Por Fiel Matola. Fotos: Allan Duffes
O relógio marcava 01h30 neste domingo de carnaval, quando Luizinho Andanças iniciou o samba da escola de São Gonçalo de 2019. A comunidade foi protagonista mostrando que o Tigre é sim uma das favoritas ao título, mas o quesito evolução pode tirar seu sonho de ir para o Grupo Especial. Com duração de 52 minutos, a força dos componentes e a emoção do enredo tomaram conta do desfile. Ponto alto também para o casal de mestre-sala e porta-bandeira que arrancou aplausos do público presente.
Antes do início do desfile da Porto o presidente Fábio Montebelo falou sobre o fogo no barracão no período pré-carnavalesco, além de agradecer a ajuda de Capitão Guimarães e Marcelo Calil, assim como o prefeito de Maricá. O presidente ainda pediu para a comunidade cantar e honrar São Gonçalo, e disse que era hora de levar título para escola.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Rodrigo França e Cintya Santos representavam “O Reino Ancestral de Daomé”. Lutando para continuar com seus 40 pontos conquistados em 2018, o casal misturou o bailado conservador com o moderno. Utilizaram algumas coreografias em partes do samba. Os movimentos do mestre-sala e a graciosidade da porta-bandeira foram de impressionar, principalmente, no momento em que eles apresentavam a escola, um bonito gesto deixando a essência da dança clara. O final do giro anti-horário foi perfeito. Parte positiva dos muitos giros feitos por ela, em todos os módulos o casal foi aplaudido. No segundo módulo, no início da apresentação a bandeira deu uma leve encostada no seu esplendor de Cyntia, mas foi muito rápido, não tirando o brilho da apresentação.
Harmonia
O Tigre rugiu na Sapucaí com um canto forte, a comunidade cantou muito. O samba na voz de Luizinho Andanças, acompanhado pelo seu carro de som, mostrou que o casamento entre a escola e o intérprete sempre deu certo e está em seu ápice. Ponto positivo para as alas iniciais que cantaram bastante, além da ala “O teatro paulista: O poder negro” e a ala que representava a novela “O Clone”. Nos dois últimos módulos a escola correu, mas, a garra foi tamanha que a comunidade não parou de cantar.
Samba-Enredo
O samba foi abraçado pela comunidade de São Gonçalo. Com a letra dentro do enredo e impulsionando pelo canto forte dos componentes funcionou na avenida. Ponto mais que positivo para o refrão central do samba: “No cinema novo fiz brotar/ Resistência popular/Eu sou pitanga!/Na tela a pele negra reluz/Um gingado que seduz/Eu sou Pitanga!”
Alegorias e Adereços
O conjunto alegórico da Porto da Pedra era composto por quatro alegorias. A primeira alegoria representou “Salvador de Toda a fé e de todo o santo”. A plástica mostrou o sincretismo religioso da cidade, o Tigre imponente em preto e branco estava rodeado das igrejas da cidade, mas o corpo da escultura destoava da cabeça que estava mais limpa. Esculturas dos filhos de Gandhi com vasos completavam o início do carro. Próximo ao segundo recuo de bateria o carro abre-alas ficou “empenado” para esquerda, resta saber como o jurado do último módulo verá.
A segunda alegoria da Porto da Pedra foi uma representação alegórica de um Quilombo, numa alusão ao filme do Cacá Diegues de 1984, e também, uma associação a luta pelo Cinema Nacional. A terceira alegoria trouxe os familiares e amigos. Estavam Rocco Pitanga, Camila Pitanga, Zezé Mota, Milton Gonçalves e outros. A última alegoria tinha inspiração na boemia carioca, onde no primeiro plano, veio o tradicional chapéu de malandro e o homenageado.
Evolução
O quesito atrapalhou o rendimento da Porto da Pedra. A escola acabou abrindo um grande clarão na pista com o problema do carro abre-alas. Depois o efeito sanfona aconteceu, além de grande correria. A ala de passistas, por exemplo, passou muito rápido pelo terceiro módulo, a bateria também entrou no recuo com uma rapidez muito grande.
Para piorar, como a escola correu, o terceiro carro, que já tinha dado problema com fumaça na concentração ficou para trás e houve mais um clarão em frente ao módulo três. Porém, no que se diz empolgação do componente podemos apontar como positivo, principalmente, nos primeiros módulos. Ponto positivo para as baianas da escola e os passistas que deram um show à parte, com coreografias e o samba no pé que rolou solto.
Bateria
Com bossas arrojadas e dentro do samba, mestre Pablo ousou em sua bateria. Pode-se notar paradinhas dentro do samba. Caracterizado como Benedita da Silva, esposa de Pitanga, o comandante da bateria chamou atenção. Vale notar que a bateria Ritmo Feroz passou muito rápido nos dois últimos módulos, mas fez suas paradas para apresentação, mais rápidas do que nas outras cabines. Ponto alto para a parte do samba “subo a ladeira do Pêlo, a batucada começou, tem capoeira”, com uma batida afro, relembrando a batucada baiana.
Enredo
Do carnavalesco Jaime Cezário, o enredo “Antônio Pitanga, um negro em movimento!”, foi divido em quatro setores, “Primeiro Movimento – Salvador”, lugar onde o homenageado nasceu, “Segundo Movimento – O cinema”, apresentando o amor de Antônio pela sétima arte, “Terceiro Movimento – Teatro e Televisão”, pincelando os trabalhos do homenageado e o último setor “Quarto Movimento: Rio de Janeiro”, com uma proposta clara onde cada expectador via o desfile e entendia o proposto.
