocinado. Mas eu busquei uma outra linguagem, não ser folhetinho político, e busquei uma linha mais mitológica sobre os índios Tupi. E continuo aqui com um grande presente na minha trajetória que é poder reeditar um enredo clássico como esse”.
Editorial: análises das baterias
Pelo sétimo ano consecutivo o site CARNAVALESCO fará todas análises das baterias da Série A e do Grupo Especial no Sambódromo. O trabalho pioneiro começou com o jornalista Rodrigo Coutinho. Com total apoio e respaldo do site, ele dirige o projeto e conta com as participações de Kleber Komká e Guilherme Gonçalves.
A ideia da análise de cada bateria foi dada para suprir a carência técnica nas matérias jornalísticas de toda imprensa, e, claro, do site CARNAVALESCO. A proposta é a valorização do segmento, inclusive, abrindo portas para todos os mestres.
Em nenhum momento, o trabalho leva em conta algo pessoal ou relacionamento. As análises são feitas em cima dos critérios técnicos e do momentos vistos na pista, quadras, ou ensaios de rua e do Sambódromo. Nossos colunistas visitam ensaios desde a escolha do samba-enredo.
Embora a relação de proximidade com muitos mestres exista, conquistada através de anos de convívio como ritmistas, os colunistas separam laços de amizade e focam no trabalho técnico da bateria.
O trabalho com opinião é sempre uma missão árdua. Vai agradar uma parte e desagradar outra. Hoje, a análise é boa e amanhã pode não ser. O site CARNAVALESCO privilegia sempre a opinião. Não somos donos da verdade. Erramos e acertamos. Acima de tudo, a gente trabalha para enaltecer o sambista e fazer uma cobertura jornalística gigante e do tamanho que o carnaval merece.
Obviamente, o site CARNAVALESCO e todos seus colunistas, equipe de jornalistas, fotógrafos e redes sociais estão sujeitos aos comentários do público e críticas. E isso faz parte de sermos um veículo de imprensa, que trabalha com notícias, e opinião. Porém, a gente repudia veementemente qualquer tipo de ofensa pessoal ou coação. O próprio veículo ou seu time de colunistas tomará medidas judiciais caso seja necessário para enterrar de vez mentiras e boatos que só fazem mal aos sambistas.
Temos ótima relação com as escolas de samba, com a Liesa e a Lierj. E nossa credibiliade na informação e na opinião está relacionada ao nosso trabalho, e, acima de tudo, nos nossos acessos. São mais de 3 milhões de pessoas acompanhando nossa cobertura carnavalesca no mês do carnaval.
Por outro lado, a direção do CARNAVALESCO reafirma que não permitirá também que nenhum integrante do veículo tenha participação em mentiras, boatos ou brigas. Isso é repudiado e inaceitável.
Por fim, o site CARNAVALESCO frisa que nos sete anos de análises das baterias todas escolas já receberam elogios e críticas. Os jurados do Especial e da Série A estão em constante contato com nossos colunistas e os mesmos são orientados a não emitirem opinião fora das nossas páginas, ou seja, opinião sobre as baterias vão ser dadas sempre no site CARNAVALESCO e não em redes sociais ou conversinhas de botequim.
Sabemos a nossa missão. O que conquistamos e o que ainda vamos conquistar. Ter opinião está no nosso DNA. Não vamos perder isso, JAMAIS. A nossa batucada é nossa maior referência. Nossas orquestras nos orgulham e sempre vamos valorizar quem faz. Erros e acertos são naturais na vida. A valorização é importante quando ela é real. Tapinha nas costas, abraços e afagos podem ser falsos.
Salve todas baterias do Rio de Janeiro. Salve os mestres. Vamos ao maior espetáculo da Terra.
Barracões: Maior volumetria e tamanho das alegorias marcará desfile da Renascer em 2019
Por Diogo Cesar Sampaio
Após viver momentos dramáticos para conseguir por o carnaval de 2018 na rua, o ano de 2019 tem tudo para representar uma virada de página na história da escola. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no atual pré-carnaval, a Renascer de Jacarepaguá investiu em seu barracão, e irá apostar em um desfile grandioso e volumoso plasticamente. Com outros dois trabalhos assinados na agremiação em 2017 e 2018, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres acreditam que o atual trabalho será o com resultado mais impactante e surpreendente deles.
“Esse ano, mesmo com a crise, vamos trabalhar com alegorias grandiosas. A diferença para carnavais anteriores é essa. Mesmo com toda a dificuldade, a gente está apresentando algo que a Renascer há muito tempo não apresenta. São carros bem maiores do que a Renascer vinha apresentando, e com muito mais esculturas. Acredito que essa parte estrutural vai surpreender”, afirma Raphael Torres.
No entanto, mesmo com mudanças na plástica, algumas características dos trabalhos anteriores permanecerão. Para Alexandre Rangel, assim como 2018, o desfile de 2019 será marcado pela superação dos problemas.
