
A presidente da Rosas de Ouro, Angelina Basílio, foi consagrada ‘Sambista Imortal’ pela Mocidade Alegre durante a festa ‘24 horas de samba’, realizada na quadra da Morada do Samba. A honraria foi entregue por Solange Cruz, presidente da agremiação, que destacou a trajetória de Angelina e a contribuição da família Basílio para o desenvolvimento do carnaval de São Paulo. Emocionada, a dirigente da Roseira relembrou o preconceito enfrentado pelas mulheres no samba, celebrou a própria história e resumiu sua personalidade em uma frase: ‘Agora eu sou imortal. Não adianta mexer comigo’.
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Ao entregar o título, Solange ressaltou a importância de reconhecer em vida mulheres que ajudaram a construir a história das escolas de samba paulistas. Ao lado de Angelina, a presidente da Mocidade Alegre destacou a relação de respeito e gratidão com a homenageada e a família Basílio.
“É uma grande honra homenagear uma grande mulher, uma escola que fez e faz tanto diferencial no carnaval de São Paulo. Muita história para contar. E muitas que já contou, e, é por isso, que a gente tem sempre que elevar e agradecer tudo que Deus nos permitiu viver. Eu vivi muitos anos participando de muitas coisas junto à Rosas de Ouro (…). Não é só pela amizade, não é só pelo carinho. É pelo respeito e gratidão pelo que essa mulher e toda a sua família já fizeram pelo carnaval de São Paulo. Temos que ser gratos, sim. E temos que homenagear em vida as pessoas que aqui continuam fazendo”, justificou.
‘Agora eu sou imortal’
Com emoção e irreverência, Angelina recebeu a homenagem e aproveitou o discurso para recordar a trajetória da Rosas de Ouro, desde os tempos em que o samba ainda era associado a preconceitos e estigmas sociais. A presidente também fez questão de reafirmar o orgulho de suas origens na Brasilândia, região da Zona Norte paulistana.

“Agora eu sou imortal. Não adianta mexer comigo. Se eu já recebia críticas, agora eu estou mais preparada ainda. Podem falar o que quiser (…). Meu respeito a todos os pavilhões, eu estou emocionada. Eu não sabia que ia ser junto com os pavilhões. Sou sambista, sim! Vim lá da Brasilândia em 1971. Não sabia nem o que era sambista. A gente era chamado de ‘malandro’, de ‘vagabundo’, e a gente venceu todos esses preconceitos (…). A gente luta todos os dias. A luta é diária! Todos os dias, a gente luta para manter a Rosas de Ouro (…). Aqui é Brasilândia, porra”, celebrou.
A consagração de Angelina também representa o reconhecimento de uma trajetória marcada pela resistência e pela preservação da memória do samba paulista. À frente da Rosas de Ouro desde 2003, a dirigente enfrentou desafios para manter a escola e ampliar seu espaço no carnaval de São Paulo. Em entrevista ao CARNAVALESCO, ela recordou os obstáculos enfrentados por uma mulher que decidiu dedicar a vida à agremiação.
“Eu sonhava com uma escola de samba linda na avenida e eu queria ajudar muito meu pai. Imagina há 50, quase 55 anos atrás, o que a mulher enfrentava de preconceito. Uma cidade de negócios como São Paulo, imagina há 50 anos atrás lutar por uma escola de samba e ser mulher. E depois que eu assumi em 2003 como presidente, é uma luta, uma luta, uma luta. E receber essa honraria hoje aqui, no dia 27 de setembro, que é dia das crianças; Dia dos Erês. Agora eu relaxei, porque eu estava muito emocionada”, salientou.
Mulheres no comando do samba paulista
A homenagem também reforçou a representatividade da Zona Norte de São Paulo, território fundamental para a história do samba na capital. A relação entre Angelina e Solange Cruz simboliza a presença de duas mulheres à frente de agremiações tradicionais e a força feminina na condução das escolas de samba. Angelina destacou a importância desse protagonismo e celebrou a conexão entre as dirigentes, que representam diferentes regiões da cidade.
“A Zona Norte cresce com certeza. Olha só como a Zona Norte está. De um lado, eu estou na zona Noroeste, e a Solange está do outro lado da ponte, que já é Zona Norte; mulheres no poder”, brincou e sustentou.
Rainhas destacam a força feminina
A consagração de Angelina também provocou reflexões sobre a representatividade das mulheres no carnaval e a importância de abrir caminhos para novas gerações. Rainha de bateria da “Ritmo Puro”, Aline Oliveira, destacou a responsabilidade de ocupar um lugar de visibilidade e servir de inspiração para meninas e mulheres que sonham em construir suas próprias trajetórias no samba. Com 23 anos de atuação como ritmista, ela ressaltou o crescimento da participação feminina nas baterias e a importância de as escolas valorizarem mulheres que vivem o cotidiano das comunidades ao longo de todo o ano.

