Por Diogo Cesar Sampaio. Fotos: Allan Duffes
Com o enredo “De Catulo à Lampião: Bem vindos a terra do cão”, a Vizinha Faladeira foi a sétima escola a passar pela Estrada Intendente de Magalhães, na terça feira de carnaval. Na busca do campeonato da Série B e do direito de desfilar na Marquês de Sapucaí em 2020, a tricolor de Santo Cristo realizou um desfile acima das expectativas, e quem sabe, pode sonhar com o campeonato.
Comissão de frente
A comissão de frente coreografada Adilson Lourenço simbolizava a violência e o descaso de “poderosos” com o povo nordestino. Os componentes vinham com figurinos divididos, na parte da frente simbolizavam os “poderosos” que seriam os governantes que mandam executar as atrocidades. Nas costas, eram policiais que exercitavam as ordens. O figurino também contemplava duas máscaras brancas neutras, também na frente e na parte de trás deles.
A coreografia envolvia dança e teatralização, e era pertinente a proposta do enredo. Além dos componentes um lado políticos e o outro policiais, a comissão tinha no seu corpo de integrantes um cangaceiro, que era o alvo das atrocidades idealizadas por um e executadas pelo outro. O ápice da apresentação acontecia justamente quando os policiais matavam o cangaceiro por ordem dos “poderosos”. Um momento impactante e forte.
Porém, a comissão apresentou uma pequena falha. Um dos integrantes teve parte do figurino solta durante a apresentação para segunda cabine. Tratava-se do cinto do lado da fantasia que representava um policial. O componente passou com ele solto em todos os módulos posteriores.
Mestre-sala e porta-bandeira
O casal de mestre-sala e porta-bandeira Jorge Vinícius e Laís Lúcia, mostrou bailado e muita cumplicidade, em sua passagem, defendo o pavilhão da Vizinha. O jovem casal veio com um figurino honesto, sem requinte, porém belo, em tons próximos ao verde e amarelo claros.
Durante as performances para os jurados mostram muito bailado, sendo ela uma das porta-bandeiras que mais giraram, e ele, um dos mestres-salas que mais riscaram o chão e cortejaram. Entretanto, no segundo módulo os dois devem perder alguns décimos, pois Jorge deixou cair a cabeça de sua fantasia em meio a sua coreografia.
Evolução
A evolução da escola de Santo Cristo foi mediana. Como ponto positivo, os componentes evoluíam soltos pelas alas e se divertiam. Mas deve perder pontos por um buraco aberto no terceiro módulo de jurados entre a primeira ala e o abre-alas. Um clarão que ocupou toda frente da cabine.
Harmonia
A harmonia da Vizinha Faladeira veio em um crescente ao longo de todo o desfile. As alas iniciais apresentavam um canto satisfatório, até culminar nas últimas, que praticamente gritavam o samba durante a apresentação.
Logo que foi dado a largada, a bateria fez uma paradinha onde os ritmistas e o carro de som ficavam em silêncio, para que se pudesse ouvir somente o canto da comunidade. A resposta veio tímida nesse momento.
Já no final do desfile, com as últimas alas passando pela quarta cabine de jurados, novamente silêncio. Dessa vez, não proposital, mas sim por uma falha no som. E dessa vez, o que se viu foi um canto aguerrido e valente dos componentes, que tinham o samba na ponta da língua.
Fantasias
O conjunto de fantasias idealizado por Jean Rodrigues era simples, com materiais alternativo e concepções bastante criativas. A fácil leitura também foi um grande trunfo. Como destaque é possível citar a ala que representava o cordel, no último setor. A fantasia trazia uma cabeça toda feita com pregadores de madeira. Uma solução que surtiu efeito e deu certo.
Alegorias e adereços
As alegorias da Vizinha, assim como as fantasias, eram simples no material utilizado e não apresentavam erros de acabamento. Além, de conversarem com o enredo e terem boa leitura, também assim como as fantasias.
Enredo
Um dos temas mais recorrentes dentro da folia carioca é o Nordeste. Seja através de seu povo, sua cultura e suas histórias, a região já foi muitas vezes cantada e apresentada. E funciona como uma espécie de trunfo para as agremiações, por render desfiles bons, bonitos e baratos.
E apesar da constante reincidência do tema, é sempre possível abordá-lo de uma nova e diferenciada perspectiva. Essa foi a proposta da Vizinha Faladeira com o enredo “De Catulo à Lampião: Bem vindos a terra do cão”.
