
Prestes a estrear oficialmente no Grupo Especial em 2027 a União de Maricá iniciou a temporada de ensaios de rua mostrando sua força. A comunidade apresentou o samba na ponta da língua, com canto praticamente unânime em todas as alas e uma harmonia impactante. A escola passou pela Rua Abreu Rangel, no Centro de Maricá, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira, com leveza, sem perder a potência. Em 2027, a agremiação abrirá os desfiles de domingo na Sapucaí com o enredo “Utopia Brasil: Darcy Ribeiro”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira. Neste primeiro ensaio, a comissão de frente, de Patrick Carvalho, e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Nascimento e Rute Alves, não estiveram presentes. A ausência teve como objetivo garantir mais tempo de preparação antes de apresentar oficialmente os trabalhos para o próximo ano.
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HARMONIA
A comunidade entoou em peso o samba em homenagem ao mestre Darcy Ribeiro. O canto foi forte e praticamente unânime em todas as alas da escola. O diretor de carnaval, Mauro Amorim, avaliou o ensaio como “muito positivo” e atribuiu o desempenho também ao crescimento do contingente da agremiação.

“A escola dobrou de tamanho do ano passado para hoje, e a nossa comunidade mais uma vez abraçou o projeto e está com a gente. Realmente, a gente antecipou esse ensaio porque a quadra já não caberia mais ninguém. E o saldo é muito positivo do primeiro ensaio, sim”, afirmou.
O presidente Matheus Santos também destacou o canto forte e a boa evolução da escola. Emocionado, ressaltou a força da comunidade ao avaliar a apresentação.
“É um desafio enorme. A gente sabe que está à frente de uma agremiação. É difícil vir para a rua, porque é muita estrutura que a gente enfrenta, mas, quando chega aqui e vê a nossa escola completa, compacta, a nossa cidade toda vermelha, abraçando o nosso samba, abraçando o nosso projeto, é muito gratificante para mim. Estou muito feliz”, declarou.

Apesar do desempenho positivo, algumas alas apresentaram menor intensidade em determinados momentos, especialmente na passagem pelo primeiro módulo. Foi o caso da ala à frente das baianas, da ala posicionada atrás do carro de som e daquela que antecedia o terceiro casal. No fim do percurso, o canto permaneceu presente, embora com menos energia na maioria dos setores. Ainda assim, a direção de harmonia conseguiu estimular os componentes a manterem a garra até os últimos metros, um aspecto importante da apresentação.
As frases de impacto do samba, como “Meu país é Maricá”, “A vitória popular” e “Tantas peles eu vesti para que todo favelado vá sonhar como Darcy”, ajudaram a recuperar o fôlego do cortejo e mantiveram a comunidade conectada à obra.
Outro destaque foi o carro de som, comandado por Zé Paulo Sierra, que conduziu o samba com boa afinação e domínio. A equipe manteve o canto e a energia com consistência ao longo do ensaio. Os contracantos e os desenhos melódicos das vozes de apoio enriqueceram a apresentação, acompanhados por um time de cordas que encorpou o conjunto e valorizou as harmonias vocais.
O intérprete também avaliou a estreia como positiva e demonstrou surpresa com o contingente apresentado pela escola.
“Fiquei muito feliz com o contingente da escola. Estou aqui desde o ano passado. Em comparação com o primeiro ensaio do ano passado e o primeiro ensaio deste ano, é claro que tem um plus de a gente estar no Grupo Especial, mas foi um contingente muito bacana, com a escola cantando bem o samba. Acho que isso é importante”, avaliou.

Apesar do bom desempenho, Zé Paulo ressaltou que pretende reavaliar o trabalho a cada apresentação, buscando evolução até o desfile oficial.
“Eu sou um cara que fico muito atento a tudo, então você viu que, quando estava acabando aqui, a gente já estava vendo as estratégias para os próximos ensaios. Eu sou daqueles que acham que o melhor ensaio tem que estar perto do desfile. Então, não adianta a gente fazer um baita ensaio agora e chegar perto do desfile tendo estagnado. Quanto mais a gente for evoluindo para a escola, melhor”, refletiu.
EVOLUÇÃO
A União de Maricá passou com leveza pela Rua Abreu Rangel nesta primeira noite. As alas evoluíram de maneira organizada, mas sem rigidez. Os componentes cantaram e dançaram à vontade, demonstrando sintonia com a proposta do samba.
A escola apresentou uma ala coreografada atrás do terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, com movimentação mais solta e excelente energia até o fim do percurso. Entretanto, na passagem pelo primeiro módulo, a apresentação poderia ter contado com maior marcação dos passos e organização dos componentes, o que permitiria uma compreensão mais clara da proposta coreográfica.

Outro aspecto que chamou a atenção foi a presença de adereços nas mãos dos componentes de todas as alas, como bexigas, pompons, lenços e bastões de luz. Os elementos contribuíram visualmente para a apresentação e ajudaram a dar identidade à evolução da agremiação.
SAMBA
Toda a valentia da composição foi bem aproveitada pela comunidade. Do início ao fim, os versos mais fortes da obra foram entoados com potência e conseguiram levantar os componentes até mesmo nos últimos minutos de pista, quando a energia do conjunto já começava a diminuir.
“Meu país é Maricá”, “A vitória popular”, “Faz na praça um monumento coroando o Rei Zumbi” e “Tantas peles eu vesti para que todo favelado vá sonhar como Darcy” foram alguns dos trechos cantados a plenos pulmões. Os componentes acompanharam os versos com gestos de bater no peito, abrir os braços e representar as “peles de Darcy”, deslizando os dedos pelo braço oposto.

O verso “Desperta pra sonhar, menino” também ganhou uma movimentação própria. A cabeça do samba, assim como os principais trechos da composição, estava na boca do povo durante todo o percurso. Foi uma demonstração consistente de como a obra está enraizada na comunidade e da capacidade de emocionar os componentes.
OUTROS DESTAQUES
A ala de passistas comandada por Kellyn Rosa chega ao Grupo Especial com força. O destaque não está apenas na coreografia consolidada, mas também na leitura musical e no repertório de movimentos apresentados pelos componentes. Os bailarinos demonstraram desenvoltura mesmo nos trechos do samba que não possuem coreografia oficial, mantendo a sintonia com a musicalidade da obra.
A rainha de bateria Rayane Dumont também mostrou credenciais para integrar o grupo de rainhas oriundas da própria comunidade no Grupo Especial. Com samba no pé afiado, leveza e elegância, apresentou sincronia com a bateria, característica cada vez mais valorizada pelos apaixonados pelo carnaval.

Um detalhe chamou a atenção: crianças de Maricá acompanharam a rainha durante todo o percurso, vestidas com roupas semelhantes à escolhida por ela para o ensaio, um conjunto de top vermelho e short jeans. A cena reforçou a proximidade de Rayane com a comunidade e a imagem de uma menina que continua ligada ao chão da escola. Uma escolha básica, clássica e eficiente.
A bateria, dos mestres Paulinho e Nilo Sérgio, elevou a potência do samba e valorizou a composição com bossas nos versos em referência ao Rei Zumbi e a “atrevido pensamento contra o aprisionamento”. As intervenções reforçaram o peso lírico da obra. Uma breve paradinha no trecho “Para que todo favelado vá sonhar como Darcy” também provocou uma resposta ainda mais intensa da comunidade, que aumentou o volume do canto.










