Leandro Vieira já foi campeão do Grupo Especial em 2016 e 2019 com a Estação Primeira de Mangueira e hoje é um dos principais artistas do carnaval, seja pelos desfiles realizados e/ou pelas propostas apresentadas em seus enredos, inclusive, por sua defesa dos sambistas e de temas fundamentais para a sociedade brasileira. Na série “Entrevistão”, do site CARNAVALESCO, o artista mangueirense e que também fará o desfile do Império Serrano, responde diversas perguntas dos mais variados tipos de assuntos. Confira abaixo.

Foto: Cleber Mendes/O DIA

Qual sua análise da safra de enredos para os desfiles de 2022? Como você vê o atual momento da festa?

“A safra de enredos é maravilhosa e a festa em si vive um dos seus melhores momentos. Por isso, eu enxergo e sigo enxergando com bons olhos um carnaval ainda em 2022. O dirigente vê números e o artista vê propostas. O interesse pelo carnaval vive mais da proposta do que dos números. A fuga de patrocínio do carnaval carioca fez com que tivéssemos uma safra de enredos espetaculares. Nesse sentido, além dos enredos, avalio que uma atividade artística em que é possível você ver a Rosa Magalhães e o Renato Lage em atividade, seguido do trabalho do Gabriel Haddad e Leonardo Bora, passando pelo trabalho dos recém-campeões Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon, vive um momento de efervescência. Uma atividade que está forte e viva e onde você pode ver o mestre Ciça em atividade, mas também vê o trabalho do Fafá. Aí, passa pela Selminha que é referência e também pela Taciane. Quem disser que essa festa perdeu alguma coisa nos últimos anos está contando mentira, porque não conhece. Artisticamente, estamos fortíssimos em função da qualidade do “elenco”. Veteranos em ação com vigor e a base, como dizem, chegou forte”.

Fale mais sobre a abordagem proposta para o desfile da Mangueira de 2022. O que é Angenor, José e Laurindo?

“É a Mangueira que se utiliza de seu espaço no carnaval para reafirmar a realeza de sua gente. A potência e a excelência da arte que habita corpos similares aos corpos que seguem compondo a massa de sua comunidade. Em desfile, uma sucessão de imagens que reafirmam a realeza e a qualidade artística de um poeta compositor, de um intérprete e de um bailarino”.

Seu trabalho é marcado por uma crítica social. Podemos esperar isso novamente?

“Diferente dos outros anos, esse não é o ponto central. Embora nenhuma escolha seja inocente, para o próximo carnaval, a linha conceitual e estética é outra”.

Qual a estética? Qual Mangueira podemos esperar?

“Podem esperar algo que quer exaltar três personalidades pretas produzindo imagens que flertam com um ambiente poético mais lírico. Creio que as fantasias divulgadas dão o tom geral. Uma releitura contemporânea do que é a escola no imaginário coletivo, só que com novas tintas”.

Você concorda que existe preconceito com o carnaval?

“A sociedade brasileira tem muita dificuldade em entender o carnaval como patrimônio artístico e cultural. Passa pelo preconceito social e racial. Eu trabalho para fazer jus ao carnaval que o Brasil tem. A fala que o carnaval é uma festa é constantemente reafirmada por quem organiza o que eles chamam de festa. Você não pode defender que o carnaval é uma festa para atender os interesses comerciais da festa. Pode ser também uma festa, mas é uma atividade que pode muito mais coisas do que ser uma simples festa”.

Como é a equipe que trabalha com você no barracão?

“Todo mundo que trabalha comigo é fiel há anos. Costumo falar que minha equipe de criação tem ferreiro, carpinteiro, costureira, pintor. Eles são meus assistentes. Meus braços. Na minha equipe todo mundo é braço e eu só trabalho com braço firme”.

Apesar das difículdades de se realizar um desfile, como você lida com o trabalho diário de idealizar um carnaval?

“Gosto de fazer carnaval. Quando perder isso não serei mais carnavalesco. Tenho prazer, gosto da atividade. Ser carnavalesco é fazer e realizar. Não é desenhar ou sonhar. Vivo mais no mundo real do que no sonho. É uma ilusão crer que o carnaval é o mundo do sonho. Ele é a vida real. A realidade nua e crua”.

