Comissão de frente e leitura do enredo são destaques no desfile da Alegria da Zona Sul
Por Rodrigo Coutinho

A Alegria da Zona Sul foi a segunda escola a pisar na Avenida na chuvosa noite desta sexta-feira. A agremiação oriunda da Zona Sul, demonstrou leitura clara e objetiva do enredo “Saravá, Umbanda’’, desenvolvido pelo carnavalesco Marco Antonio Falleiros. Ao mesmo tempo, porém, ficou claro a limitação financeira da escola para produzir fantasias e alegorias. O ponto negativo mais latente foi o quesito evolução. Dois buracos aconteceram nos dois primeiros módulos e a vermelha e branca precisou “apressar o passo” na reta final. Mesmo assim, terminou o seu desfile com 56 minutos, um acima do máximo permitido. A comissão de frente também se destacou!
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Comissão de Frente

O grupo comandado por João Paulo Machado representou uma verdadeira “falange espiritual”. Diversas entidades foram muito bem representadas pelos integrantes. As fantasias eram simples, mas de leitura muito clara e a representação corporal bem perto da perfeição, com direito a gritos característicos das entidades. A coreografia tinha dois momentos em que uma bandeira era mostrada. No início da apresentação, a imagem de Virgem Maria. No fim da participação, a imagem de Jesus. Cinco integrantes representavam trabalhadores do “Canzuá”. O público reagiu positivamente à apresentação, principalmente no terceiro módulo de julgadores.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal da escola, formado por Diego Nascimento e Thaís Romi, venceu a dificuldade da pista molhada e da roupa consequentemente pesada. Apresentou um bailado bem clássico e cheio de sincronia. Diego teve pontuações bem inerentes à letra do samba em alguns momentos da apresentação. Se destacou bastante. Já Thaís teve dificuldades com o aparente peso da saia, mas mesmo assim não chegou a comprometer. A fantasia de ambos era extremamente simples e o costeiro dela poderia ter mais volume para acrescentar no conjunto da dupla. Eles representaram a Divina Luz.
Harmonia
O canto da escola foi irregular. Duas alas, porém, se destacaram no aspecto canto. As baianas e a sétima ala do desfile (Caravana de Ciganos), Já as alas “Princípio Religioso-Amor’’ e ‘’Caboclo das 7 Encruzilhadas’’ passaram com pouquíssimos componentes cantando o samba. Em suma, o refrão principal era bastante cantado, mas o restante da obra não apresentou um nível de canto satisfatório por parte dos componentes. O carro de som comandado pelo intérprete Igor Vianna esteve bem e entoou o samba de forma correta.
Evolução

Esteve neste quesito o Calcanhar de Aquiles da agremiação. Nas duas apresentações da bateria nos dois primeiros módulos, a frente da escola não parou e dois buracos foram abertos nos dois momentos. O ritmo da escola na pista esteve bem irregular também, acima do normal. Um início lento, com o início da caminhada aos cinco minutos de desfile, e depois as alas praticamente sem parar após a entrada da bateria no segundo recuo. O ritmo de desfile voltou a ser mais lento após a saída da bateria do segundo box. A ala se apresentou no último módulo e a escola se esforçou, mas acabou estourando o tempo em minuto. A desenvoltura dos componentes na Avenida foi satisfatória. Grande parte dos integrantes evoluiu de forma natural.
Enredo

Importante contar a história da centenária religião! Marco Antonio Falleiros, mesmo enfrentando um nítido problema de execução do trabalho, fruto do momento financeiro da maioria das escolas, misturou originalidade e clareza de leitura em diversas fantasias e alegorias. O tema fez um ‘’passeio’’ por entidades e linhas da umbanda de forma bem leve.
Fantasias
Outro ponto irregular do desfile da Alegria da Zona Sul. Em algumas, como a da ala das baianas (Sabedoria da Vovó Maria Conga), da bateria (A Magia dos Pretos Velhos) e crianças(Alegria da Ibeijada) por exemplo, houve muita originalidade e execução a contento. Já outras, como Ondinas, Princípio Religioso: Amor, e Santo Antônio da Batalha, a execução deixou bastante a desejar no nível visto na Série A. As fantasias das alas que vieram logo após o carro abre-alas (Caboclos de Pena, Mandingas dos Baianos e Boiadeiros) tiveram realização bem parecida, mudando pequenos detalhes e as cores, deixando esta parte da escola monótona visualmente.
Alegorias e Adereços

