O Museu do Samba disponibilizou em seu canal no YouTube uma visita guiada à exposição “Semba/Samba: Corpos e Atravessamentos – Brasil e África: Traduzindo o Nosso Samba”. Quem conduz o “passeio” é o escritor e historiador Luiz Antonio Simas, que assina a curadoria textual da mostra, ao lado do escritor e compositor Nei Lopes.
A exposição celebra os saberes da ancestralidade africana e suas conexões socioculturais e religiosas com o universo das escolas de samba, reunindo obras de artistas como Rosa Magalhães, Milton Cunha, Lícia Lacerda, Bruno César, Ana Bora, Alessandra Reis, Marina Vergara, Mulambö, entre outros.
Idealizada por Aloy Jupiara, Felipe Ferreira, Nilcemar Nogueira e Rachel Valença, a mostra, que entra em sua segunda fase, tem curadoria artística e projeto expográfico assinados por Leonardo Bora e Gabriel Haddad, carnavalescos da escola Acadêmicos do Grande Rio.
Em tempos de pandemia, o tour virtual, totalmente gratuito, é uma grande oportunidade para cariocas e turistas conhecerem o Museu do Samba. A instituição, no entanto, continua recebendo visitas presenciais mediante agendamento. A marcação pode ser feita através do e-mail [email protected] ou pelo telefone (21) 3234-5777.
A atividade conta com patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à cultura – Lei do ISS, e apoio do Ministério do Turismo, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Observatório de Carnaval – Iniciação Científica
Pesquisadora: Carla Meirelles de Souza
Auxiliador: Wallace Araújo de Oliveira
ÓPERA CAMINHANTE: DIÁLOGOS ARTÍSTICOS ENTRE TEATRO E DANÇA NOS DESFILES DAS ESCOLAS DE SAMBA NO RIO DE JANEIRO
“Um dia conversando os três: eu, João Trinta e Osvaldo Macedo,
chegamos à conclusão de que, de fato, as Escolas de Samba
oferecem um espetáculo teatral total. Nelas, todas as artes são
presentes: da música, poesia e dança às artes plásticas, figurinos etc.
Nelas, o artista – o sambista – é utilizado em toda a sua
potencialidade, dá vazão a todo poder criador, quer no plano
comunicativo, integrando elenco e público no mesmo espetáculo”
(Hiram Araújo, 2008, p.18)
INTRODUÇÃO
Este trabalho é fruto de uma investigação do impacto das encenações e coreografias como expressão artística nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Há vinte anos atuo nos desfiles das escolas de samba carioca com encenações e coreografias, nas quais percebia que esbarrava na falta de conhecimento e valorização do meu fazer artístico pelas equipes gestoras das agremiações cariocas.
Através da minha vivência, venho buscando identificar os desafios, influências e contribuições da teatralização e das performances coreográficas neste espetáculo operístico, também intitulado O Maior Espetáculo da Terra por Sérgio Cabral (1996).
Sou atriz, diretora teatral de Os Ciclomáticos Cia de Teatro desde a sua fundação, e em setembro de 2021 completaremos 25 anos de existência, levando teatro a todos os cantos deste país e fora dele também. Confesso que fazer parte de um coletivo de teatro facilitou o meu trabalho, pois colocar uma encenação e uma ala coreografada na avenida vai além de ensaios coreográficos ou jogos teatrais, pois dá e exige a compreensão desta expressão artística que coexiste junto a todos os envolvidos dessa grande obra (carnavalescos, gestores, operários, dentre outros). Afinal, se o meu olhar de pesquisa se debruça sobre uma ópera caminhante, não interessaria saber quem faz essa ópera caminhar?
BREVE REFLEXÃO HISTÓRICA E TEMPORAL DAS ENCENAÇÕES NOS DESFILES DE ESCOLA DE SAMBA
O caráter cênico das manifestações carnavalescas dialoga com as celebrações Dionisíacas, em homenagem ao deus do vinho. O pesquisador de carnaval, Hiram Araújo, descreve a associação do carnaval aos cultos agrários nas festividades pagãs das antigas civilizações, como a festa da deusa da fertilidade Íris, e a festa ao mito Dionísio das civilizações greco-romanas, durante o reinado de Pisístrato na Grécia, de 605 a 527 a.C. (ARAÚJO, 2003,
p.01).
De acordo com Ferreira (2004), tais celebrações são confundidas com a origem do carnaval. Estas não seriam propriamente festas carnavalescas, mas sim manifestações carnavalizadas, precursoras dos festejos públicos populares que difundiram-se pelo mundo.
Como tal, o carnaval foi concebido pela burguesia francesa no século XIX, com referências ao termo pela igreja somente no século XI, quando o Papa Urbano II instituiu a quaresma, que é o período de 40 dias marcado por jejum, privações e prazeres da carne, com o intuito de purificação do espírito. Assim, a festa da carne/carnaval ficou conhecida como a festa da bebedeira, da comilança e dos exageros; período de se esbaldar, fazer zombarias e
brincadeiras.
“O Carnaval podia ser visto como uma peça imensa onde as ruas e
praças principais se tornavam um grande palco de um teatro sem
paredes e os habitantes eram seus atores e espectadores. Havia
consumo maciço de carne, panquecas, doces e bebidas e atingia seu
clímax na terça feira gorda” (ARAÚJO, 2003, p. 40).
Segundo Ferreira (2004, p.344), no Brasil, a folia tem como processo fundador as festas ocorridas nas ruas da capital do país. A princípio, forjada por tensões entre as festas da elite e as brincadeiras populares, para, mais a frente, consolidar o carnaval carioca como modelo de cultura popular da nação.
O surgimento das primeiras agremiações carnavalescas no Rio de Janeiro, ainda em Ferreira (2004, p. 344), deu-se com a Deixa Falar, (Antiga Unidos de São Carlos, hoje Estácio de Sá) em 1928, que abriu espaço para os primeiros desfiles entre as escolas de samba em 1929. Em 1932, os concursos foram oficializados pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto e, em 1934, as escolas se organizam para fundar uma entidade, passando a receber subvenção pelo município em 1935.
O novo espaço cênico dos desfiles, suas performances e teatralidade
Com a mudança dos desfiles da Avenida Rio Branco para a Avenida Presidente Vargas em 1963, novas projeções se abrem para as performances coreográficas e a teatralização. Conforme Araújo (2008), as agremiações ganharam uma nova pista, fortalecendo o crescimento do espetáculo e mudando o olhar (de cima para baixo) do espectador nas novas arquibancadas verticais da Presidente Vargas. “A necessidade de compactar os desfiles, eliminar os vazios, preencher todos os espaços, tanto ao nível do chão quanto para o alto, ocupando todo o espaço visual do público” (ARAÚJO, 2008, p.16).
Teatralização e performances coreográficas nos desfiles das escolas de samba acontecem desde o início da década de 1960. “Em 1963 aconteceu a transferência dos desfiles da Avenida Rio Branco para Avenida Presidente Vargas no sentido Candelária/Praça XI, pista mais apropriada para o crescimento dos desfiles, iniciando a cobrança de ingressos” (ARAÚJO, 2008, p.16)
Neste ano de 1963 o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro levou para a avenida o enredo Xica da Silva idealizado por Arlindo Rodrigues cenógrafo, figurinista, carnavalesco e companheiro artístico de Fernando Pamplona, então carnavalesco dos desfiles anteriores do Salgueiro.
Convidada por Pamplona, a bailarina Mercedes Baptista que marcou história nos desfiles do Rio de Janeiro foi a responsável por levar a primeira ala coreografada para a avenida, em 1960, com o enredo Quilombo dos Palmares. Mas o grande destaque de Mercedes foi a ala Minueto de Xica em 1963. Apesar da polêmica, ao levar para os desfiles de escolas outros ritmos e estilos que não fossem o samba, o Minueto criado por Mercedes é o ponto alto do
desfile do Salgueiro, que se consagra campeã.
(Figura 01 – Ala Minueto de Xica, desfile Acadêmicos do Salgueiro 1963 – Acervo: Museu da Imagem e do Som)
Pela primeira vez, na história do carnaval carioca, um enredo foi centrado em uma personalidade feminina. Também pela primeira vez, um desfile de escola de samba apresentava uma ala coreografada. Com perucas, luvas e roupas de época, componentes da escola representavam doze pares de nobres dançando polca.
A ala “o minueto” foi coreografada por Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na época, a ideia causou polêmica e dividiu opiniões, recebendo críticas de sambistas mais tradicionais. Com o passar do tempo, as coreografias em alas e alegorias foram incorporadas por outras escolas. (COSTA, 1984, p.165)
Segundo o relato da professora e escritora e membro da velha guarda do Império Serrano Rachel Valença, no mesmo ano de 1963 o Império Serrano também estreava sua ala coreografada, a “Sente o Drama”, criada pelos exímios passistas Jorginho do Império, Sergio Jamelão e Careca também chamados de “Pelés do Samba”. Muitos integrantes reivindicam o pioneirismo da escola da Serrinha, por levar para a avenida o samba, o genuíno samba no pé. Com isso os integrantes não gostavam de chamar a ala de coreografada e sim passo marcado. Posteriormente a “Sente o Drama” tornou-se um grande celeiro de passistas do Reizinho de Madureira.
