O Paraíso do Tuiuti anunciou na tarde desta terça-feira a saída de Junior Schall, diretor de carnaval da agremiação. Segundo publicação nas redes sociais da escola, o desligamento foi em comum acordo. Veja abaixo o texto.
“O Paraíso do Tuiuti agradece imensamente o trabalho desempenhado pelo diretor de carnaval Junior Schall, no último desfile. Entretanto, em comum acordo, a diretoria do Tuiuti e o profissional firmaram a rescisão desse trabalho para o próximo desfile. O Paraíso do Tuiuti deseja sucesso ao futuro de Schall. Obrigado, diretor!”
Janeiro é o mês que marca o início da contagem regressiva para o próximo Carnaval, com ensaios técnicos, ensaios turbinados dentro das quadras e outros eventos que aquecem o público para os desfiles das escolas de samba. Na preparação para o Carnaval 2021, entretanto, todos os processos já amplamente conhecidos tiveram que passar por adaptações, por causa da pandemia de Covid-19, motivo pelo qual o evento foi adiado para julho. Nos próximos meses, profissionais de Parintins (AM) chegam a São Paulo para trabalhar na execução das alegorias. Diante do cenário pandêmico, as escolas de samba tomarão medidas de precaução contra o Coronavírus, junto com a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, que oferecerá os exames que detectam o vírus.
Ao chegarem à capital paulista, os artistas parintinenses que vão trabalhar nos barracões serão submetidos a uma quarentena, pelas escolas de samba que os contrataram. O período de reclusão é usado para observar se realmente não há contágio por coronavírus e evitar a propagação de covid-19, em casos assintomáticos. Para garantir a segurança na construção do Carnaval 2021, a Liga-SP disponibilizará os testes de covid-19 para os profissionais, a fim de garantir que o processo artístico inicie com segurança.
Até janeiro de 2021, as agremiações ajustaram os trabalhos ao home office ou moldaram seus eventos de acordo com as medidas preventivas recomendadas pela OMS. É importante ressaltar, portanto, que o trabalho dentro dos barracões será feito com o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento social.
O intercâmbio artístico entre Parintins e São Paulo não é novidade. Todos os anos, profissionais de diversas vertentes vêm para a capital paulista, para trabalhar na execução das alegorias que desfilam no próximo Carnaval. Em 2021, com todas as ressalvas e incertezas, é necessário garantir também a proteção dos artistas envolvidos no espetáculo, a começar pelo trabalho dos barracões.
O desfile das escolas de samba deve ocorrer em julho de 2021, havendo vacinação para a população e de acordo com a posição da capital no Plano São Paulo, que determina a reabertura econômica de todos os setores, considerando a disponibilidade de leitos de UTI e o ritmo de contágio da covid-19, bem como as diretrizes que devem ser seguidas para que aglomerações sejam evitadas. A transferência de data foi uma decisão pensada junto com a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado, diante do cenário pandêmico em 2020.
O site CARNAVALESCO começa hoje o podcast “Eu estava lá”. Para abrir o primeiro convidado do programa é mestre Casagrande, comandante de bateria da Unidos da Tijuca. Ele contou histórias que viveu durante o desfile campeão de 2010, o inesquecível “É o segredo”. Ouça abaixo o depoimento de Casão.
O Carnaval não é somente festa: a visão do Carnaval como Economia Criativa do Carnaval e Desenvolvimento Econômico do Rio de Janeiro. O Carnaval para os brasileiros não é apenas uma festa de quatro dias. Obediente ao calendário religioso, a efeméride, que atravessou o Oceano Atlântico vindo da Europa, traduz o alento necessário, tanto para a população que o ama, quanto para aqueles que desejam apenas o descanso dos dias da Festa. Para os que adoram, brincam nos Blocos de Enredo, Boi Pintadinho, Escolas de Samba, ou seja, para o folião, há muita diversão, pessoas animadas nas ruas, turistas, que ajudam a incrementar os números das estatísticas econômicas apresentadas após os dias de Momo.
John Anthony Howkins é um autor e pesquisador inglês, que teve a ideia de nomear como “economia criativa”, tudo o que possa ser criado, produzido e depois negociado com resultado financeiro. Howkins desenvolveu a Economia Criativa. Com efeito, para os brasileiros envolvidos no segmento Samba, Escolas de Samba e Carnaval, a criatividade é um conceito natural. Por essa razão, o Governo do Estado do Rio de Janeiro criou a Economia Criativa do Carnaval dentro da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. Nada mais justo, essa ação governamental precede a preocupação com as dificuldades do porvir, sem a realização do Carnaval (pelo menos em fevereiro de 2021) por causa da pandemia do Covid19.