“Assim como os desfiles de 2017 e 2018, o desse ano também terá muita garra, muito amor, muito carinho e muita dedicação, tanto vinda da nossa parte como da parte da comunidade. O carnaval de 2019 é o carnaval da superação e dedicação. Tem muito amor envolvido, tem muita baiana esperando a roupa dela chegar, tem muitas pessoas da comunidade esperando ansiosas pela fantasia, tem a velha guarda com o olho cheio d’água… Isso que faz eu, a cada dia, vir para o meu barracão e fazer o carnaval da Renascer de Jacarepaguá.”, declara Alexandre.
Dois de Fevereiro e o Rio Vermelho
O desfile de 2019 da Renascer de Jacarepaguá vai trazer a história de um dos eventos mais relevantes, e de maior importância, do calendário baiano. A festa de Iemanjá, que acontece todo dia dois de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, move milhares de pessoas todos os anos. A reportagem do site CARNAVALESCO indagou a dupla de artistas da escola sobre como surgiu a ideia do enredo, e como eles pretendem desenvolvê-lo.
“Nós apresentamos três propostas para o Salomão (Antônio Carlos Salomão, presidente da Renascer) de enredo. E aí o Salomão veio com Bahia… A gente tinha um outro enredo de Bahia, só que com uma outra pegada. Mas o Salomão queria falar sobre o Rio Vermelho, só sobre o Rio Vermelho. E o bairro Rio Vermelho é uma Lapa hoje em dia. E o que acontece no Rio Vermelho? A festa de Iemanjá. E em uma conversa entre eu e o Raphael pela madrugada, depois de muito bater papo, ele me falou que achava inviável a gente falar só sobre o Rio Vermelho, e deu a ideia de irmos para Salvador. Viajamos para conhecer lá a fundo, pesquisar e trazer material para, em si, começar a desenvolver o enredo. E foi aí que a gente encontrou o nosso fio condutor, que é a festa de Iemanjá, que acontece dia dois de fevereiro. Uma festa muito conhecida, que se não me engano, depois da Lavagem (das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim), é a maior festa que acontece lá. Só que não é tão divulgada assim. Vai gente do mundo todo para essa festa. O bairro fica abarrotado. Daí com esse fio condutor, a gente começou a trabalhar o enredo, e apresentamos para o Salomão essa proposta junto com o Cláudio Russo. Sentamos os quatro juntos, debatemos, pegamos essa pegada que é um pouco para o afro e um pouco para o cultural também, para não sair dessa linguagem que é da Renascer de Jacarepaguá.”, relata Alexandre.
“Na verdade, eles queriam falar justamente sobre a festa, mas eles queriam falar também de todo o contexto do Rio Vermelho. O que eu falei pra o Alexandre foi que era inviável essa proposta, e que a gente teria de pegar um fio condutor. Todo enredo tem que ter início, meio e fim. Foi nesse momento que falei para começarmos com toda a história da chegada dos negros escravizados até a festa em si.”, complementa Raphael.
Contando com a participação de Cláudio Russo no processo e construção do enredo, a dupla de carnavalescos comentou sobre a relação deles com o compositor. Segundo Alexandre, a parceria se reflete no trabalho de ambos e consiste em ajuda mútua.
“É bacanérrima nossa relação com o Cláudio Russo. Antes de fazer o samba, a gente tem reuniões com ele, com o Moacyr Luz e com o Diego Nicolau. É um cara que a gente passa a sinopse para ele, que sempre a acompanha e dá sugestões. Ele participa ativamente e aponta algumas coisas que tem de mudar”.
A dupla também contou sobre as pesquisas que basearam o desenvolvimento do enredo, destacando o ponto que para cada um chamou mais atenção. Enquanto para Alexandre foi a história de Iemanjá e dos orixás, para Raphael foi a relação da rainha do mar com Oxum, rainha das águas doces.
“Falar sobre Iemanjá é uma coisa muito forte, falar sobre os orixás… É uma coisa muito delicada quando você fala de um orixá. Isso que me despertou muito interesse na hora de fazer a pesquisa. A cada imagem, a gente chegava lá e fotografava. A cada pessoa que a gente via, perguntávamos. Porque quando você vai fazer um laboratório, você tem que sentir realmente aquilo dali, se aquilo é pra você realmente. Quando você fala de um orixá é uma coisa muito séria, uma coisa que tem que ter um sentimento focado para aquilo dali. Nós ficamos uma semana em Salvador, então a gente foi pesquisando tudo, todos os detalhes. É um enredo riquíssimo, totalmente cultural. A cada momento ele vai abrindo uma base, ele vai abrindo um caminho novo”, disse Alexandre.
“O interessante é que quando a gente pesquisou e começou a ver o contexto do enredo, a gente viu que no próprio enredo de Iemanjá se encaixa com Oxum. Muito antes de você cultuar à Iemanjá, que é a orixá das águas salgadas, você tem que homenagear também Oxum, que é das águas doces. Eu achei isso muito interessante, porque um orixá é interligado ao outro. Foi a parte da pesquisa que mais me chamou a atenção, sem dúvidas”, alega Raphael.