“Foi a primeira ala coreografada do carnaval carioca, juntamente com
a ala do Salgueiro, coreografada por Mercedes Baptista e
apresentada no mesmo ano. Os integrantes da “Sente o Drama”
ensaiaram durante dois meses para o desfile. O Império Serrano
conquistou a terceira colocação do Grupo 1 no carnaval de 1963,
atrás do campeão Salgueiro e da vice Mangueira”. (VALENÇA, 2017,
p.433)
Em 1964 o Império Serrano deixou a Avenida Presidente Vagas, aplaudida pelo público e pela crítica como a escola campeã com o inesquecível samba enredo “Aquarela Brasil“ uma homenagem à Aquarela Brasileira de Ary Barroso. Mas a noticia da morte de Ary, no inicio do desfile, abalou os componentes, levando a escola ao quarto lugar.
Foi em 1965 que a Sente o Drama ganhou notoriedade com o desfile memorável “Os Cinco Bailes da História do Rio”, quando os componentes fantasiados de Deus Baco erguiam as mãos e levantavam sua taça, nos versos do samba enredo de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau “ao erguer a minha taça com euforia”.
Este desfile marcou história da ala “Sente o Drama” onde o componente tinha que ser bom nos passos e no samba. Era o grande celeiro de passistas. Todo passista do Império Serrano sonhava integrar a Sente o Drama, pois o componente tinha que ser muito bom no samba no pé. Pela longevidade nos desfiles das escolas de samba, a ala Sente o Drama é considerada pioneira entre as alas coreografadas, pois seus integrantes pertenciam à sua
comunidade e eram torcedores da escola, ao contrário de Mercedes Baptista que levou os profissionais do grupo “Teatro Experimental do Negro” para a avenida.
Com o início das transmissões televisivas e a chegada da TV em cores no Brasil, houve uma revolução nos desfiles, tornando-os atraentes para o público, gerando cada vez mais interesse e abrindo espaço para novas expressões artísticas.
Assim, com mudanças radicais nos desfiles, o fato foi percebido e muito bem explorado por Joãosinho Trinta, uma vez que toda a criação e concepção de figurinos, alegorias e espaço cênico sofreram alterações, ampliando suas proporções para alcançar o público cada vez mais distante.
ENCENACAO E COREOGRAFIA NOS DESFILES CONTEMPORÂNEOS
Com a construção do Sambódromo em 1984, os desfiles passam a ter um caráter de espetáculo operístico, com destaque no capítulo “Tempos Modernos” do jornalista Sergio Cabral, como pontua o pesquisador Faria. “Joãosinho Trinta elevou o status dos desfiles das escolas de samba a uma espetacularização até então nunca vistos”. (CABRAL apud FARIA, 2014, p.36)
Sua estética teatralizada, inspirada nas óperas, a verticalização das alegorias, a introdução de novos elementos plásticos seguiram a nova disposição do público no seu espaço de assistência. Até o início dos anos 1970, o desfile era apreciado numa dinâmica horizontal. “Com o crescimento do público e das enormes arquibancadas montadas, o espetáculo, na visão de Cabral, passou também a ser admirado na visão vertical” (CABRAL apud FARIA, 2014, p.36)
A teatralidade e as performances coreográficas, a cada ano, ganham espaço e notoriedade nos contemporâneos desfiles das escolas de samba, alcançando a popularidade que o teatro convencional não possui no Brasil, como reconheceu o ator e diretor teatral, Sérgio Britto. Em suas palavras, “Nem mesmo o nosso melhor teatro consegue do público a participação que acontece no desfile das escolas”. (BRITTO, apud MONTES, 2016, p.35).
De acordo com Jean Jacques Roubine “encenação é a arte de colocar o texto numa determinada perspectiva; dizer a respeito dele, algo que ele não diz, pelo menos explicitamente; de expô-lo não mais apenas à admiração, mas também a reflexão do expectador” (ROUBINE 1998, p. 41). E o que fazemos em uma encenação num desfile de escola de samba é substituir o texto pelo samba enredo, o palco pela avenida e os atos pelos setores.
No meu primeiro trabalho na escola Acadêmicos do Grande Rio no ano 2000, grande parte dos componentes eram atores formados, o que facilitou bastante o nosso trabalho, pois não tínhamos muito tempo para ensaiar. A cena acontecia no carro abre alas, ambientação perfeita para a cena, fantasia (figurino) e maquiagem corporal, compunham a identidade visual e a atmosfera ideal para um grande trabalho. Mas, é na avenida que a mágica acontece e, neste caso, a confiança e a inexperiência em tal função, pesaram.
O Sambódromo, conforme citado acima por Sérgio Cabral, é um palco enorme. Onde o espetáculo se apresentava em forma de cortejo em uma grande ópera popular em movimento. Araújo (2008, p. 18) relata em uma conversa com Joãosinho Trinta que “o desfile de escola de samba é a renascença de um AUTO, espetáculo dramático medieval, que cresceu tanto em aparatos cenográficos, personagens e atores que foi parar nas praças
públicas” e Joãosinho Trinta concordou.
A encenação criada para este desfile (mesmo sendo executada com excelência) ficou minimalista. Só passou pela avenida, não aconteceu! Ao longo dos anos, aprendi a dominar esse palco (passarela do samba) fazendo com que meus componentes atuem, brinquem e interajam com a plateia mesmo em um palco enorme como a passarela do samba da Marquês de Sapucaí.
Nossos componentes são pessoas comuns: médicos, advogados, empresários, donas de casa, aposentados. Mas como transformar pessoas comuns, motivadas apenas em defender a sua agremiação na avenida, em artistas em tão pouco tempo? Como trabalhar o compromisso, a dedicação em uma festa onde o componente só quer extravasar a sua alegria? Na paixão, eis a resposta. A paixão rege esta festa, indo além do amor à agremiação. Faz com que o mesmo componente vista a fantasia para se tornar algo que não vive, nos outros 364 dias do ano.
Encenação é uma visão ampla, não apenas do ator no palco, mas uma composição de elementos que abrange o texto, a musicalidade, a plasticidade. Todos os esses elementos encontramos em um desfile de escola de samba. Penso que mesmo utilizando algumas técnicas de encenação (como improviso e memória emotiva), não podemos esquecer que este componente é um folião.
É preciso respeitar que em algum momento do desfile, este sambista, ator, componente, só quer sair da personagem e cair na gandaia ao som da bateria. Em relação às coreografias, sigo a mesma linha das encenações, dando liberdade ao folião em determinados momentos, mesmo sendo mais arriscado em uma proposta coreográfica. Em uma coreografia, os movimentos se pautam na sincronia, no ritmo, na precisão e no espaço.
Pegando a perspectiva do espectador na arquibancada, costumo utilizar em minhas coreografias desenhos cênicos que facilitem a visão do alto e à longa distância, pois nem todos os componentes nasceram com o ritmo e a malemolência nos quadris. E esses desenhos cênicos e coreográficos camuflam, em certos aspectos, problemas de ritmo de alguns foliões. No entanto, não costumo excluir componentes por este motivo, mas adaptar a coreografia ou encaminhar para outro setor na escola. Temos componentes de todas as idades, todos os biotipos e dificuldades. Não é por isso que vão deixar de desfilar.
Sei que nem sempre um participante de ala coreografada é um exímio dançarino (às vezes a coordenação motora não permite o entendimento de direcionar para a direita ou para a esquerda, virando um martírio), mas costumo trabalhar com passos bem básicos, utilizando ao máximo a parte superior do corpo para alcançar projeção ao espectador do ultimo degrau da arquibancada.
Não podemos esquecer que esta ala se movimenta em cortejo, comandada, não pela equipe coreográfica apenas, mas por outras pessoas que fazem esta ópera caminhante, caminhar: a direção e equipe de harmonia. O desfile das escolas segue uma movimentação em cortejo independente da movimentação coreográfica. A direção de harmonia, que precisa fazer com que de 3000 a 4000 pessoas aproximadamente deslizem pela avenida em 75 minutos (dados do carnaval de 2020).
Uma ala permanece na avenida geralmente de 31 minutos a 23 minutos, dependendo do setor que for inserida. Quanto mais para o final do desfile, menos tempo de desfile o componente tem para brincar. É preciso muito ajuste e conversa com a equipe de harmonia para que o trabalho coreográfico se encaixe no cortejo do desfile. Isso, sem atrapalhar a execução do trabalho na avenida, ensaiada por meses.
