Compositores: Sidney de Pilares, Marquinhos Beija-Flor, Chacal do Sax, Cláudio Gladiador, Marcelo Lepiane, João Conga, Diego Oliveira, Diogo Rosa, Manolo, Julio Alves e Léo do Piso
NÃO ME PEÇA PRA CALAR MINHA VERDADE
POIS A NOSSA LIBERDADE, NÃO DEPENDE DE PAPEL
EM SANTO AMARO, TODO TREZE DE MAIO
NOSSA ANCESTRALIDADE É FESTEJADA À LUZ DO CÉU
Ê Ê… JOÃO DE OBÁ, GRIÔ SAGRADO
Ê Ê… HERANÇA VIVA NO MERCADO
CANTANDO, SAUDAMOS A NOSSA FÉ
ÀS NAÇÕES DO CANDOMBLÉ
É SAGRADO O RESPEITO!
RESSOA NO CORO O AXÉ FUNFUN
NÃO TEMEMOS ATAQUE ALGUM
A RUA OCUPAMOS POR DIREITO
PÕE ERVA PRA DEFUMAR
UM EBÓ PRA PROTEGER
SARAIÉIÉ BOKUNAN, SARAIÉIÉ!
NOSSO POVO É DA ENCRUZA
ARTE PRETA DE TERREIRO
É MISTURA DE CULTURA
MULTIDÃO DE MACUMBEIRO
O POVO GIRA NO XIRÊ, A CELEBRAR…
O AXÉ SE ESPALHA EM CADA CANTO, EM CADA OLHAR
TRANSBORDA MAGIA NO TOQUE DO TAMBOR
ÀS YABÁS, O BALAIO E O AMOR…
YEMANJÁ ALODÊ NO MAR (NO MAR)
É D’OXUM TODA BELEZA DO IBÁ
É REZA NO CORPO, É DANÇA NA ALMA
A ROSA, A PALMA, O OMOLUCUM…
É DONA CANÔ DE TODO RECANTO
EVOCO A BAIXADA DE TODOS OS SANTOS!
ATABAQUE ECOOU, LIBERDADE QUE RETUMBA
ISSO AQUI VAI VIRAR MACUMBA!
DEIXA GIRAR QUE A RUA VIROU BEMBÉ
DEIXA GIRAR QUE A RUA VIROU BEMBÉ
O MEU EGBÉ FAZ VALER O SEU LUGAR
LAROYÊ, BEIJA-FLOR, ALAFIÁ!
A Estação Primeira de Mangueira chega neste sábado à etapa final das eliminatórias de samba-enredo para seu Carnaval 2026. A partir das 22h, no Palácio do Samba, os sambistas vão poder conferir o show inédito “Mangueira porta-voz da cultura popular” e, em seguida, a disputa que vai determinar qual será o Hino da agremiação na Marquês de Sapucaí. Abaixo, você pode ouvir os sambas finalistas e apontar a parceria favorita para vencer. Vamos divulgar o resultado durante o sábado.
A Viradouro promove nesta sexta-feira, às 21h, a final do concurso que vai escolher o samba da escola para o próximo carnaval. Três parcerias estão na decisão. Em enquete com os leitores do CARNAVALESCO, a parceria de Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Rodrigo Gêmeo, Lucas Neves, Rodrigo Rolla, Ronaldo Maiatto, Bertolo, Silvio Mesquita, Marcelo Adnet e Thiago Meiners foi escolhida por 89,4% dos votos como favorita para vencer. A parceria de Mocotó, PC Portugal, Arlindinho Cruz, J. Lambreta, André Quintanilha, Rodrigo Deja, Ronilson Fernandes, Renato Pacote, Reinaldo Guimarães e Bira Fernandes recebeu 9,6% e a parceria de Lucas Macedo, Diego Nicolau, Jefferson Oliveira, Vinicius Ferreira, Richard Valença, Miguel Dibo, Orlando Ambrosio, Hélio Porto, Aldir Senna e Wilson Mineira teve 1%.
A escola vai disputar o título do ano que vem com o enredo “Pra cima, Ciça!”, uma homenagem ao consagrado mestre de bateria da agremiação, que marca a história do carnaval carioca. A quadra da Viradouro fica na Av. do Contorno, 16, no Barreto, em Niterói. A entrada custa R$ 50. Informações sobre mesas e camarotes: (21) 2828-0658.
