Por Will Ferreira e Fábio Martins

Como diz um dos alusivos da agremiação, teve samba na rua Melo Peixoto no último sábado de extremo calor e emenda de feriado. A Acadêmicos do Tatuapé realizou mais um ensaio geral visando o carnaval de 2024, com boa presença de segmentos importantes da escola de samba e, como é tradicional em escolas de samba da Zona Leste de São Paulo, canto alto em determinados pontos do samba-enredo – que cantará “Mata de São João – Uma joia da Bahia símbolo de preservação! Entre cantos e tambores. Viva a Mata de São João!”. Com ótimo número de integrantes da ala das baianas e da Velha Guarda, a quarta colocada em 2023 falou diversas vezes em recuperar o título – que veio nos anos de 2017 e 2018.

Fotos: Fábio Martins/CARNAVALESCO

Explosão de alegria

Para contar um município baiano, não poderia ser diferente: a alegria deu o tom para a canção, define Celsinho Mody, intérprete da escola. “É muito difícil falar desse samba, que é todo explosivo. Ele tem várias tinturas, ele é todo colorido, como é a Bahia. Mas ele traz coisas muito importantes. O primeiro é a forma de contar: ele trata da identidade do povo baiano, você vê que ele começa ali com o Xangô, depois os índios tupinambás, depois o povo negro, você vai construindo o cenário com a personalidade e identidade das pessoas. Fala da baiana, fala da senhora dos navegantes , fala de Iemanjá, fala do nosso senhor do Bonfim. Depois conclama o povo brasileiro a um grande abraço. Depois da pandemia, que foi ontem, a gente não podia abraçar ninguém – e esse samba conclama um grande abraço do povo do samba. E, no final fecha com ‘a Bahia tem axé do meu orixá’. Então eu tenho certeza que esse será um grande samba na avenida, a comunidade está muito feliz, cantando muito feliz, e eu vou te dizer que é o samba que eu mais estou cantando feliz até hoje, muito feliz mesmo”, destacou.

A força da comunidade também foi citada por Eduardo Santos, diretor de carnaval e um dos presentes da agremiação – juntamente com Erivelto Coelho, Antônio de Castro e Edu Sambista. O trunfo da nossa escola sempre foi a nossa comunidade, a força do nosso componente, fantasiado ou não, que abraça a escola de uma maneira fantástica. Contamos com eles novamente, como sempre vamos contar. Ele é a nossa diferença e grande trunfo. Sem ele, não somos nada. Eles que vão levar tudo que está sendo feito na Fábrica, e eles quem levam todo o trabalho para o jurado ver. Se o jurado fosse na Fábrica do Samba, certeza que seria nota dez; se ele viesse aqui e visse nosso canto, nosso chão, ala musical e baianas, também daria dez para todo mundo. Mas nós dependemos do dia em que isso acontecendo, quando aproximadamente duas mil pessoas vão no Anhembi levar o trabalho todo produzido e ensaiado para o jurado ver. É para ele que entregaremos tudo isso para que, no dia 09, com a competência de sempre, ele mostre tudo o que fizemos ao longo de todo ano”, comentou.

Ao falar sobre pontos que podem ter evolução, Eduardo deixou claro que a autocrítica sempre acontece na escola. “Tudo tem ajuste para fazer, esse ajuste acaba quando o portão abre. Até lá, estamos ajustando, ensaiando, gravando ensaios, aperfeiçoando, onde não estamos legal para ficar legal, onde já está legal para ficar melhor ainda. Isso não para, é uma luta constante de todo dia, toda hora e todo ano. Vamos fazer isso sempre”, pontuou.

A alegria também deu o tom na Evolução da escola. Em ritmo já bastante correto, a escola fez o ala a ala com ótimo andamento, aproveitando ao máximo o espaço da quadra – em determinado momento, com a presença de algumas pessoas que não estavam ensaiando (provavelmente aguardando a roda de samba que aconteceria depois do ensaio), os componentes passaram a evoluir em um espaço pouco menor. Também chamou atenção o fato de todos já estarem com a coreografia ensaiada e bastante expressivos em relação à dança.

