Por Diogo Cesar Sampaio
Há algumas semanas, o site CARNAVALESCO fez uma reportagem com Kennedy Meirelles, fã e pesquisador de Clara Nunes, que possui uma coleção de aproximadamente dois mil itens relacionados a tal mineira, muitos deles exclusivos e inéditos do grande público. Um material que impressiona e demonstra um pouco da relação de amor que Kennedy tem pela cantora.
Na matéria anterior, Kennedy mostrou um pouco da sua coleção, falou sobre Clara e a constante presença da cantora em sua vida, através da obra e do legado deixado. Ele também comentou sobre a importância e o simbolismo da homenagem que a Portela apresentará esse ano a Clara Nunes, além de demonstra sua alegria com tal reverência.
Com o sucesso da reportagem, a história de Kennedy e sua paixão por Clara Nunes comoveu sambistas, fãs da cantora e portelenses de toda a parte, até mesmo os mais ilustres. Dentre eles, o presidente da azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira, Luis Carlos Magalhães, que ao descobrir que Kennedy não iria desfilar, fez questão de convidá-lo para participar da homenagem.
“A presença do Kennedy será muito bem-vinda em nosso desfile. Ele é mais do que um fã, é um verdadeiro guardião da memória da Clara. A matéria feita pelo site CARNAVALESCO mostrou isso. É impressionante a coleção dele, com tudo da Clara e mais um pouco”, declarou o presidente Luis Carlos Magalhães.
O convite da Portela deixou Kennedy radiante de alegria. No entanto, o mesmo ainda não sabe nenhum dos detalhes de onde e como vai desfilar. A escola guarda isso a sete chaves, e pretende fazer uma surpresa para o próprio.
“É um sonho. Foram muitos anos esperando essa homenagem e poder fazer parte disso, é muito gratificante. É uma sensação de êxtase. A Clara está ligada na minha vida desde o início. Ela faz parte de mim, do meu cotidiano.”, disse Kennedy ao falar do convite.
Mas o convite da escola não ficou restrito a participação no desfile oficial. Kennedy também foi convidado a visitar o barracão da Portela, e pode conhecer de perto o que a escola vem preparando para a homenagem a Clara.
“Decidimos convidá-lo para vir ao barracão, além de chamá-lo pra desfilar. Teremos muitos fãs participando do desfile também. Tenho certeza que será um desfile inesquecível”, garante Luis Carlos Magalhães.
Kennedy foi recebido e guiado no barracão pelo assessor de imprensa da escola, Raphael Azevedo. Logo ao chegar, fez questão de deixar um presente, um disco de Clara Nunes vindo da sua coleção. Em troca, foi presenteado com uma camisa da Portela, além de um DVD e um cd da azul e branca.
O passeio começou com um momento emocionante para Kennedy. Uma das primeiras paradas foi na sala da carnavalesca Rosa Magalhães, onde conheceu todo o projeto do carnaval da Portela, os desenhos, além de ter tido a oportunidade de conversar com Rosa. Um encontro, que na verdade se tratou de um reencontro.
“Por volta do ano de 2006 ou de 2007, eu estava em Copacabana, e a Rosa estava esperando um táxi. Então, resolvi abordar a Rosa. Eu sempre gostei muito do trabalho dela, sempre foi muito caprichosa com os carros, muito detalhista. E naquela ocasião, eu sugeri a Rosa dela fazer um enredo para a Clara, mesmo na época ela não estando na Portela. Foi uma coisa muito rápida. Foi uma coisa que eu lembrei, mas que ela nem se lembra. E olha a coincidência, hoje ela está na Portela fazendo o enredo e eu vou fazer parte disso (risos)”.
Artista plástico, Kennedy levou de presente para Rosa uma de suas obras. Uma pedra em formato de rubi, na cor azul, com uma estrutura e pétalas em cobre e uma base espelhada. A escolha da cor trata-se de uma homenagem a esse momento dela Portela e ele acredita que algo que possa dar sorte.