FINAL DA DISPUTA DE SAMBA-ENREDO 🗓️ 26/09/2025 (sexta-feira)
⏰ 21h
📍 Av. do Contorno, 16 – Barreto, Niterói
🎟️ Entrada: R$ 50,00
✨ Thiago Martins, segmentos da Viradouro e disputa de samba
📞 Ingressos, mesas, camarotes e mais informações: (21) 2828-0658
Nesta sexta-feira, a Portela vai realizar, em sua quadra, a escolha do hino que irá embalar seu desfile no Carnaval de 2026. A parceria de Daiane Molet, Anderson Xilico, Chico Professor, Fagner Presidente, Fred Feijó, Maninho Veiga e Marcéle Sálles foi escolhida por 36,5% dos leitores do CARNAVALESCO como favorita para vencer a disputa. A parceria de Toninho Geraes, Eli Penteado, Paulo Cesar Feital, Alexandre Fernandes, Victor do Chapéu, Juca e Juninho Luang recebeu 30,6%. A parceria de Cecília Cruz, Claudio Cruz, Luciano Fogaça, Fabinho Gomes, Gêmeos, Osmar Fernandes e Júlio Pagé ficou com 17,8% e a parceria de Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena terminou com 15,1%.
Com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, a Ala de Compositores Ary do Cavaco e os compositores gaúchos, movimentaram a safra deste ano com 36 sambas inscritos. Desse quantitativo, quatro obras chegaram à grande final e seguem firmes na disputa para virar o hino da Portela para o próximo Carnaval.
Prometendo um espetáculo à altura da tradição portelense, repleto de emoção e surpresas para o público, o presidente Junior Escafura destacou a importância do momento e compartilhou a expectativa da final.
“A disputa está acirrada e o nível das obras é altíssimo, me arrisco a dizer que foi a melhor safra do Grupo Especial. É muito bom ver a dedicação dos compositores para esse momento. Temos certeza de que o samba escolhido vai honrar esse enredo e marcar a história da nossa escola. Aguardem um show incrível e emocionante, do jeito que a Portela merece!”, declara Escafura.
Além do show da escola e da apresentação dos sambas concorrentes, a noite será ainda mais especial com o batismo oficial da escola de samba Bambas da Orgia, de Porto Alegre, como afilhada da Portela.
SERVIÇO
Grande Final de Samba-Enredo Portela Carnaval 2026
Enredo: O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande
Data: 26/09/2025 (sexta-feira)
Horário: A partir das 22h
Local: Quadra da Portela – Rua Clara Nunes, 81 – Madureira.
A Imperatriz Leopoldinense aposta novamente na união de talentos para o Carnaval 2026. A escola de Ramos decidiu juntar as obras das parcerias de Hélio Porto e Gabriel Coelho, criando um samba-enredo único que, segundo a direção, supera o que cada composição apresentava individualmente. O intérprete Pitty de Menezes destacou a força da junção.
“Unimos duas obras maravilhosas que, separadas, já poderiam representar a escola, mas juntas construímos um samba imbatível, que vai pegar o coração do público. A comunidade abraçou o samba desde o lançamento, e posso dizer que estou apaixonado por ele, talvez, até mais do que pela Cigana. Graças a Deus, a Imperatriz tem uma ala musical muito competente”.
Sobre as nuances musicais, Pitty explicou como a junção manteve a fluidez e evitou quebras melódicas: “Quando falamos ‘Se joga na festa’, por exemplo, a transição se encaixa perfeitamente na melodia. As partes dos dois sambas se completam, como se tivessem nascido um para o outro. Foi uma junção maravilhosa e tranquila de fazer”.
Pedro Miguel, o Pedrão, diretor musical da Imperatriz, detalhou o processo técnico por trás da junção: “A ideia partiu da cúpula da escola. Ajustamos cada parte, decidindo quais trechos de cada samba seriam utilizados, sempre com cuidado para que a música permanecesse fluida. Foi um trabalho de esmero e lapidação, para que a divisão das partes não criasse embolações e respeitasse a melodia e a voz do cantor”.