Regulamento sem dramas

Grande novidade para o carnaval 2024, a mudança em boa parte dos quesitos no novo regulamento não é algo que assuste muitos segmentos da escola. Jussara Souza, porta-bandeira da escola, abordou o tema em entrevista. “O regulamento não é que está mais desafiador, ele está mais visualmente pronto para qualquer pessoa que estiver assistindo entender a forma como o jurado pode avaliar o casal. Tem a parte de musicalidade, de ritmo, de qualidade técnica – que é muito importante. Para o Casal Foguinho, atacamos esse novo regulamento da forma que já vínhamos trabalhando. Não mudou muita coisa porque, nos desfiles anteriores, já vínhamos trabalhando em cima do samba. Se a nossa fantasia representa o mar, nossa coreografia também representa o mar. Sempre trazemos alguma referência sobre o samba junto com a fantasia para o coreografia. Antes, o regulamento não pedia isso; agora, pede. Para nós, está tudo ok. Estamos prontos para encarar esse novo desafio”, comentou.

A tranquilidade é tamanha que ela e Diego Silva já estão com quase tudo pronto para a apresentação oficial. “Não mudamos a forma de planejar o nosso trabalho para o próximo carnaval, estamos ensaiando e já estamos com a pista, a apresentação para o jurado, já pronta. Se o desfile fosse amanhã, já estaríamos prontos para brigar pela nota mais uma vez. Estamos ensaiando duas vezes por semana, trabalhando bastante a parte física e seguindo”, declarou. Vale destacar que a porta-bandeira estava acompanhando o casal mirim da agremiação (ela é mãe do mestre-sala de tal dupla) e que, antes do ensaio começar, a ala musical da instituição pediu forças para a mãe de Diego – por redes sociais, ele revelou que estava com a matriarca em um hospital. Toda a equipe também deseja forças para ela.

Celsinho aproveitou para destacar uma das novidades que a ala musical da agremiação trará para o Anhembi. “É um prazer a gente cantar junto, nosso trabalho aqui é coletivo. O nome do intérprete é Celsinho Mody, mas aqui é um trabalho coletivo, das vozes, das cordas. Para mim é um prazer e isso já entra no próximo regulamento, ao qual são dois décimos, que a sala musical pode tanto pontuar, trazer a mais ou perder pontos. Nós sempre tivemos aqui um trabalho muito rebuscado musical, você vê que a gente parava o canto das vozes para ouvir as cordas e vice-versa, e esse ano esse trabalho será multiplicado. Nós vamos fazer uma divisão de canto, um trabalho chamado reconstrução, que é trazer aquele canto da década de 1970, 1960, que as escolas de samba faziam, para o carnaval de 2024. Ou seja: as mulheres cantando como mulheres, cantando as vozes agudas, as oitavas, e os homens cantando como homens, com as notas mais graves, as notas mais, tônicas do samba. Vai ser muito bonito”, suspirou.

Estreante na função de mestre de bateria, Léo Cupim (que não se incomoda em ser chamado por apenas um dos nomes) também destacou que o trabalho na Qualidade Especial é de seguimento. “O processo, na verdade, é uma continuidade. Vai ser uma continuidade do trabalho do mestre Higor, que já tinha a filosofia da escola há muitos anos. Vamos manter a bateria com vigor, com andamento mais para frente, que se tornou a característica da escola. Até por ter sido uma troca repentina, daremos sequência no que vinha sendo feito”, afirmou, relembrando o antigo comandante dos ritmistas – que permaneceu de 2010 a 2023 no posto.

Vale destacar que a Qualidade Especial aproveitou para fazer algumas paradinhas e bossas, o que agitou os componentes. O mestre de bateria, por sinal, foi visto, em alguns momentos, indo para o meio da bateria para conversar diretamente com diretores e ritmistas.

Também em fala que remete ao regulamento, Léo Cupim trouxe mais alguns detalhes da bateria para o ano que vem. “O enredo sobre Mata de São João, na Bahia, certamente vai influenciar paradinhas e bossas da Qualidade Especial para 2024. Não teremos instrumentos complementares com referência à Bahia, mas todos os arranjos e bossas foram pensados com a temática, casando também com o samba”, revelou.

