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Fotos: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

A presidente da Rosas de Ouro, Angelina Basílio, foi consagrada ‘Sambista Imortal’ pela Mocidade Alegre durante a festa ‘24 horas de samba’, realizada na quadra da Morada do Samba. A honraria foi entregue por Solange Cruz, presidente da agremiação, que destacou a trajetória de Angelina e a contribuição da família Basílio para o desenvolvimento do carnaval de São Paulo. Emocionada, a dirigente da Roseira relembrou o preconceito enfrentado pelas mulheres no samba, celebrou a própria história e resumiu sua personalidade em uma frase: ‘Agora eu sou imortal. Não adianta mexer comigo’.

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Ao entregar o título, Solange ressaltou a importância de reconhecer em vida mulheres que ajudaram a construir a história das escolas de samba paulistas. Ao lado de Angelina, a presidente da Mocidade Alegre destacou a relação de respeito e gratidão com a homenageada e a família Basílio.

“É uma grande honra homenagear uma grande mulher, uma escola que fez e faz tanto diferencial no carnaval de São Paulo. Muita história para contar. E muitas que já contou, e, é por isso, que a gente tem sempre que elevar e agradecer tudo que Deus nos permitiu viver. Eu vivi muitos anos participando de muitas coisas junto à Rosas de Ouro (…). Não é só pela amizade, não é só pelo carinho. É pelo respeito e gratidão pelo que essa mulher e toda a sua família já fizeram pelo carnaval de São Paulo. Temos que ser gratos, sim. E temos que homenagear em vida as pessoas que aqui continuam fazendo”, justificou.

‘Agora eu sou imortal’

Com emoção e irreverência, Angelina recebeu a homenagem e aproveitou o discurso para recordar a trajetória da Rosas de Ouro, desde os tempos em que o samba ainda era associado a preconceitos e estigmas sociais. A presidente também fez questão de reafirmar o orgulho de suas origens na Brasilândia, região da Zona Norte paulistana.

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“Agora eu sou imortal. Não adianta mexer comigo. Se eu já recebia críticas, agora eu estou mais preparada ainda. Podem falar o que quiser (…). Meu respeito a todos os pavilhões, eu estou emocionada. Eu não sabia que ia ser junto com os pavilhões. Sou sambista, sim! Vim lá da Brasilândia em 1971. Não sabia nem o que era sambista. A gente era chamado de ‘malandro’, de ‘vagabundo’, e a gente venceu todos esses preconceitos (…). A gente luta todos os dias. A luta é diária! Todos os dias, a gente luta para manter a Rosas de Ouro (…). Aqui é Brasilândia, porra”, celebrou.

A consagração de Angelina também representa o reconhecimento de uma trajetória marcada pela resistência e pela preservação da memória do samba paulista. À frente da Rosas de Ouro desde 2003, a dirigente enfrentou desafios para manter a escola e ampliar seu espaço no carnaval de São Paulo. Em entrevista ao CARNAVALESCO, ela recordou os obstáculos enfrentados por uma mulher que decidiu dedicar a vida à agremiação.

“Eu sonhava com uma escola de samba linda na avenida e eu queria ajudar muito meu pai. Imagina há 50, quase 55 anos atrás, o que a mulher enfrentava de preconceito. Uma cidade de negócios como São Paulo, imagina há 50 anos atrás lutar por uma escola de samba e ser mulher. E depois que eu assumi em 2003 como presidente, é uma luta, uma luta, uma luta. E receber essa honraria hoje aqui, no dia 27 de setembro, que é dia das crianças; Dia dos Erês. Agora eu relaxei, porque eu estava muito emocionada”, salientou.

Mulheres no comando do samba paulista

A homenagem também reforçou a representatividade da Zona Norte de São Paulo, território fundamental para a história do samba na capital. A relação entre Angelina e Solange Cruz simboliza a presença de duas mulheres à frente de agremiações tradicionais e a força feminina na condução das escolas de samba. Angelina destacou a importância desse protagonismo e celebrou a conexão entre as dirigentes, que representam diferentes regiões da cidade.

“A Zona Norte cresce com certeza. Olha só como a Zona Norte está. De um lado, eu estou na zona Noroeste, e a Solange está do outro lado da ponte, que já é Zona Norte; mulheres no poder”, brincou e sustentou.

Rainhas destacam a força feminina

A consagração de Angelina também provocou reflexões sobre a representatividade das mulheres no carnaval e a importância de abrir caminhos para novas gerações. Rainha de bateria da “Ritmo Puro”, Aline Oliveira, destacou a responsabilidade de ocupar um lugar de visibilidade e servir de inspiração para meninas e mulheres que sonham em construir suas próprias trajetórias no samba. Com 23 anos de atuação como ritmista, ela ressaltou o crescimento da participação feminina nas baterias e a importância de as escolas valorizarem mulheres que vivem o cotidiano das comunidades ao longo de todo o ano.

