HERMANO CASTRO – Médico pneumologista, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fiocruz e membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – Entrevista publicada no Relatório da Comissão Especial do Carnaval da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro (apresentado em dezembro de 2020).

Em comparação com outras cidades brasileiras, qual foi o impacto epidemiológico da pandemia no Rio de Janeiro?

A cidade do Rio de Janeiro tem um dos índices mais alarmantes de letalidade e mortalidade em comparação com outras capitais e estados. Durante alguns meses a taxa de letalidade na cidade atingiu cifras acima da média mundial. Em setembro, o município do Rio de Janeiro apresentava uma taxa de letalidade de 10,7% (uma pessoa morre a cada nove pacientes infectados por Covid-19 na cidade), enquanto a taxa de letalidade do Brasil era de 3,7%, compatível com a taxa mundial, de 3,3%. Ou seja, na média os cariocas morreram três vezes mais do que as médias brasileira e mundial.

Com a chegada da pandemia no Rio, o que a prefeitura deveria ter feito para gerir a crise e evitar mortes?

A cidade já vinha sofrendo uma redução na atenção primária em saúde e já havia um déficit de recursos humanos e materiais na rede SUS. A redução da cobertura da Estratégia de Saúde da Família (ESF) em quase 10%, aliada a ausência crônica de atenção especializada dificultaram o enfrentamento da pandemia. Os investimentos em hospitais de campanha para internações em leitos intermediários e UTIs Covid tiveram efeito reduzido, dada às dificuldades de contratação de pessoal e problemas de corrupção no Estado. No pior período da pandemia, entre maio, junho e julho, houve aumento de óbitos nas residências e nas UPAs, de pacientes que aguardavam nas filas de internação. Naquele momento teria sido fundamental a cobertura da ESF para o atendimento adequado
aos pacientes que necessitavam, principalmente, de oxigenioterapia para os quadros clínicos moderados. Houve estrangulamento do sistema com falta de leitos para receber a demanda daquele momento.

Quanto tempo será necessário para garantir a imunização da população carioca após a aprovação de uma vacina?

Primeiro precisamos de um plano nacional, estadual e municipal de vacinação. Definir prioridades por grupos de risco, como profissionais de saúde, idosos e outros é necessário para iniciarmos a vacinação. O Brasil possui uma das melhores experiências em vacinação do mundo, usando a rede do SUS. Para que ela atue em sua plenitude, é preciso um planejamento que defina a logística de compra de insumos, que vão de seringas e agulhas à própria vacina, formas de transporte seguras e rápidas e meios de distribuição. Como as principais vacinas disponíveis em fase 3, até o momento, requerem duas doses para imunização, esse planejamento precisa contemplar essas duas etapas para cada um dos grupos prioritários, o que é mais um desafio logístico. Precisaremos, portanto, de vários meses para contemplarmos a população das maiores cidades brasileiras.

O que deve ser levado em consideração para garantir um carnaval com segurança sanitária na cidade do Rio de Janeiro?

O carnaval é um evento necessariamente com aglomerações e, por seu porte e importância cultural, toda segurança deve ser garantida para que não se coloque em risco a saúde da população. O carnaval só poderá ocorrer quando houver uma boa cobertura vacinal, lembrando que, por sua dimensão internacional, é possível que só tenhamos condições seguras de realização com o controle da pandemia a nível mundial.

Quais são as principais lições que devemos tirar dessa pandemia?

A maior lição é a necessidade do trabalho cooperativo de todas as nações para a preparação ao combate a esta pandemia e outras que certamente surgirão, garantindo a vacinação global como direito para todos os povos, independente do poder econômico. A valorização da ciência e a importância do Sistema Único de Saúde que, apesar de suas fragilidades, tem sido o suporte para o atendimento à população. Sem ele, teríamos um quadro ainda mais grave de óbitos. E, por fim, a necessidade de entendermos que não estamos sozinhos, que nossas ações se refletem no outro e devemos cuidar de todos. Como dizia Clarice Lispector, “A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro.”.

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