A proposta do carnavalesco Jean Rodrigues foi mostrar a sua face mais sofrida, retratando o descaso do governo e do restante do país com a região. Um objetivo alçando em sua execução, com uma estética simples, porém de fácil leitura.
Samba-enredo
O samba-enredo funcionou durante a passagem da escola. Seus versos exploravam em vários momentos o regionalismo linguístico nordestino, através de gírias e expressões típicas. A melodia que remetia a ritmos locais ajudava a entrar no clima do enredo, e dava um clima alegre a obra. A performance do intérprete Tuninho Júnior também foi fundamental para o funcionamento do samba no desfile.
Bateria
A bateria da Vizinha Faladeira contou com um retorno especial ao seu comando. Em 2019, a escola repatriou Mestre Jorginho, que em seu desfile de volta teve um bom desempenho apostando, entre outras coisas, em convenções e bossas que faziam referência a ritmos tipicamente nordestinos, como o forró.
Outros destaques
Um dos grandes destaques da apresentação da Vizinha Faladeira pela Intendente de Magalhães fica por conta de sua ala de baianas. Os figurinos delas reproduziam a imagem de Nossa Senhora, com a estética usada em O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Uma fantasia rica em detalhes e de belo efeito quando elas giravam.


O Engenho da Rainha entrou na Intendente Magalhães por volta das 2h35 da madrugada entre terça e quarta-feira de carnaval. Sendo a oitava escola a desfilar, levou para a passarela o enredo “Matamba, o sonho de uma rainha”. O tema criado pelo carnavalesco Léo Jesus contava a história de Matamba, ainda no momento que chega no Rio de Janeiro, assiste pela primeira vez os negros comemorando carnaval e se apaixona pela cidade.
Apesar do chão da escola ter se destacado faltou capricho na direção de carnaval na elaboração das fantasias. Nenhuma das alas apresentavam luxo e algumas eram apenas segunda pele realçada com alguns detalhes nas pontas das mangas. O luxo não é obrigatório, mas sempre se espera fantasias criativas com materiais alternativos. É em meio as adversidades da falta de verba que alguns carnavalescos se destacam, e isso não aconteceu com o Engenho.
O jovem intérprete Lucas Donato estava incorporado e conduziu de maneira categórica o samba da escola. Com seus padrinhos Marquinho Art Samba, da Mangueira, e Leozinho Nunes, da São Clemente, ao seu lado, o cantor mostrou toda sua potência vocal numa noite inspirada. A obra que já apresentava qualidade nos refrões principais ganhou ainda mais qualidade nas demais partes muito graças ao rapaz.
Os 11 componentes se dividiam entre 10 serviçais e a rainha. A coreografia aconteceu de forma entrosada nas cabines de julgamento com destaque para os gritos dados pelos bailarinos dando ênfase a alguns trechos da apresentação. Os gritos causavam impacto passando mais veracidade ao momento. Caminhando com a rainha, os serviçais apresentavam a ela o reino e ainda pegavam ela no colo deixando a mesma ainda mais apaixonada. Se faltava luxo na fantasia, sobrava no capricho feito na maquiagem de cada dançarino.
A escola optou por um pede passagem de tamanho mediano e uma alegoria que veio ao final do desfile. Fechando a apresentação o carro era imponente com palhas na base e iluminação dourada. Possuía acabamento regular e destaques com fantasias de impacto nas laterais.
O uso da segunda pele dominou praticamente todo o desfile do Engenho da Rainha. A bateria, por exemplo, vestia apenas calça e blusa na cor vermelha tendo nas pontas detalhes zebrados. A ausência de criatividade no quesito pode gerar grande perda de pontos para a escola.
Trajando uma fantasia com tons de azul, vieram logo atrás da comissão de frente e executaram a coreografia de maneira correta. A troca de olhares entre os dois evidenciou o entrosamento. Sem tirar os olhos da parceira, o mestre-sala soube riscar o chão e segurar o pavilhão de maneira precisa. A porta-bandeira precisou se esforçar devido o vento que passava no momento de sua apresentação na segunda cabine e conseguiu com maestria. Durante todos os rodopios dela a bandeira se manteve esticada.
O rendimento do samba entre os componentes foi bastante satisfatório. Como de costume, havia mais explosão nos refrões principais. Os demais trechos da composição também não ficavam esquecidos e tinham canto mediano entre as cabines. A ala atrás do tripé que vinha logo no início se destacou por cantar forte a plenos pulmões com o samba na ponta da língua.
Evolução