Além da parte administrativa, Kennedy também conheceu os protótipos e viu de perto aonde são confeccionadas as fantasias. Com os olhos brilhando, mesclava momentos de muita fala com outros de silêncio total. A cada ambiente, olhava para todos os cantos, tentando absorver o máximo de detalhes que podia, E ainda no ateliê das fantasias, teve a oportunidade de experimentar uma das cabeças de um dos figurinos.
E quando esteve no primeiro andar do barracão, onde ficam as alegorias, não foi diferente. Ao bater o olho em um dos carros, Kennedy já o identificou e se comoveu na hora. Seu semblante demonstrava a importância daquilo que estava vivendo e presenciando.
“A visita ao barracão… É muito estranho, porque você poder chegar e ver… Eu tive essa experiência em outras escolas. Entrar aqui fez passar um filme na minha cabeça. Cada coisa que fui vendo, as pessoas trabalhando, a confecção, as coisas antes de estarem montadas, me deixou muito emocionado. Quando eu vi a alegoria da capela, em homenagem a terra natal da Clara, mexeu muito comigo. É uma coisa muito legal, além de participar, poder ver de tão perto as coisas. É muito emocionante”.
Kennedy já havia visitado outros barracões, além de ter participado de outros desfiles em homenagem a Clara, no entanto, ele garante ser essa a maior de todas as homenagens. Simplesmente pelo fato de ser Portela e Clara Nunes.
“Várias escolas já fizeram homenagens. Começou com a Vizinha Faladeira que foi campeã com “Clara Nunes, o canto de um povo”. Todas as homenagens que vieram sempre foram bacanas e emocionantes, porque cada vez a gente está lembrando a Clara. Mas sempre ficou um vazio, porque toda vez que outra escola homenageava a Clara, automaticamente nós fãs, e os portelenses também, pensa logo na Portela. E se questionava do porque da escola nunca fazer essa homenagem. Quando se fala em Clara Nunes, a gente liga logo a Portela. E vice versa. Então, essa homenagem é a maior de todas. A gente esperou 35 anos por esse enredo, tanto fãs da Clara, quanto os portelenses. Ver isso concretizado agora deixa uma sensação de dever cumprido. A Portela devia isso a Clara. A Clara a vida inteira foi Portela, nunca desfilou em outra escola. O amor dela pela Portela era incondicional”.
E após visitar o barracão, e ver de perto o que a Portela prepara para o seu desfile, Kennedy ficou feliz com que viu. Emocionado com o que está vivendo, e com o convite para desfilar, ele diz que só tem o que agradecer ao site CARNAVALESCO, por toda a projeção e repercussão da matéria:
“Em relação ao site CARNAVALESCO eu tenho que agradecer e parabenizar a todo mundo da equipe. A matéria me surpreendeu. Não só a mim. Praticamente 100% das pessoas elogiaram a matéria, que foi muito bem escrita. E muita gente, não só no Brasil como também no exterior, gente que eu não falava há muitos anos, me acessaram da Alemanha, da França, dos Estados Unidos, da Itália. Teve uma projeção muito legal”.

A Portela é a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval. A Majestade do Samba traz o enredo “Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá”, sobre a cantora Clara Nunes, que é assinado pela carnavalesca Rosa Magalhães.


Em meio a forte crise financeira e identitária que passa o carnaval das escolas de samba, as agremiações da Série A são as que mais sofrem em meios a súbitos cortes de verbas e a falta de estrutura de barracões. Em meio a tantas dificuldades, os
É difícil hoje em dia não associar dentro do universo do carnaval carioca e do carnaval de escolas de samba, em geral, a função de porta-bandeira a Selminha Sorriso. Com 30 anos carregando consigo o pavilhão de escolas de samba, desde sua estreia em 1989 pelo Império Serrano, Selminha se tornou uma referência para todas aquelas que sonham um dia defender o pavilhão de sua agremiação. E foi a partir de um sonho lá atrás, ainda menina, que tudo o que desejou virou realidade. Hoje, já são nove títulos conquistados ao lado da Beija Flor e mais um pela Estácio de Sá, logo em seu primeiro ano na escola.