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“Primeiro que é muita responsabilidade real. Mas é muito gratificante, e a gente costuma dizer nos bastidores que a gente não tem noção do quanto a gente atinge outras mulheres, meninas e muitas crianças que sonham em chegar onde nós chegamos (…). É uma vitória muito grande das mulheres e dessa potência feminina. Porque nós podemos estar onde nós quisermos estar. É muito legal ter mulheres como presidente de escolas de samba, que é um lugar que as pessoas pensam que apenas homens conseguiriam ser presidentes, e principalmente ritmistas também. Eu estou há 23 anos, e cada vez mais as mulheres estão chegando, estão batucando, galgando o seu espaço. Eu fico muito feliz, inclusive, de muitas escolas estarem valorizando a gente que é da comunidade e que vive o samba o ano inteiro. A gente vive e respira. Escola de samba para mim é uma escola de vida. É fantástico nós mulheres já estarmos nesse caminho. Cada vez mais conquistando esses espaços, com essa força feminina, com essa coisa da comunidade. Abraçar a nossa comunidade, estar presente e ajudar no que for (…). Eu espero que seja um caminho de inspiração para outras meninas”, comentou.

Rainha da “Bateria com Identidade”, Ana Beatriz Godói também celebrou o reconhecimento concedido à presidente da Rosas de Ouro e defendeu a ampliação da presença feminina nos diferentes setores das escolas de samba. Para ela, a homenagem valoriza uma trajetória construída com dedicação e amor ao carnaval.

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“É maravilhoso esse reconhecimento da história e do legado dela. Nós, sambistas, precisamos cada vez mais de prêmios que exaltem realmente o nosso valor, porque o carnaval não é fácil. O carnaval é pura dedicação e puro amor. A gente faz tudo por amor! Quando tem um prêmio que reconhece essa dedicação de anos, e ela tem muitos anos de dedicação ao samba e à Rosas de Ouro, isso é fundamental. Eu fico muito feliz por ela e pela classe das mulheres. Tem que ter mais mulheres no comando em várias situações: mestre de bateria, presidente, diretoras de harmonia e em todos os setores mesmo. Mulher tem essa sensibilidade. E precisamos quebrar preconceitos e quebrar pré-julgamentos. Eu fico muito feliz como sambista e mulher, e ela merece mesmo que o legado dela se torne imortal”, afirmou.

Porta-bandeiras exaltam o legado de Angelina

A cerimônia também abriu espaço para que representantes das duas agremiações refletissem sobre o papel das mulheres na história do carnaval paulista. Porta-bandeira da Rosas de Ouro, Isabel Casagrande chegou à escola ainda criança, como porta-bandeira mirim, e acompanhou parte da trajetória de Angelina à frente da agremiação. Para ela, a homenagem reconhece uma dirigente que permanece presente no cotidiano da escola e representa a resistência feminina no samba.

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“Eu cheguei na escola em 1992. Eu era criança e comecei como porta-bandeira mirim. A Angelina já estava. Ela está desde que fundou a escola, e quando o pai dela faleceu, ela acabou assumindo a escola. Isso, para nós, é uma representatividade mesmo. Uma mulher na frente de uma escola de samba. Eu fiquei bem emocionada hoje por ela ser homenageada como sambista imortal; minha presidente! Uma pessoa que nunca deixou a ‘peteca’ cair e que realmente está aqui. Se você vir aqui todos os dias, ela está na escola. Uma mulher apoiando outra mulher, se emocionando e ficando feliz com as vitórias. Muito feliz por ela ser nossa, e toda homenagem, ela merece. E vamos juntas, mulheres sambistas. Nunca deixar o samba morrer e nunca deixar o samba cair”, celebrou.

Porta-bandeira da Mocidade Alegre, Graci Araújo também destacou a importância de reconhecer mulheres que enfrentam estereótipos e ocupam posições de liderança no carnaval. Na avaliação da sambista, a homenagem a Angelina representa um passo importante para valorizar trajetórias construídas ao longo de décadas de dedicação ao samba.

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“Todo mundo tem uma visão muito estereotipada do que a gente pensa de liderança feminina. A nossa agremiação conseguir valorizar, reconhecer e perpetuar, em especial a Angelina, que é uma mulher que há mais de 50 anos luta pelo samba, é fundamental. Eu gosto muito da postura dela, independente do que tentam estereotipar, ela sempre vai lá e se posiciona; se impõe. É importante a gente ratificar o quanto nós, mulheres, estamos na mesma condição ou até mesmo melhores, na condição de liderança executiva”, opinou.

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