Eleito presidente da Liesa em março do ano passado, Jorge Perlingeiro fará o primeiro Carnaval no comando da entidade nesta semana. O comunicador, que também é responsável pela leitura das notas no dia da apuração, conversou com o CARNAVALESCO e comentou expectativa para os desfiles do Grupo Especial, que começam na sexta-feira. O locutor também abordou outros temas, como projetos para Cidade do Samba, parceria com a TV Globo e relação com Gabriel David.

Aos 77 anos, Perlingeiro já lê as notas do desfile das escolas de samba há 30 anos, e revelou que já pensa em deixar a função. Substituto de Jorge Castanheira na presidência da Liesa, o locutor, ao lado do diretor de marketing, Gabriel David, já fez algumas mudanças durante o ano em que está no cargo, como a parceria com a Globo para o programa ‘Seleção do Samba’, e a organização dos mini desfiles na Cidade do Samba. Confira a entrevista completa do mandatário da entidade.

Está chegando a hora dos desfiles. O que representa para Liga, escolas e para você esse retorno após dois anos?

“Voltamos para ficar, é o Carnaval da superação, principalmente por causa da situação que vivemos, de pandemia, de quatro adiamentos. Foi complicado. Teve de tudo, menos desfile das escolas de samba. Nos preparamos mesmo com as dificuldades, porque foi muito desgastante em termos financeiros. As pessoas não sabem, mas para ter a Sapucaí montada por mais dois meses, tem que se pagar por tudo aquilo que está lá. Conversamos com fornecedores, fizemos reajustas e deu tudo certo. Felizmente, tivemos uma devolução de apenas 12% dos ingressos, que já foram revendidos, e hoje estamos com as entradas 95% vendidas”.

Vai ser diferente comandar a apuração sendo o presidente da Liesa? Sente pressão?

“Pressão não existe, pelo contrário, me sinto muito à vontade. Quando me convidaram para presidir a Liesa, uma das condições era seguir na locução das notas. Já estou há 30 anos nessa função, minha voz é patrimônio imaterial do Rio. Mas acho que ninguém é insubstituível. Todo idoso tem limitações, e eu tenho que ver isso também. Estou com 77 anos, mas ainda me sinto apto a fazer esse trabalho. Mas de fato, é um grande desafio comandar a Liga. É uma entidade com apenas 21 funcionários que produzem este enorme evento. O resto são pessoas terceirizadas. É um trabalho de muita responsabilidade. Mas daqui a pouco os jovens vão chegando, e cada vez mais capacitados, a sequência da vida é essa. O mundo mudou, a comunicação também. Hoje tenho um podcast, nunca na minha vida imaginei isso”.

Perlingeiro e Júlio César apresentaram as propostas feitas nas reuniões anteriores. Foto: Henrique Matos/Divulgação Liesa

Qual é o balanço que você faz até agora da sua gestão no comando da Liesa?

“Não me vejo com um líder ou algo parecido, sou apenas um conselheiro de todo um grupo. O maior feito da gestão até aqui foi conseguir quatro anos de contrato com a Prefeitura. Negociei diretamente com o prefeito e o Gabriel estava comigo. Se ele tem mandato de mais três anos, porque ele iria assinar com a gente por um ano só. Setembro tem Rock In Rio, outubro tem eleições, novembro e dezembro, Copa do Mundo, quando que a Prefeitura iria sentar com a gente pra renovar de novo por mais um ano? Nunca. Iria me jogar pra janeiro, véspera do Carnaval. O nome disso é planejamento. Outro feito importante foi ter conseguido mais de R$ 7 milhões para cada escola, isso em meio a pandemia, em negociação com TV Globo, patrocinadores”.

E a Cidade do Samba. Segue pensando em melhorar o local, ter uma praça de alimentação melhor, e mais atividades durante o ano?

“Não terminei todo o projeto que eu queria lá. Trocamos todas as lonas, não só do palco principal, como dos camarins, e conseguimos um feito importante, que foi colocar uma unidade do Corpo de Bombeiros dentro da Cidade do Samba. Tive que pedir ao governador, com o Eduardo Paes do meu lado. Se eu ficar para o ano que vem, vou fazer a praça de alimentação que eu queria ter começado esse ano e não consegui. Fazer uma área que tenha pagode todos os dias de 18h às 21h, um grande espaço para que as pessoas possam comer, beber, se distrair, tornar mais receptivo para os turistas também, porque eles nunca vão lá. Vamos também retomar os dois barracões que estão ocupados por duas escolas que não essão no nosso grupo, que são Estácio e União da Ilha. Um deles iremos construir um grande museu, e outro para receber turistas, fazer cursos profissionalizantes e apresentação de várias coisas que vamos precisar a partir de 2023. A Cidade do Samba está em um eixo que tem o Museu do Amanhã, AquaRio, e a Roda-Gigante. De repente pode se fazer um esquema com um ingresso só em que a pessoa curte as quatro atrações. Enfim, projetos existem. Falta agora dinheiro, parcerias, mas tudo continua em pauta. Estamos pensando também em levar essa nossa sede para lá e fundir tudo em uma coisa só para centralizar o trabalho. A Cidade do Samba é muito bem localizada. A ideia é não ter ela apenas como uma fábrica de alegorias, ser só isso custa muito caro. Depois do Carnaval,vamos lavar a Cidade do Samba toda e pintá-la”.

Foto: Henrique Matos/Divulgação Liesa

Na sua gestão a Liesa colocou o pix para compra de ingressos para os desfiles, mostrou a escolha dos sambas na TV Globo, realizou os mini-desfiles e a transmissão dos ensaios técnicos. O que mais pode vir de novidade pós-desfiles de 2022?

