“O samba foi morar onde o Rio é mais baiano/Reina a ginga de Iaiá na ladeira/No Ilê de Tia Fé, axé, Mangueira” são os versos do refrão principal da Verde e Rosa para o próximo carnaval. Desde o início da obra já se pode perceber toda a “baianidade” que a Estação Primeira pretende levar para a Marquês de Sapucaí. O enredo “As Áfricas que a Bahia canta” está sendo desenvolvido pela dupla de carnavalescos estreante na agremiação, Annik Salmon e Guilherme Estevão, e pretende apresentar toda a musicalidade baiana através dos cortejos afros, enfatizando o lado feminino. E como definiu Gui Estevão, ainda na apresentação da dupla de artistas na escola, o enredo traz a baianidade, a negritude, a musicalidade que é a cara da Mangueira.

Indo para o seu quarto carnaval consecutivo à frente do microfone oficial da Mangueira, com um título já conquistado, Marquinhos Art’Samba terá agora a companhia de Dowglas Diniz. Sobre mais uma gravação pela Verde e Rosa, Marquinhos revelou seus segredos e sensações a respeito desta período de trabalho.

“Para o dia da voz, eu trago sempre a minha fono, para a gente poder sair aquela coisa intensa. Eu costumo dizer que na gravação eu fico mais tenso do que no dia do desfile. Porque no dia do desfile você já ensaiou aquela música durante três, quatro meses, já está mais do que acostumado com aquele samba. É diferente da gravação, que após uma semana da escolha, você já vai cantar o samba. No dia do desfile você já conseguiu tirar tudo de melhor do samba”, acredita o cantor.

Art Samba e Dowglas Diniz, os cantores da Mangueira. Foto: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

Marquinhos complementa entendendo que muitas vezes a emoção precisa se sobrepor a técnica, ainda que para um bom trabalho seja necessário os dois artifícios.

“Quando você fala em emoção e técnica, a gente procura fazer as duas coisas juntas. Às vezes é difícil, eu coloco mais a emoção porque acho que é legal até para você poder passar para frente. É a emoção, mais até do que a técnica”, entende o intérprete.

Estreante neste universo de gravações para a Liesa, Dowglas Diniz conta que este momento traz para ele uma sensação de realização pessoal e inicia um ciclo de atividades que se estenderá até o grande dia do desfile.

“A ansiedade a gente tem porque a gravação do samba é o pontapé inicial, depois da escolha, para poder a gente chegar firme no desfile. É o que mostra a cara da Mangueira, a cara de como a gente vai chegar no desfile. Estou muito feliz de fazer parte desse momento histórico, com 24 anos assumir o microfone principal da Mangueira e fazendo minha primeira gravação do disco oficial da Liesa. Tenho certeza que estamos fazendo um trabalho bem bacana aqui no estúdio, e a faixa da Mangueira vai ficar linda, e prometemos que a Mangueira vai fazer um grande carnaval em 2023”, deseja o estreante intérprete.

Dowglas também contou qual a parte do samba 2023 da Mangueira que mais lhe toca e chama atenção.

“Para mim é aquela parte do refrão de baixo ‘Quando o verde encontra o rosa, toda preta é rainha’ porque não só na Mangueira, mas por aí tem muitas mulheres pretas de favela que a gente sempre exaltou e agora a gente está podendo exaltar no samba da Mangueira”, opina o cantor.

Mestres da Mangueira estão bem entrosados e cheios de ideias 

A Estação Primeira de Mangueira escolheu uma dupla de mestres para comandar a “Tem Que Respeitar Meu Tamborim”, assim como nos carnavalescos e intérpretes. Mestre Rodrigo Explosão já ocupou a função anteriormente e foi campeão inclusive com a escola em 2016. Já Taranta Neto estreia no Grupo Especial a frente da bateria em 2023. Ele revela que a gravação também faz parte de um processo de eventos que vão aos poucos lhe fazendo acreditar em todo este momento que está vivendo.

Taranta Neto e Rodrigo Explosão, os mestres da Mangueira. Foto: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

“Já começa sim a me dar um gostinho do que vou sentir no desfile. Eu costumo dizer que eu estou matando a ansiedade aos poucos. A ficha está caindo aos poucos com tudo que está acontecendo. A sensação é de que o trabalho está andando do jeito que a gente conversou que deveria ser, do jeito que a gente traçou. Está tudo nos conformes”, conta o profissional.

Mestre Taranta revelou como a “Tem Que Respeitar Meu Tamborim” vai apresentar a obra da escola na faixa oficial do Grupo Especial.

“Para o CD, o andamento foi 140 BPM, a intenção da diretoria da gravadora é mostrar mais o samba. Mostrar mais a letra, fazer algo mais como antigamente. E na Avenida a gente deve ir em 144 BPM, 146 BPM no máximo”, finaliza Taranta Neto.

Já mestre Rodrigo Explosão foi um pouco além e falou sobre algumas projeções da bateria para o desfile.

“Vamos fazer as passagens musicais que tem no enredo da Mangueira, vamos focar nisso, até porque está dentro do contexto do samba. Estamos organizando isso tudo, temos a ala do timbal que é referência baiana, e criamos também um instrumento, nós tínhamos 20 timbales, e vamos botar 20 timbau de coro, que nós chamamos de ‘timbaque’. A gente vai usar eles ao invés de usar atabaque, que é mais complicado para andar, para se locomover, tem que ter rodinha, carrinho, então adaptamos o coro, e todo mundo gostou do som. E na gravação estamos mais básico, para deixar o restante para a Avenida”, explica.

Diretor Musical e Arranjador falam sobre surpresas e participações especiais 

Com tantas referências possíveis para fazer em relação a música baiana, é fácil de imaginar que já na gravação possa haver algo do tipo. O diretor musical da Mangueira Digão do Cavaco deixou a entender que a escola prepara surpresas.

Digão do Cavaco é o diretor musical da Mangueira. Foto: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

“A gente colocou o andamento em 140 BPM para valorizar bastante a melodia e a explicação melhor da letra junto com a bateria e vai haver algumas surpresas também. O intuito desse formato é entender a letra do samba e a melodia. E nossa faixa vai ter convidados também”, afirma Digão.

O maestro Jorge Cardoso, arranjador da faixa, revelou uma dessas surpresas.

“Normalmente, quando a gente faz um arranjo, a gente dá uma olhada na sinopse, estuda a história, para entender o que você pode colocar musicalmente no arranjo. E esse arranjo tem realmente muita coisa de Bahia. Vai ser bacana, vai ser uma surpresa, Margareth Menezes abrindo o samba e vamos ver o que o povo vai dizer” , espera o maestro.

Maestro Jorge Cardozo foi o arranjador responsável pela faixa da Mangueira. Foto: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

Em 2023, a Estação Primeira de Mangueira vai encerrar a primeira noite de desfiles do Grupo Especial.