Casal formado para desfilarem juntos na Unidos da Tijuca no próximo carnaval, Denadir e Phelipe não veem a hora de poderem voltar ao solo sagrado da Sapucaí. Anunciados em 2020, a dupla que já nutre uma amizade de longo tempo, teve que se virar durante a pandemia e Phelipe conta que buscou novas fontes de receita para manter a casa e sustentar a família. Agora, com pouco tempo faltando para o desfile oficial, os preparativos estão a todo vapor para que a estreia do casal possa acontecer de forma maravilhosa.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, Phelipe e Denadir comentam o que admiram na dança de cada um, contam as dificuldades de quase dois anos sem pisar na Sapucaí e sobre as consequências de terem ficado muito tempo parados, citam os casais que são referência no carnaval, além de explicarem alguns conceitos que preferem na dança e na caracterização com a fantasia.

Como vocês receberam o convite para dançarem juntos?

Denadir: “Foi o Casagrande que indicou, se eu não me engano, o Phelipe também, mas a mim foi o Casagrande e a Geissa (assessora da Unidos da Tijuca) que me indicaram para a escola, e aí o Casagrande me ligou marcando uma reunião com o seu Fernando Horta no dia seguinte. E eu adorei o convite porque a Tijuca sempre foi uma escola que eu sempre quis desfilar, tem samba exaltação que é maravilhoso, e é uma escola que empolga muito”.

Phelipe:”Depois do rebaixamento da União da Ilha algumas escolas entraram em contato comigo para ver uma possível contratação. E aí o Casagrande, ele falou comigo em uma ligação e perguntou se eu tinha o interesse de vir para a Tijuca, de defender o pavilhão da Tijuca, e eu fiquei muito feliz, principalmente por ser ele um ícone da escola, um mestre muito renomado no carnaval, só que eu não sabia quem seria a porta-bandeira. Daí eu fiquei muito contente em saber na hora que eu fui conversar com o presidente Fernando Horta que a porta-bandeira seria a Denadir, que é minha amiga de mais de 20 anos, que me deu grandes oportunidades também no mundo do samba e isso me deixou mais feliz e mais empenhado para eu poder vir para a Unidos da Tijuca. É claro que também agora é uma responsabilidade muito maior por ela ser uma porta-bandeira experiente, a mais experiente que eu já tive. Adquiri muita experiência também com a Rafaela (Theodoro) e com a Dandara (Ventapane), mas elas eram menos experientes. E agora também me dá muita tranquilidade porque eu tenho uma grande porta-bandeira do meu lado”.

De um para o outro. Citem características que gostam do outro na dança?

Denadir:”Eu gosto do modo como ele se veste, da elegância dele, eu gosto do riscado dele, e assim, o que eu mais gosto na dança do Phelipe é que não tem como dançar com ele sério. Não digo sério de não estar sorrindo, você está sorrindo, mas ele está o tempo todo ali fazendo sempre uma brincadeira, inventando sempre um passo novo, e isso eu gosto muito, é muito legal, o trabalho se torna muito descontraído”.

Phelipe:”A Denadir é muito guerreira, é uma porta-bandeira muito tradicional, uma dança característica de força, aguerrida, também tem seus momentos de leveza, bailarina, mas não é tão bailarina assim, ela uma porta-bandeira mais raiz, que reproduz o que Maria Helena fazia, até mesmo da Lúcia (Lucinha Nobre), que é uma porta-bandeira que tem um pouco do balé na dança, mas é aquilo mais tradicional. Eu acho que essa tradição que ela carrega na dança dela é o que me encanta”.

Ficar dois anos sem desfilar é puxado para todos os casais? Pode impactar no desfile?

Denadir:” Eu espero que não fique, mas eu acredito que não é impactante para gente porque o casal de mestre-sala e porta-bandeira, ele não pára, acabou o carnaval a gente descansa, vamos botar aí um mês, no máximo dois meses, depois estamos ensaiando de novo, tem que colocar o corpo em movimento, teve a pandemia, ficamos um ano e pouco, quase dois, sem desfilar, eu e o Phelipe, a gente estava a todo tempo colocando o corpo em movimento, todo o tempo ensaiando, sempre fazendo funcional, porque o corpo não pode parar”.