“Não dá para nós ficarmos também só com um evento por ano. Tenho um projeto também de fazer um Carnaval de meio de ano na Sapucaí, sem concurso ou disputa. A ideia é escolher um tema e cada escola fazer um desfile sobre o assunto. Fazer um Carnaval para turistas, para trazer gente pra cidade, movimentar a rede hoteleira. Temos também que promover mais eventos nas quadras das escolas, fazer um festival de samba. Todas essas ideias existem, precisa-se de planejamento e dinheiro. Mas para esse ano ainda, acho que a única novidade é a divulgação das justificativas dos jurados antes de três meses. Nunca houve isso em mais de 30 anos de Sapucaí. Esse ano, já 48h após a apuração, terão as respostas no site. Objetivo é a transparência. As escolas já vão desfilar no sábado das campeãs sabendo o porquê de suas posições”.

Após quatro anos de sufoco com o ex-prefeito, as escolas voltaram a serem respeitadas pelo poder público. Qual é a importância desse apoio e diálogo com o prefeito Eduardo Paes?

“Ter o poder público do nosso lado é uma vantagem. Ninguém é grande sozinho. Sem o apoio do Eduardo Paes, que é um cara que gosta de Carnaval, portelense de coração. É um cara que vibra com a gente, nos ajuda e muito. Graças a ele, recapeamos a pista da Sapucaí. Os bueiros nos davam muitos problemas. Tivemos a iluminação para esse ano, que é a grande novidade. Agradeço ao governador também pelo patrocínio da Light. Ter o governo do estado e do município ao lado é muito bom. Não pode ser como o último prefeito que nós tivemos. Não gosto nem de falar o nome dele, porque aquilo foi um atraso na nossa vida. Espero que ele não tenha mais a coragem de se candidatar. Hoje ele não ganha nem para síndico do prédio. Foram três anos de retrocesso do Carnaval. Ainda bem que o samba agoniza, mas não morre. Voltamos ao nosso prestígio e respeito”.

Você tinha falado em melhorar a apuração em termos de estrutura. O que teremos de novidade?

“As mudanças esse ano são poucas. Eu tinha um projeto montado para fazer a apuração na Cidade do Samba, por vários motivos, o primeiro é por ser coberto. Na Apoteose tem sol, tem chuva, e esse ano ainda ocorre em uma terça-feira, dia útil. Há 20, 30 anos, a Sapucaí ficava cheia, de um lado a torcida da Mangueira, que é perto dali, com 10 mil pessoas, e do outro mais 30 mil com todas as outras escolas somadas. Com o passar dos anos, as coisas foram mudando. A Globo, de forma inteligente, foi colocando repórteres nas quadras, telões e aquilo se transformou em um evento”. Então, a ideia da apuração na Cidade do Samba iria ter 1.200 convidados, 100 de cada escola, distribuídos em espaços com mesas, cerveja, salgadinho, um palco com painel de LED. Do lado de fora, teria uma bateria com 60 ritmistas, cinco de cada escola. Também teria um carro de som, para que quando saísse o resultado, a escola campeã subiria no carro alegórico, o presidente receberia o troféu lá em cima e daria uma volta olímpica na Cidade do Samba. A ideia era fazer uma tremenda festa. Esse ano não tem quase nada diferente, só as mesas que serão maiores e um barzinho temático para servir os convidados. A apuração é o dia de mais audiência no Carnaval para a Globo, tinha que ser mais valorizado esse momento”.

Falando em TV Globo. Como está a relação?

“A Rede Globo é uma parceira do Carnaval e da Liesa. Ainda temos mais dois anos de contrato. Mas com relação a transmissão, eu tenho algumas críticas. Eu não concordo, por exemplo, que eles transmitam a primeira escola só após a última para não terem que mexer na programação. Não acho justo. Em uma partida de futebol você não começa a transmitir o jogo só com 20 minutos do primeiro tempo. E para atender a Globo, a gente teria que começar os nossos desfiles só às 23h, aí a última escola correria risco de se apresentar com sol quente. Mas eles são donos da imagem, então temos que respeitar”.

Existe muito falatório de discussões entre você e Gabriel. Hoje como é a relação de trabalho entre vocês?

“Não existiu nenhum tipo de racha. Houve sim, divergências de opinião. Gabriel é um rapaz extremamente competente, jovem e ambicioso. Pelo andar da carruagem, ele fatalmente vai chegar à Presidência da Liesa, e por merecimento. Surgiram boatos que eu teria dito isso e aquilo dele, que tínhamos brigado. Divergência eu tenho com todo mundo. Semana passada mesmo, estávamos abraçados, conversando aqui dentro. Não existe essa coisa de ‘não falo mais com ele’. Se não falasse, ele não estaria mais trabalhando comigo. São apenas pontos de vista diferentes, algumas tomadas de decisão sem a minha participação, mas depois eu entrei para afinar isso tudo. Torço muito pelo sucesso do Gabriel, ele tem só 24 anos, tem idade para ser meu neto (risos)”.

Estão chegando no fim do papo.O que espera dos desfiles na semana que vem?

“Chegamos às vésperas dos desfiles com a certeza que vamos fazer um belíssimo espetáculo. As pessoas estão ávidas para ver o Carnaval novamente. As escolas estão fazendo o melhor dever de casa possível. A Liga repassou dinheiro para que todas pudessem fazer grandes e equilibrados desfiles. Esse ano não tem aquela coisa do ‘já ganhou’. Os ensaios técnicos tiveram excelente nível, com boa presença de público. Um ano sem Carnaval são R$ 5 bilhões que deixam de entrar para os cofres públicos, então daí dá pra tirar a importância. Vamos fazer grandes desfiles”.

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