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Barracões: Curicica traz culto a divindades femininas para desfile sobre afirmação de mulheres negras

Por Lucas Santos

Depois de uma viagem a Bahia, em que trouxe de presente para a irmã uma imagem de Oxalá na figura de uma mulher negra, a vice-presidente da União do Parque Curicica Roberta Rosa refletiu sobre a posição das mulheres negras dentro do contexto social atual e transformou seus pensamentos em enredo para a Azul, Vermelha e Branca de Jacarepaguá. A ideia era fazer uma homenagem, desde a ancestralidade, ao papel da mulher negra dentro da sociedade, primeiro por meio da religião e depois utilizando exemplos de mulheres bem sucedidas e de outras influentes que lutam e lutaram por essa bandeira.

O início do desfile vai mostrar o culto às Iyá-mi, divindades ligadas à maternidade conhecidas nas religiões de matriz africana como as grandes mães ancestrais. Além de mostrar sua ligação com o empoderamento feminino por traduzir um culto a divindades relacionadas ao sexo feminino, a devoção às Iyá-mi também apresenta esta mensagem ao ter os rituais reservados apenas a sacerdotisas.

A presidente da escola Lorraine Rosa, irmã de Roberta, idealizadora do enredo, fala que a apresentação de Deus como figura feminina não abala de nenhuma forma a crença que as pessoas possuem nele e explica o verdadeiro objetivo da apresentação do enredo na Avenida.

“Não é que nós estamos questionando Deus, não entramos nessa comparação de Deus, que de fato a gente não sabe como ele é. A ideia é como a mulher tem semelhança com Deus de transmitir amor, de gerar. E ao mesmo tempo denunciar o que acontece nos dias de hoje. A mulher perde filhos, principalmente a mulher negra, ela perde seus filhos pra preconceito racial, para o crime. A estatística de mulheres negras que perdem filhos é grande. É um enredo social, um grito, principalmente para a Roberta (vice-presidente) que já sentiu o preconceito social na pele”, explica a presidente da União do Parque Curicica.

Durante o desfile serão apresentadas grandes figuras femininas negras que tenham alcançado sucesso tanto na luta política como Marielle Franco, Djamila Ribeiro e Kenia Maria, quanto nas artes, como Elza Soares. A escola também vai trazer figuras femininas do dia a dia como professoras, escritoras e profissionais negras que tenham sucesso no empreendedorismo. André Rodrigues, integrante da Comissão de Carnaval montada pela Parque Curicica, acredita que o lado político do enredo é o que vai chamar mais a atenção do público durante o desfile.

“O posicionamento político é o mais legal do enredo. A escola pretende trazer mulheres negras importantes como Marielle e Djamila, mas não só estas, mas várias mulheres que estão nesta luta. A ideia é trazer mulheres empreendedoras negras, as mulheres que levam a mensagem de empoderamento para outras no dia-a-dia. O mais legal deste enredo é dar publicidade a esta luta. É a coragem da escola de fazer esse tipo de manifestação apesar de que isso está um pouco na moda no Carnaval. Eu admiro essa coragem da Curicica em desenvolver este enredo. Apesar de ser um enredo que não é tão fácil tirar plasticamente no papel, mas foi muito bem executado pelo Wagner (Gonçalves)”.

Escola teve que realizar mudanças na Comissão de Carnaval

Durante a reta final, o carnavalesco Wagner Gonçalves que fez os desenhos dos carros e fantasias da escola não pode continuar na preparação do carnaval. André Rodrigues, com 10 anos de experiência como assistente de carnavalesco e com dois carnavais assinados em escolas do grupo de Acesso de São Paulo, somou a comissão de carnaval da escola que também conta com a vice-presidente Roberta Rosa e com Leonam Lauro, que escreveu a sinopse do enredo. André tem atuado diretamente na montagem dos carros alegóricos já que a parte de fantasias está bem adiantada, com algumas alas já sendo entregues aos foliões. André elogia o trabalho de Wagner e conta à reportagem do CARNAVALESCO a dificuldade de ter terminar o trabalho iniciado por Wagner Gonçalves.

