Por Juliane Barbosa, Luiz Gustavo, Maria Estela Costa e Marcos Marinho

Mais uma noite para entrar para a história da Rainha de Ramos. Nove vezes campeã do carnaval carioca, a Imperatriz Leopoldinense definiu, já na manhã deste sábado, em sua quadra de ensaios, em Ramos, na Zona da Leopoldina, o samba-enredo que será levado à Marquês de Sapucaí em 2027. A presidente da Imperatriz, Cátia Drumond, anunciou no palco da agremiação a parceria formada por Me Leva, Thiago Meiners, Gabriel Coelho, Herval Neto, Bernardo Nobre e Guilherme Macedo como a grande campeã da disputa de samba-enredo. Em 2027, a Imperatriz será a quarta escola a desfilar, encerrando a noite de segunda-feira de Carnaval, em 8 de fevereiro. A agremiação levará para a Avenida o enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, em busca do décimo título de sua história.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

show imperatriz final2627 8
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Após a escolha do samba, Cátia Drumond destacou a característica que espera da obra ao longo da preparação para o desfile. “O samba é guerreiro, para cima. Essa é a característica que a Imperatriz vem trazendo desde 2023. É nesse caminho que a gente está e é nesse caminho que a gente vai continuar”, disse.

A presidente também avaliou positivamente a posição de desfile definida para a escola. A Imperatriz será a última agremiação a pisar na Sapucaí na segunda-feira. “A análise é a melhor possível. A gente caiu numa posição e no dia que a gente queria, acho que não podia ser melhor. A Imperatriz tem chances verdadeiras de trazer o título para Ramos”, afirmou Cátia.

leandro catia
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Cátia também fez uma avaliação do modelo de disputa de samba adotado pela escola e voltou a defender a obra que conduziu o desfile de 2026, alvo de críticas durante a temporada.

“O modelo de disputa é praticamente o mesmo do ano passado. O samba desse ano (2026) foi criticado, mas eu acho que foi um samba guerreiro, que atingiu o que a Imperatriz precisava. Hoje, aonde a gente chega, é o samba do Ney que cantam é um dos sambas mais cantados. Não sei até que ponto o samba é ruim. Por que é ruim? Eu acho que o samba tem que servir a escola dentro da Avenida, e o meu samba serviu. Quem não gostou, não posso fazer nada”.

Compositores celebram vitória

Um dos compositores do samba vencedor, Gabriel Coelho comemorou mais uma conquista na escola e destacou a pressão após a disputa do ano anterior.

“É uma sensação maravilhosa. No ano passado venceu uma junção de sambas e enfrentamos muitas críticas. Neste ano, tivemos que mostrar ainda mais o nosso valor, a nossa capacidade e a vontade de fazer samba para a Imperatriz, que é a nossa escola. Agora, o meu maior desejo é que a comunidade abrace essa obra, que o samba se torne o hino da escola e que seja motivo de pura alegria na busca por mais um título”.

show imperatriz final2627 4
Compositor Gabriel Coelho. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Gabriel chega à quarta vitória em disputas de samba-enredo na Imperatriz. O compositor também venceu com os enredos sobre Lampião, em 2023, Cigana, em 2024, e Ney Matogrosso, em 2026.

“Inicialmente, o meu sonho era assinar apenas um samba na escola e hoje já contabilizo quatro vitórias. Estou extremamente feliz e realizado. Agora é hora de celebrar, aproveitar e vivenciar esse momento”.

Entre os versos da composição, Gabriel destacou o trecho “Meia-noite, meia-noite”, que antecede o refrão principal.

“A minha parte favorita é o trecho ‘Meia-noite, meia-noite’. Ele constrói um certo suspense e logo em seguida deságua no refrão principal, que é uma verdadeira explosão. Tenho certeza de que esse momento vai contagiar a Sapucaí inteira”.