Crise nos bastidores para 2019
Em meio a tantas dificuldades, tanto financeiras, quanto estruturais, a cada ano se torna mais difícil fazer carnaval na Série A. Para a dupla Alexandre Rangel e Raphael Torres é sim possível ter prazer em trabalhar no grupo, além de acreditarem em um futuro mais próspero.
“Não tem porque não sentir prazer em fazer carnaval. A gente gosta do carnaval, é uma coisa que fala mais alto, tem um amor envolvido. É o que faz a gente estar aqui hoje, dentro do barracão da Renascer: o amor pela arte e pelo carnaval. Essa é uma crise que eu creio que vai passar. É uma nuvem. Eu acredito que dias melhores vão acontecer. Depois da tempestade vem sempre a bonança, como diz aquele ditado popular”, citou Alexandre.
“Eu acredito também que essa crise vai passar. Isso é para gente ter um alerta antes de votar. A gente precisa votar em algo ou em alguém que realmente faça pelo carnaval, e não apenas promessas. Porque de promessas já estamos cansado. O mundo do Carnaval tem que se unir e votar na pessoa certa”, opinou Raphael.
Quanto ao uso de materiais para confecção do carnaval, é preciso ser criativo. Além dos problemas financeiros, a crise também se deu na oferta de materiais, muitos em falta no mercado. Por isso, é necessário achar soluções baratas e, muitas delas, alternativas.
“Aqui a gente usa tudo. Tudo é reciclado. Olha pra um lado, olha pro outro, vai com aquilo dali, transforma aquilo outro. Se um amigo tem algo para me dar, serve. Tudo serve para gente. Tudo a gente muda, a gente transforma, a gente cria. O verdadeiro artista é isso, é você se reinventar todo dia, você já sai de casa se reinventando”, declarou Alexandre.
“Nós viemos da Intendente de Magalhães. Já utilizamos todos os tipos de materiais e acredito que não tenha nada de diferente do que eu já tenha usado. Não temos vaidade, e assim, tudo o que a gente vê dentro do barracão é útil para a gente. Desde um pedaço de madeira ali no canto, até um pedaço de ferro, tudo para a gente é reciclado e tudo pra a gente é viável para colocar no nosso carnaval”, confidencia Raphael.
Dramas e as superações oriundas de outros carnavais
O atual cenário de crise da folia carioca afetou a todas as agremiações que fazem parte da festa, independente do grupo que elas estejam. Um cenário alarmante, porém longe de ser o pior encarado pela Renascer e pela dupla de carnavalescos Raphael Torres e Alexandre Rangel. Durante os preparativos para 2018, a escola teve seu barracão na Zona Portuária do Rio devastado por cinco incêndios no pré-carnaval. Os artistas tiveram de lidar com fato de não terem um lugar para construir seu carnaval e nem material, ambos consumidos pelas chamas. No entanto, contando com doações e todo o tipo de ajuda do mundo do samba para se reerguer, a Renascer surpreendeu a muitos com sua apresentação e mostrou o seu poder de superação.
“Ano passado, eu lembro que as pessoas vieram perguntar para nós se íamos conseguir colocar a Renascer na avenida. E a gente no barracão, seja com sol ou com chuva. No último momento, nossos dois macacos pegaram fogo, e o Raphael olhava para a minha cara, com a lágrima no olho, perguntando o que faríamos. Foi aí que fomos para a Cidade do Samba, para continuar a fazer aquele carnaval, mesmo com muitas dificuldades. Então, a gente não se abala assim. Acho que são esses desafios que deixam o ser humano mais forte, mais preparado pra vida aí fora. A verdadeira faculdade, realmente é a Série A, porque aqui só sobrevivem os fortes. Aqui somos todos guerreiros, não tem essa de vaidade com a gente. A gente não tem, a gente vai te pedir. Eu peço aos meus amigos, eles pedem à mim, tem aquela coisa de união com o outro, e essa união é que está fazendo a gente mover o carnaval da Série A esse ano, assim como aconteceu nos outros carnavais”, relembra Alexandre Rangel.
Entenda o desfile
A Renascer de Jacarepaguá será a segunda a desfilar no sábado de carnaval. Em 2019, a escola contará o enredo “Dois de Fevereiro no Rio Vermelho”, e levará para Marquês de Sapucaí um total de 1800 componentes, distribuídos em 21 alas e 4 carros alegóricos. O carnavalesco Raphael Torres explicou como a dupla dividiu o desfile:
Setor 1: “No primeiro setor a gente vem abordando a calunga grande, que é a chegada dos negros escravizados ao Brasil. Eles que trouxeram o culto à Iemanjá. Esse primeiro setor se resume a isso”.