Mais um quesito em que limitação financeira atrapalhou. Os dois primeiros carros apresentaram leitura fácil e poucas falhas de acabamento mais consideráveis. Já o tripé Povo da Rua e o terceiro carro da Alegria – A Purificação em Águas Sagradas – não acompanharam o cenário. Passaram com esculturas tendo suas pinturas se desfazendo ao longo do desfile e sem iluminação que pudesse valorizar o conjunto.
Samba-Enredo
O samba da Alegria esteve longe dos mais comentados da Série A no período pré-carnaval, mas funcionou bem no desfile. O carro de som comandado por Igor Vianna cumpriu bem o seu papel, mantendo a tonalidade e dinâmica da melodia.
Outros Destaques
A escola trouxe muitas musas. Elas estiveram quase sempre à frente das alegorias e ocuparam bem este espaço. O destaque delas foi Thais Fidélis, vestindo uma fantasia bem feita e representando o papel de “indígena” com bom humor.
Debaixo de temporal, Unidos da Ponte abre com desfile forte no rendimento do samba e leitura do enredo
Por Geissa Evaristo
A Unidos da Ponte volta à Série A no Carnaval 2019 reeditando um de seus mais importantes enredos: “Oferendas”, de 1984 fazendo reverência aos ritos feitos para cada orixá nas religiões de origem africana, como a Umbanda e o Candomblé. A escola teve a missão de abrir os desfiles de sexta-feira de carnaval depois de um dos maiores temporais da história da Sapucaí com cerca de 30 minutos de atraso. O desfile teve duração de 54 minutos.
Trazendo a força do seu samba como seu grande trunfo, 35 anos depois, na Marquês de Sapucaí, a obra com melodia envolvente e letra didática, além de conhecida pelo público que acompanhou o primeiro desfile desta noite embalou o desfile que desafiou a chuva. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, no entanto, foi o quesito mais prejudicado da noite. A dupla sofreu com o contratempo em todas as cabines dos módulos de julgadores.
Sem deter de muitos recursos financeiros, a escola da Baixada Fluminense, a azul e branca de São João de Meriti apostou em uma plástica simples. Os carnavalescos Rodrigo Marques e Guilherme Diniz apresentaram uma releitura do que foi apresentado anteriormente, e não exatamente uma reedição. Em sua segunda passagem pela Sapucaí, “Oferendas” trouxe uma nova estruturação e organização de enredo, além de uma estética atualizada, com toques mais modernos, se comparado ao que foi apresentado em 1984.
Comissão de Frente

A comissão de frente dos coreógrafos Daniel Ferrão e Léo Torres apresentou “Agô para os meus orixás”. O grupo representou os filhos de santo praticando o ritual de oferenda “Padê” para saudar Orixá Exu Bará e abrir os caminhos. O grupo apresentou uma coreografia sem erros, no entanto a saia da fantasia de uma integrante desmontou na segunda cabine de julgadores e se apresentou da mesma forma frente as outras cabines. Partes da decoração imitando palha no tripé também desmancharam no decorrer do desfile, deixando rastros após a apresentação frente às cabines. Com a Sapucaí ainda fria e com chuva intensa, o grupo não empolgou o público.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Yuri Souza e Camyla Nascimento foram os que mais sofreram com o temporal que atingiu a Sapucaí no início dos desfiles da Série A. A dupla com um belo figurino representava “O sagrado oráculo de Ifá” e trazia os guardiões vestidos de “O jogo de Búzios”, apresentados pelo síndico da passarela do samba, Machine. A bandeira de Camyla chegou a enrolar algumas vezes tanto na primeira, quanto na segunda cabine de jurados. Sem sintonia, o mestre-sala estendeu a mão para a porta-bandeira que não retribuiu em ambas cabines. O bailado do casal estava inseguro, muito provavelmente pelo risco de virem a cair com a pista completamente molhada.
Harmonia / Samba-Enredo
O samba foi o grande destaque do desfile da Unidos da Ponte que escolheu a obra por sua força. A obra foi cantada por componentes e público, mas faltou explosão. Desfilar com um samba-enredo reeditado costuma colaborar para a Harmonia da escola e deu certo. No entanto, o canto dos componentes ficou aquém do esperado para um samba-enredo clássico da agremiação. As alas poderiam ter cantado com mais vontade o samba, porém as condições do desfile podem ter prejudicado o ânimo e garra dos componentes que tiveram uma concentração para o desfile com chuva muito intensa. Intérpretes oficiais Lico Monteiro e Tiganá fizeram um excelente trabalho no carro de som da azul e branca de São João de Meriti inflamando os componentes o tempo inteiro a cantar.
Enredo

