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Conheça a sinopse do enredo da União de Maricá para o Carnaval 2024

Argumento

Em 2024, o Grêmio Recreativo Escola de Samba União de Maricá apresenta o enredo “O Esperançar do Poeta”, uma homenagem ao papel social, cultural e humanitário presente no ofício do compositor. Pois reside na caneta do compositor os sonhos mais puros e imaculados desse povo que mesmo de frente ao que há de mais perverso e desesperador na nossa sociedade, se permite querer, sonhar e construir mais. 

A música nos leva além da Esperança. Ela nos traz a possibilidade de Esperançar. 

Paulo Freire, grande educador brasileiro, uma vez escreveu sobre a Pedagogia da Esperança, onde dizia: 

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera.’’ Esperançar é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída. Por isso, é muito diferente de esperar; temos mesmo é de esperançar. Esperançar é ser capaz de buscar o que é viável para fazer o inédito. Esperançar significa acreditar no que parecer ser impossível.

E assim sendo, o que é o sonho do compositor senão o ato de Esperançar? Nós, sambistas, recriamos nossos mundos há um bom tempo enquanto construímos o que hoje este país chama de identidade, mas nega como cultura. Músicas, enredos, toadas, cortejos que são o reflexo mais verdadeiro desse processo. Esperançar é um movimento de existência, que elege seus próprios valores e saberes a partir da realidade vivida. E ao colocar tinta em suas canetas, e melodia em suas palavras, nossos compositores são capazes de nos fazer enxergar além. 

Transformar a tampa da marmita em pandeiro, e fazer o trem lotado se tornar um palco musical. É a capacidade de afastar a depressão nas cordas de um violão, e mesmo tendo que superar a desordem do coração, conseguir superar a desilusão. Pois não é vergonha entender que, muitas vezes, a desilusão quase é capaz de nos pegar. Mas nós somos malandros, daquele tipo que balançam, mas não caem. Afinal de contas, aprendemos a festejar desde cedo, no barraco do Nego João, e a prosperar mesmo a pouco leite e pouco pão. 

Fora dos conceitos dos livros, mergulhando nas vivências do mundo, nossos professores da esperança, os compositores, estão produzindo pensamentos, são cronistas da antropologia, do movimento social e cultural. São os mestres que nos trazem possibilidades de outros mundos a serem sonhados, sem esquecer este em que vivemos. O samba é terapia popular, seu preto tem orgulho de você.

Homenageando este movimento, convidamos todos os compositores para um bate-papo com um dos mais importantes compositores da nossa história, Guaracy Sant’anna, o Guará, artista que compôs nos anos 1980 grandes sucessos que refletiam a vida do negro sambista, suburbano e favelado, sempre o levando a uma reflexão, mas principalmente lhe trazendo orgulho e a possibilidade de sonhar. Para Guará, sempre havia uma possibilidade de sobreviver. A inspiração vem de longe. Guará sabia, seus pares sabem, nós sabemos.

Existe a luta para quem quiser lutar.

Luta na caneta. Na voz. Na corda. Na palma da mão. Nos atabaques, pandeiros, violas, ganzás e tamborins. Luta nas ferramentas que sempre utilizamos para poder enxergar mais. O samba nos faz enxergar mais, querer mais e não aceitar menos. E Esperançar na nossa batalha de cada dia.

Vamos fazer um samba com Guará?

Primeiramente, senhoras e senhores compositores, é um prazer contar com a sua participação no concurso de samba de enredo da União de Maricá, visando o carnaval de 2024. Num projeto como o desse ano, é extremamente importante para nós contarmos com a presença de vocês, compreendendo que é no ofício que vocês desempenham com tanto amor e carinho que mora a inspiração para o nosso carnaval. Isto posto, gostaríamos de convidá-los a compor esse samba com o Guará, partindo do princípio da nossa proposta, que é compor junto a ele um samba em resposta à provocação que chega pelo rádio.

Daqui de baixo já conseguimos ouvir
toda noite cantoria em meio ao gritos
Lá de cima vem um toque 
Marca como se fosse um relógio
Marcando o seu próprio tempo 
que não é este em que me encontro

O que espera essa gente? 

Em meio a escuro dos becos 
espremidos sonhos e desejos iluminados pela luz da candeia
enfim chegamos à clareira
Clareou um terreiro e estão em festa.
Estão em festa? Por que são felizes? 

O que espera essa gente? 

vibrando o couro do surdo 
negra mão surrando um atabaque
couro de gato no tamborim 
nem parece que estão aqui 
Não parece que vivem aqui! 
Aqui?! Aqui?! Aqui?! 

Tábuas de madeira seguram seus barracos
o telhado de zinco onde dá pra ver o céu estrelado 
E estão dançando como se não vivessem aqui 
Aqui?! 

O que espera essa gente?

Eu quero uma resposta porque não entendo 
Quando estão cantando com os olhos fechados 
Não sei o que sentem
Eles sonham? com o que sonham?
Eu não entendo, não entendo, não entendo.

O que espera essa gente? 

Esperam acordar em um lugar diferente? Clamam por algo que não vai chegar? Mas, por que de sorriso aberto? Está no violão uma solução para a depressão? 