Por que somente agora a Mangueira vai homenagear Cartola, Jamelão e Delegado?

“Não sei. Apenas sei que eu não estava aqui antes. Sou um carnavalesco muito ligado a comunidade que defendo. Até hoje não fiz na Mangueira nenhum enredo que não tenha sido a própria Mangueira, sua gente, sua comunidade, que me ensinou a fazer: Foi ela que me ensinou a possibilidade múltipla de devoção. Eles que me ensinaram que quando há ataques às suas tradições é preciso levantar bandeiras, que diante da ausência da representatividade popular é preciso reafrmar o quanto os pretos e os pobres fizeram pela construção da identidade desse país. Foi a comunidade do morro que me ensinou que existe um preconceito generalizado que impede que as pesssoas enxergem a presença de Cristo nos corpos pretos das favelas e que Cartola, Jamelão e Delegado são pilares e figuras exemplares para serem cantadas. Não gosto de ser um carnavalesco que realiza coisas bonitas ou feias. Gosto de ser um carnavalesco atento. Estou há 7 anos de olho no Morro da Mangueira”.

Como é a relação de torcedor do Leandro com a escola de samba?

“Sempre falei claramente sobre minha relação com a Portela. Fui um jovem que sempre gostou de samba e foi criado no subúrbio. Sempre gostei de samba e frequentei Madureira como polo de irradiação de cultura músical. Acabei ingressando como ritmista na Portela e lá fiquei 10 anos. Tenho amigos e admiração pela escola. No entanto é impossível você trabalhar e lidar com a comunidade da Mangueira sem se entregar apaixonado completamente”.

O que você fala quando criticam o samba da Mangueira?

“Toda instituição e todo artista que apresenta um trabalho público está sujeito a crítica. Eu me acostumei com isso. As pessoas podem gostar ou não. Confio no samba e no trabalho que está sendo feito pela Mangueira. Tenho certeza que a Mangueira, desde que estou aqui, sempre optou pelo melhor e trabalhou para que o melhor ficasse ainda melhor. Não vejo esse ano de forma diferente. A Mangueira tem um time que trabalha, que deseja honrar a Mangueira”.

Como você quer ser lembrado pelo trabalho na Mangueira?

“Não quero ser lembrando como o carnavalesco que fez a Mangueira bonita ou feia. Quero ser lembrado como o carnavalesco que pensou a Mangueira. Meu trabalho aqui é o de pensar como uma escola com a tradição e idade que tem pode se projetar para o futuro. Nos últimos anos, eu tenho pensando a Mangueira olhando para o futuro. Sete anos depois da minha chegada, eu tenho um entendimento muito maior do que é a Mangueira do que quando aqui cheguei. Hoje, sei que um dos papéis da Mangueira para o futuro é o de “formar” novos sambistas e novas platéias. Ela é maior quando forma, quando tem a possibilidade de formar. Seja formar opinião, platéia, ou ainda, o sambista que virá. Nesse sentido, a Mangueira é uma escola que passa de pai para filho sem que isso seja uma imposição. É o que falo no meu enredo sobre o legado. A maior riqueza da Mangueira é o seu legado. Transformar o desfile de 2022 dentro dessa ideia de legado é um desafio e um prazer”.

Como será visto esse legado no desfile de 2022?

“De muitas formas e, para exemplificar isso, digo que inclui o projeto de mestre-sala e porta-bandeira que inicia crianças e adolescentes na tradição do bailado dos casais no corpo de desfile da escola. O trabalho do Matheus e da Squel vai estar na Avenida, em desfile. Lá será visto que a própria Mangueira ensina em casa o caminho para o futuro. Isso é legado. É formação de novos sambistas e, também, de novas platéias. Outra atividade que é legado e formação é a volta da ala das crianças para os desfile da escola. Apesar de todas dificuldades dos trâmites burocráticos e jurídicos para que as crianças desfilem, é preciso entender que as difículdades são pequenas diante da possibilidade de formação do futuro. Formar platéias e sambistas é formar o futuro”.

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