Por Nathália Marsal

O aviso “Promoção imperdível: aluga-se baiana” na fantasia das baianas da São Clemente parecia mesmo fazer uma oferta de mercado. Afinal, diversas mulheres que estavam ali hoje com a sua saia rodada já desfilaram ou vão desfilar em outras escolas neste carnaval. Acompanhando o enredo “E o Samba Sambou”, uma reedição do de 1990, ala das baianas trouxe uma crítica às escolas que não têm mulheres suficientes e precisam trazer muitas de outras agremiações.
Clemilda Maria de Souza, de 63 anos, começou a maratona com diferentes roupas de baiana na sexta-feira, com a Acadêmicos da Rocinha. Depois, rodou com a Imperatriz e São Clemente. Ela ainda rodará sua saia na última escola a cruzar a Avenida nesta segunda-feira, a Mocidade Independente de Padre Miguel. Na terça, será a vez da Lins de Imperial, na Intendente Magalhães. Apesar da lista de desfiles, Clemilda torce mesmo para a Unidos de Vila Isabel, mas, por conta dos horários de ensaio, não conseguiu desfilar na sua favorita.
“A gente não recebe nada, vai por amor. Eu era passista, mas hoje não tenho mais condições. Então, há 15 anos, escolhi brincar de baiana. Só precisamos ser mais valorizadas, pois carregamos muito peso, e as presidências só sabem cobrar”, contou.
Gabriela Lopes, de 26 anos, sai pela Preta e Amarela da Zona Sul há dois anos, mas é sua primeira vez na ala das baianas da escola. A vontade de ser uma das mulheres de saia rodada começou na União do Parque Curicica, aos 15 anos. Gabriela se destaca pela idade já que muitas baianas são idosas.
“Falta uma atenção voltada para as baianas nos ensaios. Usamos fantasias que pesam mais de dez quilos. Precisam pensar mais nesse peso, na nossa saúde. Já vi muitas desistirem de entrar na Avenida por isso”, afirmou.
Baiana desde os 18 anos, Luzia Alves, de 73, desfila desde 2009 pela São Clemente, mas já passou pela Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro, Mangueira e Paraíso do Tuiuti. Ela começou a se arrumar às 19h e só vai parar depois do desfile da Paraíso do Tuiuti, no qual também pretende desfilar.
“Enquanto der para brincar, a gente vai. A maioria aqui é emprestada. A baiana é a alma da escola. Nós não ganhamos nada, mas a escola perde ponto se não formos ao desfile”.
A ala das baianas é uma obrigatoriedade das agremiações, que devem levar para a Avenida, pelo menos, 70 mulheres, valendo ponto para a escola.


Primeira escola a pisar na Marquês de Sapucaí nesta segunda, a São Clemente reeditou seu enredo de 1990. Alfinetando o grande mercado em que o Carnaval Carioca se tornou, a agremiação passou pela Avenida com alegorias e fantasias irreverentes. O quarto carro, chamado “Carnavalescos e Destaques”, retratou a grande vaidade que permeia os integrantes da festa popular.
Para André Lucas, que também desfilou na alegoria, a ideia foi diferente, e o tema foi acertado pela São Clemente. “A proximidade do tema com a realidade é perfeita”, concluiu.
Um carro da Unidos da Tijuca não festejou nem esbanjou alegria durante o desfile do enredo “Cada Macaco no seu Galho. Ó, Meu Pai, me dê o Pão que eu não Morro de Fome!” na Avenida, na madrugada de domingo. E não foi por falta de entusiasmo ou paixão pela escola. A terceira alegoria a entrar no Sambódromo, “O Pão que o Diabo Amassou”, trouxe 80 negros interpretando a viagem forçada de muitos de seus antepassados em um navio negreiro.
Na apresentação, os integrantes do carro se juntaram aos que estavam no chão, na ala “João de Mattos, O Padeiro Alforriado”, que contou a história do escravo alforriado que ensinava a arte de fazer pão a negros escravizados. Ele ainda lutava pela liberdade dos negros, imprimindo cartas de alforria falsas – chegar a formar um grupo de 160 pessoas. Foram três meses de ensaio. Entre as cenas chocantes, a de europeus mutilando negros retirados a força de suas casas na África.
UNIDOS DA TIJUCA
SALGUEIRO