Mas qual é a atribuição da Economia Criativa do Carnaval? Neste momento trabalha na condução de políticas públicas, na busca de parcerias com a iniciativa privada para o firme propósito em auxiliar as famílias que vivem da cultura criativa do Carnaval. Entidades não governamentais, do direito privado, como o Instituto Cultural Cravo Albin, também são bem vindas e estão ajudando a criar parceria com a Câmara dos Vereadores do Município do Rio de Janeiro e convida empresários a formarem um mutirão ou “vaquinha”; com objetivo de suavizar a crise. Numa ação popular de ajuda aos artífices do carnaval, que sofreram tanto em 2020 quanto as incertezas sobre o Carnaval 2021, que sabemos que não vai acontecer em fevereiro, podendo (caso a pandemia já tiver acabado, e se for possível com todas as medidas sanitárias) ocorrer em julho de 2021.
Em tempos de paz, sem a maldita guerra invisível do Covid19, a Economia Criativa do Carnaval tem como objetivo principal asseverar os números das pesquisas da FGV, RioTur, Ministério do Turismo, CNC, entre outras, no âmbito do Carnaval no Rio de Janeiro, através de ações e políticas públicas que contribuam e possam incrementar essas estatísticas.
De fato, diante do investimento de 70 milhões de reais, dos quais a prefeitura disse ter introduzidos na realização do Carnaval em 2020, houve uma movimentação financeira em torno de 4 bilhões, segundo os dados das siglas mencionadas, ou seja, quase 57 vezes mais. Imaginar que a movimentação econômica do carnaval do Rio é um terço de todo o Brasil para as festas de Momo nos incentiva a trabalhar políticas públicas eficazes, das quais ajudem a multiplicação desses números aqui no Rio de Janeiro. No carnaval 2020, mais de dois milhões de turistas vieram para o Rio de Janeiro, contribuindo com essa forte movimentação econômica.
O ponto alto do Carnaval se concentra nos desfiles das Escolas de Samba, onde se oferece a essência da criação, pungente, rico processo criador encontrado nos barracões, conduzidos pelos seus artistas.
O Carnaval está em todas as Cidades do Rio de Janeiro ou pelo menos na sua historiografia, está viva nos 92 municípios, por menores que sejam. O que precisam é de entendimento das autoridades, para que haja um mínimo de apoio e incentivo, retornando ao passado, na intenção de se resgatar essas joias culturais, que nesses tempos de Covid-19 ajudariam com certeza em trabalho e renda as populações no estado.
As 103 Escolas de Samba do Estado do Rio de Janeiro poderiam estar em pé de igualdade com as Escolas de Samba do Grupo Especial, agremiações da Liesa, produzindo cada uma dessas ligas, nos respectivos municípios, capacitação, trabalho e renda, ajudando no desenvolvimento econômico das regiões.
Tomemos como um excelente exemplo a Cidade de Teresópolis: o Senhor Paulo Lima é o presidente da Liga das Escolas de Samba da Cidade e assevera que o município perdeu muito nesses dez anos sem desfiles. As fotos e filmagens provam o que o velho sambista nos ajuda a entender. Artistas, artífices do Carnaval, ficaram sem trabalho: artesões, figurinistas, costureiras, aderecistas, desenhistas, bordadeiras, serralheiros, marceneiros, estão desempregados, claro e evidente que este problema foi agravado pelo vírus Covid-19, mas também por conta da falta de políticas públicas eficazes que deveriam ter sido realizadas no passado.
Vamos imaginar que cidades como Nova Iguaçu, com suas 22 Escolas de Samba, poderiam desfilar na sua cidade e em seu próprio Sambódromo. A riquíssima Baixada Fluminense, independente e com seus 4 milhões de cidadãos, população estimada ser igual a do Uruguai, depende somente de diálogo entre os gestores das cidades adjacentes, que compõem a Região e também com a iniciativa privada e representantes das Secretarias de Cultura dessas cidades. Os empresários terão seu lucro garantido de volta, com um viés ou contrapartida sócio-cultural, que a Lei de Incentivo impõe.
