Dando continuidade às entrevistas com as candidatas ao posto de rainha de bateria da Beija-Flor de Nilópolis, conversamos com Flávia Custódio, passista de 40 anos. Ela está na escola desde 1995 e hoje vive o sonho de alcançar o posto que pertenceu a Raíssa de Oliveira por 20 anos. Flávia nasceu em Nilópolis, mas atualmente mora em Realengo, se intitula dona do lar e tem em sua mãe, dona Regina, seu grande referencial de vida. A final acontece na quinta-feira.

Sua história com Beija-Flor vem antes mesmo de seu nascimento, seus avós e tios têm ligação forte com a agremiação, assim como sua mãe, que chegou na escola em 1969. Flávia diz que seu primeiro desfile foi em 1995, mas um ano antes ela conta que pisou na quadra pela primeira vez, participou dos ensaios e estava pronta para desfilar, porém, quando recebeu a fantasia viu que o peso era muito grande, ela que tinha 12 anos na época, foi convencida pelo diretor da ala a não desfilar, pois poderia passar mal.

“Eu iniciei a minha vida carnavalesca em 1995. Que foi o meu primeiro desfile. Mas a minha história com o Carnaval vem de bem antes, bem antes até mesmo de eu nascer, a minha família toda é de Carnaval. Minha mãe, o primeiro desfile dela na Beija-Flor foi 1969, esse histórico vem da minha mãe, dos meus avós, dos tios, a primeira vez que eu fui a quadra da Beija-Flor foi em 1994, eu consegui uma vaga na ala, eu ensaiei, só que quando foi pra buscar a fantasia, ela pesava mais do que eu, e aí o diretor falou que infelizmente não daria, então foi aquele banho de água fria, mas eu entendi, não teria e ele disse que eu poderia ter problema na avenida por não aguentar até o final. Permaneci, e em 1995 graças a Deus eu iniciei e tô aí até hoje. Eu tinha 12 anos”, conta Flávia.

Antes de chegar ao posto de Passista, Flávia passou pela ala das crianças, foi baianinha e ficou um longo período em ala coreografada, somente em 2019 ela estreou como passista.

“Eu iniciei como ala crianças, no ano seguinte eu fui pra Baianinha, fiquei até o carnaval de 2000 não, aí em 2001 eu ingressei na ala coreografada da Valéria Brito. Lá eu fiquei até 2018. Aí para o carnaval de 2019 eu fui fazer o teste pra ala de Passistas e onde eu me encontro no momento”, diz Flávia.

Muitos foram os desfiles inesquecíveis para Flávia, mas ela destaca que o primeiro ficou marcado em sua memória, mesmo que não tenha muitas fotos, ela diz que foi especial e se recorda de ficar admirando a queima de fogos e de estar muito emocionada por estar participando daquele momento.

“O meu primeiro ano com certeza. Eu tenho várias recordações, mas a minha maior recordação é que eu só sabia chorar, era tanta gente e aquela coisa linda, antigamente a fogos duravam muito tempo, então você ficava assim ali sem entender, vamos chorar porque isso aqui é muito bom, é gostoso de viver eu não consigo esquecer, e eu sempre gosto de de detalhar assim as minhas fantasia, quase não tenho foto, mas tenho tudo na memória, cada ano. Mas o meu primeiro ano foi inesquecível”, conta a passista.

Flávia diz que sempre teve o sonho de ser passista, mas que o tempo foi passando e ela achava que não seria mais possível, porém, a escola sempre a incentivou e abriu portas para que esse sonho se concretizasse, ela resolveu fazer o teste, passou e ama estar em todos os ensaios e sentir a comunidade.

“É o que eu já disse em outras entrevistas, não foi sempre que eu tive esse sonho, mas chegou um determinado momento da minha vida eu acho, eu comecei a botar esses sonhos pra trás, não, não dá mais pra mim, a idade já chegou, e sempre a minha escola abrindo portas, me encorajou, porque não? Vai lá tentar, por que não? E sempre que eu tentei eu obtive êxito, então eu estou muito com tudo. Eu sou muito feliz com a minha escola, eu sou feliz em ser passista, eu amo fazer aquilo ali, de estar toda quinta-feira ali. Eu adoro”, frisou a candidata.

