Samba Didático: Mangueira apresenta as Áfricas presentes na Bahia através de musicalidade, ancestralidade e religiosidade
O enredo da Estação Primeira de Mangueira em 2023 vai retomar um casamento há muito tempo esperado pelos torcedores da agremiação, a união da Verde e Rosa com uma temática afro e com toda a musicalidade e religiosidade do estado da Bahia. Campeã do carnaval carioca pela última vez em 2019, a escola promoveu mudanças em diversos segmentos para o próximo carnaval, logo após a posse da nova presidente Guanayra Firmino em maio deste ano. Uma das principais medidas tomadas pela mandatária e sua diretoria foi a escolha da dupla Annik Salmon e Guilherme Estevão para substituir Leandro Vieira, que estava na escola desde o carnaval 2016 e pediu para sair. Da nova dupla de carnavalescos surgiu a ideia do enredo “As Áfricas que a Bahia canta”, amplamente aprovado pela direção da escola.
O samba escolhido para embalar este enredo é de autoria de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim. O compositor Lequinho explicou sobre o que na opinião do artista é o fio condutor da obra produzida pelo grupo para o próximo carnaval da Estação Primeira de Mangueira, além de apresentar a relação entre letra e melodia pensada pelos compositores.
“O nosso samba aborda a ancestralidade, a religiosidade e a musicalidade baiana. Sempre buscando fazer um casamento perfeito entre a letra e a melodia, o nosso samba inicia em tom menor, faz a passagem para o tom relativo em alguns momentos e termina em tom maior, dando ao nosso refrão principal a característica melódica dos grandes sambas de Mangueira”, esclarece Lequinho.
Dando continuidade a série Samba Didático, o site CARNAVALESCO convidou o compositor Lequinho a explicar mais do significado por trás dos versos e expressões do samba-enredo 2023 da Mangueira:
OYÁ, OYÁ, OYÁ EÔ!
Ê MATAMBA, DONA DA MINHA NAÇÃO
FILHA DO AMANHECER, CARREGADA NO DENDÊ
SOU EU A FLECHA DA EVOLUÇÃO
SOU EU MANGUEIRA, FLECHA DA EVOLUÇÃO
“Iniciamos o samba com uma saudação a Oyá, que também é chamada de Matamba. A narradora da obra se identifica como sua filha ao citar o amanhecer e o dendê, expressões que são ligadas diretamente a Oyá. Em seguida inserimos uma frase que está em destaque na sede do primeiro bloco afro do Brasil , o Ilê Aiyê, ‘toda mulher é flecha da evolução’. E finalizamos o trecho com a afirmação de que a Mangueira também é flecha da evolução, tendo em vista que a Mangueira é, notadamente em sua história, uma escola de alma feminina”.
LEVO A COR, MEU ILÚ É O TAMBOR
QUE TREMEU SALVADOR, BAHIA
ÁFRICAS QUE RECRIEI
RESISTIR É LEI, ARTE É REBELDIA
“Nesse segundo momento, afirmamos que o Ilú de Iansã é o nosso tambor que por tantas vezes rufou para homenagear a Bahia. Destacamos também a chegada do povo preto a Salvador com suas crenças, costumes e musicalidade. Para manter viva a sua memória ancestral, eles recriam na Bahia a sua africanidade, resistem e fazem de sua arte uma forma de se rebelar contra todo o tipo de opressão”.
COROADA PELOS CUCUMBIS
DO QUILOMBO ÀS EMBAIXADAS
COM GANZÁS E XEQUERÊS FUNDEI O MEU PAÍS
PELO SOM DOS ATABAQUES CANTA MEU PAÍS
“Nesse trecho o nosso samba faz referência aos Cucumbis, cortejos dramáticos em que uma mulher preta é coroada. Citamos também a resistência dos quilombos na época da escravidão e os cortejos das embaixadas africanas, também conhecidas como Clubes Negros. Finalizamos afirmando que a Bahia é um país que canta e dança, um país que foi fundado ao som de ganzás, xequerês e atabaques”.
TRAZ O PADÊ DE EXU
PRA MAMÃE OXUM TOCA O IJEXÁ
RUA DOS AFOXÉS
VOZ DOS CANDOMBLÉS, XIRÊ DE ORIXÁ
“No refrão do meio destacamos a religiosidade, a preparação do padê de Exu, o ritmo do ijexá para Oxum e os Afoxés. Os rituais que são iniciados dentro do terreiros de candomblé vão ganhando as ruas da Bahia”.
DEUSA DO ILÊ AIYE, DO GUETO