O Rio de Janeiro está sendo monitorado culturalmente e principalmente no âmbito da economia do Carnaval. Uma nova e inédita leitura da indústria criativa cultural do Carnaval está sendo idealizada no governo de Cláudio Castro e já se trabalha para depois que a população for vacinada. Espera-se que o Estado do Rio de Janeiro se desenvolva rapidamente, assim como já vinha crescendo nos dois últimos anos (2018 e 2019), após a recessão de 2014/16 e antes da grave crise mundial de 2020, segundo Marcel Grillo Balassiano, economista especialista da FGV. Precisamos voltar aos números de antes da pandemia, acertar o passo e trabalharmos para melhores resultados no pós-vacina.
O Carnaval, como sempre, está aí para contribuir enormemente para o desenvolvimento econômico do Estado, indústrias, comércio em geral. Geradores de empregos diretos e indiretos apostam na retomada implacável do nosso Carnaval e no retorno significativo da economia fluminense. Caso haja condições sanitárias, o carnaval em julho de 2021 será um sucesso, após o trágico período marcado pela pandemia.
Sérgio Almeida Firmino é assessor de economia criativa do Carnaval da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro e diretor do Instituto Cravo Albin
Referências: Artigos e reportagens de Marcel Grillo Balassiano.
A cada dia que passa o mundo contabiliza novas pessoas vacinadas contra a Covid-19. Embora o Brasil ainda não tenha uma definição oficial de início da vacinação, a previsão é que seja entre 20 de janeiro e 10 de fevereiro, em Brasília, o deputado federal Dr. Luizinho (Progressistas-RJ), segue com o Projeto de Lei 5129/2020 para criar um feriado de carnaval em julho de 2021. Assim, cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife fariam suas festas fora de época, obviamente, com a vacinação sendo feita em todo o país.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, o deputado federal falou sobre o andamento do projeto na Câmara para um carnaval fora de época no mês de julho. Ele não cancela o período do carnaval tradicional, que é uma data religiosa. Aliás, o governo federal já definiu que a data em fevereiro para o carnaval não será feriado e sim ponto facultativo.
“O Projeto de Lei passa o carnaval para 12 e 13 de julho, segunda e terça-feira. Seria da mesma maneira que organizamos todos os anos. Cada cidade poderia fazer seu carnaval, definindo o ponto facultativo para sexta e quarta-feira. A certeza da vacinação é fundamental para colocarmos em pauta a votação. Ainda não tem data para ser votado no plenário da Câmara, mas acredito que aconteça na volta do recesso entre fevereiro e março”, afirmou.
Segundo Luizinho, o apoio dos colegas na Câmara é maciço e ajudará na recuperação da economia brasileira.
“Não temos dificuldade com os deputados para votarmos o projeto. Temos 100% de aprovação. A barreira é a certeza da vacinação. Nossa expectativa é que até essa data de julho a gente tenha entre 60 e 90 milhões de pessoas vacinadas. Vai ajudar muito a indústria do carnaval, turística e de cultura do país. Já alinhamos com Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife essa data. Mesmo para cidades que não tem essas festas carnavalescas, o feriado leva migração de turistas que vão ocupar hotéis e pousadas. Movimenta o país como um todo. Vai ajudar e muito a recuperar a atividade social e econômica do Brasil”.
O deputado federal acredita que a confirmação do feriado em julho de 2021 para o carnaval também ajudaria agora no período crítico da Covid-19.
“Vivemos um momento de retomada de Covid, mas ali na frente temos uma data e uma porta de saída. Tem também a questão psicologia, a gente precisa de boas notícias. Talvez, essa esperança faça com que as pessoas tenham um comportamento mais reservado porque depois com a vacina vão poder sair de suas casas”.
O autor do Projeto de Lei explicou que os governos estaduais e municipais possuem autonomia para organizarem suas datas após a decisão da Câmara para todo o Brasil.
“A proposta não muda a data do feriado do carnaval. Ela cria mais um feriado para o ano de 2021 somente. O impacto é de bilhões de reais na nossa economia, para indústria do turismo, o setor cultural, e toda cadeia produtiva. Os governos estaduais e municipais vão adaptar para o benefício de suas cidades”.
Quando a Escola de Samba campeã entra na Avenida para comemorar o titulo e encerrar o Desfile das Campeãs, a sensação é angustiante. Logo depois de sua passagem, começamos a vagar no deserto, buscando forças para atravessar um longo período de escassez. Não existem enredos, sambas, fantasias coloridas, nada. Tudo fica por conta de um passado recente, e de um presente ainda não definido. A primeira impressão, no entanto, é de que o futuro se esconde atrás de um interminável deserto, sem sombras, sem um oásis para amenizar a sede de alegria. Afinal, o próximo Carnaval só acontecerá dali a quase um ano!