Também campeão, o compositor Bernardo Nobre ressaltou a força cultural e espiritual do enredo desenvolvido pela Imperatriz para 2027.

“Representa demais. A Imperatriz trará um enredo com uma energia espiritual e cultural muito singular para o próximo ano, exaltando o Maracatu, a força do Recife e do povo negro recifense. Para nós, foi uma honra compor este samba em homenagem a Dona Júlia, Dona Santa, Eudes e ao Maracatu Nação Porto Rico. Estamos imensamente gratos pela escola ter escolhido a nossa obra. Agora é ‘Oiá, Oiá, Laroyê, Oiá, Balé’”.

show imperatriz final2627 5
Compositor Bernardo Nobre. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Esta é a segunda vitória de Bernardo na Imperatriz. “Este é o meu segundo título. Venci no ano passado, com o enredo sobre Ney Matogrosso, e retornei neste ano em uma nova parceria, contando novamente com o Gabrielzinho, que ao lado do Zé Katimba, é um dos maiores compositores vivos da história desta casa. É uma alegria imensa estar ao lado dele e ter a oportunidade de levar a nossa Imperatriz para a Avenida pelo segundo ano consecutivo”.

Bernardo apontou o refrão do meio como seu trecho preferido da composição. “Acredito que a maioria das pessoas mencione o refrão principal, mas sou apaixonado pelo refrão do meio. É o momento em que retratamos o ritual de reencantamento da boneca, algo simplesmente fantástico. A energia, o ritual, a galinha de angola, a farinha, o sangue no couro é uma parte que pega na veia”.

O compositor Herval Neto também celebrou a conquista e destacou o nível da disputa dentro da escola.

show imperatriz final2627 6
Compositor Herval Neto. Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

“Não existe vitória fácil numa escola como a Imperatriz, onde tem tantos bons compositores da casa. É minha segunda vez concorrendo na Imperatriz e minha primeira vitória. Eu sou Imperatriz e essa conquista significa demais para mim. Meu trecho preferido é o refrão central da galinha d’angola, é espetacular”.

O compositor Lico Monteiro também comemorou a conquista e destacou a continuidade da parceria que já havia vencido a disputa no ano anterior.

“A mesma sensação do ano passado. Ganhar um samba na Imperatriz tem explicação: com essa parceria de amigos, a gente conseguiu construir esse grande samba. Muito obrigado, Imperatriz, por acreditar nessa obra, por deixar a comunidade abraçar essa obra. Graças a Deus, Deus foi fiel e a gente saiu daqui campeão”.

show imperatriz final2627 7

Lico lembrou que a parceria voltou a se reunir para a disputa de 2027 e agora se juntou ao grupo liderado por Me Leva.

“Eu ganhei no passado junto com essa mesma parceria. A gente se juntou este ano com a parceria do Me Leva, agora em 2027. Com todo respeito a todas as obras, mas a gente foi muito feliz. Imperatriz está aí, viva! E vamos para a luta ganhar esse carnaval”.

Imperatriz reencanta a si mesma em show da final

O show que fechou a apresentação da Imperatriz na quadra abriu no ritmo certo: a bateria “Swing da Leopoldina”, sob o comando de mestre Lolo, entrou com suas já conhecidas paradinhas e reservou um momento especial para uma paradinha de baque dedicada ao maracatu de baque virado, com direito a passistas em cena. Um início que já anunciava o tom de diálogo entre tradições que marcaria toda a apresentação. * SAIBA AQUI COMO FOI O SHOW COMPLETO

