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Barracões Acesso 1 SP: Milênio conta a criação do mundo na visão de Vovó Cici

Escola do Extremo Sul de São Paulo terá diversas referências a religiões de matrizes africanas e pedirá mais amor e respeito com os "griôs" do samba

O resultado do Grupo Especial de São Paulo em 2023 trouxe algumas surpresas. Uma delas foi o descenso da Estrela do Terceiro Milênio, com um desfile positivamente surpreendente na estreia da agremiação no pelotão de elite do carnaval paulistano. Para quem pensava que a agremiação sofreria um baque após a queda, o CARNAVALESCO pode conferir que a instituição do Extremo Sul paulistano está mais uma vez muito motivada para fazer história no Anhembi. Com o enredo “Vovó Cici conta e o Grajaú canta: O Mito da Criação”, desenvolvido pelo carnavalesco Murilo Lobo (entrevistado pelo portal), o Grajaú será a sétima escola a desfilar no Grupo de Acesso, que será realizado no domingo de carnaval – 11 de fevereiro.

Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Surgimento – e convencimento

Ao ser perguntado sobre como surgiu a ideia para desenvolver o enredo, Murilo destacou que a inspiração veio em algumas pesquisas em veículos de comunicação que não são necessariamente ligados ao samba. “É importante que as pessoas conheçam e que elas entendam o desfile de maneira mais ampla porque aí a gente vai conseguir trazer a mensagem e realmente tocar as pessoas. Pesquisando sobre enredos na linha afro-religiosa eu encontrei um sobre atabaques e Vovó Cici me chamou atenção. Comecei a pesquisar sobre ela começou a vir um monte de outros materiais – inclusive uma entrevista dela no programa do Lázaro Ramos, em foram chamados alguns religiosos, sendo que ele, até então, nunca tinha discutido religião. Ele trouxe uma pessoa do candomblé, um padre, um pastor e etc. Ela me encantou e eu continuei pesquisando sobre ela. Nisso, encontrei um vídeo dela contando o mito da criação em um sarau nas ruas de Olinda. Ela traz atabaques, canta os cânticos, e etc. Pensei que essa história é muito incrível entrei em contato com o Silvão Leite, pedi para o presidente abrir o coração e ouvir a história. Para as pessoas que não são e não tem nenhum tipo de proximidade do candomblé às vezes é complexo propor um tema nessa vertente, mas ele achou a história incrível. Falei, então, para trabalharmos nisso – nas periferias você tem um avanço das igrejas pentecostais, uma endemonização dos orixás, e isso é muito ruim de acontecer. Apesar de ter alguns pastores incríveis, que defendem e respeitam, tem uma grande massa de pessoas tentando oprimir. Se os primeiros homens estavam na África, ela é muito mais antiga que a mitologia cristã ou grega, que também são lindas – e muitas pessoas tentam apagar isso. O presidente abraçou a ideia, a comunidade também”, contou.

Após a aproximação, chegou a hora de encontrá-la para verificar o quanto seria possível unir a figura que estava prestes a ser homenageada com a agremiação. “A Vovó Cici tem um borogodó espiritual que é muito mágico. Quando eu fiz contato com ela, sabendo que ela estuda Pierre Verger (já que ela o ajudou a codificar o que foi feito na África, no Brasil e em Cuba, fazendo uma ligação dessa diáspora misturando cultos e encontrando similaridades), tentei ir para Salvador, mas a diretora do instituto pediu para eu mandar algo por escrito. Escrevi uma carta bem longa explicando quem eu era, quem a Estrela do Terceiro Milênio era, similaridades do Grajaú com Salvador… tudo isso para ver se ela aceitava ser a protagonista do enredo. Me informaram que ela tinha uma agenda em São Paulo, participando de alguns eventos e eu perguntei se conseguiria conversar com ela. Peguei o contato da filha dela, almoçamos, levei o Mestre Vitor Velloso mas ela não queria saber do projeto, queria nos conhecer, conversamos sobre nós mesmos. Foram umas três horas de almoço, ela queria comer num restaurante árabe que ela gosta muito no Paraíso e todos conheciam ela. Uma mulher saiu de uma mesa, perguntou se podia fazer uma foto com ela e ela saiu aos prantos, comovida. A gente não falou sobre o enredo, mas eu perguntei se ela sabia do meu projeto e eu pedi para ela consultar guias e orixás. Disse que ficaria aguardando uma resposta. Alguns dias depois, me ligaram de Salvador dizendo que ela aceitou participar muito mais porque o enredo não era sobre ela própria ou a vida dela: é sobre a missão dela, de contar histórias assim – e ela me pediu para contar essa história no Anhembi”, comemorou.