Para o folião que não tem estrutura, a crise existencial começa no próximo passo. A vida se resume a uma poça de areia movediça.
Era mais ou menos assim que nos sentíamos, caminhando, cabisbaixos, em sentido contrário à Estácio de Sá, que festejava a conquista do titulo Carnaval de 1992, o seu primeiro e único no Grupo Especial. O baixo astral não era por culpa da Escola, que fazia um desfile animado, agradável, embora menos empolgante que a Paulicéia Desvairada de dias antes, no desfile para valer. Mas já nos sentíamos órfãos da folia e tentávamos encarar o “deserto”, a caminho do estacionamento.
Senna cai no samba da Estácio – foto histórica de Evandro Teixeira
CONFUSÃO NA PISTA – Foi quando aconteceu um corre-corre. Pensamos logo em briga ou acidente. Os fotógrafos correram na direção da bateria, e nós fomos atrás, bloquinho na mão. Sim, ainda havia Carnaval.
Quando chegamos, a confusão já estava formada. No meio dela, havia um desajeitado Ayrton Senna do Brasil, todo de branco, sambando ora com Monique Evans, rainha da bateria de Mestre Ciça, ora com uma morena não menos bela e sensual. Senna esqueceu a timidez no Camarote N° 1, onde, momentos antes, dera um autógrafo ousado, numa senhorita de blusinha decotada e molhada de suor, rubricando quase sobre a pele da jovem. Acredita?
O piloto esqueceu a pose de tricampeão mundial de Fórmula Um no camarote, pulou para a calçada, trepou na grade e invadiu a pista. Assim que foi reconhecido ganhou uma faixa de campeão e um chapéu da bateria. Sambou com Monique, mas escolheu a outra morena, lixando-se para o Brasil e o mundo, mordendo os lábios e dizendo algumas coisas no ouvido da moça. Ela não dizia nada, apenas sorria. E balançava a cabeça, dizendo que sim. Uau!
Os dois não chegaram à dispersão, do segundo recuo foram direto para o estacionamento, atrás do Setor 11, onde um amigo o aguardava. Partiram até o heliporto, e de lá para Angra dos Reis. Senna e a morena – ela ainda fantasiada.
Pode ser um exagero achar que o final do Desfile das Campeãs pareça o último dos carnavais. Mas para Senna foi, infelizmente. Dois anos depois aconteceria a tragédia de Ímola. Mas ele foi de bem com a vida.
O Baródromo voltou! Abertura é na quarta-feira. Calma, pessoal. Não terá festa ou inauguração especial. O momento é de cuidado com a pandemia da Covid-19. Por isso, o espaço ainda não terá eventos e começará com capacidade reduzida. O “novo lar” dos sambistas está em outro endereço. Saiu da Lapa e foi para região do Maracanã, na Grande Tijuca, está localizado em frente a Praça Niterói, na rua Dona Zulmira, 41.
“Vamos abrir de vagar. Com metade da capacidade. Sem eventos por enquanto. Funcionaremos apenas como bar. Nosso horário será de terça a sexta das 17h às 0h, sábado das 12h às 0h e domingo das 12h às 21h”, disse Felipe Trotta, proprietário do Baródromo.
Ao site CARNAVALESCO, ele disse que foram tomadas todas medidas sanitárias para abertura do Baródromo em um novo espaço.
“Estamos animados e receosos por conta do aumento de casos no final do ano. Quando começamos as obras os casos estavam diminuindo e esperávamos ter um cenário melhor neste momento. Mas tomaremos medidas recomendadas pela prefeitura para não ter aglomeração”.
O site CARNAVALESCO inicia hoje a série de matérias intitulada de “Desfiles da Década”, na qual apresentações marcantes que passaram pela Marquês de Sapucaí, entre os anos de 2011 e 2020, serão relembradas (veja aqui a lista dos desfiles). Na estreia, um desfile emblemático, que apesar de ter conquistado “apenas” um quinto lugar e de ter tido um triste final, entrou para história do carnaval carioca. No ano de 2011, a dupla de carnavalescos Renato e Márcia Lage surpreendeu público e crítica, mais uma vez, ao realizar um dos melhores e mais belos trabalhos de suas carreiras, com o enredo “Salgueiro apresenta: o Rio no Cinema”. A grandiosidade dos carros, o bom uso das cores e as fantasias mais leves, que permitiam ao componente brincar, deram a identidade visual alegre que casou perfeitamente a proposta do enredo e arrebatou as arquibancadas.