“Eu não falo no sentido material apenas. Sou uma pessoa que levo uma vida simples, mas muito grata, muito feliz, porque eu olho pra trás e sei que os dias foram muito mais difíceis em alguns anos lá no passado. Acho que o carnaval realmente faz uma diferença muito grande na vida de quem leva a sério, de quem se dedica. O samba socializa, as escolas de samba ajudam a socializar, a integrar as pessoas em uma sociedade que às vezes é bem diferente da realidade delas porque o carnaval é visto como o maior espetáculo aberto do mundo. Hoje nós do samba somos respeitados, somos convidados para entrar e retornar e sempre deixamos as portas abertas”.
Gênio, sádico, comunista, subversivo, anarquista, imoral. Ao longo de toda sua carreira, Dias Gomes chocou a muitos com suas histórias e personagens, ganhando assim, todo o tipo de títulos e adjetivos. Dono de um texto crítico, muita vezes ácido, mas sempre com humor acima de tudo. Pai do realismo fantástico, foi o criador de figuras como João Gibão, Dona Redonda, Dirceu Borboleta e Viúva Porcina, que até os dias de hoje, se fazem presentes no imaginário de qualquer brasileiro. Através de microcosmos como Bole Bole, Asa Branca e Sucupira, Dias retratou o Brasil como nenhum outro escritor o fez. E é esse olhar sobre o país, representado pelas obras do autor, que a Unidos de Padre Miguel pretende levar para Sapucaí, em 2019.
“Esse enredo surgiu a partir da necessidade. Já se sabia que 2019 seria um ano de crise, já anunciada por tudo e por todos. Não que falar de Dias Gomes seja menos que qualquer outro tipo de enredo, não é isso. Só que é um enredo que me permitiria, como vem me permitindo, transitar em uma atmosfera artística um pouco mais barata que a dos outros anos, já que é um carnaval onde ninguém tem dinheiro. Nenhuma escola. Escolas riquíssimas estão se rendendo a recursos alternativos. E isso não está sendo diferente com a Unidos de Padre Miguel, que todo mundo diz que é uma escola muito rica. E já era um desejo meu falar de Dias Gomes, eu já tinha essa história guardada. Então, quando surgiu a oportunidade diante dessa crise, eu trouxe a tona essa ideia de levar, não o Dias Gomes propriamente dito, mas o Brasil segundo as histórias do Dias Gomes.”, conta o carnavalesco da escola, João Vitor Araújo.
A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da agremiação, e conversou com João Vitor Araújo sobre os preparativos da Unidos de Padre Miguel, para 2019. Durante a entrevista, João Vitor esclareceu um pouco mais a proposta do enredo da UPM, além de dizer que, durante as pesquisas, chamou a sua atenção descobrir a relação entre o carnaval e o homenageado, Dias Gomes.
“O que mais chamou minha atenção na pesquisa foi que ele era um apaixonado pelo carnaval. Ele era um escritor muito sério, então eu não imaginava que ele tinha esse carinho, essa paixão, pelo desfile de escola de samba. E ele tinha uma atenção enorme para as sinopses de escola de samba. Tanto que quando ele escreveu a peça sobre Getúlio Vargas, ele se baseou no roteiro, como eram chamadas as sinopses na época, de um desfile de escola de samba, no caso, a Mangueira”.