DOIS DESFILES MEMORÁVEIS: “RATOS E URUBUS LARGUEM A MINHA FANTASIA” (1989) E “O SONHO DA CRIAÇÃO E A CRIAÇÃO DE SONHO: A ARTE DA CIÊNCIA NO TEMPO DO IMPOSSÍVEL” (2004)
Performance e teatralidade estiveram em dois desfiles que ficaram marcados na história da Sapucaí como exemplares signos da encenação: “Ratos e Urubus – larguem a minha Fantasia”, enredo da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, em 1989 e “O Sonho da Criação e a Criação de Sonho: a arte da Ciência no Tempo do Impossível”, da Unidos da Tijuca em 2004. Pela projeção do trabalho de encenação e coreografia, impacto visual, relevância na cena carnavalesca e pioneirismos artísticos na teatralidade desfilando na avenida.
Quem não lembra, o Cristo Mendigo de João Trinta e o carro do DNA de Paulo Barros? Inesquecível para os amantes, como eu, dos desfiles das escolas de samba.
O inesquecível vice-campeonato da Beija Flor
Procurando entretenimento em tempos de pandemia, me deparei com a entrevista dada pelo professor, ator e pesquisador em arte Miguel Santa Brígida ao canal virtual Boi com Abóbora, com os queridos André Rodrigues, Fábio Fabato e João Gustavo Melo.
Santa Brígida relatava o processo de criação e encenação do carro abre-alas da Beija Flor de Nilópolis no enredo “Ratos e Urubus Larguem a Minha Fantasia” do ano de 1989 do famoso carro “Cristo Mendigo”. Amir Haddad, célebre diretor de teatro de rua, fez um convite a turma recém formada de Miguel na Casa de Artes de Laranjeiras (CAL) para participar do desfile, reunindo também alunos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e os atores do “Grupo Tá na Rua” liderado por Haddad.
Fiquei encantada ao ver a emoção de Miguel, quando cita a importância dessas duas figuras na “Cena Popular Brasileira”: Joãosinho como carnavalesco e Amir como figura do teatro de rua. Lembrou-se de quando ouvia Haddad falar na necessidade de carnavalizar o teatro e Joãosinho de teatralizar o carnaval, de perceber a importância do teatro neste desfile e fazer parte de uma proposta inaugural nos desfiles de escola de samba.
O programa citado acima serviu de inspiração para o início do meu projeto de pesquisa na Iniciação Científica oferecida pelo Observatório de Carnaval (OBCAR), pois eu me reconheci e me identifiquei com esse processo de trabalho e criação. Quando assisti abertura da Beija-Flor em 1989, não sabia que aquele desfile seria histórico e contribuiria tanto na minha vida profissional e de pesquisadora.
Carro “Cristo Proibido” Desfile Ratos e Urubus Larguem a Minha Fantasia – 1989
Gomes (2008, p.151), no trecho Ratos e Urubus Larguem a Minha Fantasia do livro “O Brasil é um Luxo” cita que
“O carro abre alas traz uma enorme escultura que reproduz o Cristo
Redentor, em andrajos, sobre um monstro repugnante. O anuncio
desta utilização “profana” de uma imagem sagrada provoca reação da
cúpula da Igreja Católica local. A justiça é acionada e proíbe a
utilização da imagem. Mas a alegoria participa, sim, do desfile. Só
coberta por sacos plásticos pretos, de lixo. Com uma faixa onde se lê
“MESMO PROIBIDO OLHAI POR NÓS” consagra-se aí graças
também à intolerância da Cúria carioca, um dos maiores ícones da
obra de Joãosinho Trinta e dos desfiles de Escola de Samba”
Santa Brígida relata que só tomou consciência da grandiosidade desse desfile após a proibição do famoso carro e que estaria prestes a fazer historia participando deste desfile. Na época, críticos como Jacob Klintowitz e artistas como a pintora Tomie Ohtake e o ator Paulo Guarnieri ressaltaram o grande talento de Joãosinho Trinta, aclamado como gênio da passarela do samba e considerado “O Pelé do carnaval”.
Mesmo com toda projeção e consagração do Gênio João, o desfile da escola Nilopolitana não se sagrou vencedor, perdendo no critério de desempate para a agremiação Imperatriz Leopoldinense, que obteve nota máxima de todos os jurados.
“Um jovem comissário de bordo da Varig, apaixonado por carnaval,
desfilou entre os mendigos no carro histórico. O rapaz, nascido em
Nilópolis, freqüentava o barracão da escola e passava longas
jornadas observando o trabalho de construção das alegorias e
fantasias. Ao se deparar, na concentração da Sapucaí, com o Cristo
mendigo coberto, a caminho da concentração; tomou a decisão da
sua vida: seria carnavalesco. Era Paulo Barros, o mago das alegorias
vivas, campeão pela Unidos da Tijuca” (MOTTA, 2012, p.39)
O inesquecível vice-campeonato da Unidos da Tijuca
No domingo de carnaval de 2004 em meio à concentração para o desfile da Estação Primeira de Mangueira, ouvi comentários do sucesso que a escola de samba Unidos da Tijuca fez com seu desfile, principalmente com o carro do DNA. De repente fui surpreendida com dois componentes da minha ala na Mangueira com uma maquiagem corporal, ambos cobertos com purpurina azul.
Tomei um susto e logo me perguntei: como aquelas criaturas iriam tirar toda aquela purpurina do corpo para fazer a outra maquiagem? Ao me aproximar dos indivíduos (já com sangue nos olhos) percebi a empolgação e o delírio de tais componentes com o trabalho da coirmã e pensei: vão dar trabalho!
Voltei à organização da ala na Mangueira e no meio do caminho da concentração me deparei com uma televisão reprisando o tal carro. “Minha nossa! Isso é muito bom!”. Foi o que consegui expressar naquela tensa concentração da Verde e Rosa. Mas quando pude rever o desfile da Unidos da Tijuca com mais calma, percebi a dimensão daquele trabalho e todo o sucesso e o alvoroço que causaria no universo carnavalesco.
(Figura 5 – Carro DNA – “O Sonho da Criação e a Criação de Sonho: A Arte da Ciência no Tempo do Impossível” – 2004 – Foto: Wigner Frota)
A alegoria não trazia grandes esculturas e adereços, se apresentava em forma de pirâmide, composta por mais de 100 componentes representando o código da vida humana. Coreografia executada com originalidade, perfeição e sincronia. Aquela estrutura até então criticada no barracão por alguns componentes no período pré-carnavalesco, ganhara vida ao longo dos 700 metros do Sambódromo da Marques de Sapucaí.
O trabalho coreografado por Marcelo Sandryni e idealizado por Paulo Barros (o mesmo que desfilou como mendigo na Beija Flor) entraria para a história dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, virando referência para vários coreógrafos e marca registrada do seu carnavalesco.
MINHAS MEMÓRIAS E O INÍCIO DE CARREIRA NO MUNDO DO SAMBA
Em 1992 iniciei minha atividade como aderecista na escola de samba Acadêmicos do Grande Rio (o barracão da escola ficava bem perto de onde resido), pois precisava complementar a renda e custear o meu curso de teatro, mas a paixão pelo carnaval veio antes de me tornar uma operária da folia.
Sou cria do antigo carnaval de Madureira e meu pai era ritmista da Portela e adorava me levar nas rodas de samba da antiga quadra da azul e branca de Madureira. Ele sabia que a filha gostava de um bom bumbumpaticumbum prugurundum (com a licença de poder referenciar o enredo apresentado pelo Império Serrano em 1982, a partir de uma onomatopéia do som do surdo).
Época quando as novidades nos desfiles eram vistas com desconfianças por alguns críticos e membros das escolas tradicionais como meu pai, mas mesmo assim adorava assistir os ensaios secretos da ala de passo marcado Sambart liderada por Jerônymo, grande mestre-sala e coreógrafo da Portela.
Eu amava espiar pelas frestas (os ensaios eram de portões fechados) a elegância e a liderança de Jerônymo com seus comandados; e eu sonhava em me juntar àquela gente preta, linda e alta que não tinha só samba no pé, mas uma elegância nos movimentos, uma sincronia nos passos que me deixava encantada e ao mesmo tempo empolgada, pois mesmo com pouca idade eu conseguia acompanhar a coreografia. Ops! Passo marcado! Ala de passo marcado, assim que se chamavam as alas coreografadas nas décadas de 70 e
80.
E eu, me sentia o máximo! E dizia ao meu pai “um dia vou desfilar nesta ala”. Bem… Nunca desfilei com a Sambart, mas hoje tenho o prazer e a responsabilidade de atravessar a Sapucaí em outra função. Lidero uma equipe de encenação e coreografias, mas não foi fácil construir essa trajetória.
Levar teatro e dança para a avenida no final dos anos 90, parecia arriscado e às vezes desnecessário pelos diretores e baluartes das grandes escolas, mas aceitei o convite do carnavalesco Max Lopes e assumi a encenação do carro abre-alas da Escola de Samba Grande Rio no carnaval de 2000. Com o enredo “Carnaval à vista – Não fomos catequizados, fizemos carnaval”, assumi o desafio de reproduzir através de encenação a primeira missa no Brasil em Santa Cruz de Cabrália, descrita por Pero Vaz de Caminha em carta ao rei de Portugal.