Setor 2: “O segundo setor ele vem abordando a parte do ritual, da festa. Antes de cultuar a Iemanjá, orixá das águas salgadas, a gente tem que cultuar Oxum. Esse segundo setor vem abordando essa parte do dique tororó. Então, antes de cultuar à Iemanjá, a Renascer vem justamente cultuando a Oxum”.
Setor 3: “Já o terceiro setor entra na parte da festa do Rio Vermelho, da festa de Iemanjá, no qual o terceiro carro vem abordando a igreja de Santana”.
Setor 4: “O quarto setor vem fechando a parte a festa. A festa no mar no qual vai estar sendo abordado, no último carro, um grande barquinho de Iemanjá. Um gigante, que encerra o desfile da escola”.
Barracões: Bateria da Estácio de Sá homenageia Franklin Roosevelt em desfile de 2019 com toque latino
O chapéu panamá é um acessório quase obrigatório a todo sambista. O que poucos sabem, entretanto, é que o acessório nunca foi fabricado no Panamá, mas na Colômbia. A alcunha ganhou notoriedade mundial quando o presidente americano, Franklin Roosevelt, ao visitar o Canal do Panamá posou com o chapéu e ele foi assim chamado.
Essa é uma das história que a Estácio de Sá abordará em seu desfile ‘A fé que emerge das águas’. A curiosa passagem estará retratada na fantasia da bateria Medalha de Ouro no segundo setor do desfile. Tarcísio Zanon, carnavalesco da agremiação, em entrevista concedida no barracão conta um pouco de como surgiu a ideia de desenvolver um enredo internacional com forte característica latina.
“Quando se fala em fá abre-se um leque de opções, emergindo das águas outro leque. Falamos do cristo negro que emergiu das águas no Porto Belo, Panamá. Essa imagem foi encontrada por pescadores e todo 21 de outubro tem uma romaria partindo da Cidade do Panamá até o Porto Belo. Existem alguns questionamentos sobre o enredo, mas acredito que esteja próximo de nós por se comunicar bem com o carioca. O meu link com o Brasil é a coincidência de nossa padroeira também ser negra e emergir das águas. Sempre enxergamos Jesus de uma forma renascentista. Os ocorridos que citei conferem representatividade ao nosso enredo. A Jessica Maia, ex-rainha do carnaval, foi quem sugeriu o enredo a mim. Ela morou 10 anos no Panamá. Em um primeiro momento não gostei, mas quando ela me contou essa história me apaixonei”, declara Zanon em entrevista ao CARNAVALESCO.
Além da fantasia da bateria, o projeto da Estácio chama a atenção pela opulência para uma agremiação da Série A. Sem entrar em detalhes, o carnavalesco aposta na comissão de frente para arrebatar a Sapucaí neste sábado de carnaval.
“Quando surgiu a ideia da comissão de frente fiquei encantado com o projeto. Nossa sinergia, minha da Ariadne, é muito boa. Sempre conseguimos alcançar um ótimo resultado. Com certeza é um trabalho que vai emocionar e arrebatar o público”, explica.
O Leão do São Carlos é apontado pela crítica especializada como uma das fortes candidatas ao título da Série A, ao lado de outras agremiações. Tarcísio não rechaça o favoritismo mas deixa claro que ele precisará ser comprovado na avenida.
“Eu acredito que o favoritismo é bom em alguns aspectos e ruim em outros. A posição de desfile é excelente e a comunidade está bastante motivada. Também vejo pela questão histórica da Estácio, que vem sim fazendo carnavais grandiosos nos últimos anos. As dificuldades são enormes. Na Série A há quase uma impossibilidade de fazer. Carnaval é na avenida, como sabemos”, destaca.
Embora seja considerada uma das favoritas, a Estácio não escapou da crise que praticamente inviabilizou o desfile da Lierj neste ano, como explica Tarcísio Zanon.
“A crise atrapalhou de uma forma muito pesado. Claro que a Estácio buscou se cercar de apoios. Esse foi até um dos motivos que nos fez lutar por esse enredo. Os atrasos relacionados à subvenção atrapalharam sensivelmente a construção do projeto. Todo ano ele é mexido, e esse ano a crise de matérias é muito forte. Isso compromete muito o trabalho dos carnavalescos até no Especial”, conclui.
Entenda o desfile
Contamos a história do Cristo Negro pelo olhar de um romeiro. Mostramos dessa forma uma nova cultura, como eu acredito que é um papel interessante do carnaval.
Setor 1: Saímos da Cidade do Panamá para chegar a Porto Belo. Dessa forma passamos pelas belezas naturais, a tradição das tribos. O Panamá é conhecido como abundante terras de borboletas e peixes e isso está retratado no nosso desfile.
Setor 2: Chegamos ao Canal do Panamá onde tivemos o boom econômico. Construído pelos franceses, foi explorado depois pelos EUA. O chapéu do Panamá na verdade é fabricado na Colômbia. Mas quando o presidente Franklin Roosevelt apareceu com o chapéu no Panamá acabou se difundindo como se fosse feito no país.
