De pé no chão é um disco fundamental para a história da música brasileira, a certidão de nascimento do movimento que ficou conhecido como pagode carioca. O samba, surgido no início do século XX com os bambas do Estácio, sofreu uma marcante transformação quando, em 1978, Beth Carvalho trouxe do subúrbio um suingue diferente para embalar seu décimo primeiro álbum. É essa a história que o jornalista, escritor e roteirista Leonardo Bruno narra no novo lançamento da coleção O Livro do Disco, da Editora Cobogó.

Foto: Divulgação/Maju Azevedo

Nos anos 1970, o gênero musical mais identificado com a cultura nacional vivia seus dias de glória no mercado fonográfico. Artistas reconhecidos como “sambistas”, como Martinho da Vila, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Alcione e Beth Carvalho, pela primeira vez se tornaram sucesso de vendas em todo o país. Beth, que iniciou sua carreira nas rodas da bossa nova, não era exceção: lançava discos anualmente, tocava nas rádios e participava de programas de TV. Mas logo ficou claro que isso não a faria deixar de olhar para a frente. “Como se tivesse uma visão num ângulo de 360 graus”, escreve o autor, ela “conseguia admirar os antecessores, prestigiar os companheiros de geração e ainda projetar o que viria pela frente. Sua mira sempre foi múltipla: antes e depois; retrovisor e dianteira; memória e projeção; ontem e amanhã”.

E foi esse amanhã que ela vislumbrou quando recebeu um convite para ir pela primeira vez à sede do Cacique de Ramos – bloco fundado em 1961 por um grupo de jovens da Zona Norte carioca. O convite, no entanto, não foi para um ensaio, mas para uma reunião informal que ocorria depois do futebol, às quartas-feiras. Beth logo percebeu que o que acontecia ali era diferente. “Conhecia muita roda de samba. Mas o pagode, sem microfone e uma mesa com todo mundo em volta cantando sem compromisso, nunca tinha visto”, disse a cantora. O que mais a impressionou foi que aquela turma criava instrumentos de percussão e os tocava com as mãos diretamente no couro, sem o uso de baquetas. Se até então o samba era baseado no tripé cavaco, pandeiro e tamborim, o som do Cacique apresentou o tantã, o repique de mão e o banjo. Era um som tribal e original, com muito suingue e raízes fincadas na África.

O resto é história – e música, muita música. Leonardo Bruno conta dos bastidores dos encontros do Cacique aos desafios das gravações em estúdio que deram origem a um LP que dividiu águas e rompeu barreiras. Pois De pé no chão, repleto de faixas antológicas como “Vou festejar”, “Goiabada cascão” e “Agoniza, mas não morre”, vai muito além de ilustrar a trajetória de Beth Carvalho. Esta é também a história do pagode como movimento cultural – que, segundo o pesquisador Nei Lopes, “tem o mesmo peso da revolução da bossa nova”.

Documento precioso para quem quer entender a segunda metade do “século do samba”, o LP De pé no chão abriu uma porta para a reinvenção do gênero – e foi dela que saíram Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Fundo de Quintal, Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto e muitos outros. Depois desse disco, nunca mais se batucou do mesmo jeito.