Ao iniciar o trabalho com a escola Acadêmicos do Grande Rio, não imaginava o desgaste que era levar uma supostamente simples encenação para avenida, pois precisava captar componentes com perfil indígena, para desfilar com o corpo pintado e praticamente nu. Além de montar a encenação, ensaiar no carro (barracão), na Avenida Brigadeiro Lima e Silva em Duque de Caxias e ainda confeccionar os adereços que adornavam o nosso corpo (o que não fazia parte do nosso escopo de trabalho) foram os primeiros desafios que enfrentei como encenadora no desfile de 2000.
O apoio que recebemos da escola e de sua equipe gestora compensou todo o estresse. No dia do desfile fomos muito bem acolhidos no barracão da escola (na época o barracão ficava na Avenida Rodrigues Alves), onde foi montada uma estrutura de troca de roupa, maquiagem, alimentação e transporte e segurança até a área de concentração. Hoje, essa estrutura seria vista pelas escolas como um luxo, mas faz parte da estrutura de uma equipe de encenação e coreografia.
No ano de 2001, Fabio Ricardo, que conheci em 1996 na Unidos do Viradouro ao trabalharmos juntos como aderecistas, me fez um convite para teatralizar um carro alegórico na Estação Primeira de Mangueira. Era a volta do carnavalesco Max Lopes à Verde e Rosa e Fábio, que hoje é carnavalesco da Mocidade Independente de Padre Miguel, fazia parte da equipe.
A minha passagem pela Estação Primeira de Mangueira foi de muito aprendizado. Lá eu vivenciei o amor e a entrega de um componente pela sua escola. A paixão de um Mangueirense por sua agremiação é inexplicável e, por conta disso, precisei lidar com a expectativa e a cobrança deste componente com algo novo como uma encenação em uma escola tão tradicional. Lá aprendi a importância que os diretores de ala, de carro e de harmonia tinham no meu trabalho. Lá o olhar para o meu trabalho mudou, pois eu era
responsável pelo resultado da escola como um todo, e não somente do meu trabalho. Lá, eu tomei consciência do quanto à opinião dos mais velhos é respeitada, mas também pude conversar e debater o quanto o meu trabalho era importante e que o novo sempre vem.
Em Mangueira obtive os maiores ensinamentos enquanto sambista e pude devolver em arte tudo o que aprendi. Atuei na escola em alguns desfiles, como o de 2002 Brasil com “Z” é pra Cabra da Peste, Brasil com “S” é Nação do Nordeste, onde fomos campões. Já em 2003, participei de um dos maiores desafios enquanto coreógrafa em desfiles de escola de samba: transformar em arte, uma marcante passagem da bíblia, “A travessia do Mar Vermelho”.
Max convidou três coreógrafos para pensar e realizar este feito junto com a diretoria que se fez presente todo tempo, apoiando, estruturando e dando todo o suporte logístico (ensaios no barracão e Sapucaí com equipe de harmonia presente, acompanhamento na confecção e entrega das fantasias e adereços).
Eu, Carla Meirelles (responsável pelo Povo Hebreu), Regina Sauer (responsável pelo Mar), Wilson e Carlos Mutalla (responsáveis pelo Fogo). Éramos artistas com visões e funções diferentes, mas, como já citei, na Mangueira a união faz a força. Realizamos um lindo trabalho, marcado pela explosão de gritos e aplausos na primeira abertura do Mar Vermelho no setor um. Trabalho inesquecível que nos rendeu o vice-campeonato.
Ala: Mar Vermelho – enredo “Os Dez Mandamentos” – 2003
Permaneci na escola até o ano de 2007, quando Fábio Ricardo me convidou para fazer parte da equipe coreográfica da Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha onde assumiria como carnavalesco. Atuei nos carnavais de 2008, 2009 e 2010. Foi outro aprendizado, pois realizar um trabalho em uma escola do grupo de acesso sem a estrutura de ensaios que
encontrava no especial era bem complicado, mas os anos em que atuei pela Verde e Rosa renderam grandes parcerias, onde consegui espaço para ensaios, adesão e fidelidade de dos meus componentes.
Atuei na escola São Clemente também com Fabio Ricardo no ano de 2011 e em 2014 retornei para a escola Acadêmicos do Grande Rio, onde faço parte da equipe coreográfica a convite da própria escola. Na tricolor de Caxias tenho tranquilidade de trabalhar, pois já conheço toda a equipe gestora, de criação e execução. Sinto-me em casa, por mais que não faça parte do dia-dia da quadra. Tenho a confiança no meu trabalho por parte da diretoria e sempre me ponho à disposição para novos desafios junto à escola.
Nos últimos anos três carnavais, a Equipe Carla Meirelles atuou em duas outras escolas: Paraíso do Tuiuti nos carnavais de 2018, 2019 e 2020 e na Unidos de Padre Miguel no Carnaval de 2020.
O MÉTODO DE TRABALHO DA EQUIPE CARLA MEIRELLES
Na equipe, ocupo as funções de diretora geral, diretora artística e coreografa. Fecho contratos, delibero sobre as funções da equipe, faço a interlocução da escola e com a equipe, participo da criação das encenações e coreografias e faço a supervisão geral do que é levado para a avenida.
O trabalho inicia antes mesmo da escolha do samba de enredo. Após a apresentação da proposta de trabalho, feita pela direção de carnaval ou pelos próprios carnavalescos, conversamos sobre o que será apresentado no desfile, como: encenação, coreografia, perfil do componente, calendário de ensaios (cidade do samba, barracão, Sapucaí, rua e ensaio técnico), condições de trabalho, equipe de apoio etc.
Ala: Procissão – enredo: O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião – Tuiuti/2020 – Foto: Luciola Vilella
Logo após a escolha do samba de enredo, iniciamos a divulgação do calendário de inscrição dos componentes, a documentação exigida e início dos ensaios. As inscrições acontecem sempre na Cidade do Samba, de setembro até esgotarem as vagas a cargo de Renato Neves (administrador e diretor de ala) Sirlan Silva (apoio ADM e diretor de ala) e Stael Braga (administradora e diretora de ala).
A próxima etapa é criar, testar e ajustar a coreografia com Ribamar Ribeiro (coreógrafo e encenador). Testamos a coreografia já ensaiando com os componentes, pois precisamos verificar o desenho cênico, a movimentação e a dificuldade dos componentes em assimilar a coreografia e testar a encenação ou coreografia com a fantasia, para evitar e lidar com possíveis intercorrências na avenida.
Ensaios Grande Rio – ala Minueto “2015”
Os ensaios se estendem de outubro até o dia do desfile, e neste período conto com a ajuda das ensaiadoras Bherna Franci e Mell Santos. Pode acontecer de no mesmo dia ter ensaios de alas e coreografias diferentes, e é preciso passar a coreografia para os novos componentes, supervisionar a ala como um todo e conferir a presença dos componentes.
Quando o ensaio acontece no carro, conto com a ajuda de Alexandre Silva (apoio de carro e componente) e Roberto Dinamite (apoio de carro e componente), pois a logística de colocar o componente no carro é complicada.
Carro alegórico: Um Trem Chamado Progresso “2014” – Fotos: acervo pessoal de Carla Meirelles
Precisamos assegurar a integridade física do componente e, nessa operação, a escola sempre disponibilizou sua equipe de segurança, sempre acompanhada pelos diretores do carro e direção de carnaval. Dentro da Equipe, conto com uma equipe de design artístico, responsável pela maquiagem e caracterização dos componentes, liderada por Getúlio Nascimento e Tiago Costa.
Caracterização carnaval 2017 – Grande Rio – carro a Abre Alas “Nossa Senhora Grota”
No ano de 2017 iniciei junto à equipe uma avaliação do trabalho e encaminho aos gestores das agremiações em que atuo, para avaliar todo o processo de trabalho. Avaliamos todas as etapas, desde as inscrições dos componentes, passando por período de ensaios, entregas de fantasias, até a concentração e os desfiles propriamente ditos. Analisamos as atuações dos membros da equipe, o comportamento dos componentes durante os ensaios e a estrutura que cada agremiação nos oferece. Elaboro um relatório e encaminho para a direção da escola. Nossa intenção é sempre melhorar o nosso fazer artístico para o desfile do ano seguinte.
Não posso me esquecer de quem iniciou esta jornada, o grande artista, figurinista, maquiador e amigo André Vital, responsável também pelas maquiagens das comissões de frente de Alex Neoral (Imperatriz Leopoldinense 2012 e 2013 – Unidos da Tijuca 2015, 2016 e 2017) e Adriana Salomão e Steven Harper (Mangueira 2019). André deixou o seu legado no carnaval e os seus discípulos o representam muito bem atuando em outras escolas e equipes.