“Foram muitas histórias que ele escreveu. Eu li todos os livros do Dias Gomes para poder transforma isso em enredo. E eu tive de deixar muitas histórias de fora devido ao curto tempo que temos para nos apresentar. Temos pouquíssimos setores, quatro apenas. Fiquei muito triste de ter de deixar “O Santo Inquérito” de fora, a história de Branca Dias, mas eu não pude trazê-lo à tona, porque ele faria parte do primeiro setor. E a história do “Pagador de Promessas”, que será o nosso primeiro setor, já é uma tragédia, porque ele morre ao tentar entrar na igreja. E em “O Santo Inquérito” também. Branca Dias acaba morrendo queimada. Enfim, muita tragédia para um setor só, sem condições. Então tive de deixar essa história que é muito bonita, que é muito famosa, inclusive lançou a Regina Duarte no mercado artístico. E eu não tive condições, não tive como incluir. Fiquei muito triste”.
Os bastidores para o carnaval de 2019 não foram fáceis para as escolas de samba do Rio de Janeiro. Agremiações, de todos os grupos, foram afetadas por cortes de verba correspondentes a metade do valor anteriormente combinado. E se não bastasse à diminuição no repasse, as escolas sofreram com o atraso do mesmo. Na Série A, o drama foi intensificado devido às questões envolvendo a falta de estrutura dos barracões, que agravaram ainda mais o cenário de crise já instaurado.
“É um prazer poder trabalhar na Unidos de Padre Miguel, mas confesso que é desgastante trabalhar no grupo, na Série A, por conta de todo o descaso. Nós não temos um espaço adequado para poder fazer um carnaval. Sofremos muito com as chuvas de fevereiro. Perdemos praticamente uma alegoria inteira dentro do barracão, que teve de ser refeita por causa disso. Isso é tudo fruto de descaso. A gente já não tem uma verba que não é lá essas coisas. Na verdade, isso nem pode ser chamado de verba, tinha de ser chamado de ajuda de custo para o almoço. É um absurdo você conceber um carnaval com 250 mil reais. E exigem tanta qualidade, exigem um padrão altíssimo das escolas da Série A, dizem que tem que ser o novo Grupo Especial… Mas com esse canário, só se for lá na China. Aqui sem condições. Com esse valor que a gente recebe, já é um milagre colocar um carnaval na rua. Isso acaba desgastando. A escola é maravilhosa, as escolas são maravilhosas. Mas a forma como essas escolas são tratadas é inadmissível”.
“Desde o início, eu sabia que essa crise pegaria a gente com força total. Foi difícil começar, foi difícil de fazer, e está sendo difícil de terminar também. A gente está puxando daqui, esticando de lá, dando nosso jeito. Claro, sem esculachar o trabalho. Não tem nada mal feito e nem feito às pressas. É até engraçado dizer isso, já que nós começamos o barracão a praticamente dois meses do carnaval apenas. De fato, é um carnaval mais barato, mas a escola vai desfilar com a mesma imponência de sempre. A diferença é que optamos por recursos um pouco mais em conta do que os que utilizamos nos anos anteriores. Foi um carnaval que nós pechinchamos tudo. Até o tecido que custa cinco reais, que aparentemente é barato, a gente deu preferência para o que custa dois reais. Foi assim que a gente trabalhou para poder ajustar tudo isso no nosso orçamento”.
“Eu tenho uma ala de lobisomens que eu fiz a pelúcia do lobisomem de bucha de banho. Eu nunca tinha feito isso, eu vi em um filme. Saiu muito mais em conta, deu um pouco de trabalho, mas o orçamento ficou lá embaixo. No final, o resultado ficou maravilhoso, nem parece que é. Mas é só a pelúcia do lobisomem da ala, não o do carro alegórico. Ficaria inviável, em poucos dias, conceber uma pelagem gigantesca, feita com bucha. Dá muito trabalho, porque você precisa tratar, precisar deixar de molho, passar cola, até finalmente poder pintar”.