Ele explicou ainda como foram solucionadas questões musicais complexas, como tonalidade e quebra melódica: “Trabalhamos estudando escalas, sonoridade e limites da voz humana. Escolhemos a tonalidade ideal e ajustamos as melodias para que o samba ficasse agradável de cantar, sem notas muito altas ou muito baixas. No final, conseguimos um samba que certamente vai alegrar muita gente no ensaio e na avenida”.
Para André Bonatte, diretor de carnaval da agremiação, a junção é um exercício natural. “Depois de um resultado muito bom com a Cigana, sempre fazemos o questionamento: a junção é melhor do que o que temos? Se for melhor, podemos continuar a debater. A ideia é pegar os melhores pontos de cada samba e fazer com que se encaixem, sem confrontar a proposta do enredo. O resultado é algo que percebemos ser melhor do que aquilo que se apresentava individualmente”.
Bonatte ainda destacou que a junção gerou menos estranhamento do que ocorrera no caso da Cigana e avaliou o resultado como promissor: “No primeiro momento, as pessoas podem estranhar, mas esse samba tem tudo para dar certo. As letras conversaram de maneira mais tranquila e a escola acredita que temos nas mãos o samba do carnaval”.
A Beija-Flor de Nilópolis, atual campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro, promove, nesta quinta-feira, a grande final do concurso de samba-enredo que vai escolher o hino oficial da escola para o Carnaval 2026. O evento acontece a partir das 22h, na quadra da agremiação, em Nilópolis, e promete reunir a comunidade azul e branca em uma noite histórica. Em enquete com os leitores do CARNAVALESCO, a parceria de Julio Assis, Diego Oliveira, Diogo Rosa, Manolo, Julio Alves e Léo do Piso foi eleita favorita para vencer por 50,5% e a parceria de Sidney de Pilares, Marquinhos Beija-Flor, Chacal do Sax, Cláudio Gladiador, Marcelo Lepiane e João Conga recebeu 49,5%.
Será um verdadeiro duelo de gigantes, no qual a força poética e melódica das obras se encontra com a vibração da comunidade para definir o samba que embalará a atual campeã do carnaval no desfile de 2026. Neste ano, a Beija-Flor levará à Sapucaí o enredo “Bembé”, desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, que homenageia uma das mais importantes celebrações de matriz africana do Recôncavo baiano, reconhecida como patrimônio cultural brasileiro.
Na ocasião, além da apresentação dos segmentos da escola — bateria, passistas, baianas, velha guarda, casais de mestre-sala e porta-bandeira — será exibido o último episódio do reality “A Voz do Carnaval”, programa que acompanha de perto o processo de escolha do novo intérprete da Beija-Flor, posição de destaque ocupada há décadas por Neguinho da Beija-Flor.
Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval
Para quem não estiver no Rio de Janeiro, a final também será transmitida ao vivo pelo canal oficial da Beija-Flor no YouTube, levando a emoção da disputa até os torcedores e admiradores da escola em todo o mundo.
Serviço
Final de Samba-Enredo da Beija-Flor de Nilópolis
Data: Quinta-feira, 25 de setembro de 2025
Horário: 22h
Local: Quadra da Beija-Flor – Rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025 – Nilópolis/RJ
Ingressos: a partir de R$ 50,00
Transmissão: Canal oficial da Beija-Flor no YouTube
O sábado, 27 de setembro, promete ser histórico para o Salgueiro. A escola vermelha e branca do Andaraí realiza a grande final de samba-enredo que definirá o hino oficial para o Carnaval 2026. Após uma disputa intensa, três parcerias chegaram à finalíssima: Samba 8 – Marcelo Motta, Dudu Nobre e parceiros, Samba 11 – Rafa Hecht, Samir Trindade e parceiros e Samba 15 – Marcelo Adnet e parceiros. Abaixo, você pode ouvir os sambas finalistas e votar para apontar a parceria favorita para vencer a disputa.