Setor 3: Chegamos às festas profanas e culturais do Panamá. A Diablada, o Festival das Flores, rei e rainha de Espanha.
Setor 4: A chegada a Porto Belo e o carnaval. A procissão do cristo negro se assemelha muito ao nosso carnaval. É entoada por tambores. Falamos sobre isso, trazendo o sincretismo colocando Obatalá. Amarro desta forma as duas culturas.
Barracões: Alegria da Zona Sul supera adversidades e prepara desfile para louvar a fé e a Umbanda
A Alegria da Zona Sul vai desfilar no Carnaval 2019 da Série A tendo superado diversos obstáculos. O primeiro e principal foi a ausência de um espaço para construir suas alegorias. Após o último carnaval algumas escolas perderam seus barracões na Zona Portuária e a agremiação foi uma das afetadas, não tendo para onde ir com suas alegorias. Há um mês do desfile, a Alegria começou a erguer suas alegorias e a estrutura física da sua nova moradia carnavalesca. O presidente da escola, Marcus Vinícius, ressaltou a garra na produção do desfile de 2019.
“Fizemos quatro alegorias e vamos vir melhor do que muitas escolas que não tiveram nem 10% de todos os problemas que passamos. Conseguimos com muito sacrifício fazer um carnaval digno”, disse.
Perguntado sobre o enredo para este ano “Saravá, Umbanda”, o presidente
da Alegria diz que a fé na religião foi um divisor de águas para encontrar forças
em erguer um desfile que ficará marcado na história da escola.
“O enredo foi primordial para escola, e também culturalmente falando vamos mostrar um pouco da nossa história, logicamente, a nossa fé é o que nos move. Nossos parceiros espirituais estão nos ajudando e interagindo para a gente poder fazer essa homenagem da melhor maneira possível, com muita dignidade, amor, carinho, sacrifício e consideração com a religião”, afirmou.
Na escola há 4 anos, o carnavalesco Marco Antônio Falleiros diz que a ideia inicial para o desfile de 2019 era falar de uma determinada entidade, e após estudar e consultar diversas pessoas sobre a religião o enredo foi trocado por algo que desse mais conteúdo e rendesse mais emoção na Sapucaí.
“Nós íamos fazer um enredo sobre a história dos Pretos Velhos, mas quando fomos pedir a licença para fazê-lo foi pedido para fazer um trabalho com mais história e informações. Foi sugerido falar sobre a religião, não só sobre a entidade e sim sobre a Umbanda em que o mais interessante da própria religião é ela ser totalmente brasileira, misturando o sincretismos religioso a história de todas as guias” declarou.
Entretanto, as dificuldades fizeram o carnavalesco repensar na hora de produzir o desfile de tamanha qualidade plástica e visual. A maior vontade foi mostrar que com os problemas passados a escola teve um novo olhar para por um desfile de ponta na avenida.
“Costumo brincar que este foi o carnaval do jeitinho. O barracão feito em quatro semanas. Foi um ano muito difícil e complicado, além da crise e de ficarmos sem barracão, nós tivemos pouco tempo para tudo sem contar que, saquearam quase todo nosso material do carnaval passado como madeiras, ferros, motores dos carros e pneus, mas conseguimos fazer o carnaval usando bastante criatividade. Apostei em nos materiais mais fáceis e que remetam a religião como renda, flores, palhas, esteiras e espelhos” disse Marco.
Marco Antônio comenta que sua aposta será no início da escola.
“Eu sempre aposto na cabeça do desfile como a comissão de frente e abre-alas, que é composto por imagens sacras e o nosso mentor o Preto Velho. É um carro bem interessante e terá a iluminação como fator principal do abre-alas”.
A Alegria da Zona Sul será a segunda escola a desfilar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, na sexta-feira, levando o enredo sobre a história da religião Umbanda e fé de seus fiéis que nela exercitam o amor e caridade. Com dois mil componentes e quatro alegorias.
1° setor – ABRINDO NOSSOS TRABALHOS. (Abre-Alas: Congar, altar)
2° setor – CABOCLOS CURANDEIROS E PODER DAS ERVAS. (Carro: Caboclos e poder das ervas)
3° setor – A SORTE, A RUA E A MALANDRAGEM. (Carro: povo de rua, salve a Malandragem)
4° setor – 11º ANOS DE AMOR E CARIDADE. (Carro: Iemanjá, rainha do Mar)
Ficha técnica do barracão:
– Ferreiro: Pedro
– Marceneiro: Beto do Cavaco
– Escultores: Rema, Igor e Mineiro
– Pintura de arte: Rema e Igor
– Iluminação: Kibe
– Decoração: André e Cleberson
– Espelho: Anselmo
Apresentador da transmissão da Série A, Pedro Bassan diz que vai aliar competição, cultural e entretenimento
O site CARNAVALESCO conversou o novo apresentador da TV Globo para os desfiles da Série A. O jornalista Pedro Bassan vai dividir o comando com a craque e experiente Mariana Gross. Confira abaixo o papo.