“O segundo setor eu falo de política e de religião. O povo brasileiro, infelizmente, é um povo que sente a necessidade de se apegar a algum tipo de crença. Às vezes, as pessoas pegam um mito e o santificam. Dizem que é um mito, e acabam o santificando, quando na verdade aquilo não é nem um santo, é um charlatão. Isso faz parte do dia a dia do brasileiro. Ele fala muito bem disso em “Roque Santeiro” (TV Globo – 1985), que todo mundo cultuava aquela imagem do Roque, o santo, quando na verdade o cara nem tinha morrido. Então, eu falo dessa necessidade que o brasileiro tem de se apegar a uma pessoa, a um líder. Além de falar dos dribles que os políticos dão nas pessoas. A vida no interior. Mostramos a Sucupira governada por Odorico Paraguaçu. E o que a gente vive hoje? Em um país, em uma cidade, em um estado governado por Odoricos Paraguaçus. Estamos cheios de Odoricos por aí”.
A Mocidade Independente de Padre Miguel não conquista um bicampeonato desde os anos 90. Por pouco não conseguiu esse feito no ano passado. Entretanto as notas no quesito fantasias acabaram tirando a escola da liderança da apuração e a jogando para o sexto lugar. Apostando em um novo desfile bem sucedido para voltar a vencer, a Estrela Guia desta vez deposita em uma estética que resgata os grandes carnavais da Mocidade para levantar o seu sétimo título do carnaval carioca. A começar pelo carro abre-alas, carregado de estrelas.
“Me sinto inquieto quando permaneço com a mesma visão estética. Pensei nesse enredo a quatro anos. É o meu primeiro enredo meu aqui na Mocidade. parece um castigo, pois quando eu pude desenvolver a minha proposta vieram essas dificuldades. É uma temática bastante enraizada na estética histórica da Mocidade. Quis fazer um carnaval mais clean, por conta dos recursos”, afirma.
“Ano passado a coisa começou a ficar atrasada com a questão dos ateliês e acabamos penalizados, mas não tive tantos problemas como tive esse ano. Eu não consigo nem descrever esse ano. Não tem precedentes o que estamos passando, não sei nem como cheguei até aqui. Nenhum aspecto foi fácil ou tranquilo. Fazer um carnaval sem um mínimo de recurso ou estrutura não tem como descrever”, desabafa.
“O fio condutor é a cosmologia. O homem procura entender o tempo através dos fenômenos naturais. A Mocidade é uma estrela e tem um nome que sugere eterna juventude. Não importa quanto tempo tem de idade, carrega no peito a eterna mocidade”, discorre.
“O menino tempo é implícito mas ao mesmo tempo conta a passagem do tempo. Eles mesmos criaram isso. É burrice você ser 100% preso à sinopse. O compositor é parte do processo artístico. Antigamente as escolas davam os temas e os compositores criavam os sambas e aí surgia o desenvolvimento do enredo. Se não ferir a estética eu sou parceiro dos poetas”.
“Eu tenho bons ouvidos. O que as pessoas observam e me passam me servem como sinal de alerta. Todo mundo hoje tem entendimento da mecânica de julgamento. Se não estiver bem defendido o enredo, não dá para vencer. O Viriato Ferreira falava que os carnavalescos complicavam o carnaval, que ele é simples. Simplicidade não é necessariamente pobreza”.
“A abertura da Mocidade resume a proposta. O passar do tempo. O abre-alas é a invenção do tempo, através do Deus Chronos. Como se tivesse brincando com astros e estrelas, fabricando o conceito de tempo, inventado pelo homem. Passamos pela necessidade de medir o tempo através de equipamentos, como relógio de sol, água, areia. Começa a dividir em segundos e minutos o passar do tempo. Não satisfeito cria mecanismos mais sofisticados de marca, como a criação do relógio. Ele fraciona o tempo dele, inventa que tem de dormir 8 horas. O homem se torna escravo do próprio tempo. Não sabemos realmente quanto tempo a gente tem. Em quanto tempo se pinta um quadro, se compõe uma música? O homem esquece de viver. Os momentos marcantes da Mocidade encerra o nosso desfile. Os campeonatos impregnados na memória dos independentes”.