Gostaria de destacar a contribuição de alguns parceiros nestes anos de trabalho: Angela Teixeira, apoio incondicional e a grande inspiradora da equipe; Adilson Sacramento, o componente mais antigo e parceiro de todas as horas; Nívea Nascimento, ajuda fundamental no desfile 2019; Fernanda Dias, bailarina de dança afro e uma das responsáveis pela coreografia da ala de abertura Tuiuti 2018; Victor Tavares, um monstro no apoio de carro do carnaval de 2019 da Tuiuti; e Kleber Silva, outro monstro nos carnavais de 2019 e 2020. Gratidão eterna.
Gratidão à Max Lopes pela primeira oportunidade, à Fabio Costa, amigo de longa data, ao casal Renato e Márcia Lage pelo aprendizado ao longo de nosso tempo de trabalho, aos queridos Jack Vasconcelos e João Victor Araujo pela oportunidade de atuar na escola Paraíso do Tuiuti e ao Gabriel Haddad e Leonardo Bora por seguirmos. Gratidão a quem faz esta ópera caminhante caminhar e ensinou a bailar nesta caminhada, meus queridos diretores de harmonia e carnaval: Nilton Perácio, Elmo José dos Santos, Edson Marcos,
Percival Pires, Sidney Machado (Chopp), Pedro Arídio, Marquinho São Clemente, Thiago Monteiro, Rodrigo Soares, Dudu Azevedo, Jeferson Santos, Clayton Bola e Cacá Santos, Junior Shall, Andrézinho Show, Alessandro Cobra. A Equipe Carla Meireles é composta por mãos que juntas fazem a diferença. Gratidão eterna.
CONCLUSÃO: DESAFIOS E INTERCORRÊNCIAS NO FAZER ARTÍSTICO
De acordo com Ferreira (2004) com o crescimento do desfile das escolas de samba, a partir dos anos 70 as escolas de samba cresceram de importância social, cultural e econômica, com a participação cada vez maior da classe média brasileira, passando a realizar ensaios em dias da semana ampliando as atividades sociais.
Carla Meirelles – pesquisadora, coreógrafa, encenadora e diretora artística da Equipe coreográfica
Há, ainda, certa desconfiança e desvalorização dos coreógrafos e encenadores por parte da ala, digamos, conservadora das escolas, apesar das transformações e do crescimento do espetáculo dos desfiles como um todo. Penso que há espaço para o novo, sem desrespeitar o tradicional. Entretanto, esta prática já é realidade na cena carnavalesca.
Faço parte da equipe coreográfica (Alas coreografadas e carro coreografados) da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, que me oferece uma boa estrutura de trabalho em todos os campos, logística de ensaios, equipes de apoio, acolhimentos e estrutura nos locais de ensaio, acompanhamento na confecção das fantasias, espaço de ensaios design artístico no dia do desfile (sabemos que essa não é a realidade de todas as escolas).
Muitas vezes me questionei (e ainda me questiono) sobre a importância da nossa participação na avenida. Os gestores e operários do maior espetáculo da terra compreendem o nosso fazer artístico e em muito contribuem para o sucesso do meu trabalho. Somos necessários nesta engrenagem chamada carnaval desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Fazemos diferença no visual, na dinâmica no desfile destas escolas. Que resultado teriam os desfiles marcados por encenações e coreografias sem estas expressões artísticas?
No ano de 2020, por conta da pandemia ocasionada pelo COVID-19, tive a oportunidade de participar de algumas “Lives” de coreógrafos e encenadores, nas quais pude perceber que essas intercorrências também constituem os processos criativos de outras equipes e profissionais da área. Passei a conversar, trocar ideias, assistir palestras e depoimentos de outros coreógrafos comparando e avaliando nossa área de atuação. E quando surgiu a
oportunidade de fazer parte do projeto de Iniciação Científica do OBCAR, sabia exatamente o que pesquisar.
Penso nas dificuldades do diretor teatral Amir Haddad na Beija flor e do coreógrafo do carro do DNA da Unidos da Tijuca, Marcelo Sandryni, para operacionalizar todas as encenações e coreografias. Penso se são os mesmos desafios que encontro nas agremiações em que trabalho. Fantasias improvisadas, exclusividade sem valorização, falta de pertencimento à escola e sua comunidade, e tudo mais que influencia o sucesso do nosso trabalho e no
resultado final desta Ópera Caminhante, termo utilizado por Miguel Santa Brígida para definir os desfiles das escolas de samba e no qual me inspiro para a composição dessas reflexões.
A verdade é que esta oportunidade que o OBCAR me deu despertou em mim uma pesquisadora. Ao longo desse processo, me candidatei a uma vaga de mestrado em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sendo aprovada no processo seletivo em que submeti como projeto as reflexões que parcialmente compartilho aqui. Penso que é o inicio de uma grande jornada e espero contribuir de alguma forma para a melhoria do meu fazer artístico e de quem, nessa ópera caminhante, caminha comigo fazendo-a caminhar.
REFERÊNCIAS
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CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval Carioca dos
bastidores ao Desfile. O rito e o tempo: Ensaios de Carnaval. Rio: Civilização
Brasileira, 1999.
COSTA, Haroldo. Salgueiro: Academia do Samba. Rio de Janeiro: Record,
1984.
FARIA, Guilherme José Motta. O G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro e as
representações do negro nos desfiles das escolas de samba nos anos 1960.
Niterói, 2014. 294f. Tese (Doutorado em História) – Departamento de História,
Universidade Federal Fluminense, 2014.
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Editora Altas, No. 5 1999.
GOMES, Fabio; VILLARES, Stella. O Brasil é um luxo: trinta carnavais de
Joãosinho Trinta. Rio de Janeiro: CBPC, 2008.
MONTES, Isaac Caetano. A “obra de Arte Total” das escolas de samba:
particulares de um carnaval operístico. Textos escolhidos de cultura e arte
populares, Rio de Janeiro, v.13, n.2, p. 33-55, nov. 2016.
MOTTA, Aydano André. Maravilhosa e Soberana: Histórias da Beija-Flor
/Aydano André Motta: organizador. 1. Ed. – Rio de Janeiro: Verso Brasil
Editora, 2012.
ROUBINE, Jean Jacque. A Linguagem da Encenação Teatral, 1880-1980 /
Jean Jacques Roubine; tradução e apresentação Yan Michalski 2 ed. – Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
SEBE, Jose Carlos. Carnaval, carnavais. São Paulo: Ática, 1986.
VALENÇA, Rachel; VALENÇA, Suetônio Soares (2017). Serra, Serrinha,
Serrano – O Império do Samba 1.a ed. Rio de Janeiro: Record.
Site:
Canal virtual youtube: Boi com Abóbora, programa: Cama de Gato – convidado
– Miguel Santa Brígida – (357) CAMA DE GATO COM MIGUEL SANTA BRÍGIDA – YouTube
A disputa está ficando acirrada no Carnaval Wall. Esta semana os confinados participaram de mais uma prova. Desta vez de estratégia, uma espécie de “caça ao tesouro”. A produção do reality escondeu seis taças brancas pela casa e os participantes deveriam encontrar todas em menos tempo. A equipe vencedora seria beneficiada com 120 confetes, a outra ganharia apenas 60. Dessa vez o Grupo Serpentina levou a melhor. Assista o episódio na íntegra abaixo:
Sérgio Cordeiro, Isadora Salles, Brunetty Montilla, Rodolfo Massera, João Arruda e Kaka Morenah demostraram muita habilidade e rapidez. A equipe finalizou a prova em 4 minutos e 28 segundos e ganharam 120 confetes cada um. Já o Grupo Confete fez em em 7 minutos e 16 segundos, cada integrante ganhou 60 confetes (Waleska Gomes, Jhonatan Henrique, Bruna Negreska, Rhuanan Lucas, Daniel Oliveira e Flávia Felix).
Apesar de ser uma disputa, depois da prova os sambistas deixaram a competição de lado e foram se divertir juntos numa brincadeira de infância “Detetive e ladrão”.
No próximo episódio, eles vão fazer um desfile. Aguarde!
Hoje vamos falar da Independentes de Cordovil, o Dragão da Leopoldina, berço de sambistas inspirados como Nego Lu, Gambazinho, Jorjão da Alta e Lula Barbudo, o outro. E do não menos inspirado presidente Salustiano Canela Fina, o Salú, com a sua voz de pato rouco: curta e grossa.
Certa vez, ainda no tempo da antiga Liesga, que reunia todas as Agremiações dos Grupos de Acesso, o presidente Paulo de Almeida apresentava os currículos dos candidatos ao quadro de julgadores do Grupo C.
Leu os predicados de um possível julgador de Alegorias e Adereços, um rapaz de 22 anos com uma extensa folha acadêmica de cursos feitos no Brasil e no exterior. Além de engenheiro, arquiteto e designer, tinha paixão pela música clássica, tocava diversos instrumentos, fazia concertos e gostava de compor óperas. Mas a sua grande paixão era o
samba!
Depois da leitura, Almeida dirigiu-se ao ilustre representante do Dragão:
– Presidente Salú, o que o senhor acha do nosso indicado: aprova ou veta?
Salu foi sincero:
– Acho o candidato muito suspeito, presidente. Com tão pouca idade, o cara já fez tudo isso?! Ahhh… Pode parar! Deve ser um tremendo 171. E assim sendo, tá vetado.