Phelipe: “Provavelmente vai impactar. Pode ser que positivamente ou negativamente para alguns. Eu fiquei um ano e oito meses sem praticar a dança, mas cuidando da minha saúde física, cuidando do meu psicológico principalmente porque eu acho que o que vai contar muito nesse carnaval é o psicológico. Então, fez uma diferença grande. Nós ficamos sem ensaiar por conta das incertezas, nós tivemos que cada um correr para o seu lado, até por uma questão de prevenção a saúde, e também buscar uma fonte de renda extra. Eu sou funcionário do samba, eu trabalho no carnaval, não tenho outra fonte de renda, então eu tive que achar um meio de sustentar a minha família no meio disso tudo, então a gente deu uma parada e aí após os estudos serem feitos, e com as possibilidades que foram tendo, a gente foi retomando as atividades físicas e o trabalho de dança”.

O que vocês aperfeiçoariam no quesito de vocês?

Denadir: “Eu acredito que o que poderia melhorar, é os jurados não serem tão criteriosos como eles são. Porque já vi dançar muito bem na cabine e na quarta-feira de Cinzas o resultado não ser tão legal como a gente espera. Às vezes a gente olha aquele casal, ‘caraca, com certeza vai dar 10’, aí chega no dia, não é, e aí a gente quer saber o que aconteceu, lógico, que o olhar dos jurados é um, eu que estou ali na pista as vezes acompanhando, que quando é um amigo meu eu acompanho, as vezes eles até pedem, são olhares diferentes, mas a gente que é entendedor da dança, a gente que está ali de perto vendo, a gente acha que está tudo maravilhoso e tudo muito perfeito. Eu acho que o jurado podia olhar com mais carinho todos nós. Falta detalhamento na justificativa, bastante, até para gente não repetir no próximo ano, porque eles às vezes utilizam certos tipos de palavras que você entende de uma forma e não é aquilo que ele quer. Não fica claro”.

Phelipe: “É subjetivo demais, não concordo com muita coisa que é imposta pelos jurados, porque muitas vezes eles escrevem uma coisa para um movimento de um colega que eu fiz e ganhei 10 e vice-versa. Então, é muito gosto, esse gosto de julgar teria que ser excluído, eu acho que teria que ter um parâmetro, um grau de dificuldade de coreografia, e desenvolvimento de movimentos, seria bacana para poder incrementar esse julgamento, e não só o gosto pessoal de cada um”

Phelipe quando você decidiu fazer o passo de ficar na ponta do pé?

Phelipe: “Isso foi um presente, eu sempre admirei muito o Chiquinho, eu trabalhei na Alegria da Zona Sul, fui segundo mestre-sala dele e da Maria Helena, assim que eles saíram da Imperatriz, e assim que eu fui contratado para a Imperatriz, eu tinha que achar alguma maneira de me identificar com a comunidade, até porque eu vinha depois de Verônica e Ubirajara, Verônica havia dançando antes com Marcinho Diamante, e a Maria Helena e o Chiquinho ainda continuavam muito vivos ali, e eu tinha que achar uma maneira de ‘linkar’ o meu trabalho, que era jovem, com a história da escola que era de Maria Helena e Chiquinho, e foi onde eu tive a ideia de reproduzir um passo do Chiquinho. Obviamente da minha forma, com o meu tempo, com a minha velocidade, e eu vinha aprimorando durante estes dez anos aí, e agora já consigo ficar mais tempo na ponta e tudo mais. Mas, foi graças ao Chiquinho que eu cheguei aqui”.

Como funciona a produção da fantasia com vocês?

Denadir: “O Jack (Vasconcelos) foi bem legal, nós vamos vir em uma cor que nós pedimos, no setor que a gente pediu, a fantasia está bem bacana, e a gente acompanha tudo, a partir de ele desenhar, ele mostra, esse ano ele fez dois desenhos, mostrou e nós escolhemos o mais bonito, o que ficaria melhor para a gente, e o Fernando Magalhães foi quem a gente perturbou depois, porque é quem produziu a roupa”.