Porém, o gigantismo das alegorias também foi o grande calcanhar de Aquiles salgueirense, sendo responsável por causar diversos problemas que afetaram diretamente quesitos importantes, como harmonia, e, principalmente, evolução. Ao todo, três carros tiveram dificuldades para entrarem na Avenida devido ao tamanho. Houve ainda um quarto carro que sofreu com um princípio de incêndio. Fatalidades estas que fizeram um campeonato que parecia quase que certo, até cerca de 50 minutos de desfile, escorrer pelos dedos das mãos. No fim, a apresentação da Vermelha e Branca da Tijuca terminou com 92 minutos de duração, dez a mais do que o tempo máximo previsto pelo regulamento da época. Um final melancólico, mas que todavia não apagou o brilho de uma apresentação histórica.
Aliás, a superação já era algo que se fazia presente desde o pré-carnaval daquele ano. Há 27 dias dos desfiles, exatamente em 7 de fevereiro de 2011, uma incêndio de grandes proporções atingiu os barracões da Acadêmicos do Grande Rio, da Portela e da União da Ilha do Governador, além de um galpão que na época era usado pela Liesa, na Cidade do Samba, Zona Portuária do Rio. Ao todo, mais de 120 bombeiros e 20 veículos antichamas atuaram no combate ao fogo e demoraram cerca de quatro horas para conseguir conter as chamas. Ninguém ficou ferido no incêndio, mas as três escolas atingidas tiveram um prejuízo milionário, sem falar do trabalho de um ano inteiro comprometido. Por conta disso, uma plenária da Liesa, realizada no mesmo dia 7 de fevereiro, definiu que não haveria rebaixamento em 2011 e que as três escolas afetadas pelo incêndio não seriam julgadas. Com isso, a disputa ficaria apenas entre as demais nove agremiações que formavam o Grupo Especial na ocasião: Unidos da Tijuca, Beija-Flor, Vila Isabel, Salgueiro, Mangueira, Mocidade, Imperatriz, Porto da Pedra e São Clemente.
“Quando cheguei na concentração e vi o Salgueiro gigantesco, lindo, nunca senti algo parecido. Minhas pernas tremiam e as pessoas nas arquibancadas gritavam é campeão”, sidclei
Em relação a Vermelha e Branca da Tijuca, o carnaval de 2011 marcava o reencontro do casal Renato e Márcia Lage após dois anos separados. Em 2008, os dois haviam feito jornada dupla no próprio Salgueiro, pelo Grupo Especial, e no Império Serrano, que na ocasião desfilava pelo então Grupo de Acesso A. Após obterem o título da segunda divisão da folia carioca, no ano seguinte, a dupla se dividiu: Renato seguiu no Salgueiro, enquanto Márcia teria a missão de manter o tradicional Império na elite. Acabou que, neste primeiro ano, cada um ficou em uma ponta da classificação final. Renato Lage conquistou o quarto título no Especial da carreira, o nono da história salgueirense, com o enredo “Tambor”. Já Márcia Lage, que na época ainda utilizava o nome artístico de Márcia Lávia, viu a reedição de “A Lenda das Sereias, Rainhas do Mar” de 1976 naufragar, ao ficar na décima segunda e última colocação, sendo o Reizinho de Madureira rebaixado (o segundo rebaixamento em três anos). Para 2010, a parceria entre Salgueiro e Renato foi renovada, ao mesmo tempo que Márcia recebeu uma proposta para desenvolver o carnaval da Estação Primeira de Mangueira. No entanto, o casamento entre a carnavalesca e a Verde e Rosa terminou antes mesmo de chegar até a Avenida, sendo ela dispensada ainda em setembro de 2009.
“Foi uma apresentação de gala da escola com um carnaval alegre e cheio de energia que transformou a Avenida em um set de filmagem”, Hélio bejani
A retomada da parceria em 2011 deu um novo gás ao casal e ao Salgueiro. Após um carnaval com carros menores em altura e largura no ano de 2010, a Academia do Samba apresentava um dos mais grandiosos conjuntos alegóricos de sua história, não apenas em tamanho, como também no quesito luxo. As alegorias juntavam o melhor da característica de cada um, mesclando o estilo hi tech de Renato, com o estilo barroco de Márcia. Por conta da pegada a bem-humorada do enredo, a proposta era ser de fato um desfile leve, tirando o volume das fantasias e colocando ele nos carros, deixando assim o desfilante mais solto.