Prata da casa. A nova rainha de bateria do Cubango é a passista Aline Araújo, que desfila na escola há 27 anos. Ela começou na ala das crianças, aos 7 anos, e nunca mais parou de desfilar na verde e branco de Niterói. Nos últimos dois carnavais, Aline desfilou como musa da agremiação.
“Minha vózinha foi a primeira porta-bandeira da Acadêmicos do Cubango. Já fui da ala de passistas, onde passei a maior parte da minha vida, fui também composição de carro alegórico e musa. Hoje, é com muita emoção e alegria que chego ao posto de rainha da bateria da Ritmo Folgado. Tenham certeza que vou dar o melhor de mim para honrar a minha querida comunidade e a minha escola tão amada. Sou muito grata a minha presidente, Patrícia Cunha, e minha vice, Gracyenne Helena, por me confiar o posto e me dar essa oportunidade”, disse Aline.
Um ano sem Carnaval, sim. Mas sem samba, jamais. É justamente da saudade da folia e do apreço pelo ritmo e pilar da cultura brasileira que surge “Pelas Quadras do Samba”, a websérie documental que marca a estreia da temporada 2021 do canal Papo de Música. Criado há dois anos, o programa semanal idealizado e apresentado pela jornalista e radialista Fabiane Pereira é conhecido por suas entrevistas com representantes da música brasileira. Agora, no novo projeto, ela faz um mergulho no universo de sambas-enredo por meio de conversas com alguns dos principais representantes do meio. Nos dias 9 e 12 de março, quem abre alas é Dudu Nobre e Fred Camacho, compositores da Unidos da Tijuca e Salgueiro, respectivamente, falam sobre a função do samba, seus diferentes tipos e os sambas vencedores de suas escolas. Além deles, Azeitona, Jorge Machado, Haroldo Costa e Helena Theodoro, integrantes de diferentes gerações das agremiações, participam do quadro fixo “A História do Samba”, que traz lembranças afetivas resgatadas pelas canções preferidas dos dois convidados.
“O samba é o ritmo mais popular do Brasil e ampliar esse contato com um gênero que é uma das bases da produção cultural nacional é sempre importante”, conta Fabiane Pereira, que recebe uma consagrada tríade de convidados a cada episódio, sempre formada por um aclamado artista do samba e dois integrantes da ala dos compositores da Velha Guarda da escola de coração do convidado.
Após o papo de estreia com Altay Veloso, nos próximos episódios a apresentadora ainda conversa com Manu da Cuíca, Dudu Nobre, Fred Camacho, Pretinho da Serrinha, Magal, Martinho da Vila, Daniel Gonzaga, Andrezinho e Mauro Diniz. “O Papo de Música sempre foi um espaço pra abraçar as sonoridades nacionais, tanto tradicionais quanto contemporâneas. E acho que essa série mostra muito bem como só existe renovação musical quando há referência à memória que os ritmos despertam”, conclui.
Além de ficar disponível no YouTube, o “Pelas Quadras do Samba” ainda se desdobrará em episódios de podcast, no Spotify; e em um e-book. O livro estará disponível a partir de abril.
O site CARNAVALESCO dá prosseguimento a série de matérias intitulada de “Desfiles da Década”, na qual apresentações marcantes que passaram pela Marquês de Sapucaí, entre os anos de 2011 e 2020, serão relembradas. Hoje, um desfile que simbolizou o reencontro da Mocidade Independente de Padre Miguel com seus grandes carnavais e que rendeu o sexto título a Verde e Branca, com o enredo “As mil e uma noites de uma ‘Mocidade’ pra lá de Marrakesh”. Em 2017, toda uma geração de torcedores independentes puderam ver pela primeira vez a escola fazer uma apresentação para disputar campeonato, que desde da comissão de frente, uma das mais marcantes no século XXI, até o quesito plástico, um dos maiores problemas da agremiação em anos anteriores, encantaram a Marquês de Sapucaí. Tudo isso embalado por um dos mais belos sambas-enredo da última década, defendido com brilhantismo por Wander Pires.
Antecedentes
O processo de resgate da Mocidade teve início às vésperas do carnaval de 2014. Na ocasião, a escola enfrentava uma grave crise que já durava alguns anos, agravada durante os preparativos para o desfile. O então presidente Paulo Vianna foi afastado temporariamente pela Justiça acusado de cometer irregularidades e má administração no cargo, tendo o vice Wandyr Trindade, mais conhecido como Vô Macumba, que assumir a presidência às pressas. Diante de um cenário desesperador, em que faltava apenas dias para apresentação oficial e não se tinha quase nada pronto, a agremiação contou com um verdadeiro mutirão para conseguir ir para Avenida e com ajuda fundamental de Rogério Andrade, que passou a ocupar o posto de patrono.
Após superar as dificuldades em 2014, a nova diretoria da Mocidade quis investir pesado para o carnaval de 2015 e apostou suas fichas na contratação do artista mais badalado na época: o carnavalesco Paulo Barros. Além disso, trouxe os coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, responsáveis pela comissão de frente da Grande Rio no ano anterior, para comandar o quesito. O enredo escolhido na ocasião foi o fim do mundo, uma proposta autoral de Paulo Barros, baseada em uma música de Paulinho Moska e Billy Brandão. Apesar dos esforços, o investimento feito não se concretizou na Avenida e a escola ficou na modesta sétima colocação, amargando mais um ano fora do desfile das campeãs.
Jorge Teixeira e Saulo Finelon foram os responsáveis pela comissão de frente. Fotos: Henrique Matos/Liesa
Para 2016, já sem Paulo Barros, a escola recontratou o carnavalesco Alexandre Louzada, que já tinha tido uma passagem pela agremiação em 2012 e 2013. Houve também a contratação de outro artista, que vinha despontando com trabalhos na Unidos de Padre Miguel pela Série A: Edson Pereira. A dupla formada foi a responsável por desenvolver o enredo sobre Dom Quixote, que mesclava um passeio pelas principais obras da literatura brasileira com críticas ao cenário político e social do país. No entanto, por mais um ano, a Mocidade enfrentou problemas nos bastidores e na pista, terminando em um incomodo décimo lugar.
A parceria entre Edson e Louzada teve vida curta e, já para 2017, o segundo carnavalesco seguiu sozinho na escola. E depois dos fracassos anteriores, a agremiação resolveu arriscar a sorte em uma homenagem ao Marrocos, visando obter algum tipo de patrocínio. Em um primeiro momento, a ideia desagradou a comunidade e recebeu diversas críticas. Porém, o olhar lúdico dado por Alexandre Louzada ao enredo e o samba escolhido para o desfile serviram como o começo de uma virada na história independente, que culminaria na apresentação surpreendente daquele ano.
O desfile
A apresentação arrebatadora da Mocidade Independente começou justamente na comissão de frente, assinada pelos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, intitulada “Teatro de Ilusões”. A ideia era de brincar com o universo mágico e os personagens relacionados aos contos das Mil e Uma Noites. De beduínos a odaliscas, a comissão reunia um total de 23 integrantes, oito a mais do que o limite máximo de 15 aparentes permitido pelo regulamento vigente à época. No entanto, tudo não passava de um truque de ilusão, conforme brincava o título da apresentação. Os beduínos se tratavam de bonecos, que eram controlados pelas odaliscas, que “magicamente” surgiam de dentro dos cestos que eles carregavam. Porém, este não era o único e nem o principal truque.
O grande ápice acontecia no momento em que o bailarino representando Aladim saia de dentro do elemento cenográfico em formato de tenda, que acompanhava a comissão de frente, em cima de um “tapete mágico”, com o qual passeava pelo chão da Marquês de Sapucaí. Em seguida, ele retornava para dentro da tenda e depois de alguns segundos um aeromodelo, simulando o Aladim no tapete, saia sobrevoando a pista e as arquibancadas. O cuidado com os detalhes e as proporções criava a ilusão para o público presente na Avenida, pelo menos por uns instantes, de que realmente o componente estava voando. Uma cena que gerou um verdadeiro êxtase na plateia, com direito a muitos gritos e aplausos. Algo que não era visto desde a comissão de frente do desfile “É segredo”, da Unidos da Tijuca, em 2010.
“Este carnaval se resume em uma explosão de emoções. Apostar no que você acredita e ver tudo dando certo, o sentimento de dever cumprido em uma festa que mexe com o coração de muitos torcedores… Quando o Aladim fez seu primeiro voo no setor 1 foi o ápice que não vou esquecer nunca. Vou levar para o resto da minha vida! Essa comissão teve um papel muito importante na nossa carreira. Seremos lembrados para sempre como os pais do Aladim”, relatou o coreógrafo Saulo Finelon, um dos responsáveis pela comissão de 2017, em conversa com o site CARNAVALESCO.