“Eu nunca imaginei isso, mas é muito mais difícil você dar continuidade a um trabalho (de outra pessoa) do que começar um trabalho seu do zero. Porque, eu passei muito isso para a direção da escola quando entrei, de que se é para eu entrar eu não poderia ter a vaidade de querer fazer o meu, tínhamos que terminar o trabalho bem organizado pelo Wagner (Gonçalves). A três semanas do desfile, o mais importante é que a gente faça a escola ir para a Avenida. Temos então que olhar o projeto original e a sinopse e ver qual o verdadeiro motivo da alegoria. Ela é isso? Na Série B onde a realidade é mais de escassez e até de relaxo por parte do poder público com as escolas, têm que ser assim, tirar do papel o que o Wagner (Gonçalves) desenhou. E a escola tem dado todo apoio, principalmente a presidente e a vice-presidente, que idealizou o enredo”, confessa André Rodrigues.

Escola consegue doações de coirmãs para realizar seu carnaval

A União do Parque Curicica vai levar duas alegorias para o desfile na Intendente Magalhães no dia 5 de março. Para a confecção destes carros, a agremiação precisou da doação de materiais por parte de outras escolas. André conta que não utilizou muito material alternativo, pois muitas vezes estes elementos não compensam financeiramente devido ao tratamento que lhes deve ser dado.

“Não usamos muito material alternativo. Tudo, na verdade foi feito de doação. A gente foi correndo atrás agora no final, corremos em uma escola, corremos em outra, pra tentar um pouco de tecido disso, um pouco de tecido daquilo, um pouco de madeira, um pouco de ferro pra tentar tirar as alegorias do papel. Principalmente as alegorias, as alas até que a escola conseguiu encaminhar bem, mas as alegorias a gente não tinha muito material. E o alternativo é difícil de fazer porque mesmo que, por exemplo, você faça o alternativo, sempre o alternativo vai precisar de “um certo” tratamento artístico para que não fique aquela cara de que não é o carnaval. De que não tenha o deslumbramento do público em geral. Então, é até difícil. A principal fonte mesmo para terminar as alegorias foi de doação”.

Escola vai encerrar o desfile com mensagem sobre educação

Após iniciar o desfile contando a história de divindades femininas e negras cultuadas na cultura africana e mostrar exemplos de mulheres bem sucedidas na sociedade, a Parque Curicica pretende encerrar seu desfile com uma mensagem importante. No ultimo carro a escola vai trazer uma favela baseada em livros retratando a mensagem de que só a educação e a sabedoria vão fazer com que as mulheres tenham o entendimento do seu papel de destaque na sociedade como está presente na sinopse do enredo. André Rodrigues fala que essa crítica social apresentada pela escola é importante devido ao contexto atual que as mulheres negras têm vivido.

“Quando o enredo vem pra atualidade ele fala que essas mulheres hoje não tem nenhum papel principal em nenhum tipo de culto, principalmente não tem o papel principal dentro da sociedade, não tem o poder de fala, de posicionamento político, ele também ressalta que hoje em dia elas lutam muito por isso. E elas têm como base, a realidade das sociedades que elas vivem. Ou, são posicionadas a isso, sendo violentadas, ou desrespeitadas, ou sem poder realizar seu direito a cidadania por algum motivo”.

Entenda o desfile

A união do Parque Curicica será a quinta escola a desfilar na Intendente Magalhães na terça-feira de carnaval com o enredo ‘Eu vi Deus, Ela é negra!’. A agremiação vai levar para o desfile duas alegorias, 15 alas e 750 componentes. A presidente da escola de Jacarepaguá, Lorraine Rosa, contou um pouco de como estão organizados os setores da Curicica.

Setor 1

“O primeiro setor traz a nossa alegoria abre-alas, neste setor temos a representação da origem, símbolo de resistência, a linhagem matriarcal africana se faz presente, recuperando a memória ancestral do continente negro”.

Setor 2

“O segundo setor é marcado pela força da dimensão religiosa, nutrindo os brasileiros de esperança em dias melhores”.

Setor 3

“Neste setor temos a segunda alegoria, traz uma leitura contemporânea das lutas encampadas pelas mulheres negras. A ancestralidade africana se faz presente, incendiando o espírito das nossas guerreiras na busca por uma sociedade melhor, onde se respeitem as diferenças culturais, na qual a palavra tolerância seja substituída por outra, de maior impacto: respeito. A alegoria simboliza, sobretudo, a ascensão de jovens mulheres negras oriundas da periferia, que por meio dos estudos e do trabalho alçam voos, inspirando outras tantas a vencerem”.

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