O 13 de Maio em Santo Amaro nunca começa na própria data. Dias antes, os preparativos do Bembé antecedem a alvorada: o Padê de Exu, a organização dos presentes que serão oferecidos ao mar, a saudação a João de Obá, aquele que, em 1889, fincou o mastro no mercado municipal para celebrar a liberdade. Quando os fogos de artifício enfim anunciam a alvorada, a rua já se transforma em barracão, o mercado sacralizado acolhe cantos, danças e tambores, e o Bembé, com seus 136 anos de existência, reafirma que a abolição também foi obra da resistência negra. Em 2026, essa celebração atravessa o país: do Largo do Mercado de Santo Amaro à Marquês de Sapucaí. No enredo da Beija-Flor de Nilópolis, o Xirê se transforma em desfile e a avenida em extensão da memória ancestral.
Quando viu a Beija-Flor cantar em Nilópolis, a historiadora e pesquisadora do Bembé, Ana Rita Machado, não conteve a emoção: “foi um encontro ancestral”. Para ela, a escolha do enredo, assinado pelo carnavalesco João Vitor Araújo, não é apenas uma homenagem, mas a realização de uma promessa: o abraço de duas populações negras que compartilham memória, luta e fé. De Santo Amaro a Nilópolis, o 13 de Maio ganha outros sentidos. Não o oficial, da Princesa Isabel ou dos movimentos abolicionistas, mas o da liberdade fincada pelo povo negro.
Da explosão ao axé: as repressões que marcaram o Bembé
Filha de um topógrafo e de uma cabeleireira, Ana Rita Machado nasceu em Santo Amaro, mas cresceu em diferentes cidades da Bahia, acompanhando as transferências do trabalho do pai como funcionário público. Foi em 1997 que a historiadora teve seu primeiro encontro com o Bembé do Mercado. A festa, tão presente em sua cidade natal, revelou-se marcada por uma lacuna de registros e de compreensão, percepção que guiou sua investigação dali em diante.
Ana Rita Machado. Foto: Divulgação/Beija-Flor
O ponto de virada veio numa conversa com Nicinha do Samba, matriarca do samba de roda santo-amarense. Foi ela quem, ao rememorar o 13 de Maio do Bembé, ligou a festa a um dos episódios mais traumáticos da cidade: a explosão do mercado nos anos 1950. “Quando perguntei sobre essa relação, entendi o tamanho da história que estava diante de mim”, recordou Ana Rita.
A explosão ocorreu em 1958, na véspera de São João, quando duas barracas de fogos no Largo do Mercado explodiram e provocaram uma tragédia com mortos e feridos. O impacto se prolongou no cotidiano da cidade: a festa do Bembé foi proibida. Na memória popular, porém, não se tratava de um episódio isolado. Dois anos antes, um delegado havia proibido a celebração por associá-la ao acidente automobilístico sofrido por ele e sua família.
Brigas, enchentes, perseguições policiais e a explosão se acumularam como sinais de um tempo de repressão religiosa. No imaginário popular, a proibição da festa era a causa das catástrofes da cidade. Foi nesse clima que as comunidades de terreiro e grupos de capoeira e maculelê ergueram a voz: o Bembé era uma celebração imprescindível na cidade de Santo Amaro.
“O Bembé não era uma festa sincrética como outras festas populares. A população que fazia essa festa eram populações pretas, pessoas do candomblé, pescadores, marisqueiras, vendedores de cachaça e peixe”, explicou Ana Rita. Para ela, o candomblé é um princípio civilizatório das populações negras: “sempre estruturou as populações negras no pós-abolição”.
Mastro e a cidade-terreiro
João de Obá, em 1889, um ano após a abolição, foi quem fincou o primeiro mastro, acreditando que poderia viver uma experiência de liberdade. A partir dali, o mercado de Santo Amaro se tornava sagrado, transformado em barracão pela força do candomblé.
O mastro é o centro do Bembé. No topo está a comeeira, consagrada a Xangô, orixá de João de Obá e patrono da festa, que simboliza a força da justiça e da alegria. O gesto de fincar e erguer o mastro estabelece a ligação entre dois mundos: a comeeira, no alto, representa o Òrum (mundo espiritual), e o intótu, na base cravada no chão, representa o Àiyé (mundo material). Essa ponte torna o espaço público sagrado.
“É como se aquelas populações negras transformassem a cidade em um terreiro, em um espaço de identidade, pertencimento e poder. O território está ligado a isto: estabelecer um lugar político”, afirmou a pesquisadora.