Substituir Raíssa de Oliveira não vai ser tarefa fácil, afinal, a rainha marcou toda uma geração ao longo desses 20 anos de reinado, Flávia conta que ao fazer a inscrição para concorrer ao posto, sentiu medo, mas que ao olhar para dentro da comunidade viu que é possível, afinal, o mais importante para ser rainha ela tem: que é o amor pelo pavilhão.

“Iinicialmente, o meu sentimento no ato que eu fui pra me inscrever foi de medo. Medo por conta de não saber como lidar, de não saber como caminhar, dar mais um passo, mas eu olhei a comunidade, porque eu cresci no meio disso, no meio da velha guarda, da baiana, da tiazinha que cuida do banheiro, da que cuida da cozinha. Não está sendo uma dificuldade, mas lógico que é uma grande responsabilidade porque Raíssa é eterna. Não é ocupar o espaço dela, substituir uma menina que se tornou mulher e que fez com que a gente acreditasse nos nossos sonhos, que é capaz conseguir, é uma honra, uma grande responsabilidade, mas é uma honra e eu sinto que é o meu momento”, conta a candidata.

Para Flávia, nada mudará caso ela vença o concurso, ela hoje enxerga a escola como uma só, onde todos os segmentos têm suas responsabilidades, enquanto muitos tem o carnaval apenas como lazer, a passista diz que leva como se fosse um trabalho e que vai continuar se dedicando de corpo e alma.

“Acredito que dentro da minha vida pessoal não vai mudar nada. E dentro da escola eu acredito que também pra mim não vai mudar muito porque eu sempre vivi com aquilo ali com responsabilidade. Por mais que as pessoas vejam o Carnaval como o seu momento de lazer, o seu momento de distração, mas também é um momento de responsabilidade. Pra mim eu levo como se fosse um trabalho. Eu não vou saber diferenciar muito assim não, ser passista, baianinha ou ser rainha tem seus pesos, mas a responsabilidade é a mesma porque é uma escola só, quando a gente tem amor pelo que a gente faz, o cargo meio que indifere um pouco”, conta.

Ao ser perguntada sobre suas referências dentro do carnaval, Flávia prontamente cita o nome de Raíssa, ela conta que viu a rainha chegar ao posto, em 2003 e acompanhou seu crescimento e amadurecimento dentro da escola, ela diz também que respeita as musas de outras agremiações, mas que dentro de Nilópolis tem muita gente boa e cita também, Sônia Capeta, Neide Tamborim e Aline.

“Sem discussão, né? Raíssa. Porque que história, que legado, que caminho lindo, porque eu vi ela chegar muito menina, se tornar mulher aos olhos do público e a cada ano crescendo, agregando e somando a escola. Ela é uma coisa que me emociona de falar. Ela como muitas outras, eu gosto de falar de dentro do meu quintal. Respeitando todas, mas dentro do meu quintal tem muitas referências. Tem Sônia Capeta, tem a Neide Tamborim maravilhosa, tem a Aline. Então essas são as minhas referências”, diz Flávia.

Flávia finaliza defendendo que dentro do carnaval ocorra mais harmonia entre as escolas, que carnaval não é espaço para briga, mas sim para disputa saudável: “acho que tá faltando um pouquinho mais de harmonia entre as escolas, um pouquinho mais. Vamos sim disputar, mas nós não vamos guerrear”, finaliza Flávia.

Jogo rápido com Flávia Custódio:

Time do coração: Flamengo
Samba-enredo predileto: “A Saga de Agotime, Maria Mineira Naê” (Beija-Flor, 2001)
Filme predileto: “A Órfã”
Comida favorita: Churrasco
Lugar inesquecível que visitou: Brasília (foi com a Beija-Flor durante o enredo de 2010)
Lugar que desejaria visitar: África
Carnaval é espaço para política: Sim

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