“Primeiro que é muita responsabilidade real. Mas é muito gratificante, e a gente costuma dizer nos bastidores que a gente não tem noção do quanto a gente atinge outras mulheres, meninas e muitas crianças que sonham em chegar onde nós chegamos (…). É uma vitória muito grande das mulheres e dessa potência feminina. Porque nós podemos estar onde nós quisermos estar. É muito legal ter mulheres como presidente de escolas de samba, que é um lugar que as pessoas pensam que apenas homens conseguiriam ser presidentes, e principalmente ritmistas também. Eu estou há 23 anos, e cada vez mais as mulheres estão chegando, estão batucando, galgando o seu espaço. Eu fico muito feliz, inclusive, de muitas escolas estarem valorizando a gente que é da comunidade e que vive o samba o ano inteiro. A gente vive e respira. Escola de samba para mim é uma escola de vida. É fantástico nós mulheres já estarmos nesse caminho. Cada vez mais conquistando esses espaços, com essa força feminina, com essa coisa da comunidade. Abraçar a nossa comunidade, estar presente e ajudar no que for (…). Eu espero que seja um caminho de inspiração para outras meninas”, comentou.
Rainha da “Bateria com Identidade”, Ana Beatriz Godói também celebrou o reconhecimento concedido à presidente da Rosas de Ouro e defendeu a ampliação da presença feminina nos diferentes setores das escolas de samba. Para ela, a homenagem valoriza uma trajetória construída com dedicação e amor ao carnaval.

“É maravilhoso esse reconhecimento da história e do legado dela. Nós, sambistas, precisamos cada vez mais de prêmios que exaltem realmente o nosso valor, porque o carnaval não é fácil. O carnaval é pura dedicação e puro amor. A gente faz tudo por amor! Quando tem um prêmio que reconhece essa dedicação de anos, e ela tem muitos anos de dedicação ao samba e à Rosas de Ouro, isso é fundamental. Eu fico muito feliz por ela e pela classe das mulheres. Tem que ter mais mulheres no comando em várias situações: mestre de bateria, presidente, diretoras de harmonia e em todos os setores mesmo. Mulher tem essa sensibilidade. E precisamos quebrar preconceitos e quebrar pré-julgamentos. Eu fico muito feliz como sambista e mulher, e ela merece mesmo que o legado dela se torne imortal”, afirmou.
Porta-bandeiras exaltam o legado de Angelina
A cerimônia também abriu espaço para que representantes das duas agremiações refletissem sobre o papel das mulheres na história do carnaval paulista. Porta-bandeira da Rosas de Ouro, Isabel Casagrande chegou à escola ainda criança, como porta-bandeira mirim, e acompanhou parte da trajetória de Angelina à frente da agremiação. Para ela, a homenagem reconhece uma dirigente que permanece presente no cotidiano da escola e representa a resistência feminina no samba.

“Eu cheguei na escola em 1992. Eu era criança e comecei como porta-bandeira mirim. A Angelina já estava. Ela está desde que fundou a escola, e quando o pai dela faleceu, ela acabou assumindo a escola. Isso, para nós, é uma representatividade mesmo. Uma mulher na frente de uma escola de samba. Eu fiquei bem emocionada hoje por ela ser homenageada como sambista imortal; minha presidente! Uma pessoa que nunca deixou a ‘peteca’ cair e que realmente está aqui. Se você vir aqui todos os dias, ela está na escola. Uma mulher apoiando outra mulher, se emocionando e ficando feliz com as vitórias. Muito feliz por ela ser nossa, e toda homenagem, ela merece. E vamos juntas, mulheres sambistas. Nunca deixar o samba morrer e nunca deixar o samba cair”, celebrou.
Porta-bandeira da Mocidade Alegre, Graci Araújo também destacou a importância de reconhecer mulheres que enfrentam estereótipos e ocupam posições de liderança no carnaval. Na avaliação da sambista, a homenagem a Angelina representa um passo importante para valorizar trajetórias construídas ao longo de décadas de dedicação ao samba.

“Todo mundo tem uma visão muito estereotipada do que a gente pensa de liderança feminina. A nossa agremiação conseguir valorizar, reconhecer e perpetuar, em especial a Angelina, que é uma mulher que há mais de 50 anos luta pelo samba, é fundamental. Eu gosto muito da postura dela, independente do que tentam estereotipar, ela sempre vai lá e se posiciona; se impõe. É importante a gente ratificar o quanto nós, mulheres, estamos na mesma condição ou até mesmo melhores, na condição de liderança executiva”, opinou.
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