Tal proposta já se fazia presente desde a comissão de frente, coreografada por Hélio Bejani, que ia para o quarto ano consecutivo como o responsável pelo quesito no Salgueiro. Nomeada de “Em Busca da Fama”, a comissão trazia componentes vestidos de baleiros, que realizavam diversas coreografias usando como base para os movimentos o tabuleiro das balas, que se transformava em um palco para sapateado. O auge da apresentação acontecia quando os baleiros formavam uma escadaria até o alto do elemento cenográfico, que acompanhava a comissão, e uma bailarina subia os degraus. Já no topo, ela ficava em pé, em cima de um duto de ar, recriando a clássica cena do vestido esvoaçante de Marilyn Monroe no filme “O Pecado Mora ao Lado”, de 1954.
“Para o trabalho da comissão de frente foi um ano especial, pois o enredo, Rio no Cinema, nos proporcionou a possibilidade de levarmos para a Avenida uma ideia que já pensávamos há muito tempo, o sapateado como fio condutor de toda movimentação dos antigos e divertidos baleiros do cinema. Já o desfile, como um todo, nos foi um tanto quanto frustrante, pelo fato do Salgueiro ter perdido o campeonato devido ao estouro do tempo permitido. Mas, falhas a parte, foi uma apresentação de gala da escola com um carnaval alegre e cheio de energia que transformou a Avenida em um set de filmagem, contagiando o público que deslizou de suas próprias realidades para vivenciar aquele momento como as verdadeiras estrelas do maior espetáculo da terra”, relembrou Hélio Bejani ao site CARNAVALESCO.
Logo depois da comissão, foi a vez do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por Sidclei e Gleice Simpatia, se apresentarem. Com uma fantasia luxuosa e nas cores da escola, o vermelho e o branco, a dupla esbanjava carisma e demonstrava sintonia, mesmo se tratando do primeiro ano deles juntos. Na ocasião, Gleice estava no seu quinto carnaval conduzindo o pavilhão principal do Salgueiro; enquanto Sidclei retornava para a Academia do Samba depois de 11 anos afastado.
“O carnaval de 2011, para mim, tem uma importância muito grande, uma emoção… Eu estava voltando para minha casa, era o Salgueiro me abraçando, me trazendo de volta. E eu estava dançando com a Gleice, uma porta-bandeira excelente, um ser humano incrível… Aquilo já me emocionava desde quando eu retornei a quadra, na apresentação. Então, quando cheguei na concentração e vi o Salgueiro gigantesco, lindo, nunca senti algo parecido. Minhas pernas tremiam e as pessoas nas arquibancadas gritavam ‘É campeão’. Era tudo muito bonito, as fantasias, os carros maravilhosos. O Salgueiro estava impecável”, relatou Sidclei em entrevista ao site CARNAVALESCO.
Repleto de luzes e com muito neon, marca registrada do carnavalesco Renato Lage, o abre-alas salgueirense encerrava o primeiro setor. O carro em questão retratava os antigos cinemas da Cinelândia, como o Cine Odeon. Na frente da alegoria, que era toda nas cores da agremiação, o interior de uma sala de cinema era retratado, com direito a público e um grande telão. Telão este que intercalava cenas clássicas de filmes que falaram ou tiveram o Rio como cenário; com imagens do público na Sapucaí, feitas na hora por um cinegrafista contratado pela escola. Uma aposta certeira, que não só garantiu interação, como também animou quem assistia a apresentação do Salgueiro ao vivo.
Mas a beleza e os acertos não ficavam restritos aos carros alegóricos. Com um conjunto de fantasias que também era de se encher os olhos, seja pelo luxo ou pelo acabamento impecável, o belíssimo figurino da ala de baianas do Salgueiro era digno de destaque no segundo setor. Vestidas de Carlota Joaquina, as senhoras vinham com uma roupa volumusa, com direito a plumas, que tinha um degradê na saia e um vermelho forte na parte de cima. Apesar do tamanho, a fantasia aparentava certa leveza, devido ao bailado solto e os giros constantes das baianas. Havia ainda um leque como acessório, que dava um charme a mais para a ala.