Não é biográfico

Algo que ficou bastante evidente ao longo de toda a entrevista e que pode não ser para muitos é o fato da estrela principal do desfile da Estrela do Terceiro Milênio não ser, especificamente, Vovó Cici – mas, sim, uma das tantas histórias contadas por ela: a do mito da criação. “Falei sobre os vídeos que tinha visto e começamos a tricotar os detalhes do enredo, ela falando com detalhes e emendando histórias, todos ficamos de boca aberta com o conhecimento, a profundidade e a maneira amorosa com que ela faz isso. Tanto que, no Pierre Verger, ela trabalha como contadora de histórias para crianças: ela pergunta que história as crianças querem ouvir e elas falam da Pequena Sereia, por exemplo; eis que a Vovó Cici fala que na África tem uma outra sereia, uma das maiores do mundo, chamada Iemanjá, trazendo os orixás para uma leitura que as crianças consigam entender melhor. É maravilhoso. Aquilo me pegou. Esse é o meu mote: vou trazer o mito da criação contado sob o olhar dessa mulher de maneira lúdica, com figuras coloridas, para as crianças e jovens. Essa é a nossa ideia”, comentou.

Pouco depois, o próprio carnavalesco fez questão de deixar tal situação bastante clara – aproveitando para pontuar que tal situação não deixa de ser uma homenagem a quem tem mais idade. “Não é um enredo de reverência a ela como uma grande griô. Depois de estudar a vida dela e entender um pouquinho sobre a cultura negra, a gente percebe que tais ensinamentos têm um respeito para conhecer os mais velhos – algo que a gente precisa ter dentro das escolas de samba e das nossas casas. Além do mito da criação, fechamos a homenagem valorizando os griôs do carnaval, do samba, do axé, dos mais velhos, das casas, para que a gente possa, talvez, começar a olhar para os mais velhos de um outro jeito”, destacou.

Mais que uma setorização: o enredo contado

Ao ser perguntado sobre como viria a Estrela do Terceiro Milênio setor a setor, Murilo Lobo fez questão de aproveitar para trazer uma infinidade de detalhes sobre o enredo. Começando pelos momentos nos quais a jovem Vovó Cici sequer era religiosa. “A gente vai começar esse desfile na comissão de frente, trazendo a contadora de histórias. Ali, nós vamos conhecer um pouquinho da história da Vovó Cici. Ela conta que tentou negar a própria ancestralidade: ela morava no Rio de Janeiro e, perto dos vinte e poucos anos, começou a ter perturbações espirituais fortíssimas – sendo que, em um dia, ela quase foi atropelada. Um hare krishna a salvou e ela começou a ter transes, com todo mundo olhando assustado para ela – possivelmente incorporando alguma entidade. As pessoas, que não tinham dimensão daquilo, a olhavam assustados. Ela começou a ficar doente, inclusive fisicamente, também por conta disso. Chega um amigo da família na casa dos parentes dela e ele fala que a Vovó deveria voltar para Salvador, levando-a justamente para o que seria o pai de santo dela. Desde que ela chegou lá, a vida dela se transformou. Ela nunca mais voltou para o RJ, tendo mais de cinquenta anos de candomblé. É essa história que contaremos na comissão de frente: de uma jovem sem fé que se encontrou e vai se transformar numa mulher de fé, contadora. Também vamos ter uma surpresa lúdica para coroar essa contação de histórias para começar as homenagens”, lembrou.

Passada a comissão de frente, outros setores da agremiação vão surgindo – e, aqui, a presença de entidades de religiões africanas fica bastante evidente. “Vamos falando da mitologia, da cosmologia, da criação do mundo na visão urbana. Logo depois, trago o abre-alas para começar a contação da história de fato. Ela sempre começa dizendo ‘Dizem os antigos que’, e, a partir daí, a contação começa. Um dia, no Orun, Olodumare entrega o saco da criação para Obatalá. Ele, velhinho, vai ao nada e despeja o conteúdo. Nosso abre-alas trará, na primeira parte a morada dos orixás e a entrega do saco. Na contação de histórias, Obatalá vai ao nada, se distrai, se cansa, descansa em uma nuvem, sofre de uma sede danada e cria uma palmeira, cortando a junção do caule com as folhas e bebe o vinho da palma, se embriagando e dormindo. A segunda parte do abre-alas é o nada, com Obatalá adormecido e Exu, malandramente, roubando o saco da criação. Ele volta para o Orun e fala para Olodumare crente que seria ele próprio quem criaria o mundo, mas Olodumare pede o saco da criação e Exu, a contragosto, devolve. Eis que Olodumare chama Odudua, que era da mesma família de Obatalá. Aliás, um parêntese: conforme fui falando com a Vovó, ela comentou que, de acordo com Verger, os 156 orixás que moravam no Orun naquele momento eram todos albinos. Estamos respeitando as bases históricas, com negros albinos, não vou temer: vou reproduzir, não vou interpretar”, afirmou.