Como é sair da reportagem e apresentar um desfile de escola de samba?
“Na reportagem, desenvolvemos um outro tipo de trabalho, no qual precisamos pinçar e garimpar coisas interessantes que estão acontecendo lá embaixo. Na cabine, temos uma visão geral, mais completa do desfile, e precisamos de uma resistência física maior”.
Alguma preparação especial para a voz?
“Sim, muita preparação para a voz. Da mesma maneira que os carnavalescos precisam ter cuidados com as alegorias, nós precisamos ter cuidado com a nossa voz, nossa principal alegoria. Nós, repórteres, já temos um acompanhamento permanente da uma fonoaudióloga. Há pelo menos 15 dias estou mergulhado nessa preparação, com exercícios para fazer antes e durante o desfile. Conseguimos, em alguns intervalos, fazer alguns exercícios para recuperar a voz. É preciso muita preparação e muito cuidado”. (Foto: João Cotta/TV Globo)
Como surgiu seu interesse pelo desfile das escolas de samba?
“Acho que foi na primeira vez que eu vi. Quando vejo aquele espetáculo maravilhoso, também tenho a centelha mágica que vejo nos olhos dos carnavalescos, das porta-bandeiras, dos ritmistas. Não existe nada igual. Lembro do Zico, quando foi homenageado pela Imperatriz e disse que não há nada no mundo que se compare a um desfile de escola de samba. Não tem nada igual a essa combinação da genialidade brasileira”.
E como surgiu o convite para ancorar a Série A?
“Nunca tinha me candidatado a esse posto e me senti muito honrado. Vou me esforçar para conduzir à altura da tarefa que me foi dada”.
Como funcionou seu estudo das escolas e dos quesitos em julgamento? Sua ideia é trabalhar mais competição do desfile, o lado cultural ou o entretenimento?
“Mergulhei de cabeça na Série A, não apenas visitando barracões para saber o vão trazer no desfile desse ano, mas nas escolas em si para entender a história de cada uma, a comunidade onde estão inseridas, o espírito de cada uma delas. É como viajar dentro do Rio de Janeiro. Uma viagem incrível, que estou adorando fazer. Tem sido uma realização imensa pra mim. O apresentador precisa trabalhar com três elementos simultaneamente: a competição, o lado cultural e o entretenimento”.
O que espera da parceria com a Mariana Gross?
“A parceria com ela já está sendo maravilhosa. Ela é queridíssima por todos, me recebeu com muita generosidade, com muitas dicas, dividindo comigo algumas coisas específicas e técnicas que eu precisava saber para narrar. Ter uma parceira tão talentosa e generosa como a Mariana é um presente para enfrentar esse desafio da primeira vez como narrador”.
Entrevistão com Fernando Costa, o ‘pulmão’ da Unidos da Tijuca
A evolução da Unidos da Tijuca como agremiação que deixou o posto de coadjuvante para o de protagonista nos desfiles de escola de samba não pode ser contada sem ouvir as palavras de Fernando Costa. Com 31 anos no Pavão do Borel, o dirigente é o personagem da série ‘Entrevistão’ e bateu um papo com a reportagem do CARNAVALESCO. Costa revela que não gosta de pensar no acidente ocorrido em 2017, questiona o resultado obtido em 2018 e assume o papel de homem de confiança do presidente Fernando Horta.
Por que a Tijuca ficou fora dos últimos dois desfiles das campeãs? Que lição tiraram desses dois desfiles?
“Não acho que houve um desaprender nosso. Em 2017 houve uma falha humana de engenharia e que acarretou aquele acidente. Não houve uma falha da escola. Um funcionário esqueceu de travar. Ano passado ao meu ver fizemos um desfile sem erros, ficamos por um décimo. Esse ano estamos com raiva. Nos aguardem. O horário de desfile não foi o que eu gostaria mas faremos um belo carnaval”.
O presidente Fernando Horta te consultou sobre a chegada do Laíla?
“Eu talvez tenha sido o primeiro a saber da ideia de trazer o Laíla. Eu achei ótimo. Se poderíamos ter o Pelé? Porque não? Está sendo um aprendizado para a gente e para ele também, pois a Tijuca é uma escola bem diferente da Beija-Flor. As adaptação dele tem sido muito boa com a gente”.
Como tem sido a relação com ele?
“Aqui no barracão nem cruzamos muito. Ele vem sempre na parte da manhã e eu como tenho um outro trabalho chego sempre quando ele já está saindo. Nos cruzamos mais nas reuniões e na quadra e ensaios. Está fluindo, ele tem o jeito dele, ele tem o meu. Os nossos ensaios estão muito bons e temos uma expectativa muito boa”.
É um orgulho ser chamado de ‘rolo compressor’ como a Beija-Flor?
