A crença em uma verdade legítima

Nome do enredo: O conto do Vigário
Nome do carnavalesco: Rodrigo Almeida

O ano de 2020 vem coroar uma retomada de enredos críticos e autorais que ficaram por
muito tempo adormecidos na festa das escolas de samba. São Clemente e Caprichosos,
nos finais dos anos 80, nos brindaram com desfiles antológicos que não saem da
memória afetiva dos sambistas. Ao longo dos anos 90 e início dos anos 2000, as escolas
de samba tornaram-se outdoors para enredos patrocinados que eram bons geradores de
renda, porém não dialogavam com a festa e com seus brincantes.

A partir de 2018, uma nova mudança começa dentro do organismo vivo das escolas de
samba, mas ao contrário dos últimos progressos nos quesitos plásticos, desta vez a
revolução ocorreu dentro das narrativas dos enredos. Atualmente, há uma preocupação
pelo discurso que se quer passar para o público. Essa nova tendência, que relembra os
carnavais passados da década de 80, traz ares de renovação da festa, pois os enredos
críticos da atualidade vêm questionar a nossa história oficial e dar um novo
entendimento com uma visão que agrega o povo, a academia e a festa, assim como fez
Fernando Pamplona.

É nesse contexto que O Conto do Vigário que será apresentado pela Acadêmicos de
Vigário Geral dialoga com o universo atual da vida brasileira, questionando os fatos da
história oficial por uma história real, uma ideia machadiana que foi muito divulgada por
Ariano Suassuna, que através da dicotomia, acreditava existir dois brasis: um oficial e
outro real. O Brasil oficial é o dos livros didáticos, do discurso que somos o país do
futuro, das artes eruditas. Por outro lado, sob essa perspectiva, o Brasil real é o Brasil
das artes populares, dos contos do povo, do que ele afirma ser genuinamente brasileiro e
sem interferência estrangeira.

A Vigário Geral questiona a história oficial brasileira e de forma muito sagaz quem
conta o que seria a verdadeira história para nós é o próprio Brasil. O enredo remete a
como o Brasil era vislumbrado na Europa, antes mesmo da invasão dos portugueses, e
segue nos contando dos saques e explorações que ocorreram com o país. O lugar que
sempre foi considerado “um santuário de beleza, riqueza e prosperidade”, é o mesmo
que aprisionou liberdades. E onde se naturalizou o “jeitinho” como característica de um povo, mas que desse jeitinho nos restaram muitas consequências que até hoje somos
vítimas (ou não). Ele segue contando como a mentira foi naturalizada e como isso veio
a interferir na sua própria história, como no caso da independência e da abolição da
escravatura, onde séculos depois ainda julga-se duvidoso se os dois fatos históricos
foram efetivos para a sociedade brasileira.

Desse ponto, o conto da Vigário toma o rumo da política e joga luz aos numerosos
golpes travestidos de normalidade e romantização que nos foram ensinados nos bancos
dos colégios. E vai além: ao se politizar, o enredo toma um viés criticista ao apontar as
promessas não cumpridas por políticos e o lado ufanista ao que muitos denotam lutar
para ter-se um país melhor.

Estreitando ainda mais a temática, o enredo nos leva à comunidade de Vigário Geral,
que enfrenta o descaso dos governantes e que há anos sofre com inúmeros problemas
sociais, mas cujos moradores seguem esperançosos e acreditam que o Brasil ainda tem
solução e que ainda assim é possível fazer carnaval.

A Vigário apresenta um tema pertinente e de fácil leitura, dado o modo como foi tratado
na sinopse: um Brasil eu-lírico que descreve sua história de forma bem sucinta e direta
em versos que vão conversando entre si, numa história que vai afunilando até o seu
lugar de fala – os problemas sociais de sua comunidade.

A escola demonstra-se muito interessada em abrir os desfiles da Marquês de Sapucaí em
2020, sendo estrategista ao olhar seu desfile com um enredo que possibilita ao
carnavalesco inúmeros signos já conhecidos do carnaval, já que há muitas passagens
pela história do Brasil. Além disso, o fato do enredo ser muito criticista e de ter um
olhar para o Brasil de forma mais realista, pode nos remeter ao sucesso dos desfiles
antológicos da Tuiuti em 2018 e Mangueira 2019.

Depois de 20 anos fora dos desfiles da Sapucaí, a Vigário vem imbuída para elevar a
sua comunidade ao mais alto patamar das escolas de samba, com um discurso pertinente
que ocasionará em uma grande abertura do carnaval carioca. Que a querida Vigário seja o conto mais verdadeiro de uma gente aguerrida, um conto que acabe em apoteose e cada componente oriundo de Vigário Geral possa sorrir e nos encha de esperança para dias melhores.

Reinaldo Alves – [email protected]
Administração – UFRJ
Membro efetivo do OBCAR
Leitor orientador: Cleiton Almeida
Artes Visuais – Escultura

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