Phelipe: “A minha relação com o Jack é muito boa, a gente conversa muito, inclusive ele tem a preocupação de saber como a gente gosta de vir na Avenida. Eu particularmente gosto muito de vir de capa, não gosto muito de colocar peso nas costas porque na aerodinâmica dificulta o movimento, o giro por exemplo da pirueta. Eu acho que a capa dá o movimento que o esplendor tem, talvez até mais bonita porque é maior e dá um movimento melhor. Então, ele teve essa preocupação de perguntar o que cada um queria e colocou dentro da ideia dele o nosso pedido”.

Qual o desfile inesquecível de vocês? E porquê?

Denadir: “Eu tenho vários. Na realidade eu costumo dizer no ponto positivo, eu digo 2015, 2016 e 2019, e em um ponto negativo que eu nunca vou esquecer é 2018, porque era uma roupa que me incomodava muito, era muito pesada, e atrapalhou bastante os meus movimentos. Eu costumo dizer que o desfile é um conjunto, se o samba é bom, se a escola entra empolgada, aquilo tudo entra para dentro de você e você consegue fazer um bom desfile. Eu lembro que 2015 foi um desfile maravilhoso porque quando eu cheguei no Setor 1, que eu gosto muito de me apresentar no Setor 1, ali eu senti uma energia muito boa, na época do público comigo, comigo e com o meu parceiro, o Fabrício Pires, e ali ele olhou para mim, eu olhei para ele, eu chego a me arrepiar quando eu falo disso, eu falei ‘eu acho que esse ano é nosso ‘, ele disse que tinha certeza. E, nos outros anos no decorrer da Avenida sempre tem algo especial, parece, quando você acha ‘ah, tá chovendo ‘, ou eu já desfilei, eu lembro que em 2019 teve uma pessoa da frisa que estourou um champanhe na frente do jurado na primeira cabine, e eu pisei em cima, eu falei agora já era porque é escorregadio, e graças a Deus deu tudo certo, e assim a gente vê que acontece várias coisas e você consegue driblar aquilo tudo e fazer um bom desfile, aí sim se torna especial”.

Phelipe: “Foi 2014 com certeza, eu sou flamenguista, apesar de estar dançando agora em uma escola de raiz vascaína. Eu sou flamenguista e eu conheci o maior ídolo da minha vida, o Zico, depois do Zeca Pagodinho é claro, porque o Zeca eu vi, e o Zico não, eu não vi jogar, mas meu pai me contou muitas histórias do Zico e eu consegui apresentar ao meu pai o ídolo dele. Meu pai se emocionou. E, por ter conseguido garantir 40 pontos na Avenida, de ter garantido diversos prêmios”.

Qual porta-bandeira e qual mestre-sala são referências para vocês?

Denadir: “Eu tenho vários. Eu costumo dizer que todos são muito bons, mas alguns se destacam. Gosto muito da Selminha e do Claudinho, incomparável a dança deles, é maravilhosa. Gosto da Rute e do Julinho, gosto muito da Lúcia (Lucinha Nobre) e do Marlon. Os que chamam mais a minha atenção, são esses, gosto dos outros, mas os que me inspiram, cada um com suas características”.

Phelipe: “Eu tenho o Julinho como referência, tive o prazer de ser o segundo dele durante dois anos na Vila Isabel. Dele com a Rute. E, eu acho que eu me encontrei, eu acho que eu encontrei o Phelipe juntando a dança do Julinho e a dança do Raphael. Mas o Raphael é jovem que nem eu, e eu não cheguei a trabalhar com ele. E o Julinho eu trabalhei de perto, por isso que eu digo que o Julinho é minha referência. Mas, eu tenho o Claudinho também como referência de tradição, Selminha como referência de tradição também, que eu sempre gosto de enaltecer o trabalho do dois porque é a referência não só para mim, mas para todos os casais de mestre-sala e porta-bandeira de tradição de dança, a Selminha e o Claudinho”.

Como aliar a dança com a coreografia sem impactar a tradição do quesito?

Denadir: “Eu gosto mais do tradicional. Eu costumo dizer que eu gosto de arroz, feijão, bife e batata frita. É um prato que todo mundo gosta. Então, eu gosto do tradicional, mas com uma pitada de ousadia. Não tem um segredo, é durante o ensaio. Tem coisas que a gente quer fazer, acha bonito na coreografia, mas não se encaixa em uma dança de mestre-sala e porta-bandeira para o jurado. Às vezes na quadra a gente pode até colocar aquela coreografia, mas para o jurado não se encaixa, aí a gente tira, limpa de uma forma, vamos trocar, fazer de outra forma, até encaixar tudo”.