“Esses termos de ‘rolo compressor’ e afins eu sou meio contra isso. Existem todas as escolas que fazem um trabalho muito bom de harmonia e evolução. Nossa equipe foi formada a muitos anos, conhecem a escola. Ensaio técnico, ensaio de rua, é para você preparar a escola para o desfile. É lá que tudo acontece. Tudo que é falado antes eu particularmente não dou muita bola não”.
O que você alteraria no julgamento de harmonia?
“O julgamento da Lierj é subdividido oficialmente. Ano passado não fizemos os 30 pontos pois puniram o carro de som. O julgador eu não sei se tem algo contra o Tinga ou contra a escola. Esse ano eu vou saber (risos). Eu acho que quando engloba tudo a culpa cai para a harmonia. Às vezes não é o canto da escola em si. Talvez essa subdivisão seja melhor. Eu acho que de cima dá para julgar corretamente”.
Como foi sua passagem pelo Salgueiro?
“Eu sou um profissional do carnaval mas quando fui para o Salgueiro foi com o aval do Horta. Eles já haviam me chamado duas vezes e eu achei que ainda não tinha condições de comandar. Na terceira vez que fui convidado conversei com o Fernando Horta. Trabalhei em 2007 e 2008 no Salgueiro. Eu fiquei até chateado na época, pois ele me liberou e eu pensava que ele fosse me segurar. Falei que só voltaria quando ele me chamasse de volta e isso aconteceu dois anos depois, e estou até hoje”.
Como você conheceu o presidente Fernando Horta?
“Entrei na Tijuca em 1988. Não tinha muito contato com ele na época. Éramos apenas conhecidos. Em 2000 eu estava no ensaio de bateria e ele me convidou para ser harmonia de ala no ano 2001. Depois desse carnaval ele me pediu para arrumar uma equipe de harmonia. A maioria está comigo até hoje, estreamos no desfile de 2002”.
Você é o homem de confiança do Horta…
“Sou funcionário dele, mas existe uma relação de confiança. Quando ele viaja eu cuido da loja dele. Eu sou uma pessoa confiável, quem me conhece sabe. Eu sou justo. Aqui dentro ele sabe que pode contar comigo. A relação ultrapassou a relação de funcionário”.
O que você lembra do período mais difícil da Tijuca?
“A gente quando começou eram 40, 50 pessoas nos ensaios. E sempre as mesmas. O que aprendi muito é prestar atenção nas pessoas. Saber lidar com os indivíduos, ir conhecendo cada cantinho da Tijuca. Não adianta você ser muito bom sozinho. É preciso liderar a equipe. Eu venho lá na frente. Se quiserem me sacanear eles vão fazer. Não adianta não saber lidar corretamente com a equipe”.
Você ainda pensa no acidente de 2017?
“Não penso e nem quero. Já pensei muito. A lição é observar e fiscalizar mais de perto. Não confiar tanto. Havia uma relação de anos com essa empresa, e acabamos relaxando. Hoje em dia conversamos muito para não acontecer de novo. Na Tijuca não tem nada hidráulico”.
Esse samba da Unidos da Tijuca está entre os melhores da história da escola?
“Esse negócio de samba, você tem que ter um bom enredo e uma boa sinopse. Assim fica fácil. Não sou compositor mas convivo com os caras. Já teve ano aqui que não sei como fizeram samba em cima disso. Pedimos uma oração e eles atenderam. Eu coloco nosso samba de 2019 junto das grandes obras da discografia da Tijuca”.
Imperatriz aposta em ‘estilo Paulo Barros’ para voltar nas campeãs
Fora do desfile das campeãs desde o Carnaval 2016 e sem a conquista de um campeonato há 18 carnavais, a Imperatriz romperá com seu estilo estético clássico este ano para tentar voltar aos seus dias de glória. A agremiação apostou na volta de Mário Monteiro e Kaká Monteiro para desenvolver o enredo ‘Me dá um dinheiro aí’. Em entrevista concedida ao site CARNAVALESCO, Mário admite uma estética diferente e que beberá na fonte do maior campeão do carnaval nos últimos anos, Paulo Barros.
“Acho que a grande renovação de dez anos para cá foi o Paulo Barros. Aqui na Imperatriz vou aproveitar esse estilo e criatividade. Os componentes precisam ter participação efetiva no desfile. O Paulo é bastante ousado e chegar no seu nível é preciso muita prática”, confessa.
Para abordar uma estética alinhada com o estilo do atual carnavalesco da Viradouro, a Imperatriz aposta na história do dinheiro e sua relação com a sociedade. Segundo Mário, a ideia surgiu no afã de criar uma temática que converse com a atualidade mas sem necessariamente ser desenvolvida de forma séria e pesada.