MEU CABELO BLACK, NEGÃO, COROA DE PRETO
NAO FOI EM VÃO A LUTA DE CATENDÊ
SONHO BADAUÊ, REVOLUÇÃO DIDÁ
CANDACE DE OLODUM, SOU DEBALÊ DE OGUM
FILHOS DE GANDHY, PAZ DE OXALÁ
“No início da segunda do samba mergulhamos nos blocos afros. Exaltamos a coroação da mulher preta como deusa do Ilê Ayiê, rainha do gueto. Exaltamos também a explosão do orgulho preto através do Black Power. A luta de Moa do Catendê, fundador do Bloco Badauê, que foi assassinado de forma cruel por uma discussão política. A revolução feminina que deu origem ao Bloco Didá, composto só por mulheres instrumentistas, e a africanidade do Olodum Debalê e dos filhos de Gandhy”.
QUANDO A ALEGRIA INVADE O PELÔ
É CARNAVAL, NA PELE O SWING DA COR
O MEU TIMBAU É FORÇA E PODER
POR CADA MULHER DE ARERÊ
LIBERTA O BATUQUE DO CANJERÊ
“Na parte final destacamos a alegria do carnaval baiano, o Pelourinho, o Axé contemporâneo, a Timbalada, a força e o poder das cantoras pretas da Bahia que cantam e libertam o batuque dos rituais afros pelo Brasil e pelo mundo”.
EPARREY OYA! EPARREY MAINHA!
QUANDO O VERDE ENCONTRA O ROSA TODA PRETA É RAINHA
“No bis que antecede o refrão principal, a narradora faz outra saudação a Oyá para agradecer por toda a sua trajetória. Ela reafirma a importância da mulher preta para a história da Estação Primeira de Mangueira e mantém aceso o sonho de toda menina que sobe e desce as ladeiras do morro de Mangueira, de ter suas vozes ouvidas e o seu talento admirado por todos”.
O SAMBA FOI MORAR ONDE O RIO É MAIS BAIANO
REINA A GINGA DE IAIÁ NA LADEIRA
NO ILÊ DE TIA FÉ, AXÉ MANGUEIRA
“Inspirado na música ‘Onde o Rio é mais baiano’ de Caetano Veloso e com uma divisão de samba de roda, o nosso refrão principal exalta a figura de Tia Fé, ela que veio da África, desembarcou na Bahia, poderia perfeitamente ter sido a matriarca de um dos grandes blocos afros que citamos em nosso samba-enredo. Mas, quis o destino, que ela viesse para o Rio de Janeiro e que aqui no morro de Mangueira fundasse um terreiro onde viu nascer blocos que vieram a formar anos depois a maior escola de samba do planeta”.
Amizade Zona Leste faz ensaio seguro no Anhembi
A Amizade Zona Leste fez seu primeiro ensaio técnico para o carnaval de 2023. A agremiação vermelha, azul, branco e verde foi a segunda a entrar na pista do Sambódromo do Anhembi. O ponto a destacar foi a parte do refrão ‘Canta forte Amizade’ que a escola vinha junto. Pois no geral fez uma ensaio com poucos componentes, seguro, e o destaque negativo foi que no primeiro setor da escola faltou o poderio do canto. Para 2023 terá o enredo “Do Zé Pelintra ao Zé Ninguém. Qual Zé Você É?”, e trouxe referências ao Zé.
Comissão de Frente
Comandado por Márcio Akira, a comissão de frente aproveitava parte da ‘irreverência de quem faz o bem’ e tirava o chapéu azul simbolizando uma reverência. O grupo comandado contava com uma mulher ao centro que será a destaque no meio dos outros componentes, todos homens. Um momento de destaque é quando sambavam e iam sempre movimentando para o lado ou para frente, era bem interativo, agradando o público. Claramente terá referências ao Zé Pilintra, tanto na dança, quanto na vestimenta, já foi visto isso no primeiro contato.
Mestre-Sala e Porta-bandeira
O casal João Lucas e Angélica Paiva vieram de amarelo mostarda e dourado. Na dança, um momento interessante foi quando fizeram sinais quando o samba cantava ‘Saravá’, como estivesse incorporado, outra clara referência ao Zé Pilintra. Na parte ‘Eu sou Zé do Brasil, a cara do povo’, faziam referências ao rosto. Trocaram olhares, beijo na mão e muita sinergia ao mesmo tempo que apresentava o pavilhão para delírio do Setor B. O casal passou com uma dança muito forte e claramente trabalhada em cima do Zé Pilintra. Mostraram um entrosamento neste primeiro ensaio técnico geral, e acaba gerando curiosidade para o que está por vir.