“O enredo do carnaval de 2019 da Rosas de Ouro vai falar sobre a história e cultura Armênia. Logo quando lançou nós tivemos a preocupação porque existe um certo preconceito com enredos considerados ‘CEP’. A Armênia tem uma cultura que as pessoas desconhecem, elas não sabem que lá foi o local onde a Arca de Noé ancorou. Foi também a primeira nação cristã, tem o alfabeto próprio, isso aguçou a minha vontade de fazer um enredo sobre”, ressalta.
“Estava no processo do carnaval de 2018, e assistindo ao documentário do Globo Repórter sobre a Armênia, me interessei pela cultura e trouxe a ideia pra escola. Nós tivemos a preocupação até no título do enredo, porque as pessoas iam achar logo de cara que o tema existe por questões financeiras, e não é. A Sociedade Rosas de Ouro tem parceria com a BESNI, e nem sabia que os donos são da Armênia. Pensei em colocar o título do enredo ‘Viva Hayastan’, que quer dizer ‘Viva Armênia’, e colocamos esse nome pra provocar a curiosidade das pessoas, de ir pesquisar e isso surtiu efeito. Antes de criticarem, elas procuraram saber o significado”, explica.
“A gente fala de uma civilização que tem mais de três mil anos, e foi um desafio condensar essa história em cinco carros alegóricos e dezenove alas. Assim que tive a ideia do enredo, procurei a comunidade de Armênios no Brasil, localizada em Osasco. O secretário de cultura me ajudou muito com o processo de pesquisa, pegamos os pontos principais. Mesmo as pessoas não conhecendo a cultura do país, nós escrevemos de uma forma que ela consiga entender o enredo. Vocês vão ver uma escola muito fiel à história”.
“Graças a Deus é o carnaval mais adiantado dos últimos três anos. Primeiro que a gente está voltando com o padrão Rosas de Ouro e segundo que esse enredo me possibilitou a mostrar uma cultura nova. Estou com uma equipe que trabalhou comigo em outras escolas e que não tive nos últimos três anos. Temos tudo pra fazer uma grande carnaval”.
“Eu sou muito criticado com os meus dois últimos carnavais, no primeiro não tanto porque a escola acabou ficando entre as campeãs. As pessoas costumam falar ‘cadê o padrão Rosas de Ouro’ e ‘cadê o padrão André Machado do Pérola Negra’. Todo mundo sabe da questão da crise, a escola teve muitos problemas nos carnavais passados e a gente procurou colocar todas as dívidas em dia pra poder voltar com a qualidade nesse ano e com força total em 2020”.
“Se a gente fosse seguir a ordem cronológica da Armênia, teríamos uma parte que não seria tão legal de contar, que é a história do genocídio que aconteceu em 1915. Não consigo imaginar como a gente iria contar uma parte tão triste, onde no desfile tem pessoas alegres, contentes, mandando beijo pra arquibancada e sambando. Então a gente colocou essa parte logo no inicio, até pra justificar a parte da vinda desse povo ao Brasil. Pra você ter uma ideia do tamanho disso, existem treze milhões de armênios no mundo, mas apenas três milhões moram lá, por isso esse povo está presente nos cinco continentes. Logo em seguida tem uma ala dizendo ‘apesar de tudo que eles sofreram, hoje eles estão presentes pra contar a história’, e a partir disso a gente começa a desenvolver o nosso enredo. O abre-alas vai falar do Éden. Não existe uma comprovação histórica de que o Éden foi na Armênia, mas vertentes da bíblia acreditam que sim. Vamos fazer uma referência ao paraíso, o dilúvio e a Arca de Noé. Logo em seguida tem alas que são os povos que formaram a Armênia. As baianas vão falar da Deusa Asterix, que por coincidência foi uma Deusa que distribuía rosas como símbolo do amor”.