Após a comissão levar o público ao delírio, chegava a vez de Diogo Jesus e Cristiane Caldas, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade, se apresentarem. Tratava-se do segundo ano da dupla junta defendendo o pavilhão principal da Verde e Branca de Padre Miguel. Já com um maior entrosamento em relação a estreia, os dois realizaram uma apresentação segura e sem falhas, com um figurino luxuoso, todo nas cores da escola. A fantasia da porta-bandeira trazia ainda um certo toque de ousadia ao abrir mão do uso do costeiro.
Depois do casal, o desfile tinha sequência com uma primeira ala, representando guerreiros marroquinos nas cores do país homenageado, até a chegada do imponente carro abre-alas, denominado “Bem vindos ao Reino Encantado do Marrocos”. Na frente da alegoria, nove pequenos tripés acoplados simbolizavam uma caravana de camelos, todos dourados e com movimentos. No chassi principal, uma reprodução de um monumento erguido ao rei Mohamed V, na cidade de Rabat, capital do Marrocos. Um carro que impressionava, mais do que pelo luxo ou pelo tamanho, pela beleza do conjunto.
Ainda no começo do desfile, outro momento de deleite visual ocorria durante a passagem da tradicional ala de baianas da Mocidade Independente, comandadas por Tia Nilda, que na ocasião vinham trajadas como vendedoras de chá de hortelã. A fantasia das senhoras de Padre Miguel era toda em tons de verde, mesclado com preto e detalhes em prata, e tinha direito a plumas na cabeça e no costeiro. Um detalhe interessante é que elas borrifavam uma fragrância sobre o público, enquanto evoluíam pela Sapucaí.
Na sequência da apresentação, a segunda alegoria do desfile, que tinha como nome “Nos Mercados do Marrocos, Meu Ouvido é de Mercador, retratava o comércio do país africano e toda sua gama de produtos. Em alusão ao verso do samba-enredo que dizia “É o Saara de lá com o Saara de cá”, que por sua vez fazia uma brincadeira com o deserto marroquino e a região de comércio popular no centro do Rio, havia ainda um paralelo da relação Brasil – Marrocos, com o encontro das duas nações. Vale destacar, neste carro, o esmero nas esculturas e o belo trabalho de iluminação.
E assim como na segunda alegoria, há de se elogiar o trabalho luminotécnico realizado no terceiro carro, intitulado de “Abre-te, Sésamo, que o Samba Ordenou: As Riquezas do Solo Marroquino”. Todo em dourado, o carro fazia referências a história de Ali Babá e os 40 ladrões, tendo cavernas nas laterais representando os esconderijos em que os bandidos escondiam os frutos dos roubos. Uma curiosidade é que a escultura central, que representava Ali Babá, ganhou o rosto do carnavalesco Alexandre Louzada em uma homenagem feita pela equipe do barracão da escola.
“O carnaval de 2017 tem um significado especial para a minha carreira por se consolidar como o resgate da auto estima da Mocidade Independente, dessa torcida apaixonada que voltou a sorrir orgulhosa depois de um jejum de muitos anos desde a era Renato Lage. É importante pra mim também por ter sido um trabalho fruto de muita luta e dificuldades, superadas com um trabalho artesanal e criatividade, já que os recursos eram bem pequenos. Ao contrário do que muitos pensam, não houve patrocínio do Marrocos, pelo menos não que eu saiba, e também por reunir grandes profissionais”, afirmou Alexandre Louzada ao site CARNAVALESCO.
No setor seguinte, que abordava as riquezas e os mistérios do oceano que banha o Marrocos, o destaque fica para a bateria Não Existe Mais Quente. Os ritmistas comandados por Mestre Dudu vieram com a fantasia “Quem Dera Eu Fosse Simbad, Aventureiro, Marujo dos Sonhos”, um traje leve, que permitia uma boa evolução e não atrapalhava a execução dos motivos. Em relação ao ritmo, a bateria soube conduzir de forma segura o samba-enredo melódico, com direito a algumas bossas e até a coreografia.
Ainda nesta parte musical, também há de se destacar o trabalho da harmonia e da boa interação dos ritmistas com o carro de som liderado por Wander Pires, retornando para sua quinta passagem pela Estrela Guia de Padre Miguel. Aliás, o intérprete, que é cria da Mocidade, deu um verdadeiro show no microfone oficial em uma performance praticamente irretocável. Destaque também para o trabalho competente da direção de carnaval, comandada por Marquinho Marino, que devolveu para Padre Miguel a organização de desfile e uma defesa forte de todos os quesitos.
E muito deste bom desempenho de bateria e carro de som ocorreu graças a qualidade acima da média da obra composta por Altay Veloso, Paulo César Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Dadinho, Zé Paulo Sierra, Gustavo, Fábio Borges, André Baiacú e Thiago Meiners. O samba-enredo não só era um dos melhores da safra de 2017 como também configura entre os melhores da última década. Além disso, o samba tocava no fundo do coração do componente e do torcedor independente ao exclamar, no final do refrão principal, o verso “Sonha Mocidade”. Um sonho, que diante daquela apresentação, era cada vez mais real.
“O samba de 2017 é uma coisa muito especial. Altay Veloso e eu sentamos para fazer esse samba, sabíamos que ia sair uma coisa bonita, mas dentro de uma escola onde a gente nunca havia participado de nada, como era a Mocidade, achei que íamos chegar como uma dupla estranha. Mas, para minha surpresa, o samba pegou dentro da quadra. Ele foi muito bem aceito e aquilo me motivou absurdamente. Era uma trilha nova, até porque o samba-enredo para mim era muito recente, porém comecei a sentir que aquela linha melódica estava entrando nos corações das pessoas. E o curioso é que esse samba foi feito muito rápido, em mais ou menos uma hora ele já estava pronto. Acho que o legado que este samba deixa é o de resgatar as células dos sambas antigos, de beleza, de apaixonamento, de emoção. Nós voltamos a imprimir em um samba-enredo a matriz dele”, disse o compositor Paulo César Feital para o site CARNAVALESCO.
A identificação do componente com a letra se refletiu no canto da escola, que entoou o samba-enredo do início ao fim. Até mesmo no quesito evolução isso se refletiu, com uma apresentação sem correrias ou sobressaltos, com o desfilante solto e animado.
“Minha memória mais marcante deste desfile foi quando eu vi, logo no início, o povo nas arquibancadas cantando o refrão do samba. Aquilo, para mim, estrondou no meu coração de tal forma como se Deus estivesse dentro de mim, e Ele está realmente, e naquele momento ele fosse um Rei Momo interno. Uma emoção, assim, maravilhosa”, contou Feital.
Fechando o setor sobre o oceano, a quarta alegoria, chamada de “Contos de Areia e Mar – Mil e uma Aventuras na Lendária Costa Marroquina”, trazia figuras reais que habitam a profundeza das águas, como os cavalos-marinhos, até aquelas do imaginário popular, como as sereias. A alegoria mesclava o colorido dos corais com um predomínio do verde e do azul, dando um belo efeito visual. Outro fator interessante era que, ao ser vista de cima, era possível ver a forma de um grande cavalo-marinho de 35 metros de comprimento.
No entanto, apesar da beleza, a quarta alegoria foi uma das mais problemáticas do desfile. Em diversos momentos da passagem pela Sapucaí, ela apresentou dificuldades de locomoção e chegou a encostar nas laterais da pista. Já no final do Sambódromo, um queijo que trazia uma destaque descolou e caiu. Apesar da queda, a componente não se feriu e deixou a Avenida normalmente. E como a estrutura que quebrou estava do lado oposto ao da última cabine de jurado, o incidente não iria acarretar na perda de pontos para escola.
Em seguida, ao falar da educação, o penúltimo setor do desfile era encerrado com uma alegoria que retratava a primeira universidade do mundo. Intitulada de “Oásis do Saber: Candeia da Humanidade”, ela era toda em branco e mudava de cor conforme a luz. Nela, havia ainda a presença da velha guarda da Mocidade Independente, em uma posição de destaque, em uma justa homenagem aos grandes guardiões do conhecimento e da história da escola.
A integração entre Marrocos e Brasil através do carnaval e da Mocidade era o tema do último setor. O carro que fechava a apresentação, denominado “Miragem Carnavalesca: Das Praças do Marrocos à Praça da Apoteose”, mostrava figuras clássicas da folia, como pierrô e colombina, mas tinha como grande destaque o símbolo maior da agremiação: o escudo, com a estrela-guia, todo em néon verde. Um grande desfecho, para um desfile emocionante, de uma escola que se reencontrava, após longos anos de crises e insucessos.
Apuração
Ao término dos desfiles, a sensação era de que a Mocidade Independente finalmente conseguiria retornar ao Desfile das Campeãs, depois de 14 anos longe. Os erros cometidos por escolas consideradas como favoritas ao título, como a atual campeã na época Mangueira, davam ainda uma esperança de algo a mais para escola. Na quarta-feira de cinzas, o que se viu foi uma disputa acirrada pelo caneco e uma liderança, de certa forma, surpreendente da Mocidade até o último quesito lido: Enredo. Após receber duas notas 9,9 em sequência, a Verde e Branca de Padre Miguel viu o campeonato escapar e ir para Portela, que voltava a vencer após 33 anos de jejum. Já a Estrela-Guia ficou com o vice-campeonato, que foi celebrado tanto quanto uma vitória.
