Salve Sebastião! Do trono ao altar, a Tuiuti canta e evoca a esperança

Nome do enredo: O santo e o rei: encantarias de Sebastião
Nome do carnavalesco: João Vitor Araújo

Para o carnaval de 2020, o carnavalesco João Vitor Araújo aposta em um enredo
autoral que tem ligação direta com o Paraíso do Tuiuti. Um dado a ser lembrado
é que o enredo atual não foi cogitado inicialmente: o presidente havia solicitado outro
enredo, mas o próprio João Vitor disse, em entrevista, que pensou nessa proposta desde
a primeira vez que foi ao barracão da escola e se deparou com a imagem de São
Sebastião logo na entrada. Ali percebeu que aquela imagem e que a devoção de toda a
comunidade poderiam ser levadas para a avenida. E eis o resultado: a Paraíso do Tuiuti
nos revelará as encantarias de Sebastião, ao cruzar as histórias de Dom Sebastião (Rei
de Portugal) às de São Sebastião (padroeiro da cidade do Rio de Janeiro e da
agremiação), propondo ligações entre as mazelas do povo de Portugal e as do povo
brasileiro e, principalmente, nos enchendo de muita esperança para acreditar em tempos
melhores em nossa cidade. Afinal, segundo João Vitor, somos todos sebastianistas à
espera do retorno do rei Sebastião!

tuiuti apresenta samba2020 84

A sinopse do enredo é assinada por João Gustavo Melo. Para a escrita do texto,
ele se debruçou sobre diversas bibliografias e buscou inspiração em duas fontes
principais: o poema O Rei que Mora no Mar, de Ferreira Gullar e Almanaque
brasilidades: um inventário do Brasil popular, de Luiz Antônio Simas. O texto se inicia
com a oração sebastianista e em seguida é dividido em seis partes. Cada uma delas nos
traz um panorama vasto de informações sobre a história, a vida e a morte
(desaparecimento) do rei; além de fazer as ligações necessárias com o santo padroeiro.

Ao se debruçar sobre a história de Dom Sebastião, é possível perceber que o rei
não morre, mas desaparece, ou seja, não há uma morte física do corpo. O rei se
transforma em um espírito encantado. Na encantaria, não há semelhança com a
desencarnação, pois muitas vezes não há morte. As pessoas (e até mesmo animais)
vivem, mas não necessariamente morrem. Elas têm a experiência do encantamento e
vão morar em algum lugar no invisível.

A encantaria é uma manifestação espiritual e religiosa afro-ameríndia que,
diferente da Umbanda – na qual as entidades são espíritos que desencarnaram e
trabalham individualmente -, os encantados se transformam em seres invisíveis,
mitológicos ou até mesmo do folclore brasileiro – como por exemplo, sereias, botos e
curupiras. Esses seres vivem em famílias e possuem nome e sobrenome, podendo contar
suas histórias de quando estiveram vivos na terra, antes de se encantarem.

Por não haver corpo para certificar a morte, diversas lendas são criadas ao longo
do tempo para se aproximarem desse fato. É a partir do encantamento do rei Dom
Sebastião que surgem as lendas referentes a ele presentes no texto, para alimentar a
esperança de que ele, um dia, volte.

Apesar de São Sebastião não estar inteiramente explícito ao longo da sinopse, é
possível notá-lo a todo momento presente na vida do rei. Com a Paraíso do Tuiuti não é
diferente: a comunidade que se veste de azul e amarelo, veste-se também de fidelidade
ao samba e ao santo padroeiro da agremiação. Não é necessário que falem sempre de
São Sebastião para que a devoção seja notória. Ao pisar na quadra, é possível sentir a
atmosfera de fé, amor e gratidão ao protetor da escola, pelas bênçãos e pelo cuidado.

Como dito anteriormente, João Vitor teve certeza desse enredo quando viu a
imagem de São Sebastião no barracão da escola, e vale ressaltar que a quadra de ensaios
também possui uma imagem do santo padroeiro, o que demonstra – e confirma – a fiel
devoção dos foliões da agremiação. O carnavalesco disse em entrevistas que esse
enredo segue a linha crítica dos últimos anos da escola, mas pontuou que são críticas
implícitas e que não são necessariamente ao governo, como sempre esperam. Segundo
ele, é preciso uma pitada de crítica, pois as coisas não andam bem para os cariocas, e
que é impossível exaltar São Sebastião – que é padroeiro da cidade – sem falar dos
problemas que vivemos nos últimos anos.

Nesse formato de crítica mais velada e implícita, acredita-se ser possível atingir
o objetivo de propor as indignações da comunidade de forma sutil e harmônica. João
Vitor aposta na narrativa religiosa e não partidária, fazendo com que a fé prevaleça mais
do que a abordagem política. É fato que o sentimento de que as coisas não andam bem
afeta os cariocas em geral e a proposta da agremiação é cativar e chamar a atenção pela
emoção e pelo sentimento próprio de devoção religiosa para uma questão que é comum
aos habitantes da Cidade Maravilhosa.

A narrativa da sinopse se dá em seis partes (pode-se pensar nos seis setores do
desfile). João Gustavo nos faz perceber, aos poucos, a ligação entre Dom Sebastião e
São Sebastião. A primeira parte conta o nascimento do rei Dom Sebastião e é intitulada
de “O rei desejado”, pois seus pais possuíam dificuldades em ter filhos. Dom Sebastião
nasceu no mesmo dia de São Sebastião, 20 de janeiro, e carrega esse nome por conta do
santo.