“Aqui a gente vai falar da chegada do cristianismo, pra quem não sabe foi São Judas Tadeu e São Bartolomeu que apresentou o cristianismo para os Armênios, mas como eles adoravam os Deuses pagãs, logo de início não foi aceito pela grande maioria. Depois entrou a figura de São Gregório, na época tinha partes que queria viver no paganismo e São Gregório não aceitava isso. Ele foi preso num poço, viveu por 14 anos. Nesse tempo apareceu 38 virgens que vieram de Roma, o rei se apaixonou por uma delas e ela não correspondia. O rei ficou muito doente, apaixonado, e o único jeito de se curar era soltando São Gregório. Ele foi solto e celebrou uma missa para o rei, onde foi curado. O rei pergunto para Gregório o que ele poderia fazer pra recompensar, ele respondeu que queria que a Armênia se tornasse um reino cristão, e à partir daquele momento todos se tornaram cristão. Existe algumas batalhas que também tiveram com os cristão presentes no setor. Existem muitos locais pagãos que viraram igrejas”.
“Vamos finalizar com o carnaval Armênio, que acontecesse na mesma data que o nosso, mas como lá está no inverno, as pessoas costumam usar roupas mais pesadas, mas existem máscaras e eles confeccionam bonecos. Como é uma nação extremamente cristã, eles pulam os quatros dias de folia e na quarta-feira de cinzas jogam o boneco no rio como renuncia do profano. O último carro é a figura do Seu Basílio como representante maior da nossa escola abraçando o brasão Armênio. Hoje onde fica a praça Armênia e a estação de metrô Armênia, era o local onde os sambistas se concentravam para desfilar na Tiradentes. Até isso indiretamente a Armênia tem uma ligação com nós, paulistanos. Faremos uma homenagem aos fundadores da escolas que desfilaram na Tiradentes. A gente decidiu fechar dessa maneira pra mostrar a alegria desse povo”.
“Eu sou carioca e cheguei aqui em São Paulo há 20 anos pra desenvolver o carnaval da Barroca Zona Sul, logo depois eu fui pra Imperador do Ipiranga, passei pela Nenê, Império de Casa Verde, Pérola Negra, X-9 Paulistana e há 3 anos estou no Rosas de Ouro. Eu sou formado em desenho de moda e estou no carnaval desde os 13 anos, onde ajudava os carnavalescos do Rio de Janeiro a desenvolver os seus projetos, como na Mangueira, Portela, Paraiso do Tuiuti. Mas me firmei mesmo aqui, constitui família e não fiz outra coisa além do carnaval. Eles sempre tiveram carinho com profissionais do Rio de Janeiro, e com isso eles fizeram eu acreditar que o meu sucesso seria em São Paulo. Estou muito contente e pretendo continuar a minha história como carnavalesco aqui”.
“Quando eu fechei com a Mancha eles queriam falar da saga dessa guerreira negra. Idealizamos uma sinopse onde uma negra nasce princesa no Congo, ela é escravizada pela cobiça do invasor europeu que invadiu sua terra para roubar a maior riqueza, que era o Marfim. Ela cresce e na sua juventude é tirada das suas origens e feita escrava, ela cruza o oceano sem saber onde iria parar. Durante a viagem é marcada no corpo, é violentada, carrega em seu ventre o fruto da violação. Ao chegar no Brasil, se encanta pelas terras, pede as bençãos dos orixás e é recebida por Iemanjá. Em Pernanbuco, ela vê as mãos negras atuando nas plantações, no café, da cana-de-açúycar. Na senzala ela pede aos santos brasileiros para que abençoe e vai a luta, não só por ela, e sim pra fazer que o seu povo tenha a libertação. Ouve falar de Palmares onde poderia expressar os seus sentimentos, e lá fica cada vez mais forte, e se torna uma das pessoas que coordena os Palmares. Lá tem seus filhos, sendo que um é a história do Brasil, sem Aqualtune, não teríamos um dos personagens principais que é Zumbi dos Palmares. O papel dessa mulher a gente coloca como libertação para todas as mulheres que sofrem de violência, abusos e sempre vão em busca de liberdade. A protagonista do nosso enredo é inserida numa realidade atual, o mundo mostra isso. Todos nós somos iguais, todos temos os mesmos direitos e os mesmos deveres sem distinção de cor, de raça, de religião”.