Fantasia
As fantasias da Porto da Pedra foram de fácil assimilação, muito bem acabadas e mostrando claramente o enredo. Ponto muito positivo para as alas “a educação que vale ouro”, “O teatro paulista: o poder negro” e a ala “O Pagador de Promessas” comandada pelo muso Fábio Alves Deitando no chão, ajoelhando e com uma coreografia forte, a ala chamou atenção no desfile.
Outros destaques
A rainha de bateria Kamila Reis mostrando simpatia e samba no pé. Antônio Pitanga e seus convidados, esbanjaram alegria e muito simpatia e relação com o público presente ao Sambódromo.


O futuro da escola de samba Unidos de Padre Miguel ecoou ainda mais a homenagem ao novelista Dias Gomes, na madrugada de sexta-feira. Cerca de 60 crianças da ala “Santinhos e Santinhas de Barro” vestiram as fantasias e encararam a chuva para estar no Sambódromo com conhecimento de causa do assunto. A coordenadora da ala Jaqueline Santos explica que elas estão ali para aprender e garantir o futuro da agremiação. Vestidos de santinhos de barro – Nossa Senhora de Aparecida e São Francisco Barroco -, eles representaram a pureza da criança e a devoção por imagens de santos esculpidos em barro.
A Unidos do Porto da Pedra retratou em suas alas e alegorias toda a trajetória do ator Antônio Pitanga, que atuou em mais de 50 longas e mais de 30 novelas. Além da carreira do baiano, a escola também falou das amizades e amores que o artista cultivou durante sua vida. Entre as alas, havia uma sobre a Mangueira, escola de coração do Antônio. As baianas ainda representaram Maria Escolástica, mãe de santo, conselheira e amiga de Pitanga.
A ala “O Rio do Mestre Cartola e da Mangueira” teve sua fantasia inspirada no traje da comissão de frente da verde e rosa de 1977, quando o grandioso Mestre Cartola apresentou a agremiação a Antônio. Desde este dia, a Mangueira se tornou um dos maiores amores do ator.

Pelo segundo carnaval consecutivo, a comissão de frente da Estácio de Sá veio sob o comando da coreógrafa Ariadne Lax. Com o nome de “A fé que emerge das águas” a abertura se debruçou sobre a história da origem do Cristo Negro do Portobello, de uma apresentação que misturou dança e encenação.
A abertura arrebatadora tinha a sua continuação com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, José Roberto e Alcione. Vestidos com a fantasia “O sagrado”, em cores predominantemente laranja e vermelha, eles trouxeram em seu figurino o símbolo do Sagrado Coração, fazendo referência a fé católica comum tanto a panamenhos como a brasileiros. A fantasia de Alcione também teve um outro detalhe em especial. A porta-bandeira ao invés de vir com um costeiro, como veio o mestre-sala, veio com um véu rendado, que corroboraram na caracterização e na mensagem.
Todas as alas passaram com componentes cantando muito a obra de Alexandre Naval, Edson Marinho e companhia. Em nenhum momento a escola deixou de cantar. O carro de som, comandados por Serginho do Porto foram fundamentais para dar gás aos integrantes da Estácio para não deixar o samba e o canto cair.
A Estácio teve uma evolução acelerada, devido ao tamanho de seus carros e ao grande contingente de pessoas da escola. No entanto, não correu em nenhum momento de sua apresentação, além de ter mantido o mesmo ritmo do início ao fim. As alas também estavam bem arrumadas e enfileiradas, mas sem deixar de brincar e pular carnaval.
O samba-enredo da Estácio de Sá foi um dos grandes destaques entre as obras do grupo no pré-carnaval. Com uma letra poética e que conquista o público pela emoção, sua passagem pela Marquês de Sapucaí foi de arrepiar. O canto das alas foi fundamental para o samba acontecer, e o ritmo mais cadenciado da bateria colaborou para uma apresentação ainda melhor.
A Estácio de Sá buscou em uma das maiores procissões católicas do mundo, o seu enredo para 2019. Desconhecido em terras tupiniquins, o Cristo Negro de Portobello, é uma das maiores manifestações de fé, que leva milhares de fiéis as ruas todos os anos. Ao desenvolver seu desfile, a Estácio não se restringiu ao âmbito religioso, e expandiu seu enredo para falar também do Panamá e da relação do país da América Central, e da fé que eles têm, com o Brasil e a fé do brasileiro.
O conjunto alegórico da Estácio se destacou pelo tamanho grandioso. Sem erros de acabamento, as alegorias não se utilizavam de materiais muito caros ou mesmo luxuosos em sua confecção. Porém, todos se destacaram pela solução encontrada e o impacto visual conseguido.
As fantasias seguiram o mesmo caminho das alegorias. Um conjunto sem luxo, mas muito bem resolvido. As plumas deram lugar para o acetato, e nem por isso a qualidade do espetáculo foi afetada. O requinte deu lugar a criatividade, e a fantasias de fácil assimilação de seu significado.
A bateria Medalha de Ouro contou com o retorno de mestre Chuvisco, para o carnaval desse ano. Com os ritmistas fantasiados de “Presidente Roosevelt”, o figurino teve um excelente acabamento e não atrapalhou no desempenho dos ritmistas.
Com a fantasia “A Majestade da Soja”, Leyla Barros fez a sua estreia à frente da bateria medalha de ouro, e foi um dos destaques. As senhoras da ala das baianas da Estácio, vestidas de “Pássaros Resplandecentes”, defenderam muito bem o samba no gogó, além de terem arrebatado o público com o belíssimo figurino em vermelho. A ala de passistas, com o figurino “Exército americano”, também roubou a cena com muito samba no pé e na ponta da língua.