Como passaram os sambas na final

Parceria de Josimar: Pixulé cantou o samba da parceria de Josimar, Carlos Kind, Diego Jorge, PC do Rio, Kleber Di César e Robert Farrow. A obra, de melodia dolente sobretudo na primeira parte, apresenta variações muito interessantes que conduziram uma forte apresentação nas duas primeiras passadas sem bateria. Com o passar da apresentação, o desempenho se assentou, mas se manteve em um nível forte. O refrão central, “Gira aê calunga, boneca morada do Egun no Ayê, gira aê calunga, boneca morada no Egun no Ayê, no encanto do criador, Porto Rico perguntou, Dona Júlia, cadê você?”, tem uma estrutura envolvente e ousada, saindo do lugar-comum melódico e se destacando. A segunda parte é mais convencional e não segurou o desempenho durante as passadas, mesmo com o bom trabalho de Pixulé e seus apoios, que tecnicamente defenderam com categoria o samba. Ainda assim, o trecho arrefeceu a pegada até o fim da exibição, mesmo com um crescimento na narrativa do enredo. O refrão principal, “Tem macumba e maracatu segunda-feira, tem macumba e maracatu segunda-feira, no toque do meu tambor, as bênçãos do candomblé, Imperatriz axé”, completa cronologicamente o enredo e teve um bom rendimento em toda a apresentação. Um desempenho de boa qualidade que não mexeu tanto com a quadra.

Parceria de Me Leva: Igor Sorriso, Igor Vianna e Grazi Brasil comandaram o samba de Me Leva, Gabriel Coelho, Bernardo Nobre, Guilherme Macedo, Herval Neto e Thiago Meiners. A largada para o início da apresentação já foi de muita potência, com cada intérprete esquentando um trecho da obra. Quando o samba largou, o que se viu foi uma primeira passada inebriante, envolvente e categórica, com cada verso soando como um rito. Sobretudo o excelente refrão central, “É galinha d’angola, farinha, é sangue no couro, sassanha pra folha de boldo, copo d’água, fumaça e acaçá, foram três dias de resguardo no roncó, feitiço que corta nó pra boneca reencantar”, que gera a imagética de um ritual e possui um magnetismo que chama o canto, além de ser muito gingado, teve grande desempenho durante toda a apresentação, acompanhado pelas palmas de parte do público. Ao todo, a composição tem cinco bis, mas isso não travou o samba, que fluiu muito bem e potencializou seus pontos mais fortes. O refrão principal, “Oyá Oyá, ê Lari ô Oyá balé, Oyá Oyá, ê Lari ô Oyá Balé, que meu ogã evoque um ponto de macumba, pra ganhar a rua a Imperatriz do candomblé”, manteve a força da obra. O samba sustentou com firmeza até o fim, realizando uma ótima apresentação e fazendo jus à qualidade que possui, principalmente na impecável narrativa do enredo. O samba campeão da Imperatriz mostrou suas credenciais.

Parceria de Hélio Porto: Tinga e Charles Silva foram as vozes principais da obra de Hélio Porto, Miguel Dibo, Antônio Crescente, Orlando Ambrosio e Marcelo Viana. Um samba que vinha se apresentando muito bem em todas as fases e, na final, corroborou com mais um desempenho de alto nível. As duas passadas sem bateria foram de uma pressão absurda, com a maior adesão da quadra na final, sobretudo nos refrãos. Quando a bateria entrou de primeira, o samba pareceu ter uma queda, mas logo se arrumou e seguiu a forte toada. O refrão central, “Desce do orun, fiz teu trono, Dona Santa, na boneca guardo Egum, Awre Awre brilha no Ayê, calunga de embuia que babá mandou fazer”, joga o canto lá no alto e foi o ápice da apresentação. A melodia é muito valente e não se arrasta, tendo variações de bastante qualidade, como no refrão “tem vela acesa, couro em sangue, copo d’água, a cantiga, tira a mágoa, veste branco no roncó, okan e cabra e galinha pra ofertar, rastilho, fumaça, acaçá, quem vai pra rua não vai só”, trecho que também acerta em retratar o ritual de limpeza e retorno à vida espiritual de Dona Júlia. Charles, Tinga e os apoios trabalharam bem as nuances melódicas e os pontos de maior potência, resultando numa apresentação redonda durante os vinte minutos.