Já dando um “spoiler” de como será uma das principais fantasias da escola, Murilo termina o trecho destacando a presença feminina na criação do mundo – tema com que a agremiação foi vencedora do Grupo de Acesso I em 2022. “Enfim chega a nossa bateria vem como Exu. Eis que Odudua pega o saco da criação e obedece, indo ao nada e despejando o saco da criação. Ele jamais iria imaginar que tinha tanta magia lá dentro: começa a surgir o solo, as raízes, as sementes; começa a chover, criam-se os mares e os rios, ele prova da água doce e salgada. São sete dias para o Ayê formar enquanto a magia vai acontecendo. Surge o verde, as flores, os pássaros, os animais. Quando está tudo criado, é o nosso segundo carro: o Ayê criado e o triste despertar de Obatalá. Ele fica muito mal, bem deprimido, pensando que falhou. Odudua, então, fala para ambos irem ao Orun e Olodumare pede para Obatalá criar o ser humano – o que seria bem mais difícil, já que não existia mais o saco da criação. Mesmo assim, ele aceita pensando que jamais voltaria ao Orun. Ele desse para o Ayê e começa a formar o ser humano de nuvem, mas o vento desmancha; de areia, mas as ondas do mar a fazem desmanchar; de fogo, mas a chama apaga; de ferro, mas era muito rígido; de pedras, mas as mãos se juntavam. Ele entra em desespero e vai até o iroko, uma árvore ancestral – de onde sai uma mulher bem negra dizendo que pode ajudá-lo. Ela mergulha no pântano, traz argila, barro e terra negra. Rapidamente ela começa a moldar os corpos e ele vai ajudando com as cabeças. Olha que bonito: a mulher entrando na história para ajudar na criação do ser humano. A participação feminina é fundamental. Ele fala que estão criadas as raças e dá o sopro da vida”, pontuou.

Para encerrar, com o mundo já criado, os momentos finais da exibição da instituição do Grajaú chegarão. “Eles voltam para o Orun com festa dos demais orixás e Obatalá fala que só conseguiu criar o ser humano graças à mulher, que não tinha o nome. Eu a chamei de Nan, rainha, e ela se tornou Nanã. Olodumare pergunta qual seria a recompensa e Obatalá pede para, quando necessário, tirar o que ele colocou; Nanã pediu, como recompensa, ficar com o resto da matéria para que volte em outra forma à Terra. As crianças se ajoelham perante Olodumare e ele coloca o bem e o mal, e Orunmila coloca o axé, para dar o livre arbítrio e o poder para transformar o bem e o mal. Então, Nanã desce para o Ayê para ficar com os filhos e Obatalá fica no Orun. Quando chega o nosso último carro, ele conta a chegada de Nanã na Terra, com três crianças ajoelhadas para receber a benção de Orun e eu fecho com uma escultura de Vovó Cici trazendo diversos pais de santo e pessoas mais velhas das casas de candomblé como convidados de griôs de axé misturado com os grandes baluartes do samba e as crianças da Milênio, unindo o passado, o presente e o futuro”, arrematou.

O carnavalesco aproveitou para pontuar uma informação bastante importante a respeito da composição do samba-enredo da agremiação para o carnaval 2024. “Isso foi uma exigência. Quando fazemos a encomenda do samba e falamos que vai ser sobre o mito da criação, os compositores entenderam e foi um trabalho muito legal. E eles entenderam. Não é apenas mais um afro religioso passando pelo Anhembi, a gente queria que as pessoas entendessem”, disse.

