
A divulgação da sinopse do enredo da Estácio de Sá para o Carnaval 2027 marcou o início oficial da caminhada da vermelha e branca rumo a uma das celebrações mais emblemáticas de sua história. Na quadra da agremiação, a comunidade conheceu os primeiros contornos de “Centenário do Berço do Samba: Onde o Samba Virou Escola e o Brasil se Fez Carnaval”, obra que conduzirá o desfile dos 100 anos da escola. O evento também contou com uma roda de samba pensada como homenagem direta ao nascimento da estrutura rítmica criada no Estácio, e não apenas como entretenimento da noite. A apresentação reuniu nomes da casa, como o mestre de bateria Chuvisco, além de sambistas renomados, como Marcio Vanderlei e Beloba (irmão de Mestre Ciça), numa lembrança viva do ambiente que ajudou a moldar a identidade do samba moderno.
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Mas o centro das atenções esteve na palavra do carnavalesco Marcus Paulo, que detalhou o conceito do enredo e explicou o peso histórico da missão que assumiu.
“Acho que é o momento mais especial da Estácio nos últimos anos, com muita felicidade, porque falar do berço do samba, que é aqui, o Estácio de Sá, esse bairro, é uma responsabilidade muito grande. Contar a história da Deixa Falar mexe com uma memória muito profunda da cultura popular brasileira. Quando comecei a pesquisa, estava muito olhando para dentro da história da Estácio de Sá, para a trajetória da escola como instituição, para seus grandes momentos, suas transformações, mas fui esbarrando numa coisa muito especial: a Deixa Falar reuniu sambistas do Rio de Janeiro inteiro. O primeiro embrião da escola de samba surgiu com a Deixa Falar, esse modelo de escola de samba, mas ele só conseguiu aceitação cinco anos depois, quando aconteceu o primeiro desfile. Isso mostra que foi uma construção coletiva, um movimento cultural que precisou resistir até ser reconhecido”, declarou.

Ao comentar a escolha da roda de samba como parte da apresentação da sinopse, Marcus revelou que a proposta conversa diretamente com esse passado de resistência.
“Essa roda de samba que está acontecendo aqui agora é uma provocação. Porque, no início, reunir-se para fazer samba era como abrir uma boca de fumo. A malandragem estava reunida, e a leitura que se fazia era a de que aqueles pretos reunidos para fazer samba tinham que ser presos. Então, esse lançamento da sinopse com essa roda de samba é para lembrar esse início, para lembrar que a nossa origem nasce desse enfrentamento, dessa resistência cultural, dessa insistência em fazer arte mesmo quando a arte era criminalizada”, revelou.
O carnavalesco explicou que o aprofundamento da pesquisa fez o enredo ganhar uma dimensão ainda maior do que a celebração da própria escola.
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“Foi com a união de várias escolas de samba, com Cartola do Morro da Mangueira, com Tatão e Bento do Morro do Borel e da Casa Branca, com Davi do Morro do Pinto, com Paulo da Portela, com Noel, que se conseguiu instituir essa festa. Quando fui entendendo isso, percebi que não podia falar só da Estácio de Sá. Eu tenho que falar das coirmãs também, porque elas contribuíram para essa construção. Falar do centenário da Deixa Falar é falar da história do Carnaval. É contar como essa manifestação saiu daqui, ganhou a cidade, ganhou o Brasil e depois o mundo”, afirmou.
A sinopse apresentada à comunidade materializa esse conceito ao reunir, em uma dimensão simbólica, figuras como Ismael Silva, Bide, Baiaco e Marçal, observando a evolução das escolas de samba e reconhecendo no Estácio a origem desse modelo cultural.
Sobre as discussões históricas em torno da data de fundação da Deixa Falar, Marcus foi direto.
“Existe esse questionamento, até dentro da própria escola. Algumas fontes apontam 27, outras 28, mas a correta é 27. E, mesmo que alguém questione isso, o meu título é ‘Centenário do Berço do Samba’. Porque o que é inegável é que, na época, eles não queriam ser o primeiro, o segundo ou o terceiro. Eles só queriam mostrar a cultura deles. A malandragem lançou moda, lançou cultura, lançou música, fez arte. Eles queriam mostrar um modo de existir, uma forma de ocupar a cidade através da cultura popular”, pontuou.
Na sequência, reforçou a defesa histórica que norteia a narrativa do desfile. “É inegável que o berço do samba é aqui. Eles vinham para cá, todos vinham para cá. E, quando não podiam mais fazer aqui, porque ficou muito visado e a polícia já sabia onde encontrar a malandragem reunida, o Estácio subiu o Morro da Mangueira com Cartola, subiu o Morro do Pinto, foi espalhando essa cultura para outros lugares. Mas o ponto inicial é aqui. É por isso que o meu título é ‘Centenário do Berço do Samba’. Porque isso é um fato histórico e cultural incontestável”, declarou.
Questionado sobre o que pode emocionar o estaciano no desfile, Marcus falou da identidade comunitária da escola. “Acho que vai emocionar ver a trajetória dessa grande escola, desde a Deixa Falar, Barra do Morro de São Carlos, Barra Estácio de Sá, seus grandes momentos, e ver outras comunidades representadas junto com o Complexo do São Carlos. Porque a Estácio é isso. É portão aberto. Você entra aqui e a quadra está aberta para bater papo, para fazer música, tocar um samba; está aberta até para você se consultar com uma preta-velha. Isso o dia inteiro. Esse acolhimento faz parte da identidade da escola. Então, contar a história deles é falar do Carnaval carioca. E isso emociona porque é uma história viva”, declarou.
Ao falar da futura disputa de samba, o carnavalesco indicou o espírito que espera ouvir dos compositores. “O que não pode faltar é essa malemolência, a malandragem do berço do samba. A marginalidade do berço do samba. Eu faço questão que a mais pura nata da malandragem, toda engomada, com seus belos vincos, apareça nesse bom samba. O samba precisa ter esse perfume, essa elegância, essa irreverência e essa cadência que nasceram aqui”, revelou.
Após a Unidos do Viradouro homenagear Mestre Ciça, cria da Estácio, surgiram alguns rumores de que a escola do São Carlos aproveitaria alguns itens usados na apresentação campeã do Grupo Especial de 2026, mas Marcus garantiu que o desfile do centenário da Estácio seguirá um caminho próprio.
“Até teria coisas que poderiam ajudar, mas esse é um momento muito especial. Já conversei isso com a diretoria. Tem que ser inédito. Tem que ser um momento da escola. O presidente Edson Marinho está fazendo todo esforço para a gente entregar um trabalho inédito. Todo mundo falou muito da abertura da Viradouro, mas a gente vai buscar outro caminho. Um caminho que seja só da Estácio, que tenha a cara da escola e a grandeza desse centenário”, afirmou.
Ao encerrar, confirmou que o desfile prestará reverência aos nomes fundamentais da trajetória estaciana.
“Não tem como não ter homenagem para Dominguinhos, Ciça, Ismael, Bide, Baiaco. Tem os mais contemporâneos, como Luiz Melodia. Até Gonzaguinha, que já foi nosso enredo. Não tem como não falar desses nomes, porque falar da história da Estácio é falar dessas pessoas que construíram a alma da escola”, concluiu.