Na segunda parte, é narrado o momento em que o rei sai para a guerra de
Alcácer Quibir. Com as bênçãos de São Sebastião, acredita ter grande proteção religiosa
devido a sua fiel devoção ao santo. Ainda nesse capítulo, fala-se do desaparecimento do
rei nas areias de Marrocos.

Em Portugal, existe uma lenda que Dom Sebastião teria sumido e estaria no
fundo do mar, em um palácio de cristal, pronto para sair de lá e proteger o país. Outra
lenda narrada é que Dom Sebastião é representado como um touro negro e acreditam
que se alguém acertasse uma flecha na testa desse touro, ele se transformaria na
personificação do rei e retornaria para salvar o povo. Dessa lenda veio a inspiração para
as vestimentas do bumba-meu-boi. A partir da capa real do rei, teceram as vestes do boi,
que dá origem à tradicional dança das regiões Norte e Nordeste. Outra lenda presente
diz que, no dia 20 de janeiro, Estácio de Sá foi flechado em batalha pelos índios e que
São Sebastião lutava ao seu lado.

A sinopse também conta a história do conselheiro Beato Antônio, de Pernambuco, que acreditava que Dom Sebastião voltaria se houvesse uma guerra muito grande e jorrasse sangue das pedras para salvar os flagelados (pessoas que tinham muitos problemas naquela época). Passada a Guerra de Canudos, mesmo que Dom Sebastião não tenha voltado, a fé e o encanto continuaram presentes naquele povo. A narrativa da última parte é esperançosa e diz que mesmo em lutas e dor, o espírito sebastianista continua a guiar o povo para o seu próprio destino. A sinopse finda dizendo que o verdadeiro rei há de voltar e que São Sebastião irá restaurar o trono do rei Dom Sebastião e irá restaurar o seu próprio altar, para trazer a tão aguardada paz para o povo.

Outro aspecto bem presente na sinopse é o movimento sebastianista, cujo início
deu-se logo após o desaparecimento do corpo do rei Dom Sebastião e, ao longo dos
anos, se perpetua em Portugal. Sebastianismo, de forma exemplificada, significa
esperança, ou seja, o povo de Portugal aguarda até hoje o retorno do rei para salvar
Portugal de todos os percalços e de todas as mazelas existentes.

O sebastianismo é mais que um sentimento: é um ato político. Como Dom Sebastião não possuía herdeiros, o trono de Portugal foi assumido pelo rei Felipe II, da Espanha. Os portugueses ficaram insatisfeitos com esse poderio e inconformados com a situação política da época. Com isso, o povo de Portugal alimentou essa esperança da volta do rei e espalhou a crença que Dom Sebastião estava vivo e aguardava o momento certo para retornar ao trono e afastar, então, o rei estrangeiro.

Esse movimento chega ao nordeste do Brasil em formato de crença popular.
Acredita-se na aparição de um novo rei, que seria melhor e tornaria a vida do povo mais
digna e leve. Hoje esse movimento torna-se novamente um ato político para muitos
cariocas, que não estão conformados com a situação política atual e aguardam
incansavelmente a chegada desse rei bom, para assumir o trono e trazer paz para a
cidade do Rio de janeiro.

Conforme nos aprofundamos na sinopse e na história de Dom Sebastião e de
Portugal, notamos as semelhanças e as ligações presentes. De acordo com João Vitor, é
possível enxergar diálogos entre nós cariocas e o povo português, pois nós cariocas
estamos vivendo de forma precária e repletos de esperanças por algo melhor. Segundo o
mesmo, somos sebastianistas também por mantermos essa esperança viva e, enquanto
Portugal alimenta essa esperança em Dom Sebastião, nós cariocas alimentamos nossa
esperança no padroeiro da nossa cidade, São Sebastião. Essa é a ligação que João Vitor
nos traz entre o rei e o santo e entre Portugal e Rio de Janeiro, de forma sutil, mas bem
presente.

Para uma percepção de São Sebastião na sinopse, é necessária certa atenção na
leitura e no entendimento da narrativa. Espera-se que a tradução em fantasias e alegorias
na avenida seja feita de forma evidente e perceptível. É possível imaginar certo luxo nos
setores que trarão a história de Dom Sebastião – por se tratar de um rei – e nos setores
seguintes fica no imaginário, pois pode-se representar as lendas de diversas maneiras, ainda mais se tratando de carnaval. Que João Vitor nos surpreenda com suas belas
encantarias na Sapucaí!

O enredo vem em um momento bem oportuno para a cidade do Rio de Janeiro,
pois de forma implícita ou não, todos vivem um ato político – até mesmo quando dizem
não escolher nenhum lado partidário. Se o sebastianismo de Portugal chegou outrora ao
nordeste do Brasil, hoje se faz presente mais do que nunca em todo o Rio de Janeiro,
onde os cariocas passam dias, meses e mesmo anos no aguardo de dias melhores.

Esperamos que a comunidade do Paraíso do Tuiuti nos envolva com seu belo
desfile e que o canto de esperança ecoe para além da avenida e se faça presente na vida
dos cariocas diariamente, assim como a fé e a devoção em São Sebastião se faz presente
todos os dias na vida da agremiação.

Com as bênçãos e com a proteção do santo e com a esperança na volta do rei,
desejo um ótimo desfile para o GRES Paraíso do Tuiuti em 2020!

Autor: Ronaldo da Silva Junior – [email protected]
Graduando em Teoria da Dança/UFRJ
Membro efetivo do OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Cleiton Almeida
Graduando em Artes Visuais – Escultura – EBA/UFRJ
Instagram: observatoriodecarnaval_ufrj

 

 

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