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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A Mocidade Independente de Padre Miguel realizou, no último sábado, a segunda noite de eliminatórias para o Carnaval de 2027, recebendo 15 obras na quadra histórica da Vila Vintém. A noite foi marcada por uma disputa equilibrada, com sambas que já despontam na briga e vão afunilando o caminho até a escolha final: das quinze parcerias, seis foram cortadas logo nesta primeira etapa. A próxima fase do concurso acontece no domingo, dia 16. A Mocidade levará para o Carnaval de 2027 o enredo “Latinamente Independente: Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, com desfile marcado para a segunda-feira de carnaval. Abaixo, o CARNAVALESCO analisa as apresentações das parcerias.

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Parceria de Santana: Defendida por Dowglas Diniz e Leonardo Bessa, a parceria de Santana, Paulo Senna Poeta, Carlos Augusto, Saulinho, Edvaldo Lucas e Everaldo Silva apresenta como ponto alto um refrão do meio de grande potência. “Okê, Okê, Okê Arô! / Okê, Okê, Arô! / Se ontem eu fui a caça / Hoje eu sou caçador” se destaca justamente pela evocação da ancestralidade da escola, o que faz com que o trecho seja bem cantado. Na primeira parte do samba, o trecho “Sempre fomos o topo do mundo / Moldado na rebeldia onde a vida floresceu” esbarra numa pequena dificuldade de compreensão. Já na segunda parte, o verso “Uma obra de arte como nossa gambiarra” refere-se com precisão ao espírito da proposta. O refrão principal, por sua vez, passa com correção, mas sem grande fechamento. De maneira geral, a letra aposta numa narrativa de ponto de vista mais pessoal; “cria de favela”, como o próprio samba diz, o que é interessante e dá especificidade ao tratamento do tema.

Parceria de Leo Peres: Defendida por Igor Pitta, a parceria reúne composições de Leo Peres, Leandro Fregonesi, Felipe Pires, Rogerinho, Wilson Paulino e Bruno Serrinho. O destaque está nos dois refrões, que se complementam no diálogo com a sinopse. O pré-refrão é mais aguerrido, reafirmando o enfrentamento ao colonizador. Já o refrão principal traz um caráter festivo que, somado ao pré-refrão, contempla bem o jogo entre luta e festa que a sinopse propõe. Boa performance, sem grandes variações melódicas, mas que passa bem e sustenta uma apresentação sólida. O aspecto de aguerrimento retorna em outros momentos da segunda parte, que tem bom rendimento e segura bem o samba até o final.

Parceria de Diego Nicolau: Wic Tavares defendeu o samba de Diego Nicolau, Igor Leal, Ricardo Mendonça, Rodolfo Vale, Fabian Juarez e Arlindinho Cruz. Um dos destaques é o jogo do refrão do meio, que mistura português e espanhol. Os trechos em língua estrangeira são bem empregados, não dificultam o canto, nem a compreensão e reforçam a amplitude do tema da latino-americanidade. De modo geral, a letra apresenta grande aderência ao aspecto geopolítico do enredo: a inversão do mapa, fazendo do norte o sul. Outro posicionamento interessante está no pré-refrão principal, “MOCIDADE DESOBEDIENTE DE PADRE MIGUEL / JUNTOS GRITAMOS EM ALTO E BOM TOM / VIVA LA REVOLUCION!”, capaz de aguerrir o canto da Mocidade. O samba teve uma queda na primeira parte, principalmente na segunda passada, com a entrada da bateria. Já o refrão principal, na segunda parte, fecha bem, com uma passagem correta.

Parceria de Jaci Campo Grande: Defendido por Igor Sorriso, Felipe Tinoco e Marcelo Tchakabum, o samba reúne Jaci Campo Grande, Marcelo Tchakabum, Dr. Marcelo, Alex Cruz, Elian Dias e Laio Lopes. De maneira geral, a obra apresenta variações melódicas belíssimas, bem acompanhadas pela interpretação, com bom jogo de cena entre Igor Sorriso, Felipe Tinoco e Tchakabum. O refrão principal traz uma melodia muito bonita, que carrega o sentimento aguerrido com palavras em português e espanhol. Quanto à letra, é uma das obras que melhor equilibra múltiplos eixos da sinopse: há evocação a Oxossi, aos Caetés, a Sardinha, à Pachamama, ao matriarcado e à tecnologia ancestral, incorporando um repertório latino-americano amplo. Essa diversidade presente na letra é um dos pontos altos da parceria: uma apresentação forte, que se destacou na eliminatória.