Equipe entrosada

Em cada entrevista, diversos segmentos da escola se elogiam. Celsinho, por exemplo, faz questão de elogiar todo o restante do time de canto. “Nós temos três mulheres no canto: Keyla Regina, que é uma das maiores cantoras do Brasil, um vozeirão espetacular; Sté Oliveira, que entrou esse ano, que é um diamante, uma voz imensurável; e um tesouro que a gente tem, que é a Vanessa Demetria, uma musicista, está se formando agora em musicoterapia, e era componente da ala e passistas e veio integrar a nossa sala musical, já é o terceiro ano dela. Ela já vem fazendo esse trabalho de abertura de vozes para as oitavas, e esse ano ele será massificado. Nós temos aqui os nossos, que sem eles eu não sou nada: André Ricardo, o nosso capitão, Douglas Chocolate e Adriano, cantando as vozes masculinas. Nas cordas são quatro: Kleber, Souza, Celso do Cavaco, que toca bandolim, Caio Sena e Leonardo Gomes. A equipe é a mesma, são nove anos da mesma equipe, fomos aos poucos integrando a voz das mulheres, e esse ano haverá realmente uma divisão igualitária entre as vozes masculinas e femininas. É um trabalho conjunto muito ensaiado, muito rebuscado, um arranjo feito pela ala musical, com a regência da nossa diretora musical, Ana Nascimento, e vamos com tudo para levar música para os jurados. Eu confio muito, respeito muito os jurados do carnaval de São Paulo, porque são sempre músicos conceituadas na área, falando especificamente dos nossos quesitos que tangem o nosso canto. São jurados especializados, gente que sabe de música. Nós vamos fazer um espetáculo para o povo ser feliz, mas também para agradar esses jurados”, derreteu-se.

Vale pontuar, por sinal, que a ala musical, em diversas oportunidades, conclamou a comunidade a cantar mais fortemente e sentir a Harmonia do samba – e os componentes responderam muito bem ao pedido.

O intérprete, por sua vez, recebeu vários elogios de Léo Cupim. “O Celsinho é um parceiro, grande amigo. Desde quando ele retornou à escola, foi uma honra recebê-lo aqui. Ele até conta que eu fui uma das primeiras pessoas a recebê-lo na quadra, e ali fizemos um pacto para buscar o título – o que aconteceu duas vezes. Essa parceria vai continuando, nada muda em busca em torno da nossa terceira escola”, afirmou.

Responsável pela escola e pelos desfiles, Eduardo também entrou na onda. “Estamos trabalhando muito, dentro do nosso prazo. Estamos fazendo um trabalho fantástico na parte plástica lá na Fábrica do Samba, tudo dentro do cronograma – tanto nas alegorias como nas fantasias. Os três quesitos que estão por lá estão todos eles sendo muito bem realizados, dentro do prazo. Dentro da quadra, já estamos a todo vapor fazendo ensaios quintas e sábados. A partir da semana que vem, será terças, quintas e sábados. E, a partir de janeiro, com ensaios de rua e técnicos. Estamos aprimorando nosso canto e evolução, nossa dança… nossa bateria em um desenvolvimento muito legal, mestre Cupim em um trabalho maravilhoso. Nossa ala musical tem uma energia muito grande, que só nos traz muito orgulho e alegria. Estamos esperando com muita ansiedade o dia que juntaremos tudo isso para fazer um grande desfile, e esse dia será o 09 de fevereiro. Estamos nos preparando para que a gente consiga cumpriu o objetivo para o ano que vem: o grande desfile da nossa vida. Acho que vamos conseguir, mais uma vez, estabelecer um pacto de fazer o nosso desfile perfeito”, destacou.

Sem a presença de Muriel Quixaba, rainha de bateria, quem interagiu com a comunidade à frente dos ritmistas foi a princesa da bateria, Talita Guastelli. Com extrema simpatia, ela apresentou os ritmistas e fez a ligação com o restante dos componentes da agremiação.

Cartas na manga

Se o segredo do sucesso da Tatuapé é conhecido, a escola não deixa de ter algumas surpresas para a avenida. Sem revelar a fantasia que usará em 2024, Jussara falou sobre o andamento da vestimenta. “Já vimos a fantasia, mais um ano podendo dar a opinião e deixar a fantasia de uma forma mais leve e tranquila para executar os movimentos da pista. Vai ser uma fantasia bonita mais uma vez, e já fizemos prova de costura e sobre o pano. Agora, ela está entrando na parte de finalização, de decoração e montagem de plumagem. Já está bem adiantado”, comemorou.

Por fim, Léo Cupim comentou que a Qualidade Especial terá um segundo instrumento para que todos fiquem de olho. “Além do agogô, temos um naipe especial que eu gosto de exaltar: o de chocalhos. É um naipe bem forte, que tem um arranjo bem especial para 2024”, finalizou.

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