Encerrada a apuração, a classificação final do carnaval 2017 do Grupo Especial teve a Portela em primeiro lugar com 269,9 pontos, apenas um décimo à frente da Mocidade Independente de Padre Miguel, que fechou com 269,8 pontos. A diferença mínima, décimo a décimo, também pode ser vista nas posições seguintes. Enquanto o Acadêmicos do Salgueiro concluiu com 269,7 pontos na terceira colocação, a Estação Primeira de Mangueira terminou em quarto com um total de 269,6. As duas últimas vagas no sábados das campeãs ficaram com a Acadêmicos do Grande Rio e com a Beija-Flor de Nilópolis, que mesmo em sexto lugar concluiu com somente 0,7 abaixo da Portela.
Na sequência da classificação, a Imperatriz Leopoldinense, a União da Ilha do Governador, a São Clemente e a Unidos de Vila Isabel ficaram no meio de tabela. Já as duas agremiações que enfrentaram graves acidentes durante os seus desfiles, a Unidos da Tijuca e a Paraíso do Tuiuti, ficaram na penúltima e última posição respectivamente. Todavia, ambas não correram risco de rebaixamento. A Liesa, liga responsável pelo Grupo Especial do Rio, decidiu cancelar o descenso para Série A naquele ano em uma plenária de emergência, realizada momentos antes da leitura das notas. Na reunião, também ficou decidido que, para compensar, duas escolas seriam rebaixadas no ano seguinte, o que acabou não ocorrendo.
Erro de jurado e divisão do título
Mas as surpresas e reviravoltas com o resultado não pararam por aí. Vinte dias depois da apuração, a Liesa divulgou as justificativas das notas dos jurados e um erro foi constatado no julgamento de Valmir Aleixo, do quesito Enredo. O jurado em questão descontou um décimo da Mocidade devido a falta de um destaque que considerava importante para a apresentação do enredo na Avenida. O problema é que a interpretação de Aleixo se baseava em informações da primeira edição do livro Abre-Alas, roteiro das escolas que é fornecido pela liga aos julgadores. Na versão atualizada, não constava mais a presença do destaque, retirado do desfile da agremiação após a ida de Camila Silva para o posto de rainha de bateria.
“A questão do erro do jurado cria um precedente único, pois o julgador em questão havia ignorado a errata enviada em tempo permitido pelo regulamento onde constava a retirada da Camila Silva da posição de musa e a sua inclusão como rainha de bateria. Um deslize que poderia ter passado despercebido, mas que a Mocidade estava atenta. Porém, quero ressaltar a vitória partilhada com a Portela que também fez um belo desfile naquele ano”, declarou Alexandre Louzada ao site CARNAVALESCO sobre o episódio.
Para efeito de comparação, caso a Mocidade Independente não tivesse perdido a pontuação, a Verde e Branca de Padre Miguel seria a campeã de 2017, porque ficaria empatada com a Portela. O desempate, conforme foi anunciado no início da apuração, era o quesito Comissão de Frente, em que a Azul e Branca de Madureira perdeu um décimo e a Estrela-Guia alcançou os trinta pontos. Diante disso, a Mocidade entrou com um recurso administrativo que solicitava a divisão de título. O pedido foi julgado em um plenária realizada no dia 05 de abril de 2017, entre a diretoria da Liesa e os presidentes das escolas de samba do Grupo Especial. Durante a votação, sete escolas de samba, incluindo a própria Mocidade, foram a favor da divisão do campeonato. Houve cinco abstenções, incluindo o Império Serrano que voltava à elite após vencer a Série A daquele ano. A única contrária à decisão foi a Portela.
A Imperatriz Leopoldinense apresentou sua nova bandeira com uma homenagem ao seu patrono e presidente Luiz Pacheco Drumond. Foram adicionadas as letras LPD abaixo da estrela maior na bandeira, que simboliza o bairro de Ramos.
A presidente Cátia Drumond falou sobre a homenagem:
“Mais do que um marco no tempo, o 62° aniversário da Imperatriz Leopoldinense pontua uma nova era para nossa escola querida. Trata-se da primeira passagem após a partida de nosso eterno presidente Luiz Pacheco Drumond, a primeira vez em que celebrar, mais do que um ato festivo, se torna um auto de respeito e reverência. Por aqui, seguimos trabalhando forte, focados num grande desfile para o próximo festejo, buscando a superação, a transposição dos limites, na rumo ao nosso grande ideal.
Nesta data tão especial, apresentamos a todos os Gresilenses, à nossa comunidade, aos torcedores e ao mundo do samba, através do bailado de nosso 1° Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira Thiaguinho e Raphaela, a bandeira que brilhará em nosso próximo cortejo, ostentando suas formas e cores tradicionais, agora com o brilho e a força da assinatura de nosso eterno patrono, através das iniciais LPD.
Este é o presente da Imperatriz em honra e gratidão ao homem que tanto lutou para transformá-la na verdadeira realeza da folia. Um carinho à memória de nosso herói! Ao fundo, o altar de São Judas Tadeu – nosso santo padroeiro – emoldura este momento mágico para toda a nação leopoldinense; sagrando assim o nosso manto para uma nova caminhada, guardando o passado em nosso olhar para o futuro, estabelecemos outra vez a conexão divina entre o céu e a terra, entre quem vive para perpetuar o legado passado pelas gerações e as lembranças daqueles que tanto amaram o carnaval.
Dizem os mais antigos, que quando um casal ergue seu pavilhão e dança em profunda harmonia, a energia viva do nosso chão vibra através do passo riscado dos pés e se eleva ao firmamento no giro bravio da bandeira, iluminando a morada dos sambistas que cumpriram sua jornada. Que esta dança, neste dia, nesta intenção, seja o prenúncio da eternidade de nossa querida agremiação, um gesto de carinho e inspiração, para que se cumpra a ciranda dos herdeiros, no terno semear da continuidade de nossa cultura e de nossa identidade gloriosa”.
Como fazia habitualmente, Dona Neuma Gonçalves almoçou bem, tomou as suas braminhas e foi tirar uma soneca no sofá da sala, onde a porta estava sempre aberta. A casa da filha de Seu Saturnino – um dos fundadores da Verde e Rosa – tinha uma frequência somente comparável à da própria quadra da Estação Primeira, ali ao lado.
Naquela tarde, Dona Neuma foi acordada com alguém batendo no portal, chamando. Sobressaltada, deu um pulo do sofá, procurando os óculos. Enxergou apenas o vulto de um homem, que dizia, timidamente:
– Dona Neuma, sou eu, o Nenê.
Dona Neuma nem percebeu que o escurinho usava chapéu, um terno bem-ajambrado e fazia mesuras, saudando uma das mais importantes figuras da Corte Verde-e-Rosa. Reagiu, contrariada:
– Que pintor?! Eu não chamei pintor nenhum. Pintei minha casa outro dia. Vocês estão pensando o quê? Que eu sou milionária?
O sujeito ficou mais encabulado ainda. Resolveu se aproximar e se identificou:
– Não sou pintor, Dona Neuma. Sou o Nenê, o Nenê da Vila Matilde.
Era o fundador da afilhada paulistana, que vinha pedir permissão para homenagear a Mangueira no enredo daquele ano.
A Viradouro estreia nesta terça, às 19h, o primeiro reality show do Carnaval carioca. “O Aderecista”, que será exibido pelas redes sociais da escola (Facebook e Youtube), é uma competição entre profissionais das escolas de samba do Grupo Especial, com o objetivo de valorizar e dar visibilidade aos artesãos da festa.
Além de troféu, o vencedor ganha um aparelho de TV em LED e os demais concorrentes, fornos micro-ondas. Na primeira edição, participam profissionais da Portela, Mocidade e Viradouro. Cada agremiação indicou um aderecista e um assistente. Representando a Portela, estarão Vera Galvão e Deborah Portela; pela Mocidade, os indicados foram Guilherme Ferreira e Kaleb Lopes. A terceira dupla do programa de estreia é formada por Biano Ferraro e Wladimir Viana, da Unidos do Viradouro.
Os jurados da disputa são os carnavalescos Alexandre Louzada, da Beija-Flor, Edson Pereira, da Vila Isabel, e o ator Aílton Graça, torcedor do Salgueiro e da Mangueira. A jornalista Alice Fernandes é a apresentadora da atração, que tem ainda as participações de Tarcisio Zanon e Marcus Ferreira, carnavalescos da escola de Niterói, orientando os competidores.
“O Aderecista” é um projeto da Muitamídia, que vai produzir outros modelos inéditos de reality para a Viradouro – última campeã da Sapucaí, em 2020 -, também enaltecendo profissionais que têm pouco destaque e que são fundamentais para a realização dos espetáculos que encantam o público no Sambódromo carioca.