O que espera essa gente? 

Eu acreditava que não se moviam
Julgava que sucumbiam 
Pensava que morriam 
Deduzia que não voassem 
Presumia violência no mundo que vivem

Afinal, quem é essa gente? 

Que passa por tanta coisa e ainda faz festa. 
Eles passam o ano inteiro 
Numa preparação que ocupa a mente
aonde isso te leva, entende? 
Festa o ano inteiro 
Existe trabalho para impor respeito? o que constrói essa gente? 
Onde vão chegar? 

O que espera essa gente? 
Porque o batuque continua 
mês a mês um evento diferente 
se eu contar o Brasil todo, fico doente
Essa gente só samba, só dança, só reza é quer ser rei de paetê. Pra quê?

O que espera essa gente?

Mestre de bateria, capoeira, de sambinha
Mestre fulano, ciclano, fuleiro, folia o ano inteiro estão sorrindo 
não pensam no futuro dessas crianças
É o dia todo: não corre, menino! 
Não existe um exemplo decente, corrigido

O que espera essa gente?

Em que se transformarão? 
Eles não procuram um futuro, não olham pra frente 
só olham pra trás, eu tô com pena dessa gente

Eu não aguento esse tipo
Esse tipo que só espera

Dentro da liberdade para as referências e para a inspiração, é essencial compreender que a proposta para o samba é que ele seja uma resposta a essa provocação. Enxergamos que cada um teria sua própria maneira de responder tais absurdos, mas nos é essencial que não deixe de ser uma resposta. Por que fazemos festa em meio à miséria, à violência, à fome? Por que o batuque nunca abandona nossas vidas? Por que insistimos em manter o sorriso aberto e a recorrer ao violão para vencer a depressão? É preciso que apresentemos às pessoas quem somos, porque somos e mais do que tudo, por que insistimos em ter esperança e em esperançar a ideia de dias melhores. 

1º Setor

O universo particular de cada compositor. Aqui, fazemos uma homenagem ao próprio ato de compor, à magia envolvida nesse processo, e às maneiras com que a inspiração pode chegar até nós. Desta forma, procuramos falar das coisas que nos trazem inspiração, mas não são exatamente palpáveis. A luz, o cantar das cigarras e dos pássaros, o cheiro de café recém-passado ou a textura de um lenço. 

Tudo isso são caminhos e materiais que nos levam para um estado de suspensão do próprio tempo, e nos carregam para um lugar onde podemos construir o nosso sonho de um lugar melhor. É nesse sentido que construímos o nosso enredo, e pensamos nele a partir do Esperançar. A construção desses sonhos, o esforço ativo para transformar a inspiração em música, e com ela abrir as portas para um novo mundo. Para nós, Esperançar é transformar a inspiração em sonho, e com esse sonho, construir a realidade. 

2º Setor

Entretanto, nem tudo são flores. A nossa realidade grita em nossos ouvidos, de maneira que esquecer não é uma possibilidade. Só que, para nós, nunca foi sobre esquecer, pois não temos a chance de fazê-lo. Mas podemos transformar a desilusão em novas ferramentas para acreditar e implementar um futuro melhor. Então, usamos a música para buscar alternativas, e uma maneira de fugir dos nossos ais. Denunciar a falta de assistência, a falta de estrutura e os demais problemas que são persistentes e contínuos na nossa realidade por intermédio da melodia e da poesia é uma arte que dominamos.

3º Setor

A cultura afro-brasileira é a consequência de constantes tentativas de sobrevivência em um país que insiste em negar cidadania a estas populações marginalizadas. A nossa cultura é também uma estrutura robusta que substituiu ao longo do tempo as estruturas que deveriam ter sido oferecidas pelo poder público, mas nos foram negadas pois nos negaram o direito de sermos cidadãos. São nestas manifestações culturais que o sonho em tornar-se rei, como símbolo de participação de poder e possibilidade de transformação, se afloram e se materializam. E, no carnaval, virando reis e rainhas, símbolos de força e magnitude, os sambas que acompanham estes enredos mudam e salvam vidas, nos oferecem a oportunidade de sonhar o que parece impossível, e construir na avenida a realidade que coroa os nossos semelhantes.

4º Setor

A música nos ajuda a superar as dificuldades caminhando na construção de um futuro melhor, e parte dessa construção está na nossa fé. A fé de que veremos dias melhores, nos apegando em nossos padroeiros, protetores e guias, com a esperança de que neles encontraremos a força necessária para fazer com que essa esperança não seja um verbo de espera, mas sim uma ação de preparação para o tempo que vem. 

O tempo onde a bonança tomará nossas vidas, a fartura ocupará as mesas e nossas crianças não serão mais um “problema social”. Assim, a nossa fé também reside nas nossas lideranças, pois mora nelas o caminho de dias melhores. As lideranças do povo, da favela, do subúrbio. Com uma mensagem de fé e esperança(r), nós encerraremos o nosso desfile preparados para um amanhã mais gentil para os nossos.

Autores do enredo: André Rodrigues, Igor Trindade, João Vítor Silveira e Kamila Maria
Autores do texto: André Rodrigues e João Vítor Silveira
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