O levantamento do mastro, no Largo do Mercado, só acontece depois da conclusão dos ritos restritos, que são realizados dias antes do 13 de maio no terreiro do babalorixá ou da yalorixá responsável pela condução ritual. Nesses ritos, são saudados os ancestrais (Eguns), e se oferece o Padê de Exu, Senhor dos Caminhos, para afastar problemas e garantir a segurança da comunidade santo-amarense durante a celebração.
Também se consagram oferendas a Iemanjá e Oxum, as donas da festa, orixás ligadas às águas doce e salgada, de onde a população pesqueira e marisqueira retira o seu sustento. “Essas pessoas que agradecem ao rio e ao mar são pessoas que dependem deles para sobreviver. A água salgada está ligada à nossa trajetória do processo de diáspora e é a energia que nos mantém vivos porque nos dá o que comer, que é a pesca. E o rio, além da pesca, é o que a gente bebe para sobreviver. Não estamos só falando de um princípio religioso, mas de um princípio espiritual”, afirmou Ana Rita. Na celebração do Bembé, há ainda rituais que envolvem a preparação e arrumação dos presentes que serão oferecidos ao mar.
Na alvorada, os fogos de artifício anunciam a chegada dos presentes ao Barracão do Mercado. Logo de manhã inicia-se o Xirê do Mercado do 13 de maio com a presença de babalorixás, ialorixás, ogãs, equedes, ebomins, iaôs e abiãs de 45 comunidades de terreiro da região. O Bembé só termina após todos os presentes serem oferecidos ao mar.
Para Ana Rita Machado, o Bembé estabelece um lugar político porque reorganiza Santo Amaro a partir das experiências da população negra do candomblé. “Essas populações transformaram silenciosamente a rua em espaço de suas próprias experiências e dizem: esse é um lugar de prestígio, importância e poder. Eles reorganizam a cidade nesses dias, eles plantam axés, eles dançam na cidade. Imagine uma cidade extremamente racista, que esconde a festa e faz todo um movimento para a festa deixar de existir”, declarou.
Ao redor do mastro, a cidade se reorganiza. O espaço público passa a ser território de prestígio, de axé, de resistência. É nesse chão demarcado pelo gesto de João de Obá que o Bembé reafirma, ano após ano, que a liberdade não foi concedida, mas conquistada.
O 13 de Maio em disputa
Se para a história oficial o 13 de Maio é data da princesa redentora, que com uma assinatura fez a abolição da escravatura no Brasil, no Bembé ele assume outro sentido: a experiência da própria comunidade negra afirmando sua liberdade. “Durante muito tempo, o 13 de maio foi visto como a história da Princesa Isabel e das elites abolicionistas, como se as populações escravizadas não tivessem suas próprias experiências. O Bembé não diz isso”, afirmou Ana Rita.
Essa outra memória foi sustentada por lideranças religiosas que transformaram a festa em ato de disputa do 13 de maio. Pai Tidu, que conduziu o Bembé entre as décadas de 1950 e 1990, enfrentou o período de proibição e perseguição, garantindo que a celebração não desaparecesse. Depois dele, Pai Pote ampliou a luta: além de zelar pela liturgia, passou a articular o reconhecimento do Bembé como patrimônio, no Brasil e no mundo.
Na visão da pesquisadora, o movimento negro muitas vezes recusou a data, vista como conservadora. Mas o Bembé reorganiza essa memória: não é a tutela branca, é a celebração de uma liberdade conquistada com luta. “Quando João de Obá pega a comunidade dele e finca uma bandeira branca, está fincando o candomblé da liberdade”, resume Ana Rita.
Patrimônio e salvaguarda
O esforço para garantir a continuidade do Bembé não se dá apenas no campo ritual, mas também no político. Pai Pote, herdeiro da festa, foi quem liderou a articulação para que o Bembé conquistasse reconhecimento institucional. Em 2012, a celebração foi registrada como Patrimônio Imaterial da Bahia, em processo que teve como referência a pesquisa de Ana Rita Machado. Em 2019, nova mobilização de comunidades e lideranças ampliou o reconhecimento: o Bembé se tornou Patrimônio Imaterial do Brasil pelo IPHAN. Desde 2020, Pai Pote pleiteia junto à UNESCO o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade.