Similaridades e vitalidade

Murilo Lobo foi perguntado sobre quais pontos, em toda a pesquisa desenvolvida por ele, mais o chamaram atenção. Dois fatos, em especial, foram pontuados. “O que mais me surpreendeu foi ter encontrado similaridades deste mito da criação com outros mitos que vieram de outras religiões. Quando os africanos falam de sete dias para nascer o Ayê, a Bíblia fala de sete dias para o mundo ser criado. Ou seja: muitas das pessoas que escreveram uma Bíblia, muitos dos filósofos que escreveram na filosofia grega, também visitaram e beberam dessa fonte. Em muitas das pesquisas que a gente fez, a gente descobriu que Aristóteles passou pela África. Havia uma sabedoria ancestral em que eles foram beber. Isso foi especial. Depois disso, agregamos mais culturas além da cristã, entendeu? Isso me chama muito a atenção, de falar dessa história que foi feita antes das outras mitologias. Outra coisa que me chamou atenção foi encontrar tudo isso em uma mulher com a idade dela. Ela tem 84 anos! Tem uma energia que é uma coisa de louco. Na primeira vez que ela veio na quadra, quis almoçar com a gente. Tínhamos separado para ela um lugar junto ao presidente, mas ela quis almoçar com todo mundo, e ela dando as bênçãos para as crianças. Um clima de respeito, eu não tinha pedido nada para ninguém. Aquilo aconteceu naturalmente e ela participou desse almoço. Depois, gravamos ela contando o mito da criação inteiro para poder distribuir pela comunidade, fizemos coletiva de imprensa de lançamento. Quando deu 22h, pedi para chamar uma van para ela, mas ela foi para fora da quadra e falou que estava bem, inteira – e eu mesmo já estava morto de cansaço. Ela disse que quer viver tudo que puder. Para mim, é tocante ver essa mulher cheia de energia para realizar a missão dela”, contou.

Motivação extra

O carnaval de São Paulo reagiu com muita surpresa ao rebaixamento da agremiação do Grajaú após um desfile considerado muito satisfatório pelo mundo do carnaval. Murilo conta que, para a agremiação, a perplexidade também foi enorme. “Eu saí da apuração em estado de choque. Foi absolutamente inesperado. Paramos eu e o Silvão Leite num restaurante e ele me perguntou se não seria melhor eu enrolar o pavilhão e continuar nos trabalhos sociais. Eu fiquei sem resposta. O presidente acreditou no Eduardo Basílio, que sempre o incentivou a fundar uma escola de samba, ele está presente na escola sempre, tocava o barracão comigo mesmo quando ainda não estava no cargo… ele sempre vai além para viabilizar tudo. Ele sonha junto comigo. Quando chegamos no Grajaú, a comunidade estava na praça com a bateria tocando, os bandeirões, o povo estava cantando o samba porque estavam orgulhosos. De lá, ele me ligou e falou que não iria enrolar o pavilhão, porque a escola era algo muito maior do que ele imaginava”, suspirou.

Dia a dia corrido

Ao ser questionado sobre o cotidiano que tem como carnavalesco, Murilo mesclou como ele gosta de agir com uma característica bastante especial da escola em que está. “Eu brinco: será que um dia eu vou ser um carnavalesco só de projeto? Quando eu cheguei na Milênio, eu tinha a chave do almoxarifado, entregava materiais e coordenada todo mundo… o Grupo de Acesso II foi um momento cruel da escola. Eu tinha que ajudar o máximo que eu podia, já fiz muitas coisas. De lá para cá, a escola se estruturou e trouxe outros profissionais para ajudar. A minha dinâmica é acordar, vir para o barracão, projeto as coisas por aqui, coordeno e faço as coisas com todo mundo por aqui. A Milênio tem, no seu DNA, produzir. Sei que escolas do Acesso têm que pegar esculturas ou fantasias, mas nós não costumamos fazer isso. O nosso tempo de produção é muito grande, e produzimos fantasias que poderiam estar no Especial. Continuamos em evolução e sempre pedi para o presidente subir degraus com a escola, prepará-la para ser uma grande escola. Tudo na medida, tudo orçado. Meu dia a dia é intenso e dentro do barracão”, afirmou.

Para encerrar, o carnavalesco repetiu o último verso do samba-enredo para deixar um recado especial a todos os fãs do carnaval – em especial, aos torcedores da Coruja. “Primeiro, muita gratidão por todo o carinho e gratidão que todos tiveram com a gente neste último resultado. A gente vai para fazer um lindo desfile de novo, é a Milênio com cara de Milênio. Com muita força, com muito axé, trazendo essa mensagem incrível. Se não puder ser amor, que seja ao menos respeito”, finalizou.

Ficha técnica
Componentes: 1300
Alas: 13
Alegorias: 03 (mais um pede-passagem e dois quadripés)

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