Com um enredo visualmente fácil de interpretar, a escola teve leitura clara tanto em alegorias, quanto em alas. A proposta dos carnavalescos estreantes. A escola respeitou a construção original da Ponte de 1984, mas trazendo características próprias em tudo. Como fantasias novas, uma leitura estética diferente, a construção dos carros. Tudo trabalhando com a questão da fé e da prosperidade.
Evolução
O desfile da Unidos da Ponte contou com uma boa evolução. Não foram percebidos buracos, nem grandes espaçamentos entre as alas que também tiveram suas demarcações bem definidas. A escola nem acelerou, nem andou rápido demais, mantendo um andamento regular. A agremiação encerrou seu desfile com 54 minutos. Componentes soltos, só faltou empolgação.
Fantasias

A escola vestiu seus componentes de maneira simples. O conjunto de fantasias tinha leitura e quase nenhum luxo. As fantasias ficaram bem abaixo das alegorias, porém não foram percebidos problemas de acabamento nas alas, ainda que com o temporal que cai durante o desfile. Somente uma baiana foi vista sem o arco da saia. O mesmo aconteceu na comissão de frente. As fantasias demostravam facilidade para o componente desfilar, é bom destacar.
Alegorias

As alegorias da agremiação estavam sem nenhum tipo de problemas de acabamento e continham efeitos de luz. Destaques para o carro abre-alas “Um culto ancestral afro brasileiro” que trazia os escravos como composição, a cerâmica como trabalho cenográfico e o uso de materiais rústicos. A quarta e última alegoria também chamou atenção uma escultura central caracterizada de Oxalá e uma homenagem a Mãe Stella de Oxóssi, que faleceu em meados de dezembro de 2018. Todo confeccionado na cor da escola.
Bateria
A bateria de mestre Vitinho veio vestida de Ogans num figurino simples e leve facilitando a execução dos ritmistas que durante as passagens frente as cabines de julgadores abaixavam-se. A rainha de bateria, Rosana Farias vestiu-se com uma das mais belas fantasias apresentadas no desfile.
Líderes religiosos desfilam no abre-alas da Alegria da Zona Sul e clamam pelo fim da intolerância religiosa
Por Gabriel Leal
Sob forte chuva, a Alegria da Zona Sul levou para avenida o enredo “Saravá, Umbanda” nesta sexta-feira de carnaval, sendo a segunda escola a escola a desfilar. Na missão de exaltar a única religião fundada no Brasil, a Alegria convidou líderes religiosos e praticantes não só da Umbanda, como também do Candomblé, para integrar o desfile em seus carros, alas e composições.
Com uma abertura abençoada pela linhagem dos Pretos Velhos, a escola trouxe em seu abre-alas a simplicidade e o aconchego de um “Congá”, uma casa de Umbanda, o popular terreiro. Uma grande escultura de um preto velho e esculturas de jarros de porcelana davam o tom do Congá azul e branco do carro. A escola embarcou na proposta como manda o figurino, trazendo os componentes de pés descalços e trajando a cor oficial da religião: o branco.
Por conta da opção estética de recriar uma casa de Umbanda, o carro abre-alas apresentava uma grande área baixa, na qual os componentes desfilaram livres para evoluir na alegoria. Um dos convidados para correr a gira da Alegria da Zona Sul foi o Pai de Santo Marcelo do Caboclo Tanaju, dirigente de um terreiro de Umbanda em Realengo. Ele convidou todos os filhos de santo de seu centro, que o acompanharam no desfile.
“É uma festa grande. Somos uma família, nada mais justo do que a gente comemorar junto. Eu acho muito importante você ter, hoje, o sincretismo da nossa religião sendo representado na própria avenida. Trabalhamos por este reconhecimento há anos. Não temos que ter briga, ter preconceito, temos que nos unir e formar uma comunhão só. Porque sofremos uma discriminação constante nas ruas, e isso tem que acabar”, protestou o líder religioso estreante na Sapucaí.