Phelipe: “Então aí é o segredo, é o pulo do gato que cada um tem que descobrir o seu. Eu gosto muito de inovar em movimentos principalmente dentro da letra do samba porque isso é o que a dança pede. A gente tem que dançar, diz o ditado, a gente tem que dançar conforme a música. Só que às vezes a música tem um ritmo diferente, uma batida diferente, e a gente não pode mudar a tradição do mestre-sala, por exemplo, para uma dança indígena, mas a gente pode colocar a dança indígena dentro da dança do mestre-sala e da porta-bandeira. É um pouco complicado esse limite entre o tradicional e a ousadia, mas graças a Deus, a parceria que eu tenho com a Denadir e com a nossa coreógrafa também, a Carol Villanova, que é bailarina do Carlinhos de Jesus, já trabalha com carnaval há muito tempo, a gente conseguiu achar o termo certo, nem o meio termo, a gente achou o termo completo para poder chegar na Avenida e poder fazer uma apresentação tradicional, mas também, homenagear a quem está sendo representado neste enredo ‘Waranã’ que é o povo indígena”.

Bandeira grande ou pequena? E por que?

Denadir: “Pequena, eu sou pequena, então tem que ser pequena. Prefiro a pequena. É bem melhor para que eu possa manusear, eu sou miudinha, então se eu ficar com uma bandeira muito grande, vai me atrapalhar bastante, então eu prefiro a bandeira pequena, que é de acordo com a minha estatura. Já senti comentários por conta da bandeira, várias pessoas já perguntaram porque que sua bandeira é pequena, parece de porta-bandeira mirim, eu sou pequena, eu não sou uma porta-bandeira mirim, mas eu sou pequena. Então, eu acho que tudo tem que ser de acordo, não adianta eu colocar um salto muito alto para desfilar se não vai ser legal para a fantasia”.

Phelipe: “Tem preconceito sim, e eu era um desses preconceituosos até começar a trabalhar com ela. Porque na risca, na risca, no regulamento a bandeira ela tem o seu tamanho, só que se for para a Avenida e o jurado ficar lá na concentração medindo a bandeira de todo mundo, a metade dos mestres-salas e porta-bandeiras vão entrar com algum décimo a menos. E assim, existem porta-bandeiras maiores, existem porta-bandeiras menores, mestres-salas também, o Júlio, por exemplo, o braço dele é gigante, e é a aerodinâmica, como eu falei, o esplendor nas minhas costas incomoda porque ele vai tirar a minha movimentação. E, no caso da minha porta-bandeira, ela é uma porta-bandeira que não tem uma estatura muito alta, e eu acho que deve assim acompanhar, e é uma coisa que deve até ser levada para plenária, para não haver mais esse tipo de preconceito. Bandeira tem que ser de conformidade ao tamanho da pessoa”.

O que esperam do desfile de 2022 para Tijuca e todas escolas no geral? O que vão sentir quando pisarem novamente na Sapucaí pra valer?

Denadir: “Eu acho que o próximo desfile vai ser um desfile emocionante para todos. Porque ficamos um carnaval sem desfilar, para Tijuca eu espero campeonato. Mas, eu acho que vai ser um desfile que vai ficar na história porque quem é do samba, quem ama o carnaval, sente falta, então está todo mundo aguardando, está todo mundo esperando esse dia, vai ser um desfile muito emocionante para todos”.

Phelipe: “O que eu vou sentir eu não posso te dizer porque a gente está aguardando isso há muito tempo. A gente está aí, é como você tirar a vida de alguém. Carnaval para mim é a minha vida, até me emociono porque foram longos meses de espera para poder estar de volta e ver muita gente cantando samba, fazendo o que ama. Eu amo carnaval, eu vivo o carnaval 24 horas podia, 32 anos de vida, eu não sei o que te dizer que eu vou sentir, mas eu espero que seja um carnaval mais feliz. O carnaval vem sendo muito batido nessa questão porque é aglomeração e tudo mais, mas eu acho que vai ser o redentor dessa pandemia, vai ser o fim da pandemia. Eu acho que se tivesse acontecido o carnaval antes a pandemia já teria acabado”.

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