Parceria de Richard Valença: Defendida por Tinga e Charles Silva, a parceria reúne composições de Richard Valencia, Orlando Brósio, Renan Diniz, Georginho Via 13, W. Correia e Cabeça do Ajax. A apresentação trouxe muita força, mantendo o rendimento do samba em alta durante toda a defesa. Entre os concorrentes, esse é um dos sambas de caráter mais panfletário: traz boa cobertura temática da sinopse, com aguerrimento e posicionamento que resultam num discurso mais combativo do que conciliador. Avança bastante sobre a crítica social, cumprindo com força o espírito de denúncia que a sinopse propõe. O refrão principal carrega bem esse sentimento e fecha com força o samba. Uma grande apresentação, com destaque para a performance de Charles Silva.

Parceria PC Feital: Comandada por Zé Paulo Sierra, a parceria reúne composições de Paulo César Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rosário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno. Apresentação muito forte; foi o samba mais cantado da noite na quadra, muito por conta da torcida da parceria. Deu para perceber como a obra funciona não apenas na voz de um intérprete, mas em coro coletivo. O samba conta com variações melódicas interessantes. O refrão do meio promove o encontro entre Obatalá e Tupã no Orum, uma imagem poética que materializa bem o encontro das diferentes latinidades. Não é um refrão explosivo, mas tem uma poética muito bonita, bem escrita. O refrão principal, por sua vez, é forte, gostoso de ouvir e encantador; funcionou muito bem na noite, com grande desempenho. Quanto à letra, o destaque fica para a estrutura: pensando no enredo da Mocidade como lugar de remanifesto, de manifesto latino-independente, essa é uma das letras que melhor sustenta essa linguagem, mantendo a estrutura de manifesto do início ao fim. Uma das apresentações de destaque da noite.

Parceria de Ricardo Simpatia: Defendida por Pitty de Menezes e Tem-Tem Jr., a parceria de Ricardo Simpatia, Rodrigo Medeiros, Cristiano Plácido, Guto Listo, Flavinho Avellar e Samir Trindade tem méritos pontuais, mas não fecha como um todo. Na primeira parte, há referências à própria história da Mocidade, já inserido o legado da escola no enredo: “A estrela da revolução / Segue a direção que Fernando Pinto sonhou”. O refrão do meio também funciona bem: “Meu Brasil curumim, nosso verde em protesto volte a ser tupiniquim em seu canto manifesto”. Já no final, na segunda parte, há um trecho forte envolvendo a matriarca da escola, um dos pontos altos da obra: “Tia Nilda é bem melhor que Tio Sam”. Entretanto, o refrão principal passa sem brilho.

Parceria de Franco Cava: Samba de Franco Cava, Juca, Nito de Souza, Marcinho.Com, Anderson Migão e Gulle Machado, a obra apresenta um refrão dolente, tanto em termos de melodia quanto de fluência no canto, e passa com boa desenvoltura. O refrão central também se destaca: “EVOCO OS DONOS DA MATA / JURUPARI É QUEM MANDA / ENQUANTO O BRANCO DESMATA / TUPANA VENCE DEMANDA / O SOL DE MAIO NA PELE MARROM / GUANTANAMERA! É REVOLUÇÃO!”; um trecho de bom rendimento, correto e bem resolvido. De maneira geral, uma performance correta do samba.

Parceria de Jefinho Rodrigues: Comandada por Wander Pires, a parceria reúne composições de Jefinho Rodrigues, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Estevão Ciavatta, Cleiton Roberto e Prof. Renato Cunha. O refrão principal, “ARRIBA LA MOCIDADE, LEVA MI CORAZÓN / FAZ VALER TUA VERDADE, TEU CHÃO! / MOSTRA PRO MUNDO O QUE SÓ A GENTE TEM / DALE! RITMO CALIENTE, O MOLHO DA VILA VINTÉM!”, é animado e bem cantado, com bom desempenho na defesa. Quanto à letra, apresenta boa adequação temática com a sinopse, reforçando as características que o enredo vai construindo, com fluência no texto. Um dos versos mais bonitos aparece na segunda parte: “O FUTURO QUE MEREÇO, O PASSADO ME ENSINA / NOSSO JEITO É DAR UM JEITO / QUANDO A VIDA DESATINA / GAMBIARRA CRIATIVA!”, um trecho que sintetiza bem a proposta, com força poética. O samba passa muito bem, bem colocado, com melodia bem feita e variações bonitas. Mais uma grande apresentação da noite.