“Nunca imaginava que esse trabalho se tornaria um ponto de referência, um ponto de diálogo com o Poder Público para buscar políticas para o Bembé”, disse a pesquisadora.
Em 2024, essa trajetória se consolidou com a criação do Centro de Referência do Bembé, sediado em uma casa cedida pela prefeitura e vinculado à Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Coordenado por Ana Rita, o espaço tem como missão preservar a memória da festa e articular políticas públicas em torno dela.
Além de pesquisadora do bembé, Ana Rita Machado também é reconhecida como Iyá Egbé por 45 comunidades de terreiro ligadas ao Bembé, o que lhe confere o papel de conselheira: “Eu sou Iyá Egbé por conta de um cargo, mas preciso respeitar aqueles que vêm antes de mim e que conhecem a liturgia. O Bembé é uma coisa muito séria sob o ponto de vista litúrgico e da história das populações negras”.
Encontro com a Beija-Flor
A possibilidade de virar enredo de escola de samba sempre rondou a festa. Pai Pote chegou a receber propostas de cinco agremiações de fora do Rio, mas recusou. Intuía que caberia a uma agremiação carioca levar o Bembé para à avenida. O convite da Beija-Flor confirmou essa intuição.
Em Santo Amaro, a notícia foi recebida com festa pela comunidade: “Santo Amaro está numa felicidade só, que não é uma felicidade eufórica. As pessoas da cidade receberam isso da melhor maneira que você possa imaginar”, revelou Ana Rita. Quando a equipe da escola visitou a cidade, os moradores brincavam: “Olha a Beija-Flor aí, gente!”.
Em Nilópolis, durante o início da disputa de samba para o Carnaval 2026, Ana Rita viveu a emoção que chamou de encontro ancestral: “Quando eu vi aquelas pessoas cantando daquela maneira, foi um encontro ancestral. Sabe aquele encontro que estava marcado pela ancestralidade para que dois irmãos se abraçassem com amor e carinho e entendessem o que é essa trajetória histórica. Nilópolis me emocionou profundamente”.
Para ela, o desfile não pode deixar de trazer João de Obá, Iemanjá, Oxum e Xangô, guardiões da festa. E o que mais impressionou Ana Rita Machado foi o entendimento da equipe. “Pelos sambas que tenho ouvido e pela seriedade da equipe que veio pesquisar, acho que a mensagem maior seja de alegria e de amor. É contar a história de quem somos nós, as contribuições que damos a esse país e a importância que essas populações têm para transformá-lo em algo melhor”, declarou.
Enredo da Imperatriz Leopoldinense para o Carnaval 2026, o cantor Ney Matogrosso gravou nesta quarta-feira o samba-enredo que a agremiação levará para a Marquês de Sapucaí. O artista participou da gravação para as plataformas oficiais da Rio Carnaval, que terá lançamento em breve, ao lado de Pitty de Menezes, intérprete da escola, e do Mestre de bateria, Lolo.
“Gostei muito. Espero que balance o coreto!”, disse Ney após a gravação.
Foto: Wagner Rodrigues/Divulgação Imperatriz
Diretor de carnaval da verde, branco e dourado, André Bonatte acompanhou toda a produção da faixa e celebrou a importância de ter Ney no projeto.
“É um momento muito festivo da Imperatriz, neste processo de transformação que a escola vem vivendo nos últimos tempos. E ninguém melhor para fazer parte disso que Ney Matogrosso. Ele, que tanto se transformou ao longo de mais de 50 anos de carreira. Uma honra muito grande para todos nós esse encontro. Bora se jogar na festa e esquecer o amanhã!”.
Em busca do 10º campeonato de sua história, a Imperatriz Leopoldinense será a segunda escola a desfilar no domingo de Carnaval. Com o enredo “Camaleônico”, do carnavalesco Leandro Vieira, a Rainha de Ramos prestará uma homenagem a Ney Matogrosso, celebrando o artista, a obra e a virtuosidade performática do intérprete de sucessos como “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroshima”, “O Vira”, “Homem com H” e “Metamorfose Ambulante”.