“Eu acredito que é um desfecho nosso e uma forma muito poética de enfatizar uma parte da história do Brasil, mas também com foco no grande orixá que está nos guiando”, finaliza.
“As pessoas acham que o patrocínio é todo no carnaval, mas se tem um investimento na estrutura. Acabou o carnaval em Fevereiro, em Março já estávamos ensaiando. Pra ensaiar você abre a quadra, tem a luz, tem a água. A escola montou uma infraestrutura pra receber os seus componentes durante um ano de uma forma legal, e tem os investimentos do próprio patrimônio da quadra. Pra que a gente pudesse fazer um carnaval maior, você tem que montar uma estrutura onde tem que aumentar o tamanho do barracão, tudo isso também está inserido na verba que a Crefisa disponibilizou. Tem coisas que você não pode pagar com a lei Rouanet. O investimento é fantástico, mas você precisa de uma boa gestão pra administrar. Houve um investimento muito forte. Quando você ensaia o ano todo, quando você traz o componente ao ano todo pra dentro da quadra, isso é um investimento”.
É inevitável não esperar um carnaval competitivo da escola. Cauteloso sobre resultado, Jorge assegura estilo detalhista nas alegorias.
“Na verdade não é só aumentar o bit, é preciso conciliar três quesitos: Ritmo, dança e canto. O nosso samba precisava de um bit mais elevado para que a nossa evolução acontecesse de uma forma mais satisfatória para o desfile, são três coisas que são totalmente juntas e não tem como separar. Você tem a bateria, tem o samba-enredo e a evolução do componente, houve um consenso não só na parte de bit, mas nós trocamos as afinações dos surdos pra um tom mais apurado, com distinção entre os outros naipes. É uma medida para que tudo aconteça de maneira satisfatória. As pessoas estranham, mas é tudo técnico, nós temos que trabalhar os noves quesitos em conjunto”.
“Não existe segredo, o que existe é o comprometimento muito grande do profissional com a agremiação com a realização do trabalho, eu amo o que eu faço. Todos os atributos que eu tinha no cotidiano insiro no trabalho, a regência me ajudou muito nessa parte harmônica, me ajudou muito na parte da evolução, isso ai é o meu segredo. Tenho uma linguagem muito didática no motivacional com o componente”.
“Nesse setor temos o negro transformado em escravo. Existem fatos de violência com a mulher grávida até cruzar o mar vermelho de dor, porque o negro é trazido para o mar, eles choram e tem suas lágrimas transformadas em sangue”.
“Eu sou da região serrana do Rio de Janeiro. Alguns trabalhos meus no Rio foi Portela, Vila Isabel, depois vim pra São Paulo em 1999 pra fazer aquela homenagem ao Brasil dos 500 anos. Aqui passei por quatro agremiações, foi Gaviões da Fiel, Pérola, Rosas de Ouro no qual fiquei muito tempo e Império de Casa Verde. Todas escolas que passei tive títulos, e agora uma nova experiência na Mancha Verde. Junto com meu filho fizemos Independente e ano passado subimos com o Águia de Ouro. Eu acho que essa trajetória é vitoriosa, mas o que me diferencia é o trabalho que faço com a comunidade. O trabalho de carnavalesco nada mais é que uma coisa que faz parte de dois quesitos, o trabalho motivacional que eu faço com os componentes é o diferencial, e esse trabalho é o que as escolas necessitam. É um trabalho exaustivo mas a gente vê que tem um resultado enorme”.