Harmonia
São dois pontos dentro da harmonia. O primeiro é que no refrão ‘Canta forte Amizade’, a escola realmente explodiu e cantou forte. Mas no primeiro setor senti falta do canto, alas que tinha passo marcado, seguiam ele, mas no canto deixaram a desejar. Como uma das primeiras alas, vestidos de kimono de Karate, fizeram apresentação da arte marcial, interativa, mas pouco cantou. Outra ala no primeiro setor, a Quilombolas, 25 anos do Amizade, trouxe um elemento que foi uma bandeira vermelha e verde, coloriu a pista. Por outro lado, a última ala coreografada deu um ar animado, sincronizado de um lado para o outro. Vale destacar ainda uma ala Roda Viva Social com componentes de cadeira de rodas e acompanhantes, todos bem alegres, o presidente Camilo passou por eles dando muito carinho a todos.

Evolução
A agremiação da Zona Leste não veio muito grande e desfilou com muita tranquilidade. Alguns ajustes na evolução de uma ala para outra no começo da agremiação. Afinal as alas vieram com passos marcados, certas, mas por momentos faltou um ritmo mais coeso entre as alas principalmente no primeiro setor, é um ponto a corrigir na escola. Outro detalhe é ter um pouco mais de leveza no ensaio e consequentemente no desfile. É legal a sincronização dos passos, mas em determinado momento senti as alas todas ‘coreografadas’. Vale finalizar que o ensaio foi bem tranquilo, dentro do cronograma de tempo, a bateria passou pela linha amarela leve.

Samba
Conduzido pela dupla Adauto Jr e Eliezer PQP, olhando através da ala musical, o samba flui com leveza e é muito claro interpreta-lo. Ou seja, a ala musical e a bateria estão alinhadas neste ponto. Mas ao mesmo tempo, o samba em si não foi tão cantado pela escola, explode no trecho do ‘Canta Forte Amizade’, quando inclusive a bateria fazia apagões estratégicos para escutar esse momento. Precisa ser trabalhado para a comunidade cantar alto nos outros trechos do samba-enredo, e fluir para a comunidade com a mesma leveza assim como foi para a ala musical.

Outro destaques
A Batucada do Amizade foi um dos destaques pelo ritmo do Mestre Vinicius Nagy, cadenciou bem a passagem da escola, e soube explorar a melhor parte do samba, quando paravam e deixavam o canto na comunidade. Ao mesmo tempo, voltavam sem problemas, o que é importante. Foram algumas vezes aplicada a estratégia dentro da pista. Trouxeram um elemento pirotécnico que era um sinalizador entre a bateria e ala musical, que por vezes lançavam, principalmente na hora que tinha a paradona e o ‘Canta forte Amizade’.

Na corte da bateria com madrinha de bateria Vanessa Alves com o look vermelho e brilhante, sambou bastante, foi destaque. A Rainha Katharina foi bem interativa com o público e de branco com destaques vermelho no chapéu e no salto, uma verdadeira malandra. Ainda a princesa Nathália Ferreira com destaque para adesivo colado ‘Não é Não’, o presidente Camilo e outras alas também fizeram campanha. Também um passista destaque, todo de azul, que é um sambista nato e veio a frente a bateria junto na corte. Por fim, o principal destaque foi uma mini-rainha, com o vestido da bandeira do Brasil, esbanjando simpatia e samba no pé.

O presidente Camilo Augusto é muito conectado com a comunidade, passa por cada ala, setor, cumprimentando todos. Animando, pulando, ajudando na harmonia e evolução da escola, ditando o ritmo junto com os diretores.