“Quando o Luizinho me convidou para criar um enredo imaginei que deveria ser algo muito atual, ainda mais depois dos desfiles de Beija-Flor e Tuiuti. Em pesquisas vi o número de desempregados, dívidas crescendo, isso tudo tem algo em comum no seu cerne: o dinheiro. Dessa forma eu decidi desenvolver essa temática que é falar sobre o dinheiro e a relação das pessoas com ele. A gente vai fazer um carnaval, apesar de teoricamente ser algo pesado pelos problemas econômicos, leve e com espírito carioca. Aqui se faz piada até da própria desgraça. Vamos fazer tudo através de metáfora e ironia. Pedi aos compositores e eles atenderam a minha proposta de ser algo divertido. A Imperatriz é uma escola mais clássica e decidimos fazer algo diferente. Está dando resultado”, aponta.
Para fazer um enredo que fale do dinheiro sem a necessidade de se tornar algo pesado, a Imperatriz criará uma espécie de caricatura da crise econômica e social que assola o país desde a segunda metade desta década, como explica Mário Monteiro.
“Crítica bem-humorada vai ter, como são as charges nos jornais. É algo para rir, não teremos nada pesado, ou sério. O Jaguar diz que é melhor rir para não chorar. A abordagem política tem de estar presente, mas sem citar lado de um ou outro, é algo jocoso e engraçado. Achei a Beija-Flor muito realista ano passado, pegou pesado. O carnaval é para divertir”, opina.
Em suas pesquisas para o desenvolvimento do tema, Mário Monteiro aponta a curiosidade com relação ao surgimento das cédulas de dinheiro, na China.
“Achei curioso o nascimento da primeira nota, algo bastante primitivo. As moedas já existiam e começaram a acabar e as pessoas não tinham troca para dar. Na China começaram a dar um vale, era um pedaço de papel. Daí também nasceu a ideia de criar um banco e dessa forma passar a armazenar o dinheiro para ser utilizado quando as pessoas necessitassem”, lembra.
Mário Monteiro confessa que precisou adaptar o projeto depois de iniciado devido à crise financeira. O artista ressalta que a Imperatriz precisa voltar a frequentar as primeiras colocações para voltar a vencer.
“Tivemos de reinventar bastante. Tenho 60 anos de cenografia. Estamos usando bastante o processo cenográfico, sem materiais muito caros, com alegorias mais leves. É um carnaval diferente daqueles que eu mesmo já fiz. O artista tem de estar alinhado com a diretoria da escola desde o início do projeto. A Imperatriz precisa dar um ‘up’. Através desse enredo acho que estamos conseguindo isso. Carnaval acontece mesmo é na avenida. É preciso entusiasmar o público também, para mim é o grande protagonista do desfile. Se o público te aclamar você está perto do título”, admite.
Conheça o desfile
A Imperatriz vai passar na Marquês de Sapucaí com seis alegorias, dois tripés, 30 alas e 3.200 componentes. Conheça como se dará o desenvolvimento do enredo da agremiação.
SETOR 1 – AS LENDAS
Abrimos o nosso desfile representando 2 lendas importantes que se referem diretamente ao dinheiro: Robin Hood e A Lenda de Midas.
SETOR 2 – A INVENÇÃO DO DINHEIRO
As mais antigas moedas que se conhecem foram feitas no séc. VII no Reino da Lidia (Turquia atual). Feitas de liga de ouro e prata, conhecida na época como “eletro”. Cédulas não passam de pedaços de papel, mas são aceitas como dinheiro. O valor está no que elas representam. Os chineses foram os primeiros a lidar com o dinheiro na forma de documentos de papel.
SETOR 3 – TERRA BRA$ILI$. O DINHEIRO DO BRASIL
A história do dinheiro no Brasil começou de forma insólita logo após o descobrimento, com um fato importante para o meio circulante brasileiro: o primeiro escambo. Ao desembarcar em terra, os portugueses, num gesto amistoso, lançaram à praia um barrete vermelho, uma carapuça e um sombreiro. Os índios, imediatamente, responderam lançando um cocar de penas e um cocar de contas. Nos períodos colonial e imperial até 1888, a economia brasileira sobrevivia através da exploração dos escravos trazidos da África e vendidos como mercadoria. Um dos períodos mais hediondos da nossa história.
SETOR 4 – TEMPOS MODERNOS
Hoje temos à disposição inúmeros meios de guardar e investir dinheiro: depósitos bancários, aplicações financeiras, cheques, cartões de crédito, caixas automáticos, previdência privada e etc.
SETOR 5 – A RODA DA FORTUNA
A roda da fortuna vai falar sobre pessoas de origem humilde que através do talento pessoal ou da sorte conseguiram crescer na vida com sucesso financeiro.
SETOR 6 – O FOLCLORE E O DINHEIRO
Neste setor abordaremos o Tio Patinhas, o cofre do porquinho e também o dinheiro na tele ficção.
SETOR 7 – DINHEIRO E CARNAVAL DO FUTURO
Em relação ao dinheiro podemos anunciar que o futuro já começou através das moedas virtuais. A mais famosa delas é o Bitcoin.