No entanto, nem tudo era perfeito. Desde o início do desfile, o Salgueiro já apresentava problemas para colocar os carros na Avenida, justamente por conta do tamanho gigantesco deles. Um dos primeiros a ter dificuldades para fazer a curva de entrada foi o segundo carro, intitulado “O Tesouro Perdido de Atlântida”. Após conseguir entrar na pista, a alegoria ainda apresentou dificuldades de locomoção, chegando a abrir clarões com a ala de baianas que vinha na frente.
Apesar do problema, a apresentação salgueirense seguiu e cada vez mais conquistou o público. A partir do terceiro setor, a característica satírica e bem humorada do enredo ganhou destaque, com a presença mais predominante de alas com representações e fantasias irreverentes. O ápice disso aconteceu durante a passagem da ala denominada “Malandragem”, que trazia os típicos malandros da Lapa, com direito a terno branco e chapéu panamá, tendo à frente o passista Carlinhos do Salgueiro interpretando Madame Satã, figura lendária da região boêmia do Rio. O momento da coreografia em que os malandros levantavam Madame Satã para o alto arrancava aplausos e gritos das arquibancadas. Tanto Carlinhos, como a ala como um todo, arrebataram ainda a crítica, que concedeu a performance diversos prêmios.
Outro momento que causou frenesi foi a passagem da quarta alegoria, chamada de “Yes, nós temos Bananas… Pandeiros e Balangandãs”. O carro tinha uma enorme escadaria, em que 40 bailarinos faziam diversas coreografias com sapateado. O barulho dos sapatos era captado por microfones espalhados pelo carro e transmitidos para o público através de caixas de som. Tratava-se de mais uma proposta que buscava aproximar o espectador das frisas e das arquibancadas do que se passava na pista. Novamente, algo acertado.
Conforme o desfile avançava e o tempo de apresentação transcorria, novos problemas surgiam. Depois do drama com o segundo carro, outra alegoria também apresentou muitas dificuldades para entrar na Sapucaí. No caso, a sétima alegoria, intitulada de “Hollywood é Aqui”. O carro era um dos mais aguardados de todo o desfile, justamente por trazer o “King-Kong” pendurado no relógio da Central do Brasil, algo tão comentado no pré-carnaval daquele ano. A expectativa era tanta que, ao conseguir fazer a curva e entrar na Avenida, o setor um começou a comemorar enlouquecidamente o feito. Porém, aquela altura, a escola já havia aberto um enorme buraco até a ala seguinte. Para piorar a situação salgueirense, logo em seguida, a oitava e última alegoria, denominada de “O Prêmio da Academia”, teve problemas no acoplamento de quatro esculturas, demorando para entrar na Avenida e abrindo mais um grande buraco na escola.
“Cheguei na dispersão e Salgueiro é campeão. Todos me falavam isso. E eu fui trocar de roupa ali embaixo do túnel, aquele que vai para Rua do Riachuelo, e naquela época a gente costumava ligar para casa para ver como é que foi o desfile. Eu muito feliz naquele momento, as pessoas me parabenizando, dizendo que o Salgueiro já era campeão, e em fração de segundos, terminei de tirar a roupa, liguei para casa e me falaram que um carro quebrou. O carro do King Kong não tava entrando. Aquilo dali já me deu uma frustração. Daí fiquei ali na dispersão, via que a escola não andava, até que de repente começou a chegar os carros e ficar um em cima do outro, tinha virado um filme de terror aquilo dali. Eu, junto com a minha porta da bandeira e com alguns diretores, fomos tentar ajudar. O Salgueiro era tão grandioso que propriamente a ala da força não dava vazão para dispersar os carros. A situação ia ficando cada vez mais complicada, todo mundo chorando e eu, como salgueirense, empurrando carro”, recordou Sidclei.
Enquanto o drama para colocar a sétima e a oitava alegoria acontecia, o Salgueiro estava completamente parado na pista. A demora para resolver a situação foi transformando a empolgação do componente em tensão. Após a entrada dos carros, a escola teria de correr para evitar estourar o tempo máximo regulamentar. Mas, infelizmente, não foi possível. Aos 80 minutos, faltando dois para atingir o limite, o oitavo carro ainda nem tinha cruzado a faixa de meio de desfile da Marquês de Sapucaí. Pouco antes, para poupar tempo, a bateria Furiosa do Salgueiro passou direto pelo segundo recuo.
