Por Leonardo Bruno

A terceira alegoria da Cubango passava à minha frente. Nessa hora, a boca que segundos antes gritava “Gira laguidibá / Giram saias e guias” deixou de cantar o samba, embasbacado que fiquei com a beleza do carro “Sala dos milagres”. Ainda não tinha me recomposto da estupefação – e portanto não tinha voltado a cantar “Ko si oba kan ôôôô / Ofi Olorum ôôôô” – quando chega uma mensagem no celular, de um amigo que via o desfile alguns setores atrás. “Que pena, o terceiro carro tá todo apagado. A escola pode perder o título aí!”. Ignorei meu amigo e voltei a olhar pra pista – e finalmente retornei ao estado normal, cantando “Vou buscar pra mim / A força do seu axé”…

Pobre do carnaval que pode tirar o título de uma escola porque as luzes de seu carro não acenderam. Confesso que não sei precisar ao certo quando o desfile virou uma competição entre eletricistas, mas o fato é que hoje em dia lâmpada virou quesito. Ora, se algum jurado descontar décimos da alegoria mais bonita do carnaval porque ela não acendeu, azar é o do jurado, que não entendeu nada sobre sua função na festa. Me dê o endereço do cidadão que eu mando um carregamento de pilhas Duracell para lá.

O carro que representava a sala de promessas era uma síntese do enredo da Cubango, com suas centenas de fotos, fitas, braços e pernas pendurados, numa miscelânea de elementos propositalmente desordenados, cenário de impacto só comparável ao do manto do Bispo do Rosário visto no ano passado – curiosamente, ambas as alegorias traziam registros dos trabalhadores do barracão integrados à obra. A cena que passava à minha frente era tão bonita que eu nem reparei, veja só, na ausência de luz, até ser alertado pelo inconveniente whatsapp, o que prova que a iluminação não fez a menor falta – e que é hora de bloquear certas amizades.

“Sala dos milagres” é o exemplo mais bem acabado da criatividade dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Num ano em que mais da metade das escolas da Série A trouxeram temas religiosos, precisamos esperar o último desfile para ver a abordagem mais criativa da fé popular. O enredo sobre objetos de devoção era simples e sofisticado ao mesmo tempo, com o requinte de trazer em sua abertura o Babalotim cantado há 40 anos em desfile de agradável memória para os cubanguenses.

A Cubango pode não ser campeã do carnaval – Estácio e Império da Tijuca fizeram desfiles corretos, a Renascer foi uma agradável surpresa. Mas, ao final da noite, o público saiu da Passarela do Samba com a certeza de ter testemunhado o nascimento de dois grandes artistas. Haddad e Bora já tinham mostrado seu talento antes, na Sossego e na própria Cubango. Mas esse desfile os coloca entre os grandes de sua geração, credenciados a estrear no Grupo Especial em 2020. O frescor trazido pela dupla reside na associação de suas inegáveis qualidades artísticas a um conhecimento profundo sobre carnaval. Eles não querem apenas fazer obras interessantes do ponto de vista estético, mas se comunicar com o sambista, já que estudam a festa e se embrenham nas características de suas agremiações. O desfile da Cubango dialogava com outras artes, com referências a Adriana Varejão, Zé Celso Martinez Corrêa, Helio Eichbauer e J. Borges, mas nunca deixou de ser escola de samba em sua melhor concepção.

Aliás, esse pode ser considerado um aspecto que une a nova geração de carnavalescos: uma compreensão do que o carnaval significa para seu povo. Uma festa capaz de produzir Leandros, Jacks, Gabriéis e Boras em tão pouco tempo mostra uma capacidade de renovação fantástica – e sinaliza que está indo pelo caminho certo, ao mesmo nesse quesito.

O desfile da Cubango foi o ponto alto da noite de sábado, mas não ofuscou outros momentos belíssimos que passaram diante de nossos olhos. Se eu pudesse, por exemplo, entraria para nunca mais sair daquele primeiro setor do desfile da Renascer de Jacarepaguá, que trouxe os orixás, com fantasias belíssimas e uma paleta de cores de fazer inveja a Romero Britto (enredo da escola sete anos atrás). Ou poderia ficar um dia inteiro assistindo à dança de Cintya Santos, porta-bandeira da Porto da Pedra, um furacão em vermelho e branco – cores que também vestiram a escultura de Ismael Silva, no último carro da Estácio, lindamente curvado em respeito ao Cristo Negro.

O carnaval nos proporciona esses momentos maravilhosos, como ver o maior homenageado da noite, Antonio Pitanga, deixando a Avenida e pegando tranquilamente o seu metrô para voltar para casa. Ou testemunhar um espectador perguntando quem é a mestra de bateria da Porto da Pedra, ao avistar Mestre Pablo fantasiado de… Benedita da Silva!

Assim como pode ser emocionante, a Sapucaí também nos reserva situações no mínimo estranhas – e aqui nem estou me referindo ao enredo sobre a batata. A comissão de frente da Estácio de Sá era de um sofrimento inigualável, com açoites, martírios, crucificações e outras desgraças, a ponto de parecer desrespeito o componente que sambava feliz ali perto, cantando o samba – como pode estar tão serelepe com uma pessoa sofrendo tanto ao lado?

Mas nada foi tão esquisito na noite de sábado quanto o esquenta do Império da Tijuca. O puxador começou a cantar “Exagerado”, e eu pulei da cadeira. Sim, você não leu errado, a Sapucaí cantou neste 3 de março de 2019 que “adora um amor inventado”. Depois do susto, passei a especular sobre a relação entre Cazuza e a escola ou o enredo sobre o Vale do Café. Será que Cazuza era tijucano, mas dizia ser do Leblon para esconder sua origem? Será que chegou a dar uns rolês pelo Morro da Formiga? Ou era fã de café, bebida preferida para acompanhar a marguerita na Pizzaria Guanabara, daí a conexão com o enredo? Achando as opções anteriores pouco críveis, procurei no roteiro do desfile, para ver se achava uma fantasia “Segredos de liquidificador” ou uma alegoria “Brasil, mostra a tua cara”, que me ajudasse a matar a charada. Nada! Recorri então ao oráculo Google, aquele que tudo sabe. E lá veio a justificativa: a mãe de Cazuza nasceu em Vassouras, e o cantor passou muitas férias lá. Ah… Tá explicado! Mas aposto que nem Cazuza aprovaria essa heresia. Se é pra cantar a música de um “Angenor” na Passarela do Samba, garanto que o roqueiro ia pedir alguma do seu xará (e ídolo) Cartola. Sem exagero.

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