“Foi o ano da fatalidade. Um samba acontecendo na Avenida, uma escola pulsando, com pinta de campeã e a imagem que eu tenho é o carro de som parado pouco depois de onde ficavam os jurados do Estandarte de Ouro. Na pista, você não sabia o que estava acontecendo, você estava ali envolvido com outras coisas, e o tempo passando… Depois, a gente passa direto pelo box da bateria… São essas as imagens que eu tenho do desfile de 2011. Um samba absolutamente na medida certa do ponto da sátira do enredo, um samba cantado pela escola, mas um desfile que tem aquele gostinho de que perdemos para nós mesmos”, afirmou Dudu Botelho, um dos autores do samba do Salgueiro de 2011.
E mesmo com as adversidades, a parte musical do Salgueiro foi fundamental para não deixar o desfile morrer. O samba da escola, que não era um dos mais celebrados no pré-carnaval, não só funcionou de forma excelente, como conseguiu sintetizar bem o clima alegre proposto pelo enredo. A obra composta por Anderson Benson, Dudu Botelho, Luiz Pião e Miudinho foi entoada a plenos pulmões pelos componentes do início, principalmente, até o fim. Um dos fatores que possibilitam isso foi a boa performance do carro de som, que na ocasião contava pela primeira vez com um trio de intérpretes no comando: Quinho, Serginho do Porto e Leonardo Bessa.
Outra peça fundamental para o rendimento do samba foi a bateria Furiosa do Salgueiro. Com uma fantasia chamada de “Furiosa Tropa de Elite”, os ritmistas vieram vestidos como agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio, o Bope. Tendo comando de Mestre Marcão, que nesse ano contava com o auxílio luxuoso de Mestre Paulinho, a bateria deu um verdadeiro show com direito a coreografias, muitas bossas e paradinhas. A rainha Viviane Araújo, que na época realizava seu quarto desfile no posto, já demonstrava completo entrosamento, além de muito carisma e samba no pé.
Ao final dos desfiles, mesmo com todos os problemas, o Salgueiro despontava na opinião de crítica e público como uma das melhores apresentações do ano. Entre os prêmios obtidos, a escola faturou duas categorias do Estrela do Carnaval: melhor ala de baianas e melhor conjunto de alegorias. Porém, mesmo com este reconhecimento, o estouro de dez minutos do tempo máximo e a provável perda de pontos no quesito evolução tornavam a briga por título distante. Na quarta-feira de cinzas, isso se confirmou e a escola terminou a apuração em quinto lugar. Um fator curioso no mapa de notas da agremiação é que um dos quesitos mais despontuados foi alegorias e adereços, que também foi o único a não receber nenhum dez. De cinco jurados, foram duas notas 9,9 e três notas 9,8. Para efeito de comparação, até mesmo o quesito evolução teve uma nota dez, na segunda cabine de julgamento.
A classificação final do carnaval 2011 do Grupo Especial terminou com a Beija-Flor de Nilópolis em primeiro lugar, com 299,7 pontos. Já o vice-campeonato ficou com a Unidos da Tijuca, que terminou a apuração com 1,3 ponto a menos que a campeã, totalizando 298,4 pontos. Encerrando o pódio, a terceira colocada foi a Estação Primeira de Mangueira, que ficou com 297,2 pontos, 1,2 ponto abaixo da Tijuca e com uma diferença de 2,5 pontos para Beija-Flor. O quarto lugar na tabela ficou com a Unidos de Vila Isabel, que foi seguida pela Acadêmicos do Salgueiro e Imperatriz Leopoldinense, que completavam as seis escolas do desfile das campeãs. Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos do Porto da Pedra e São Clemente terminaram nas últimas posições, mas sem correr riscos de rebaixamento.
A Beija-Flor anunciou que permanecerá com sua disputa de samba interrompida na quinta-feira. Na ocasião, serão retomadas as apresentações e eliminações das obras que concorrem para representar o enredo escolhido pela escola para o Carnaval de 2021: “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”.
Iniciado no fim de novembro, o concurso de sambas-enredo teve 30 canções inscritas e, após três eliminatórias, 13 delas seguem na disputa. As composições são de poetas que integram a comunidade da azul e branco. Eles são os únicos autorizados, além da diretoria da instituição, a acompanhar os eventos da disputa de samba na quadra em Nilópolis.
Devido à pandemia da Covid-19, a presença do público não é permitida e os compositores só podem assistir, isolados em camarotes, às apresentações das obras que criaram.